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Textos inteligentes

  • Prazer de Viajar - Anônimo

    Viagem é como pizza, mesmo ruim é bom.

  • Distribuição de Riquezas - Gustavo Diniz Junqueira

    Não se divide o que não se tem.

    Gustavo Diniz Junqueira

    Presidente da Sociedade Rural Brasileira – O Globo 15/10/14

  • Pobres Falsos - Roberto da Mata

     

    Empresários são franciscanos no discurso, milionários na prática.
    Roberto da Mata – Antropólogo – Globo 15/10/14

  • Para Compreender o Outro - Rodrigo Petrônio

    A melhor maneira de compreender o outro não é pela semelhança, mas ressaltando a diferença.

     

    Excerto  do artigo:

    "A América na visão de Chimamanduba. Narrativa de Nigeriana é um bom espelho invertido do ocidente."

    Autor: Rodrigo Petrônio, para o Valor Econômico 19 dezembro 2014

     

     

  • Viver - Pascal Bruckner

    Hoje somos forçados a ser felizes o tempo todo,  24 horas por dia, sete dias por semana. Isso é impossível e só causa decepção. O sentido da vida não é a felicidade. É viver.
    Pascal Bruckner

  • Nem sequer errado - anônimo

    ...Não é só que não esteja certo; não está nem sequer errado.

    (frase usada como crítica a textos desprovidos do conteudo empírico minimo para que possam ser avaliados.

  • Definição de Crônica - Antonio Prata

    Crônica é conversa sentado no meio-fio, não discurso sobre um caixotinho.

    Antônio Prata, crônica O Agudo e a Crônica, citando o Mestre Humberto Werneck

  • Maridos e amantes - Marcelo Rubens Paiva

    Enquanto existir maridos, vão existir amantes

  • Diferença entre Jornalismo e Literatura - Elif Batuman

    A diferença entre o jornalismo e a literatura é que o jornalismo é ilegível, e a literatura não é lida.

    Nascida em Nova York de pais turcos, Elif Batuman é escritora que se formou em Harvard College e recebeu seu doutorado em literatura comparada da Universidade de Stanford .

  • Filhos tem direito de mentir - Contardo Calligaris

    Mentir é um direito da criança. Essa coisa de força-la a falar é tortura organizada.

    Contardo Calligaris é psicanalista.

  • Erro das pesssoas que fazem sucesso - Ivan Santana

    Um erro comum nas pessoas que têm sucesso em determinado momento da vida é o de confundir o fato (correto) de que foram vencedores

    porque estavam do lado certo com o fato (incorreto) de que qualquer posição que assumam passa a ser imediatamente a certa,

    Isso acontece em todos os ramos de atividade e em todas as profissões.

  • Importância da Informação - Stephen Hawking

    A informação não se perde, mas não retorna de maneira útil.

    É como queimar uma enciclopédia: a informação contida na enciclopédia tecnicamente não se perde caso a fumaça e as cinzas sejam guardadas, mas é muito difícil de ser lida.

  • Procurei, Procurei - Conceição Freitas

    Procurei,
    Procurei

    Procurava alguma coisa que não es­tava do lado de fora do mundo, mas sa­bia que a fronteira do dentro-fora é di­fusa. Às vezes se abre, outras se fecha, e o que está na dimensão das coisas visí­veis pode ajudar a decifrar as nebulosas invisíveis.

     

    Peguei o rumo do Lago Sul e cai na Ermida, hoje Parque Ecológico dom Bosco.

     

    Da margem do lago, vi que chovia em ilhas do Plano Piloto - nos setores gregários (de Diversões, Bancário, Co­mercial, de Autarquia, na Asa Sul, e pros lados da Torre de TV até o Buriti).

     

    Mas não chovia na Esplanada - os mi­nistérios surgiam em sua inteireza li­near - embora nuvens pesadas e cir­cunspectas cobrissem os três poderes.

     

    Na ponta da Asa Norte, havia largos mares de céu azul.

     

    Os passarinhos pareciam agitados.

     

    Talvez prenunciassem a chuva. Voavam de árvore em árvore, em cantorias diversas - meus parcos conhecimentos passarinheiros identificaram o bem-te-vi, o tijoão-de-barro e o quero-quero.

     

    Ouvi o canto soturno da coruja. mas ela não deu o ar de sua graça enigmática.

     

    Uma codorna correu, apressada, para dentro do mato e um calango bicolor - metade verde, metade cinza - atravessou o meu caminho. Ainda parou, mas não esperou que eu pudesse estabelecer um fio de conversa calanga.

    Ouvi um cataplouft de gente mergulhando no lago. Um dois, três mergulhos em tarde friorenta.

     

    Vi casais de namorados namorando, pescadores pescando, passarinhos passarinhando e policiais policiando.

     

    Havia um fotógrafo fotografando e um skatista skeitando.

     

    Portanto, tudo estava em se lugar. Era o lado de fora me dizendo que a Terra continua girando e o Sol continua esperando. 

     

    Só a capelinha do Niemeyer não estava niemarizando. Inaugurada em 26 de março de 2006, portanto há oito anos, a obra do arquiteto não corres­pondeu à genialidade presentes na Ca­tedral, na Igrejinha e na capelinha do Palácio da Alvorada. Não fosse a parede de vidro fumê que contorna toda a na­ve, desqualíficando a maestria de Nie­meyer, a capela de Dom Bosco estaria à altura do poeta das curvas de concreto.

    A nave se resume a um altar tão sintéti­co quanto elegante e os três bancos de cimento são igualmentes sintéticos e elegantes. Expressão que lembra a ar­quitetura religiosa dos primeiros tem­pos de Brasil colonial.

     

    Do outro lado da capelinha, para além do lago, o Palácio da Alvorada se esconde atrás de arbustos obesos e ár­vores adultas. Já não se vê mais, da Er­mida, a jóia flutuante de concreto e vi­dro sem cor.

    Mas os novos hotéis e condomínios construídos à margem do lago surgem para afrontar a cidade projetada com tanto esmero e respeito estético, ambiental, urbano e humano.

     

    Faço vista grossa, não era o que eu procurava.

     

    Os passarinhos ficam mais agitados. Saltam de árvore em árvore, cantam, fa­zem voos rasantes, brincam de trapézio no circo da natureza. Chove miúdo.

     

    Não sei se encontrei o que procurava - um passarinho passarinhando em mim.

  • Morte - Mário Quintana

    A Morte não melhora ninguém

  • Mente Aberta - Clarice Lispector

    Não se preocupe em entender,

    Viver ultrapassa qualquer entendimento

  • Existência da Arte - Flip 2010

    A arte existe porque a vida excede

  • Para Começar A Escrever - Izabel Allende

    Para começar a escrever seja como os esportistas: treinar e treinar.

  • Maturidade - Izabel Allende

    O bom da maturidade é que se desprende,

    Se fica mais humilde, mais sábio,

    Mais livre, mais desprendido do mundo,

    Mais desapego, 

    Mais louca.

  • Receita de Ano Novo - Carlos Drummond Andrade

    RECEITA DE ANO NOVO

    Para você ganhar belíssimo Ano Novo
    cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
    Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
    (mal vivido talvez ou sem sentido)
    para você ganhar um ano
    não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
    mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
    novo
    até no coração das coisas menos percebidas
    (a começar pelo seu interior)
    novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
    mas com ele se come, se passeia,
    se ama, se compreende, se trabalha,
    você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
    não precisa expedir nem receber mensagens
    (planta recebe mensagens?
    passa telegramas?)

    Não precisa
    fazer lista de boas intenções
    para arquivá-las na gaveta.
    Não precisa chorar arrependido
    pelas besteiras consumadas
    nem parvamente acreditar
    que por decreto de esperança
    a partir de janeiro as coisas mudem
    e seja tudo claridade, recompensa,
    justiça entre os homens e as nações,
    liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
    direitos respeitados, começando
    pelo direito augusto de viver.

    Para ganhar um Ano Novo
    que mereça este nome,
    você, meu caro, tem de merecê-lo,
    tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
    mas tente, experimente, consciente.
    É dentro de você que o Ano Novo
    cochila e espera desde sempre

  • Inutilidades: Deus ou Religião - Barbara Ehrenreich

    A noção de um poder superior que nos protege pode ser emocionalmente reconfortante, mas o que precisamos para sobreviver é ter menos crenças e desenvolver um pensamento mais lúcido.

    Não precisamos acreditar em nada, e sim tentar compreender o que acontece, além de, naturalmente, ser solidário e tomar conta dos outros.

     

    Barbara Ehrenreich, ensaísta americana, nasceu em Montana, Estados Unidos em 1941. É autora de "Sorria - como a promoção Incansável do Pensamento Positivo Enfraqueceu a America", publicado no Brasil pela Editora Record.

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  • Definição de site - Gabriel Lacerda

    O site é uma obra que não termina.

  • Peço Silencio - Pablo Neruda

    Pablo Neruda,  ou   Neftalí Ricardo Reyes Basoalto. chileno, nasceu em 1904 e morreu em 23 setembro 1973, em Santiago.

    Poeta e diplomata, graduado em pedagogia em francês pela Universidade de Chile, recebeu o Nobel de Literatura de 1971.

     

    Peço Silêncio 

    Agora me deixem tranquilo.
    Agora se acostumem sem mim.

    Eu vou fechar os olhos

    E só quero cinco coisas,
    Cinco raízes preferidas.

    Uma é o amor sem fim.

    A segunda é ver o outono.
    Não posso ser sem que as folhas
    Voem e voltem à terra.

    A terceira é o grave inverno,
    A chuva que amei, a carícia
    Do fogo no frio silvestre.

    Em quarto lugar o verão
    Redondo como una melancia.

    A quinta coisa são teus olhos,
    Matilde minha, bem amada,
    Não quero dormir sem teus olhos,
    Não quero ser sem que me olhes:
    Eu troco a primavera
    Pra que tu fiques me olhando.

    Amigos, isso é tudo o que quero.
    É quase nada e quase tudo.

    Agora, se querem que se vão.

    Vivi tanto que um dia
    Terão de esquecer-me com força,
    Apagando-me do quadro negro:
    Meu coração foi interminável.

    Mas porque peço silêncio
    Não creiam que vou morrer:
    Pois é exatamente o contrário:
    Acontece que vou viver.

    Acontece que sou e que sigo.

    Não será, pois, senão que dentro
    De mim crescerão cereais,
    Primeiro os grãos que rompem
    A terra para ver a luz,
    Porém a mãe terra é escura:
    E dentro de mim sou escuro:
    Sou como um poço em cujas águas
    A noite deixa suas estrelas
    E segue só pelo campo.

    Trata-se de que tanto vivi
    Que quero viver outro tanto.

    Nunca me senti tão sonoro,
    Nunca tive tantos beijos.

    Agora, como sempre, é cedo.
    Voa a luz com suas abelhas.

    Deixem-me só com o dia.
    Peço permissão para nascer

  • Questões de Vida e Morte - Karl Ove Knausgard

    Texto extraído de As Memórias dolorosas do escritor norueguês Karl Ove Knausgard, 

     

    Para o coração a vida é simples: ele bate enquanto puder.

    E então para.

    Cedo ou tarde, mais dia, menos dia, cessa aquele movimento repetitivo e involuntário, e o sangue começa a escorrer para o ponto mais inferior elo corpo, onde se acumula numa pequena poça, visível do exterior como uma área escura e flácida numa pele cada vez mais pálida, tudo isso enquanto a temperatura cai, as juntas enrijecem e as entranhas se esvaem.

    Essas transformações das primeiras horas se dão lentamente e com tal constância que há um quê de ritualístico nelas, como se a vida capitulasse diante de regras determinadas, um tipo de acordo de cavalheiros que os representantes da morte respeitam enquanto aguardam a vida se retirar de cena para então invadirem o novo território.

    Por outro lado, é um processo inexorável.

    Bactérias, um exército delas, começam a se alastrar pelo interior do corpo sem que nada possa detê-Ias. Houvessem tentado apenas algumas horas antes, e teriam enfrentado uma resistência cerrada, mas agora tudo em volta está calmo, e elas avançam pelas profundezas escuras e úmidas. Chegam aos canais de Havers, às glândulas de Lieberkühn, às i1hotas de Langerhans. Chegam à cápsula de Bowman nos rins, à coluna de Clarke na medula, à substância cinzenta no mesencéfalo.

    E chegam ao coração.

    Ele continua intacto, mas se recusa a pulsar, atividade para a qual toda a sua estrutura foi construída.

    É um cenário desolador e estranho, como uma fábrica em que os trabalhadores tivessem sido obrigados a evacuar às pressas, os veículos parados a projetar a luz amarela dos faróis na escuridão da floresta, os galpões abandonados, os vagões carregados sobre os trilhos, um atrás do outro, estacionados na encosta da montanha.

    No exato instante em que a vida abandona o corpo, ele passa para os domínios da morte. 

  • As flores - Anne Frank

    Os mortos recebem mais flores que os vivos, porque o remorso é mais forte que a gratidão.

    (Este texto se encontra no Museu Casa de Anne Frank, em Amsterdan, Holanda)

  • A Guerra Solitária - Conceição Freitas

    A guerra solitária

    Faz muito tempo, quase 20 anos, quando eu ainda achava que era a dona da razão, me envolvi num episódio constrangedor, quase violento. Um homem havia fechado a passagem de carro improvisada nos fundos das 700s Norte.


    Ele era proprietário de um caminhão guincho e o consertava. Era noite, talvez um sábado, não me lembro ao certo.
    Eu vinha de Fusca 72 e fui impedida  de prosseguir por causa do caminhão parado no meio da trilha improvisada.
    Buzinei e o cara respondeu de lá com gestos nada civilizados.

    Desci do carro e comecei um bate-boca com o caminhoneiro. Por pouco, ele não me espancou.
    Contando o episódio a um psicanalista, ele me alertou, para meu estranhamento. "Não se deve provocar o pior das pessoas".

    Demorei um pouco para entender o que o amigo me dizia, mas consegui aprender que a minha razão não me protegia de nada nem me dava nenhuma salva-guarda.

    Que em muitas circunstâncias, é preciso engolir - como pedra - a razão, e que a verdade, até onde ela tem validade, só serve a mim mesma.

    O jovem, belo, indignado e protetor Isaque Nilton Alves Boschini foi vítima do crack, da impunidade, da ausência do Estado e de tudo aquilo que todos conhecemos e de que até agora somos sobreviventes.

    Mas Isaque foi vítima da própria imprudência, do transbordamento que sentiu quando viu aquele grupo de homens pondo fogo em pedra bem perto de onde ele protegia sua família, sua vida e seu futuro.

    Isaque era muito jovem, ainda acreditava que sua interferência forte, viril, justa e destemida protegeria os seus da perigosa ameaça fumegante.

    Se acreditasse na pronta ação da polícia, se confiasse na corporação, ele teria ligado primeiro para o 190.

    Mas Isaque, como todos nós, sabe que pouco ou nada adianta chamar a viatura.

    Estamos todos acostumados à inoperância policial.

    Se a sensação é de que o Estado não nos garante a segurança pública, só nos resta agir perigosa e solitariamente.

    Nas atuais circunstâncias, temos de aprender a engolir pedra, a domar nossa coragem.

    Claro que é muito fácil ficar debulhando regra sentadinha numa mesa de computador; claro que quando a ira nos invade, ela dá as cartas e num átimo ficamos subjugados ao nosso desejo de fazer o que deve ser feito e ninguém faz.

    É como se estivéssemos no front dos horrores, num jogo de vida e morte entre a violência e nossos tesouros afetivos.

    Tem sido uma guerra sem trégua a de todos nós tendo de enfrentar os bandidos num corpo a corpo inescapável, 

    Debaixo do bloco, nos arredores das casas, no ponto de ônibus, dentro do ônibus, no estacionamento do shopping, em todos os estacionamentos da cidade, nas comerciais, nas residenciais, no Plano Piloto, no Recanto das Emas, na zona urbana, na zona rural, dentro das escolas, fora das escolas, estamos todos acuados.

    Daí reagimos como um soldado de infantaria na linha de fogo.

    Temos de aprender que a violência está em flagrante vantagem e que, desprotegidos, temos de nos apegar à prudência.

    A razão pode muito pouco quando está sozinha.

  • O Lado Bom da Vida - Matthew Quick

    Ser gentil ao invés de ter razão

  • Biblioteca Pessoal - Rodrigo Petrônio

    Toda biblioteca pessoal, antes de ser uma biblioteca, é pessoal.

    Uma extensão daquele que a criou.

    Cada livro um vestígio de sua vida.

    Um livro não traduz apenas aquele que o escreveu

    Contém em si todos os que o leram;

    Revela todos os que, de mãos em mãos, o preservaram.

     

    Extraído do artigo "Em Constante Alegria com os Livros"

    Rogrigo Petronio, escritor, professor da Faap, da Fundação Ema Klabin e Casa do Saber.

    Autor dos livros "Venho de Um País Selvagem" e "Pedra de Luz"

  • O Mal de Alzheimer - Sergio Kolodziey

    A doença de Alzheimer às vezes toma conta de mentes notáveis: Um médico que dirigiu um dos mais importantes hospitais do DF. Um pianista, um arquiteto que participou da criação de obras conhecidas, uma professora aposentada da UNB.

    Sergio enumera as causas, com a autoridade de quem não precisa de dados científicos. Fala do medo que a mídia passa à sociedade, da correria diária, do ônibus lotado na volta para casa. "As pessoas não respiram direito e estão muito nervosas. Cada vez que a pessoa fica nervosa queima um neurônio, e ele vai fazer falta amanhã", diz.

    "Quando cantamos, respiramos duas vezes,. Se a pessoa não enfraquece a doença não toma conta", acredita Sérgio.

     

    Sergio Kolodziey toca violão e canta para doentes de Alzheimer, da área de geriatria, do Hospital Universitário de Brasília.

     
  • Ligue o Foda-se e Seja Feliz - Fernando Pessoa

    Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas, que já tem a forma de nosso corpo, e esquecer nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia; e, se não ousamos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.

    Fernando Pessoa

  • Ulisses Manda Recado - Conceição Freitas

    Autor: Conceição Freitas- Jornalista do Correio Braziliense
    Veiculo:Jornal Correio Braziliense, publicado na coluna dia 7 de maio de 2008.

    Nunca li Ulisses, o de Joyce.

    Nem estava nos meus planos, a essa altura, enfrentar a peleja. Não tenho veleidades beletristas, não quero ler tudo nem todos nem os melhores. Não tenho tempo para tanto. A vida bruta corre ao largo e exige, cada vez mais, mais.

    Mas num desses acasos carregados de mistério, como de resto são os acasos; um exemplar de edição recente do Ulisses aboletou-se na minha mesa. E como ele não é um exemplar que passe despercebido, nas suas 850 páginas, folheei o bicho. Não estava interessada, admito, nas sabedorias do Joyce.

    Queria mesmo era sentir o cheiro de livro novo - que, como o cheiro de boneca nova e de carro novo, são os mais reconfortantes cheiros que a era industrial já foi capaz de produzir. E já que estava com o livrão ali me olhando com seus olhos de "eu sou sabichão e você é uma burralda e preguiçosa que não tem coragem de conferir se dá conta ou não de me enfrentar, decidi comer o bicho pelas bordas.

    Descobri que Uisses conta um día na vida da humanidade, o que, de cara, é de uma pretensão sem tamanho."Se fosse possível laçar o tempo ou capturar o infinito, poderíamos dizer que James Joyce o conseguiu em seu livro", puxa-me a orelha mestre Antônio Houaiss, tradutor de Ulisses.

    Ao contar um dia na vida de um ser humano, Jóyce mostrou que não importa se você se chama Ulisses ou Maria dos Anzóis Pereira. Ou que se chame Pedro de Alcântara (e mais 14 sobrenomes) e tenha sido imperador do Brasil ou Pedro e Só e seja um pobre trabalhador braçal,pouco importa. Todos nós carregamos na nossa história uma tragédia trivial. Portanto, diz Houaiss, "qualquer supervalorização de mim mesmo, em face dos meus semelhantes, é um exagero, é um egocentrismo, é um egoísmo: somos todos, de Ulisses a João da Silva, feitos da mesma argamassa de fragilidades, puerilidades, ordinariedades e - se quiser - grandezas e heroísmos de que são feitos quaisquer Joões da Silva ou Ulíssesses.

    " Comido o mingau pela borda, fui atrás de um exemplar do Ulisses. Esgotado. Recorri a uma rede virtual de sebos, que sempre me salva. Achei dezenas. Escolhi o mais barato, mas o livreiro avisava que era um livro velho, sujo, cheio de anotações. Ok. E já fiquei imaginando que anotações viriam, que eu iria ler um livro já lido por um desconhecido e iria então ler dois livros, o meu e o do desconhecido.

    O livro chegou ontem, edição de 1967, bem mais acabadinho do que eu imaginava. Sujão mesmo e com um cheiro de mofo. Até aí, nenhum grande problema que me impedisse a leitura.

    O problema veio quando abri a primeira página. Logo na folha ,de rosto, li a seguinte dedicatória: "Leia sossegada. Quando você acabar, Jeanete e eu enterraremos você com muitas margaridas, tá? Abraços nossos." Rasguei a folha de rosto em pedacinhos.

    Sobrou o Ulisses - inteiro.

     

  • O Dia do Homem - Conceição Freitas

    O DIA DO HOMEM - CONCEIÇÃO FREITAS, CORREIO BRAZILIENSE, 9 de março de 2008

    O Dia do Homem.

    Casada há mais de 40 anos com o mesmo homem, a senhora calma e sorridente comenta: sei mais sobre ele do que ele mesmo. Sei o que ele quer, o que está sentindo, onde se atrapalhou e, na maioria das vezes, ele fica sem saber. Eu resolvo e pronto.

    Homem é isso.

    Uma entidade movida a sexo, mas pouco ou nada sabe sobre si mesmo.

    Nós, mulheres resolvidas, de cama, mesa, banho, profissão, contas, educação dos filhos, contas pagas com o passado, o presente e o futuro, temos o mapa nas mãos.

    E isso de pouco tem nos adiantado.

    Homem não fala de si mesmo, pouco sabe de si mesmo. Homem é exibido - e como o homem é exibido.

    Flaubert, no Madame Bovary, diz que o homem é por natureza covarde. Não me lembro as circunstâncias da cena onde o narrador dizia isso, mas se ele se referia às coisas da emoção, sabia muito bem o que estava dizendo.

    As meninas acham o pai uma entidade absoluta, a perfeição com excesso de pêlo no corpo, voz encorpada; sem cintura e sem peito.

    A adolescência começa a ensinar a elas que eles não são essa monumentalidade toda. São cheio de buraquinhos, um em cada poro, como uma amiga disse ao marido pra mostrar a ele que o ser humano, homem e mulher, é todo inconcluso, imperfeito e falho.

    Homem, sexo masculino, não dá muito conta disso.

    Homem parece ser eternamente o menininho que aposta quem faz jato de xixi mais longe.

    Não é mole ser homem, sem trocadilho infame.

    Nem antes, quando deles se exigia a fortaleza desprovida de choro e emoções, nem agora, quando a mãe não se importa que ele chore, mas o pai faz cara de "né possível que você vai ser viado". (Ser homem e gay, então, é mais difícil ainda. É preciso ser muito macho para ser gay, mas essa é outra conversa).

    E parece ser mais difícil ser homem e mulher no jogo entre homem e mulher, porque a mulher parece que virou homem e o homem não tem mais o lugar dele a partir do olhar dela.

    Não sei se me fiz entender.

    O homem está atarantado: perdeu seu lugar e a roda da história parece que vai tomar dele o poder e entregá-Io à mulher.

    No meu tempo de criança, o pai ficava na cabeceira da mesa, a mãe de um lado e os filhos ao redor.

    Parece que hoje o homem não vai mais tranqüilamente para a cabeceira.

    Alguém puxou a cadeira dele e ele até faz pose de macho, pra não perder a pose, mas tá num medão danado porque ficou sem lugar determinado.

    E homem com mêdo é um perigo.

    As mulheres sabemos o preço que pagamos para dar conta das vitórias do feminismo.

    Mas a situação deles é muito pior.

    Eles terão de fazer longa, dolorosa e incerta viagem, de fora para dentro, para fabricar um novo lugar que lhes caiba justa e confortavelmente. Sem perder a pose de macho, porque isso tem um charme que faz muito bem às mulheres.

    Uma mulher só é mulher mesmo diante de um homem, homem mesmo.
     

     

  • A Curva - Oscar Niemeyer

    Não é o ângulo reto que me atrai.

    Nem a linha reta, dura, inflexível,
        criada pelo homem.

    O que me atrai é a curva livre e
        sensual.

    A curva que encontro nas
        montanhas do meu país,
    no curso sinuoso dos seus rios,
    nas nuvens do céu,
    no corpo da mulher amada.

    De curvas é feito todo o universo.

    O universo curvo de Einstein.”

  • A leitura e os profissionais - Oscar Niemeyer

    (entrevista em 18 de março de 2007 (aos 99 anos de idade) 

     

    O senhor ja escreveu que tudo na vida é precário e ilusório e que, diante do tempo, tudo vai ser esquecido. Até suas obras ?

    "É tudo tão precário, como as nossas pobres vidas.

    É uma vaidade tola, isso não existe.

    O sujeito tem que ser simples, trabalhar, ser cordial, ter prazer em ajudar os outros.

    Um dos problemas hoje do arquiteto, aliás, de qualquer profissional, é que ele não quer ler.

    Não se interessa pela leitura.

    O mundo dele é só a vida dele.

    O horizonte dele é muito pequeno.

    Ele entra para a vida sem saber como se portar neste mundo tão dificil de lidar, cheio de preconceitos e privilégios."

     

    Uma vez, eu estava aqui no escritório com algumas estudantes, uma delas perguntou para a outra:

    "Voce já leu Eça de Queiroz?" A outra respondeu: "É filho de Raquel de Queiroz? "

    É uma merda, né?

     

     

  • Definição de Gênio - Arthur Schopenhauer

    Talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem.

    Gênio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não veem.

     

     

  • Definição de Opulência

    Para quem não tem nada, metade é o dobro.

  • Puxa-saquismo culto - Carta de Demissão

    Antes de criar a nova Bahia, com um governo revolucionário, Antonio Balbino já era nome nacional. Formado em Direito no Rio em 1932, aos 20 anos, orador da turma, com mestrado em economia política pela Sorbonne, em Paris,  jornalista, professor de sociologia, filosofia e finanças,  deputado estadual  e relator da Constituinte baiana de 1934,  em 1950 elege-se deputado federal pelo PSD e, com sua cultura e competência fez tal sucesso na Câmara que, já em 1953, era ministro da Educação.

     

    Kleber Sampaio, jornalista, por e-mail em 30/7/2012

     

    Em 25 de junho de 1954, manda carta ao presidente Getulio Vargas  demitindo-se do ministério para disputar o governo da Bahia pelo PTB. O final da longa carta de sete laudas é um retrato do caráter de Balbino:

     

    “Eminente amigo presidente Vargas, consinta-me, ao lhe agradecer tantas e tão reiteradas provas de apreço, consideração e estima com que me distinguiu, quer particularmente quer como seu Ministro, dizer-lhe que lhe desejo de coração todas as venturas pessoais e o mais completo êxito nos seus inexcedíveis e permanentes propósitos de bem servir ao Brasil, mas que se alguma dificuldade surgir nos seus dias futuros – o que Deus evite – dentre os amigos que lhe demonstraram ser certos nas suas horas incertas, por lealdade ao dever de reconhecimento, Vossa Excelência não tenha dúvida de que, na primeira linha, encontrará o Antonio Balbino”.

    "Em campanha na Bahia, mas sempre a seu lado, Balbino."

     

     

    Passados dois meses, em 24 de agosto do mesmo ano, Carlos Lacerda da UDN e generais tentam tirar Vargas do governo. Ele reage ao golpe suicidando-se. Antonio Balbino manteve sua candidatura e foi eleito Governador da Bahia.

     

  • Para que chorar o que passou - Luzes da Ribalta - Chaplin

    Luzes da Ribalta - do filme de Charles Chaplin

     

    Vidas que se acabam a sorrir

    Luzes que se apagam, nada mais

    É sonhar em vão tentar aos outros iludir

    Se o que se foi pra nós

    Não voltará jamais

     

    Para que chorar o que passou

    Lamentar perdidas ilusões

    Se o ideal que sempre nos acalentou

    Renascerá em outros corações

  • Definição de Tempo - Daniel Mafra

    O tempo não passa, evapora !

  • Definição de Leitura - Rafael Mafra

    Leitura é devaneio.

  • Dois Amigos - Crônica de Conceição Freitas

    Dois Amigos

    Era uma solidão escandalosa aquela.


    Entrava dia e saía noite e o homem cruzava o portão sozinho, entrava no elevador desacompanhado e abria a porta despovoado de companhia.

    Tinha uma rotina severa, o homem.

    Acordava pontualmente às seis, dormia às exatas onze, almoçava na aridez da uma da tarde e não jantava.

    Fazia check - up uma vez ao ano, ia ao dentista de seis em seis meses, conferia o extrato bancário de dois em dois dias, checava a validade dos alimentos todos os sábados e cortava as unhas do pé aos domingos.

    Tinha emprego público, casa própria, plano de saúde, previdência privada, seguro de vida, seguro contra incêndio, aplicações em renda fixa, mas nenhum deles lhe fazia companhia.

    Não tinha carro e essa foi a sua salvação, como se verá daqui a pouco.

    Comentava-se que o solitário tinha temperamento difícil. Queria ter razão em tudo e até tinha, dada a sua racionalidade e sua lógica severas - eram intensas as relações de amizade entre eles.

    Tudo era motivo para discurso de protesto, o que o fazia saltar de indignação em indignação, como se o chão da Terra fosse feito de ferro e fogo.

    Quem ficaria ao lado desse homem incandescente, quando ele envelhecesse? Familiares, colegas de trabalho, amigos distantes, ex-mulheres, porteiro do prédio se perguntavam a cada vez que a misantropia do homem cruzava seus caminhos.

    O que nenhum deles percebera é que o eremita era imperfeito.

    Ele tinha um amigo quase invisível aos olhos viciados do senso comum.

    O parceiro do homem ermo o acompanhava havia mais de dez anos. Era o taxista do ponto próximo à sua casa.

    A amizade - sim, eram amigos - começou vagarosamente.

    Só depois do primeiro ano de corridas constantes, do trabalho para casa, da casa para o trabalho, taxista e passageiro mantiveram o primeiro diálogo.

    Foi num sábado pela manhã: "Estou meio febril. Você pode passar numa banca e me trazer algumas revistas e jornais?".

    Vê-se que era um homem antigo, que gostava de leituras em papel.

    Vieram outros pedidos - trazer uma sopa da padaria, buscar a faxineira em dia de greve de ônibus, providenciar um bombeiro-hidráulico, levar documentos ao trabalho num dia de gripe forte.

    Estavam estabelecidas as condições para uma conversa mais pessoal: 

    "Passei o fim de semana sem água no banheiro, vê se pode?". Ou: "Fazia tempo que uma gripe não me derrubava, cruzes". Ou ainda: "Aquela padaria já fez sopas melhores". Ou seja: reclamações, reclamações, reclamações. Mas, enfim, um diálogo.

    O paciente taxista começou a sentir um misto de comiseração e afeto por aquele casmurro brasiliense.

    Só então descobriram que eram corinthianos até os poucos fios de cabelo.

    Daí em diante, taxista e misantropo fortaleceram os laços de afeto a ponto de o motorista ter a chave da casa do solitário.

    "Moro sozinho, de repente me acontece alguma coisa e eu não tenho a quem recorrer. Você se importa?", perguntou o quase ex-eremita.

    Neste fim de semana, casmurro vai almoçar na casa do taxista.

    Aceitou se sentar à mesa com a mulher do amigo, os quatro filhos, três netos, dois cunhados, uma avó e dois agregados.

    Soube que ontem à tarde ele pesquisava na internet qual a melhor doceria de Brasília. Quer levar a sobremesa.
     

  • Boneca de Pano - Conto de Conceição Freitas

    Boneca de Pano

    Mora na minha cabeceira uma boneca de pano.

    Terá mais de 100 anos.

    Não é a idade do tecido ou da costura nem mesmo a de quem a fez.

    É o tempo de sua ancestralidade.

    Ninguém entende por que bibelô tão pálido, de tecido desbotado, cosido com pontos rudes de linhas toscas, cabelos retorcidos, como dreads, sobrancelhas, boca e nariz riscados a carvão, ninguém entende por que ela ocupa lugar tão nobre no meu lugar de dormir.

    Cobicei a boneca de pano numa ida à Cidade de Goiás.

    Passeava por uma rua distante do centro histórico, quando vi uma senhorinha negra, sentada numa cadeira tão velha quanto ela, na varanda de terra batida de uma casa torta e esquecida.

    Pedi pra entrar na moradia daquela mulher tão antiga quanto a memória da escravidão.

    Percebi, então, que ela via muito pouco, pelo modo como se levantou e caminhou até a porta para me conduzir à pequena sala.

    A dona da casa disse que tinha mais de 90 anos, não sabia a conta certa. Morava sozinha.

    Fiquei diante de um sofá puído e esburacado, de uma mesa de madeira, de uma prateleira com a imagem de uma santa (já não me lembro qual) e diante da bonequinha de pano que, por falta de pernas, se sustentava num copo de massa de tomate.

    O copo estufava a roda da saia da boneca de pele branca.

    Sem prurido, pedi à senhorinha o brinquedo de pano.

    Por alguma razão, eu precisava daquela boneca.

    Ela me dizia coisas àquela altura indecifráveis.

    Faz mais de cinco anos que a boneca de pano vigia o meu sono.

    Mais de uma faxineira já estranhou presença tão insignificante no meu criado- mudo.

    Antes azul, bem antes mesmo, a pele da formosa está quase branca, diáfana, eu diria.

    Ela é só um espectro de alguma coisa que algum dia teve algum sentido.

    Não é mais uma boneca, é quase um trapo.

    Mas continua garbosa em seu copo de massa de tomate e me olha, com sua lonjura calma.

    Faz todo sentido pra mim.

    Minha boneca de pano não é de hoje nem de ontem.

    É antiga em demasia.

    Foi feita com os escassos recursos de quem vivia à margem da industrialização do mundo, de quem aproveitava roupas rasgadas para costurar bonecas de cabelos longos (e pele branca!).

    A essa altura, a doçura anda precisando de um banho, mas temo que ela se dissolva na água e sabão.

    A boneca de pano feita por senhorinha negra de quase 100 anos, que criada pelos patrões para servir de empregada doméstica, é meu fio-terra com a sabedoria silenciosa das escravas.

    Bonequinha que vela meu dormir e acordar me conta as coisas esqueci de mim mesma.

    De que eu não sou esta que nasceu há nem tanto tempo sim, que eu não começo nem termino meu agora, que a tecnologia é reluzente, mas artificial, que os pontos feitos à mão são riscos do bordado da artista, que alguém inventou uma boneca partir de quase nada e cuidou dela até que eu cheguei.

    A senhorinha está lá, eu sei.

  • Boneca de Pano - Resposta de Conceição Freitas - Ao Leitor Abestado

    Ao leitor abestado

    Leitor arguto e direto me manda e-mai! Diz ele, sem delongas:

    Conceição Freitas,

    Cronista, colunista, contista ou jornalista escreve muita bobagem.

    Certamente porque têm que escrever todo dia. Ou quase todo dia.

    De você tenho guardado três ou quatro Crônica da cidade porque as achei espetaculares, geniais.

    Pois é - às vezes - cronista, colunista, contista ou jornalista escreve com talento.

    Boneca de pano, "do último domingo, é mais que genial.

    Fiquei abestado. Guardei. Parabéns"

     

    Assumo a cabotina reprodução de um elogio a mim mesma, e prossigo.

    O e-mail supracitado me deu frio na barriga. O leitor foi duro e preciso. É incontestável:

    "Cronista, colunista, contista ou jornalista escreve muita bobagem". Mas não necessariamente porque tem de escrever todo dia ou quase todo dia.

    Dostoiévksi, Tolstoi, Tchecov, Flaubert, Machado, Nelson Rodrigues, só pra citar alguns dos meus mais queridos, foram ou contistas ou cronistas ou jornalistas, ou a mistura dos três, e escreviam todos os dias.

    Quase todos eles porque precisavam garantir o leite das crianças.

    O e-mail do leitor me conduziu a questões sobre as quais venho refletindo há algum tempo.

    Dostoiévksi, Tolstoi, Nabocov, Flaubert, Machado e Nelson Rodrigues são Dostoiévksi, Tolstoi, Nabocov, Flaubert, Machado e Nelson Rodrigues. Eu sou só Conceição Freitas, é este o meu tamanho e é com ele que tenho de me virar para garantir o iogurte dos pimpolhos.

    Poucas coisas sei fazer direitinho nesta vida, uma delas é escrever, na largura, extensão e profundidade daquilo que consegui ser até agora.

    Talvez eu até pudesse ter sido melhor, mas a vida foi me empurrando e eu, não poucas vezes, deixei que ela me levasse, quando poderia ter aumentado as medidas do meu existir e produzir.

    É me perdoando pelo meu vaguear solitário, é percebendo que sou Conceição Freitas, nem mais nem menos que eu mesma, é tentando um pouco mais aperfeiçoar aquilo de que sou capaz de fazer, é que prossigo meu escrever. 

    Mas, caro leitor, essa que não é Dostoiévksi, Tolstoi, Nabocov, Flaubert, Machado e Nelson Rodrigues, lhe assegura: não sou eu quem escreve crônicas merecedoras de constar de seus guardados.

    É um estado que se apodera de mim e me conduz às letrinhas do teclado.

    As melhores crônicas já nascem prontas.

    Surgem no instante em que todos os caminhos se abrem e me levam, docemente, até o mais essencial de minha experiência de viver.

    Elas existem onde eu não sei o que sou.

    As demais são só a produção necessária para assegurar o salário no fim do mês.

    Muito agradecida pela contundência concisa de suas palavras, Conceição.

  • Escrever é como cuidar de um bonsai - Alejandro Zambra

     Para Alejandro Zambra, escrever é como cuidar de um bonsai, "é podar os ramos até tomar visível uma forma que já estava ali". 

  • Aquele Que Nunca Vira o Mar - Conto livre de J M G Le Clézio

    Aquele Que Nunca Vira o Mar

    autor: J.M.G. LE CLÉZIO.

    Revista Piaui, edição 30 de março 2009

     

    Ele não olhava para o sol, nem para o céu. Já não via sequer a faixa de terra longínqua, nem o vulto das árvores. Não havia ninguém ali, ninguém além do mar, e Daniel estava livre.

    Chamava-se Daniel, mas teria gostado de se chamar Simbad, porque lera suas aventuras num livro grande de capa vermelha que sempre levava consigo, na sala de aula e no dormitório.

     

    Na verdade, acho que nunca lera nenhum livro além daquele.

    Não falava a respeito, a não ser, às vezes, quando alguém pedia.

    Então seus olhos pretos brilhavam com mais força e seu rosto afiado parecia se animar de repente.

    Mas não era menino de falar muito.

    Não se juntava à conversa dos outros, a não ser quando o assunto era o mar, ou as viagens.

    Os homens são, na maioria, terrestres, assim é que é. Nasceram na terra, e a terra e as coisas da terra é que interessam a eles.

    Mesmo os marinheiros com frequência são homens da terra; gostam de casas e mulheres, falam de política e carros.

     

    Já ele, Daniel, era como se fosse de outra raça. As coisas da terra o entediavam - as lojas, os carros, a música, os filmes e, naturalmente, as aulas do colégio.

    Não dizia nada, nem sequer bocejava para expressar o seu tédio.

    Só ficava parado, sentado num banco ou nos degraus da escada, em frente ao pátio coberto, olhando para o nada.

    Era um aluno medíocre, que a cada trimestre lograva as notas mínimas necessárias à sobrevivência.

    Quando um professor pronunciava seu nome, ele se levantava e recitava a lição, depois tomava a sentar-se, e pronto.

    Era como se dormisse de olhos abertos.

    Nem mesmo quando a conversa era sobre o mar ele chegava a se interessar muito tempo.

    Escutava alguns instantes, fazia uma ou outra pergunta, então percebia que o assunto não era de fato o mar, e sim os banhos, a pesca submarina, as praias e as insolações.

    Então se retirava, voltava a sentar-se em seu banco ou nos degraus, olhando para o nada.

    Não era desse mar que queria ouvir falar. Era de outro mar, não se sabia qual, mas outro mar.

     

    Isso foi antes de ele desaparecer, antes de ir embora.

    Ninguém podia imaginar que um dia ele fosse partir, quer dizer, partir de verdade, para não voltar mais.

    Era muito pobre, seu pai tinha uma pequena fazenda a poucos quilômetros da cidade, e Daniel usava o avental cinza dos internos porque sua família morava longe demais para ele poder voltar para casa todo dia.

    Tinha três ou quatro irmãos mais velhos que não eram conhecidos.

    Não tinha amigos, não conhecia ninguém e ninguém o conhecia. Ele talvez achasse melhor assim, para não criar laços.

    Tinha um rosto esquisito, afiado como uma lâmina, e belos olhos pretos e indiferentes.

    Não disse nada a ninguém. Mas com certeza já tinha tudo planejado.

     

    Tinha planejado tudo de cabeça, memorizando as estradas e mapas, e os nomes das cidades por onde iria passar.

    Talvez tivesse sonhado com muita coisa, dia após dia, toda noite, no dormitório, deitado em sua cama enquanto os demais gracejavam e fumavam escondido.

    Pensara nos rios que descem lentamente para a foz, no grito das gaivotas, no vento, nas tempestades assobiando no mastro dos navios e nas sirenes das balizas.

     

    Foi no início do inverno que ele partiu, pelos meados de setembro.

    Quando os internos acordaram no imenso dormitório cinza, havia sumido.

    Percebemos na hora, assim que abrimos os olhos, porque sua cama não tinha sido desfeita.

    Os cobertores estavam cuidadosamente estendidos e tudo estava em ordem.

    Então dissemos apenas: "Olha, o Daniel foi embora", sem nos surpreendermos de fato, pois afinal sabíamos vagamente que isso iria acontecer.

    Mas ninguém disse mais nada porque não queríamos que o pegassem.

    Nem os mais tagarelas entre os alunos do primário disseram coisa alguma.

    E afinal, o que podíamos dizer? Não sabíamos de nada.

    Durante um bom tempo, houve cochichos no pátio, ou nas aulas de francês, mas não passavam de fragmentos de frases cujo sentido só nós entendíamos.

    "Será que a uma hora dessas ele já chegou?"

    "Será? Ainda não, é tão longe, sabe. . ."

    "Amanhã?"

    "E, quem sabe..."

    Os mais audaciosos diziam: "Quem sabe ele já chegou na América." E os pessimistas: "Ah, quem sabe ele volte ainda hoje."

    Mas se nós nos calávamos, em compensação, em altas esferas o caso gerou um alvoroço.

     

    Professores e bedéis eram regularmente convocados à sala do diretor, e até na polícia.

    De tempos em tempos apareciam os inspetores e interrogavam os alunos um por um, tentando arrancar informações.

    Nós, evidentemente, falávamos de tudo, menos do que sabíamos: dele, do mar.

    Falávamos em montanhas, cidades, garotas, tesouros, até em ciganos raptores de criancinhas e legião estrangeira.

    Era para embaralhar as pistas; e os professores e bedéis iam ficando cada vez mais nervosos e, com isso, mais malvados.

     

    O alvoroço durou várias semanas, vários meses. Houve dois ou três avisos de busca nos jornais, com a descrição de Daniel e uma foto que não se parecia com ele.

    Então tudo se acalmou de repente, pois estávamos todos meio cansados daquela história.

    Vai ver tínhamos todos entendido que ele não voltaria, jamais.

     

    Os pais de Daniel se conformaram, porque eram pobres e não havia mais nada a fazer.

    Os policiais arquivaram o caso, foi o que eles próprios disseram, e ainda disseram mais uma coisa que os professores e bedéis repetiram, como se fosse natural e que, para nós, pareceu um bocado extraordinário.

    Disseram que todo ano dezenas de milhares de pessoas desapareciam assim sem deixar rastro, e nunca seriam encontradas.

    Os professores e bedéis ficavam repetindo esta frasezinha, dando de ombros como se fosse a coisa mais banal do mundo, mas que a nós, quando a ouvimos, nos levou a sonhar, nos despertou lá no fundo um sonho secreto e envolvente que ainda não terminou.

     

    Com certeza já era noite quando Daniel chegou, a bordo de um comprido trem de carga que já rodara muito tempo, dia e noite.

    Os trens de carga circulam sobretudo à noite, porque são muito longos e andam muito devagar, de um nó ferroviário a outro.

    Daniel vinha deitado no chão duro, enrolado num pedaço de lona velha.

    Espiou pela porta com clarabóias enquanto o trem reduzia a marcha e parava, rangendo, junto às docas.

    Daniel abriu a porta, pulou sobre os trilhos e correu ao lado do barranco até encontrar uma passagem.

    Não tinha bagagem, só uma sacola azul-marinho de praia que sempre levava consigo, na qual pusera seu velho livro vermelho.

    Ele agora estava livre, e com frio. Suas pernas doíam, depois de tantas horas passadas naquele vagão.

    Era noite, chovia. Daniel andava o mais depressa possível para se distanciar da cidade.

    Não sabia para onde estava indo. Andava reto em frente, entre muros e hangares, na estrada que brilhava à luz amarela dos postes de iluminação.

    Não havia ninguém, nem nenhum nome escrito nos muros.

     

    Mas o mar não estava longe. Daniel o pressentia em algum ponto à direita, oculto pelas grandes construções de concreto, para além dos muros.

    Estava dentro da noite.

    Passado algum tempo, Daniel sentiu-se cansado de andar.

    Já chegara no campo e a cidade brilhava ao longe, lá atrás.

    A noite estava escura, e a terra, o mar, invisíveis.

    Daniel procurou um lugar para se proteger da chuva e do vento, e acabou entrando numa cabana de madeira à beira da estrada.

    Foi onde se acomodou para dormir até de manhã.

    Fazia vários dias que não dormia e, por assim dizer, não comia, pois ficara o tempo todo espiando pela porta do vagão.

    Sabia que não podia topar com algum policial.

    De modo que se escondeu bem no fundo da cabana de madeira, mordiscou um pouco de pão e adormeceu.

     

    Quando acordou, o sol já estava no céu.

    Daniel saiu da cabana, deu alguns passos piscando os olhos.

    Havia um caminho que levava até as dunas, e foi por ele que Daniel se pôs a andar.

    Seu coração batia mais forte, pois sabia que era ali, do lado de lá das dunas, a duzentos metros apenas.

    Correu pelo caminho, escalou a encosta de areia, e o vento soprava cada vez mais forte, trazendo o som e o cheiro desconhecidos.

    Então, chegou ao topo da duna e, de repente, ele o viu.

    Estava ali, por toda parte, à sua frente, imenso, inchado como a encosta de uma montanha, brilhando em sua cor azul, profundo, tão perto, com suas ondas altas avançando na sua direção.

    "O mar! O mar! " pensou Daniel, mas não se atreveu a dizer nada em voz alta.

    Ficou ali sem conseguir se mexer, os dedos meio afastados, e não conseguia acreditar que dormira ao lado dele.

    Ouvia o som lento das ondas se movendo na praia.

    Não havia mais vento e o sol brilhava sobre o mar, ateando um fogo na crista de cada onda.

    A areia da praia tinha cor de cinza, lisa, sulcada de riachos e coberta de vastas poças que refletiam o céu.

     

    Em seu íntimo, Daniel repetiu várias vezes o lindo nome, assim, "O mar, o mar, o mar.. .", a cabeça cheia de barulhos e vertigem.

    Queria falar, e até gritar, mas sua garganta não deixava a voz passar.

    Então ele teve que sair gritando, jogando longe a sacola azul que rolou pela areia, teve que sair agitando braços e pernas como quem atravessa uma auto-estrada.

    Saltou sobre as medas de sargaço, cambaleou na areia seca da parte alta da praia.

    Tirou meias e sapatos e, descalço, correu ainda mais ligeiro, sem sentir os espinhos dos cardos.

    O mar estava longe, no final da planície de areia.

    Cintilava na luz, mudava de cor e de aspecto, extensão azul, depois cinzenta, verde, quase negra, bancos de areia ocres, orla branca das ondas.

     

    Daniel não sabia que ele estava tão longe.

    Continuou correndo, braços apertados junto ao corpo, o coração socando com tudo dentro do peito.

    Sentia agora a areia dura feito asfalto, úmida e fria sob os seus pés.

    À medida que se aproximava, o som das ondas crescia, preenchia tudo feito um assobio de vapor.

    Era um som muito doce e lento, depois violento e inquietante feito os trens nas pontes de ferro, ou então que fugia para trás feito a água dos rios.

    Mas Daniel não tinha medo. Continuava correndo o mais rápido que podia, aprumado no ar gelado, sem olhar para mais nada.

     

    Chegando a poucos metros apenas da franja de espuma, sentiu o cheiro das profundezas e parou.

    Uma pontada lhe queimava a virilha, e o poderoso cheiro da água salgada não o deixava recobrar o fôlego.

    Sentou-se na areia molhada, e observou o mar subindo à sua frente, quase até o meio do céu.

    Pensara tantas vezes naquele momento, imaginara tantas vezes o dia em que afinal o veria, realmente, não como nas fotos ou no cinema, mas de verdade.

    O mar inteiro, exposto à sua volta, inchado, com o dorso largo das ondas se precipitando e rebentando, as nuvens de espuma, o chuvisco em pó sob a luz do sol e, principalmente, ao longe,

    aquele horizonte curvo qual um muro frente ao céu!

    Tanto desejara aquele instante que agora estava sem forças, como se fosse morrer, ou dormir.

    Era mesmo o mar, o seu mar, só para ele, e sabia que nunca mais poderia ir embora.

    Daniel deixou-se ficar um longo tempo estendido na areia dura, esperou tanto tempo, deitado de lado, que o mar começou a subir pela encosta e veio tocar seus pés descalços.

    Era a maré.

     

    Daniel ergueu-se de um salto, todos os músculos retesados para fugir.

    Ao longe, na negra rebentação, as ondas explodiram com um ruído estrondoso.

    Mas a água ainda não tinha força. Quebrantava-se e borbulhava na parte baixa da praia, chegava se arrastando.

    A espuma ligeira envolvia as pernas de Daniel, cavava poços sob seus calcanhares.

    A água fria primeiro mordeu-lhe os artelhos e canelas, depois insensibilizou-os.

    Com a maré, veio o vento. Soprou do fundo do horizonte, surgiram nuvens no céu.

    Mas eram nuvens desconhecidas, iguais à espuma do mar, e o sal viajava no vento como grãos de areia.

     

    Daniel só pensava em fugir.

    Pôs-se a andar à beira do mar, na franja de espuma.

    A cada onda, sentia a areia escapando por entre seus artelhos abertos, para retomar em seguida.

    O horizonte, ao longe, se inflava e encolhia qual respiração, ia jogando o seu peso em direção à terra.

    Daniel sentiu sede.

    Com as mãos em concha, juntou um pouco d'água com espuma e bebeu um gole. O sal queimou-lhe a boca e a língua, mas Daniel continuou bebendo porque gostava do sabor do mar.

    Há quanto tempo pensava naquela água toda, livre, sem fronteiras, aquela água toda que daria para se beber a vida inteira!

    Na praia, a última maré jogara pedaços de pau e raízes que lembravam grandes ossadas.

    A água agora as retomava devagar, depositava-as um pouco mais adiante, misturava-as com as grandes algas negras.

     

    Daniel andava à beira d'água, e olhava tudo com avidez, como querendo descobrir num só instante tudo o que o mar tinha para lhe mostrar.

    Pegava nas mãos as algas viscosas, os pedaços de conchas, cavava no lodo junto às galerias de vermes, procurava por tudo, andando, ou então de quatro na areia molhada.

    O sol no céu estava árduo e forte, e o mar rugia sem parar.

    De vez em quando, Daniel se detinha de frente para o horizonte, e fitava as ondas altas que tentavam passar por cima da rebentação.

    Respirava com toda a força, para sentir o sopro, e em como se o mar e o horizonte enchessem seus pulmões, seu ventre, sua cabeça e ele se tornasse uma espécie de gigante.

    Olhava para a água escura, ao longe. Onde não havia terra ou espuma, somente o céu aberto, e era com ela que ele falava baixinho, como se ela pudesse ouvir; dizia:

     

    'Venha! Suba até aqui, ande! Venha"

    "Você é linda, vai vir e vai cobrir a terra toda, as cidades todas,vai subir até o alto das montanhas!"

    "Venha com as suas ondas, suba, suba! Por aqui, por aqui"

     

    Então ele recuava, passo a passo, para a parte alta da praia.

    Foi assim que aprendeu os caminhos da água que sobe, cresce, se espalha feito mãos pelos pequenos vales de areia.

    Os caranguejos cinzentos corriam à sua frente, garras erguidas, leves como insetos.

    A água branca preenchia os buracos misteriosos, inundava as galerias secretas.

    Subia, um pouco mais a cada onda, ampliava seus lençóis movediços.

    Daniel dançava diante dela, igual aos caranguejos cinzentos, corria meio de lado erguendo os braços e a água vinha morder-lhe os calcanhares.

    Depois tornava a descer, cavava trincheiras na areia para a água subir mais depressa e, para ajudá-la a subir, cantarolava as palavras:

    "Vamos, subam, vamos, ondas, subam mais, mais alto, vamos!"

     

    Já estava com água até a cintura, mas não sentia frio, não tinha medo.

    Sua roupa encharcada lhe grudava no corpo, os cabelos lhe caíam nos olhos feito algas.

    O mar turbilhonava à sua volta, retirava-se com força tamanha que ele tinha de se agarrar na areia para não cair de costas, depois se jogava de novo e o empurrava para a parte alta da praia.

    As algas mortas açoitavam suas pernas, se enroscavam em suas canelas.

     

    Daniel as arrancava como se fossem serpentes e as jogava no mar, gritando:

    "Arrh! Arrh!" Ele não olhava para o sol, nem para o céu. Já não via sequer a faixa de terra longínqua, nem o vulto das árvores.

    Não havia ninguém ali, ninguém além do mar, e Daniel estava livre.

     

    De repente, o mar começou a subir mais depressa.

    Tinha se inchado na rebentação, e as ondas agora chegavam lá do largo, sem nada para detê-las.

    Eram altas e amplas, meio enviesadas, a crista fumegando, seu ventre azul-escuro se escavando por baixo delas, orlado de espuma.

    Chegaram tão depressa que Daniel não teve tempo de se abrigar.

    Virou de costas para fugir e a onda atingiu-o nos ombros, passou-lhe por cima da cabeça.

    Daniel grudou instintivamente as unhas na areia e cessou de respirar.

    A água, turbilhonando, desabou sobre ele com um ruído estrondoso, penetrando seus olhos, ouvidos, boca, narinas.

    Daniel rastejou pela areia seca, fazendo um esforço imenso.

    Estava tão aturdido que se quedou algum tempo deitado de bruços na franja de espuma, sem conseguir se mover.

     

    Mas vinham as outras ondas, rugindo. Erguiam ainda mais alto suas cristas, e seus ventres se cavavam feito grutas.

    Daniel então correu para a parte alta da praia e sentou-se na areia das dunas, para lá da barreira de sargaços.

    Pelo resto do dia, não se acercou mais do mar.

    Mas seu corpo ainda tremia e, em toda a sua pele, e até por dentro, sentia o gosto ardido do sal e, no fundo dos olhos, a mancha ofuscante das ondas.

     

    Na outra ponta da baía havia um promontório negro, escavado de grutas. Foi lá que Daniel viveu nos primeiros dias quando chegou diante do mar.

    Sua gruta era uma pequena saliência nos rochedos negros, atapetada de seixos e areia cinzenta.

    Foi lá que Daniel viveu naqueles dias todos, sem nunca, por assim dizer, tirar os olhos do mar.

    Quando surgia a luz do sol, muito pálida e cinza, e o horizonte mal se avistava como um fio entre as cores mescladas de céu e mar, Daniel se levantava e saia da gruta..

    Subia no alto dos rochedos negros para beber água da chuva nas poças.

    As grandes aves marinhas também iam para lá, voavam ao seu redor soltando seus longos gritos dissonantes, e Daniel as cumprimentava assobiando.

    De manhã. Quando o mar estava baixo, as misteriosas profundezas ficavam a descoberto.

    Havia grandes alagados de água escura, torrentes cascateando em meio às pedras, trilhas escorregadias, montanhas de algas vivas.

     

    Daniel então deixava o cabo e descia rente aos rochedos até o centro da planície descoberta pelo mar.

    Era como chegar ao próprio centro do mar, numa paisagem estranha, com poucas horas de existência.

    Tinha que se apressar. A franja negra da rebentação estava próxima, Daniel .

    Escutava as ondas rugindo em voz baixa e as correntes profundas murmurando.

    O sol, ali, não brilhava muito tempo.

    O mar logo voltava a cobri-los com sua sombra, e a luz refletia, violenta, sobre eles, sem chegar a aquecê-los.

    O mar revelava alguns segredos, mas precisava aprendê-los depressa antes que sumissem.

    Daniel corria sobre os rochedos do fundo do mar, em meio às florestas de a algas.

    O cheiro forte subia dos alagados e dos negros vales, o cheiro que os homens desconhecem e os embriaga.

     

    Nas poças grandes, bem perto do mar, Daniel procurava os peixes, os camarões, as conchas.

    Mergulhava os braços n' água, em meio aos tufos de algas, e esperava até á que os crustáceos viessem fazer cócegas na ponta dos seus dedos; então os apanhava.

    Nas poças, as anêmonas-do-mar, e roxas, cinzentas, vermelho-sangue, abriam e fechavam suas carolas.

    Nos rochedos planos viviam as lapas brancas e azuis, as nassas alaranjadas, as  mitras, as arcas, as amêijoas.

    No fundo dos alagados, às vezes, a luz brilhava no dorso largo dos atuns, ou na madrepérola cor de opala de uma natica.

    Ou então, de súbito, entre as folhas de algas surgia a concha oca, irisada feito nuvem, de uma velha orelha-do-mar, a lâmina de uma faca, a forma perfeita de uma concha de vieira.

    Daniel as contemplava, demoradamente, ali onde estavam, através da vidraça da água, e era como se também ele vivesse dentro da poça, no fundo de uma fenda minúscula, deslumbrado de sol e esperando a noite do mar.

     

    Para comer, caçava lapas.

    Tinha que se acercar sem fazer barulho, para elas não se grudarem na pedra.

    Depois, soltá-las com um pontapé, batendo com a ponta do dedão.

    Mas as lapas não raro escutavam o som dos seus passos ou o chiado da sua respiração e se grudavam nos rochedos planos, produzindo uma série de estalos.

    Depois de apanhar camarões e mariscos suficientes, Daniel guardava sua pesca numa poça pequena, na cavidade de um rochedo, para cozinhá-Ia mais tarde numa lata sobre um fogo de sargaço.

     

    Então ia dar uma olhada lá adiante, bem na ponta da planície do fundo do mar, lá onde as ondas rebentavam.

    Pois lá é que vivia seu amigo polvo.

    Ele é que Daniel logo conhecera, naquele primeiro dia em que chegara diante do mar, antes mesmo de conhecer as aves marinhas e as anêmonas.

    Ele fora até a beira das ondas que rebentam caindo sobre si mesmas, quando o mar e o horizonte já não se movem, já não incham, e as grandes correntes escuras parecem conter-se antes de saltar.

    Aquele era decerto o lugar mais secreto do mundo, onde a luz do dia não brilha mais que alguns minutos.

     

    Daniel andara bem devagar, segurando-se nas paredes das rochas escorregadias, como que descendo para o centro da terra.

    Avistara o grande alagado de águas pesadas, onde moviam-se lentamente as algas longas, e permanecera imóvel, o rosto quase tocando a superfície.

    Avistara então os tentáculos do polvo flutuando rente às paredes do alagado.

    Surgiam, feito fumaça, de uma falha bem junto ao fundo, e deslizavam mansamente sobre as algas.

    Daniel prendera a respiração, fitando os tentáculos que mal se moviam, mesclados aos filamentos das algas.

    Então o polvo saíra. O longo corpo cilíndrico se movia cauteloso, os tentáculos ondulando à sua frente.

    Na luz fragmentada do sol efêmero, os olhos amarelos do polvo brilhavam qual metal sob as sobrancelhas salientes.

    O polvo deixara flutuar um momento seus longos tentáculos de anéis arroxeados, como buscando alguma coisa.

    Em seguida avistara a sombra de Daniel debruçada sobre o alagado e pulara para trás, apertando os tentáculos e soltando uma estranha nuvem cinza-azulada.

    Como todos os dias, Daniel chegava agora à beira do alagado, bem perto das ondas.

    Debruçou-se sobre a água transparente e chamou baixinho pelo polvo.

     

    Sentou-se no rochedo mergulhando na água as pernas desnudas, frente à falha onde habitava o polvo, e esperou, sem se mexer.

    Passado algum tempo, sentiu os tentáculos tocando de leve sua pele, enrolando-se em suas canelas.

    O polvo o acariciava com cautela, às vezes entre os artelhos e na planta dos pés, e Daniel punha-se a rir.

    "Bom dia, Wiatt", disse Daniel.

    O polvo se chamava Wiatt, embora, é claro, não soubesse seu nome.

    Daniel falava com ele em voz baixa, para não assustá-lo.

    Perguntava sobre o que acontecia no fundo no mar, sobre o que se vê quando se está sob as ondas.

    Wiatt não respondia, mas continuava acariciando de mansinho, como que com cabelos, os pés e canelas de Daniel.

     

    Daniel gostava do polvo. Nunca dava para ficar muito com ele, pois o mar subia depressa.

    Quando a pesca tinha sido boa, Daniel lhe trazia um siri, ou camarões, que ele soltava no alagado.

    Os tentáculos cinzentos irrompiam feito chicotes, apanhavam as presas e as levavam até o rochedo.

    Daniel nunca via o polvo comendo.

    Este ficava quase sempre escondido na falha escura, imóvel, seus longos tentáculos flutuando à sua frente.

    Talvez fosse igual a Daniel, talvez tivesse viajado muito tempo até encontrar seu lugar no fundo do alagado, talvez olhasse para o céu claro através da água transparente.

     

    Quando o mar estava totalmente baixo, ocorria como que uma iluminação.

    Daniel andava em meio aos rochedos, sobre os tapetes de algas, e o sol se punha a refletir na água e nas pedras, ateava fogos repletos de violência.

    Não havia vento àquela hora, nenhum sopro.

    Sobre a planície do fundo do mar, o céu azul era imenso, brilhava com uma luz excepcional.

    Daniel sentia o calor na cabeça e nos ombros, fechava os olhos para não ficar cego com a terrível cintilação.

    Então não havia mais nada, nada mais; o céu, o sol, o sal, que se punham a dançar sobre os rochedos.

     

    Certo dia em que o mar descera tão longe que só se avistava uma fina orla azul na direção do horizonte, Daniel pôs-se a caminho pelos rochedos do fundo do mar.

    Sentiu, de repente, a embriaguez dos que penetram uma terra virgem e sabem que talvez não consigam voltar.

    Não havia, naquele dia, nada igual; tudo era novo, desconhecido.

    Daniel se virou e avistou a terra firme, longe, lá atrás, igual a um lago de lama.

    Sentiu também a solidão, o silêncio dos rochedos nus gastos pelo mar, a inquietação emanando de todas as fendas, de todos os poços secretos, e se pôs a andar mais depressa, depois a correr.

    Seu coração batia forte dentro do peito, como no primeiro dia em que chegara diante do mar.

     

    Daniel corria sem recobrar o fôlego, saltava por sobre os alagados e vales de algas, seguia as arestas rochosas abrindo os braços para manter o equilíbrio.

    Havia às vezes largas lajes grudentas, cobertas de algas microscópicas, ou rochas aguçadas feito lâminas, pedras estranhas que lembravam pele de esqualo.

    Por toda parte cintilavam, estremeciam poças d'água. Os mariscos incrustados nas rochas crepitavam ao sol, os rolos de algas produziam um curioso som de vapor.

    Daniel corria sem saber para onde ia, em meio à planície do fundo do mar, sem parar para olhar o limite das ondas.

    O mar agora tinha se retirado, sumido no horizonte como se houvesse escorrido por um buraco ligado ao centro da terra.

     

    Daniel não tinha medo, mas já não era totalmente ele mesmo.

    Não chamava o mar, já não falava com ele.

    A luz do sol refletia na água das poças como em espelhos, quebrava na ponta dos rochedos, dava saltos velozes, multiplicava seus raios.

    A luz estava por tudo ao mesmo tempo, tão próxima que ele sentia em seu rosto passarem raios endurecidos, ou muito distante, igual à fria faísca dos planetas.

    Por causa dela é que Daniel corria em ziguezague pela planície dos rochedos.

    A luz o tornara livre e louco, e ele saltava como ela, sem ver.

    A luz não era suave e doce como a das praias e dunas.

    Era um turbilhão desvairado jorrando incessante, repicando entre os dois espelhos que eram o céu e os rochedos.

    Principalmente, havia o sal. Há vários dias ele se acumulava por tudo, nas pedras pretas, nos seixos, nas conchas dos moluscos e até nas folhinhas pálidas das suculentas, ao pé da falésia.

     

    O sal penetrara a pele de Daniel, depositara-se em seus lábios, sobrancelhas e cílios, nos seus cabelos e roupas, formando agora uma dura carapaça ardida.

    O sal entrara inclusive dentro do seu corpo, em sua garganta, em seu ventre, até dentro dos seus ossos, corroía e rangia feito poeira de vidro, acendia faíscas em suas retinas doídas.

    A luz do sol inflamara o sal, e cada prisma agora cintilava ao redor de Daniel e dentro do seu corpo.

    Havia então esta espécie de embriaguez, esta eletricidade vibrante, porque o sal e a luz não queriam que se ficasse parado; queriam que se dançasse e corresse, pulasse de um rochedo para o outro, queriam que se fugisse pelo fundo do mar.

     

    Daniel nunca vira tanta brancura. Até a água dos alagados, até o céu eram brancos.

    Queimavam as retinas.

    Daniel cerrou totalmente os olhos e se deteve, porque suas pernas tremiam e já não conseguiam sustê-la.

    Sentou-se num rochedo plano, frente a uma lagoa de água do mar.

    Ouviu o som da luz pulando pelas rochas, os estalidos secos, as batidas, os chiados e, junto aos seus ouvidos, o murmúrio agudo igual ao canto das abelhas.

    Sentia sede, mas era como se água alguma pudesse jamais saciá-la.

    A luz continuava a queimar-lhe o rosto, as mãos, os ombros, mordia com mil picadas, formigamentos.

    As lágrimas salgadas se puseram a rolar, devagar, dos seus olhos cerrados, traçando sulcos quentes em suas faces.

    Entreabrindo as pálpebras a custo, contemplou a planície das rochas brancas, o grande deserto em que rebrilhavam os alagados de água cruel.

     

    Os animais marinhos e as conchas haviam sumido, tinham se escondido nas frestas, sob as cortinas das algas.

    Daniel se inclinou para a frente no rochedo plano, e pôs a camisa na cabeça para não ver mais a luz e o sal.

    Permaneceu muito tempo imóvel, cabeça entre os joelhos, enquanto a dança ardente passava e tornava a passar pelo fundo do mar.

     

    Depois veio o vento, de início fraco, andando dificilmente no ar espesso.

    O vento cresceu, o vento frio saiu do horizonte, e os alagados de água do mar estremeciam e mudavam de cor.

    O céu ganhou nuvens, a luz tornou a ser homogênea.

    Daniel escutou o rugido do mar próximo, as ondas grandes batendo o vento nos rochedos.

    Gotas de água molharam sua roupa e ele saiu do seu torpor.

     

    O mar já estava ali. Vinha ligeiro, cercava depressa os primeiros rochedos como ilhas, afogava as fendas, deslizava com um som de rio em cheia.

    Toda vez que tragava um pedaço de rocha, havia um som surdo que abalava o soco da terra, e um rugido no ar.

    Daniel ergueu-se de um salto.

    Pôs-se a correr sem parar rumo à praia.

    Já não tinha sono, já não temia a luz nem o sal.

    Sentia uma espécie de fúria dentro do corpo, uma força que ele não entendia, como se fora capaz de quebrar os rochedos e abrir as fendas assim, num só golpe de calcanhar.

    Corria à frente do mar, seguindo o caminho do vento, e ouvia atrás de si o rugido das ondas.

    Também gritava, vez ou outra, para imitá-Ias: "Ram! Ram! ", pois ele é quem comandava o mar.

    Tinha de correr depressa! O mar queria tomar tudo, os rochedos, as algas e também aquele que corria à sua frente.

    As vezes jogava um braço, à esquerda, ou à direita, um longo braço cinzento e manchado de espuma que cortava o caminho de Daniel.

    Este pulava para o lado, buscava uma passagem no alto das rochas, e a água se retirava chupando os buracos das fendas. Nadando.

     

    Daniel atravessou vários lagos já turvos.

    Não sentia mais o cansaço.

    Ao contrário, havia nele como que uma alegria, como se o mar, o vento e o sol tivessem dissolvido o sal e tivessem libertado.

    O mar estava lindo!

    Os feixes brancos jorravam luz afora, muito altos e retos, e tornavam a cair em nuvens de vapor que deslizavam no vento.

    A Agua nova enchia a cavidade das rochas., lavava a crosta branca, arrancava os tufos de algas.

     

    Ao longe, junto às falésias, brilhava a estrada branca da praia.

    Daniel recordava o naufrágio de Simba quando este fora levado pelas ondas até a ilha de rei Miragem, e exatamente assim é que era agora.

    Corria ligeiro pelos rochedos.

    Seus pés descalços escolhiam as melhores passagens sem que ele sequer tivesse tempo de pensar.

    Decerto vivera ali desde sempre, na planície do fundo do mar em meio a tempestades e naufrágios.

    Ia na mesma velocidade do mar, sem parar, sem recobrar o fôlego, escutando o barulho das ondas.

    Elas vinham do outro lado do mundo, altas, inclinadas para a frente, arrastando a espuma, deslizavam pelas rochas lisas e se estraçalhavam nas fendas.

    O sol cintilava com seu brilho fixo, bem perto do horizonte.

    Dele é que vinha toda aquela força, sua luz empurrava as ondas para a terra.

    Era uma dança que não podia terminar, a dança do sal quando o mar estava baixo, a dança das ondas quando as águas subiam de volta à praia.

     

    Daniel entrou na gruta quando o mar alcançou a muralha de sargaço.

    Sentou-se nos seixos a fim de olhar o mar e o céu.

    As ondas, porém, foram para além das algas e ele teve de recuar para dentro da gruta.

    O mar continuava batendo, jogando seus lençóis d'água que fremiam nos pedregulhos qual água fervendo.

    As ondas continuaram subindo, assim, uma após a outra, até a última barreira de algas e folhagens.

    Encontravam as algas mais secas, os galhos de árvores esbranquiçados de sal, tudo o que há meses se amontoara na entrada da gruta.

    A água esbarrava nos detritos, separava-os, juntava-os na ressaca.

     

    Daniel estava agora com as costas tocando o fundo da gruta. Não podia recuar mais.

    Olhou então para o mar a fim de detê-Io.

    Com todas as suas forças, olhou para ele, sem falar, e mandou as ondas de volta, criando ondas contrárias que quebravam o impulso do mar.

    Várias vezes, as ondas saltaram sobre as muralhas de algas e detritos, respingando o fundo da gruta e cerceando as pernas de Daniel.

     

    Então, de repente, o mar parou de subir.

    O barulho terrível se aplacou, as ondas ficaram mais suaves, mais lentas, como pesadas de espuma.

    Daniel percebeu que acabara.

    Deitou-se nos seixos à entrada da gruta, o rosto virado para o mar.

    Tremia de frio e cansaço, mas nunca experimentara felicidade igual.

     

    Adormeceu assim, naquela paz imóvel, e a luz do sol desceu devagar qual chama que se apaga.

     

    O que foi feito dele, depois disso?

    O que ele fez todos aqueles dias, aqueles meses.

    Dentro da sua gruta de frente para o mar?

    Talvez tenha mesmo ido para a América, ou ido até a China, num cargueiro avançando devagar, de porto em porto. Ilha em ilha.

    Os sonhos que começam assim não devem parar.

    Daqui, para nós que estamos distantes do mar, tudo era impossível e fácil.

    Só sabíamos que algo estranho acontecera.

    Era estranho porque havia nisso tudo um aspecto ilógico que desmentia tudo o que diziam as pessoas sérias.

    Tanto tinham se agitado para lá e para cá, os professores, bedéis, policiais, para encontrar o rastro de Daniel.

     

  • Velhos Soldados Não Morrem - Cemitério Ricoleta

    Viejos Soldados

    Cemiterio de Ricoleta - Ricoleta - Buenos Aires em 28/09/2010

     


    Os velhos soldados não morrem, só desaparecem.

     

  • Quando Um Livro Termina - Gustavo Mafra

    Um Livro Quando Termina

    Gustavo Mafra, 9 dezembro 2009.

     

    Um filme, quando termina, dá a sensação de missão cumprida. Voce sentou, prestou atenção por duas horas, acabou, bola pra frente.

    Um livro, quando termina, dá a sensação de relacionamento terminado.

    Você passou um tempo grande da sua vida andando com aquilo, levando para cima e para baixo, abdicando de outras coisas para se dedicar a ele, e de repente acaba. Fica um vazio.

    Terminar um filme é algo prazeroso.

    Terminar um livro é um pouco doloroso. 

  • Selado, Registrado, Avaliado e Carimbado - Conto Livre Rafael Mafra

    Tem que ser selado, Registrado, Avaliado e Carimbado.

    Rafael Mafra

     

    Guga, depois de nove meses de ansiedade, pode finalmente ver seu filho nascer.

    Mas um parto não é uma coisa simples e por isso ele teve que se desdobrar, e virar noite, e tentar dormir apertado no hospital.

    Quando finalmente dormiu, o tema de seu sonho foi, é claro, o Eric.

    Ou melhor, seu filho.

    O nome dele?

    Bem, no sonho Guga se deparava com uma Pati que, após dar à luz o bebê que por nove meses chamou de Eric, decidiu que seu nome seria Vítor.

    Guga, atônito, tentava argumentar que já estava tudo pronto, que o enfeite da porta tinha Eric escrito, que todos na família já haviam se acostumado e o Blog do Eric!

    Como ela queria mudar tudo agora?

     

    Sonhos não são o campo mais apropriado para discussões racionais.

    E, neste especificamente, não havia nenhuma.

    Seria Vítor (ou Victor, sei lá), e pronto.

    E ponto final.

     

    Mas sono de pai, mesmo em se tratando de quem se trata, não dura muito.

    Guga acordou, na luz lúgubre do quarto de hospital.

    Levantou e foi olhar o Eric, digo, seu filho.

    Olhou pra ele, lembrando do sonho.

    Ficou imaginando se aquilo seria um sinal, uma manifestação além-da-compreensão de que aquele garotinho já nascera com nome, que talvez não coubesse a ele escolher tão arbitrariamente.

    Balançou a cabeça, esfregou os olhos, coçou as costelas e foi tomar providências relativas ao bebê. Afinal, ele precisava ser registrado.

     

    Foi lá e registrou! Não seria só um sonho que demoveria este cabeludo de chamar seu filho como ele queria.

    Sonho é só um sonho que se sonha só.

     

    Junto com a Pati, ele sonhou acordado que ele se chamaria Eric.

     

    E, já diria Raulzito, sonho que se sonha junto é realidade.

     

  • Solidão - Poesia Livre de Igor Mafra Cerqueira - Idade: 9 anos

     

    SOLIDÃO.

    Igor Mafra Cerqueira, em maio de 2006, aos 9 anos de idade.

     

    A solidão é a emoção que fica dentro do meu coração,

    Solidão é a magia que faz meu alto astral ficar lá no chão,

     

    Solidão é a minha doação para todos que estão com emoção,

    Solidão também é a coisa que me faz triste porque estou só,

     

    Solidão é uma daquelas distrações da televisão,

    Solidão é principalmente aquele que está só.

  • Sacanagem na Semana dos Namorados - Conto Livre de Martha Medeiros

    Sacanagem na Semana dos Namorados

    Martha Medeiros, publicado no site Almas Gêmeas, em 9 de junho de 2003.

     

    Esta é a semana dos namorados, mas não vou falar sobre ursinhos de pelúcia nem sobre bombons.

    É o momento ideal pra falar de sacanagem.

    Se dei a impressão de que o assunto será ménages à trois, sexo selvagem e práticas perversas, sinto muito desiludi-lo.

    Pretendo, sim, é falar das sacanagens que fizeram com a gente.

     

    Fizeram a gente acreditar que amor mesmo, amor pra valer, só acontece uma vez, geralmente antes dos 30 anos.

    Não contaram pra nós que amor não é racionado nem chega com hora marcada.

    Fizeram a gente acreditar que cada um de nós é a metade de uma laranja, e que a vida só ganha sentido quando encontramos a outra metade.

    Não contaram que já nascemos inteiros, que ninguém em nossa vida merece carregar nas costas a responsabilidade de completar o que nos falta: a gente cresce através da gente mesmo.

    Se estivermos em boa companhia, é só mais rápido.

     

    Fizeram a gente acreditar numa fórmula chamada "dois em um", duas pessoas pensando igual, agindo igual, que isso era que funcionava.

    Não nos contaram que isso tem nome: anulação.

    Que só sendo indivíduos com personalidade própria é que poderemos ter uma relação saudável.

    Fizeram a gente acreditar que casamento é obrigatório e que desejos fora de hora devem ser reprimidos. 

     

    Fizeram a gente acreditar que os bonitos e magros são mais amados, que os que transam pouco são caretas, que os que transam muito não são confiáveis, e que sempre haverá um chinelo velho para um pé torto. 

    Ninguém nos disse que chinelos velhos também têm seu valor, já que não nos machucam, e que existe mais cabeças tortas do que pés.

     

    Fizeram a gente acreditar que só há uma fórmula de ser feliz, a mesma para todos, e os que escapam dela estão condenados à marginalidade.

    Não nos contaram que estas fórmulas dão errado, frustram as pessoas, são alienantes, e que poderíamos tentar outras alternativas menos convencionais.

     

    Sexo não é sacanagem.

    Sexo é uma coisa natural, simples - só é ruim quando feito sem vontade.

    Sacanagem é outra coisa.

    É nos condicionarem a um amor cheio de regras e princípios, sem ter o direito à leveza e ao prazer que nos proporcionam as coisas escolhidas por nós mesmos.

  • Sábado Sangrento - Conto Livre Rafael Mafra

    Sábado Sangrento.

    Rafael Mafra - junho de 1998

     

    Levantou-se.

    Era melhor nem pensar que era mais um dia de trabalho, mais um dia como todos os outros.

    Sem pensar, então, foi até o banheiro, lavou o rosto e se olhou no espelho.

    - Fazer a barba - pensou.

    Mecanicamente ele a fez.

    Seus instintos matinais o fizeram escovar os dentes também. Depois, café, pão, ele poderia fazer isso depois de morto!

    Vestiu-se: temo, gravata (maldita gravata!), e, novamente, escovar os dentes.

    Foi aí que aconteceu.

    Algo alterou sua rotina idiossincrática!

    Sim! Caiu pasta de dente na sua gravata!

    Pode não parecer nada demais, mas foi a única coisa diferente que lhe aconteceu nos últimos 345 dias úteis.

     

    Sandoval- católico apostólico romano praticante, como dizia orgulhosamente - ficou muito feliz, pois aquilo era realmente diferente.

    Lá foi Sandoval todo feliz, com a gravata manchada de alívio refrescante, trabalhar.

     

    No caminho, de tanta felicidade, resolveu fazer algo que realmente o deixava realizado.

    E como era excitante, moderno, como era legal (como era despojado o vocabulário de Sandoval!) sacar dinheiro no banco eletrônico.

    Normalmente ele preferia usar o cartão de crédito, entretanto hoje era um dia especial.

    E foi no centro da cidade, pra todo mundo ver seu sagrado ato de sacar dinheiro numa maquininha que, aliás, era muito mais educada que qualquer caixa de banco.

    Ela pedia, inclusive, por favor. Realmente muita fina.

    Lentamente, retirou o cartão.

    Inseriu tal e qual o indicado, mas ele nem precisou olhar as instruções porque ele dominava a fera.

    Estremeceu de prazer quando a máquina deu aquela" sugadinha" pro cartão entrar de vez.

    Pressionou "saque" , num delírio.

    Digitou sua senha, que não era seu aniversário! Isso seria muito banal. Era seu aniversário...mais dez!

    -Sou brilhante- pensou.

    Aí, momento de tensão.

    Escolher o valor.

    Porque não havia pensado nisso antes..50 reais, não 100! Claro! Ele queria ver o peixe de novo.

    Peixe sagrado aquele da nota de cem. Fim da pescaria, abriu-se a portinhola com o dinheiro e, simultaneamente, a maravilha tecnológica cuspiu o cartão.

    Meio atabalhoado, Sandoval pegou o cartão primeiro e embananou-se na hora de guardá-lo e, de supetão, a portinhola fechou-se com dinheiro e tudo.

    Com o peixinho de Sandoval.

     

    Mas como, indagou-se. Como isso foi acontecer?

    Já estava exaltando-se.

    Por que, meu Deus, isso tinha que acontecer logo comigo?!

    Eu quero meu dinheiro!

    Eu quero! - bradava, enraivecido.

    Já era notável a vermelhidão de seu rosto, veias lhe saltaram do pescoço, seu cenho, antes calmo, era de um lutador de boxe, e ele sentiu algo que lhe vinha subindo, subindo...

     

    -AHHHH! Em milésimos de segundos, cravou seus dedos na portinhola e puxou com uma força descomunal e, ainda assim, ela não abriu.

    Bateu com o joelho repetidas vezes, e aquele plástico quebrou-se em mil pedaços.

    Então, abaixou-se como um primata, e olhou com curiosidade animal pelo furo, ou melhor, pelo rombo aberto pelos seus joelhos e o dinheiro não estava lá.

    Sem pensar uma fração de segundo, meteu o braço dentro da portinhola, e seguiu o caminho que era possível.

    A despeito de sua manga de paletó rasgada, ainda quebrou algumas ferragens que lhe impediam de chegar ao objetivo, sentiu aquela textura característica das cédulas e puxou.

     

    Olhando para seu braço sangrando, com o semblante transtornado e sorriu de satisfação, um sorriso diabólico.

    Enfiou a cédula toda engrunhada na boca e bateu no peito com vigor.

    Antes de sair, precisava passar pela porta de vidro que separava o local de retirada de dinheiro, o que fez com uma cabeçada inacreditável que a trincou por inteiro.

    Trespassou-a como se não fosse nada e, com um requinte de crueldade, chutou violentamente, com o bico do pé, o cachorro que passeava por ali.

    Não sem antes ajeitar o óculos.

     

    A multidão perplexa só assistiu ao homem sangrando pela testa e pelo braço esquerdo entrar em seu carro, nota na boca e largar calmamente pelas ruas da cidade.

     

    No carro, olhou o jornal que estava no banco do carona e constatou que era sábado.

     

    E, oras bolas, sábado não era dia de trabalhar!

    Aquela gravata então não alterou nada, não alterou um dia como os outros.

    E, por isso, ele não teria motivos para sacar o dinheiro no banco.

    Retirou a nota de cem da boca, colocou-a no bolso pensou como era bobo e como a vida era engraçada.

     

    Riu discretamente: -Hoje é Sábado. 

     

    Parou na esquina, já que não tinha mais que ir ao trabalho, pra tomar um refrigerante dietético naquela máquina genial de onde caiam as latinhas.

    Nela enfiou o dinheiro ensangüentado e apertou o botão de sua opção.

    Mas a lata não caiu.

    Não há testemunhas vivas do fato. 

     

    Um rapaz sedento se dirige a uma máquina de refrescos.

    Coloca uma cédula e aperta o botão do refrigerante desejado.

    Estranhando a demora da queda da lata, abaixa-se e olha pelo buraco por onde ela deveria aparecer e tudo que vê são dois olhos vermelhos.

     

    Não acreditando no que vê, esfrega os olhos, como que para despertar ,e aproxima-se um pouco mais.

    Ao longe ouve-se um grito.

    Nunca mais o rapaz foi visto. Nem Sandoval. 

     

    Por enquanto. Se você teve o privilégio de ler este conto, não se esqueça que é a primeira vez que eu faço isso, então não me culpe, afinal Jesus também não pregava com dezoito anos, nem Jack, o Estripador, matava aos dezoito. E Pelé que se exploda. Obrigado pela paciência. H.

  • Premio Nobel de Literatura de 1901 à 2012.

     

    PREMIO NOBEL DE LITERATURA

    Vencedores do prêmio Nobel de literatura. O prêmio Nobel foi criado pelo sueco Alfredo Nobel, inventor da dinamite. A entrega dos prêmios acontece em Estocolmo, Suécia, no dia 10 de dezembro de cada ano, dia da morte de Nobel, que fundou a premiação através de seu testamento. O Nobel pode ser recebido individualmente ou concedido a até três pessoas na mesma categoria. O prêmio Nobel de Literatura é decidido pela Academia Sueca. Nunca um brasileiro o recebeu.

    Eis os vencedores do prêmio Nobel de Literatura desde sua primeira edição em 1901, na ordem decrescente.

    2012 - Mo Yam

    2011 - Thomas Transtomer

    2010 - Mario Vargas Llosa

    2009 - Herta Muller

    2008 - Jean-Marie Gustave Le Clézio

    2007 - Doris Lessing

    2006 - Orhan Pamuk

    2005 - Harold Pinter

    2004 - Elfriede Jelinek

    2003 - J.M. Coetzee

    2002 - Imre Kertesz

    2001 - V.S. Naipaul

    2000 - Gao Xingjian

    1999 - Günter Grass

    1998 - José Saramago

    1997 - Dario Fo

    1996 - Wislawa Szymborska

    1995 - Seamus Heaney

    1994 -  Kenzaburo Oe

    1993 - Toni Morrison

    1992 - Derek Walcott

    1991 - Nadine Gordimer

    1990 - Octavio Paz

    1989 - Camilo Jose Cela

    1988 - Naguib Mahfouz

    1987-  Joseph Brodsky

    1986 - Wole Soyinka

    1985 - Claude Simon

    1984- Jaroslav Seifert

    1983 - William Golding

    1982 - Gabriel Garcia Marquez

    1981 - Elias Canetti

    1980 - Czeslaw Milosz

    1979 - Odysseus Elytis

    1978 - Isaac Bashevis Singer

    1977 - Vicente Aleixandre

    1976 - Saul Bellow

    1975 - Eugenio Montale

    1974 - Eyvind Johnson e Harry Martinson

    1973 - Patrick White

    1972 - Heinrich Boell

    1971 - Pablo Neruda

    1970 - Alexander Solzhenitsyn

    1969 - Samuel Beckett

    1968 - Yasunari Kawabata

    1967 - Miguel A. Asturias

    1966 - Shmuel Y. Agnon e Nelly Sachs

    1965 - Mikhail Sholokhov

    1964 -  Jean-Paul Sartre (recusou o prêmio)

    1963 - Giorgos Seferis

    1962 - John Steinbeck

    1961 - Ivo Andric

    1960 - Saint-John Perse

    1959 - Salvatore Quasimodo

    1958 - Boris Pasternak

    1957 - Albert Camus

    1956 - Juan R. Jiménez

    1955 - Halldor Laxness

    1954 -  Ernest Hemingway

    1953 - Winston S. Churchill

    1952 - François Mauriac

    1951 - Pär Lagerkvist

    1950 - Bertrand Russel

    1949 - William Faulkner

    1948 - Thomas Stearns Eliot

    1947 - André Gide

    1946 - Hermann Hesse

    1945 - Gabriela Mistral

    1944 - Johannes V. Jensen

    1939 - Frans Eemil Sillanpää

    1938 - Pearl S. Buck

    1937 - Roger Martin du Gard

    1936 - Eugene O’Neill

    1934 - Luigi Pirandello

    1933 - Ivan Alekseyevich Bunin

    1932 - John Galsworthy

    1931 - Erik Axel Karlfeldt

    1930 - Sinclair Lewis

    1929 -  Thomas Mann

    1928 -  Sigrid Undset

    1927 - Henri Bergson

    1926 - Grazia Deledda

    1925 - George Bernard Shaw

    1924 - Wladyslaw Stanislaw Reymont

    1923 - William Butler Yeats

    1922 - Jacinto Benavente

    1921 - Anatole France

    1920 - Knut Pedersen Hamsun

    1919 - Carl Friedrich Georg Spitteler

    1917 - Henrik Pontoppidan

    1917 - Karl Gjellerup

    1916 - Carl Gustaf Verner von Heidenstam

    1915 - Romain Rolland 

    1913 - Rabindranath Tagore

    1912 - Gerhart Hauptmann

    1911 - Maurice Maeterlinck

    1910 - Paul Heyse

    1909 -Selma Lagerlöf

    1908 - Rudolf Eucken

    1907 - Rudyard Kipling

    1906 - Giosuè Carducci

    1905 - Henryk Sienkiewicz

    1904 - Frédéric Mistral

    1904 - José Echegaray y Eizaguirre

    1903 - Bjørnstjerne Bjørnson

    1902 - Theodor Mommsen

    1901 -  Sully-Prudhomme

  • Para Ser Autor - Miguel Sanches Neto

    Os Mandamentos Para Ser Autor  - Niguel Sanches Neto - Outubro 2007

    Publicação da Revista Entrelivros - Outubro de 2007

     

    I - Não fique mandando seus originais para todo mundo.

    Acontece que você escreve para ser lido extramuros, e deseja testar sua obra num terreno mais neutro.

    E não quer ficar a vida inteira escrevendo apenas para uma pessoa.

    O que fazer então para não virar um chato?

    No passado, eu aconselharia mandar os textos para jornais e revistas literárias, foi o que eu fiz quando era um iniciante bem iniciante.

    Mas os jovens agora têm uma arma mais democrática.

    Publicar na internet.

    Há muitos espaços coletivos, uma liberdade de inclusão de textos novos e você ainda pode criar seu próprio site ou blog, mas cuidado para não incomodar as pessoas, enviando mensagens e avisos para que leiam você.

     

    II - Publique seus textos em sites e blogs e deixe que sigam o rumo deles.

    Depois de um tempo publicando eletronicamente, você vai encontrar alguns leitores.

    Terá de ler os textos deles, e dar opiniões e fazer sugestões, mas também receberá muitas dicas.

     

    III - Leia os contemporâneos, até para saber onde é o seu lugar.

    Existe um batalhão de internautas ávidos por leitura e em alguns casos você atingirá o alvo e terá acontecido a magia de um texto encontrar a pessoa que o justifica.

    Mas todo texto escrito na internet sonha um dia virar livro.

    Sites e blogs são etapas, exercícios de aquecimento.

    Só o livro impresso dá status autoral.

    O que fazer quando eu tiver mais de dois gigas de textos literários?

    Está na hora de publicar um livro maior do que Em busca do tempo perdido?

    Bem, é nesse momento que você pode continuar sendo um escritor iniciante comum ou subir à categoria de iniciante com experiência.

    Você terá que reduzir essas centenas e centenas de páginas a um formato razoável, que não tome muito tempo de leitura de quem, eventualmente, se interessar por um livro de estréia.

    Para isso, você terá de ser impiedoso, esquecer os elogios da mulher e dos amigos e selecionar seu produto, trabalhando duro para que fique sempre melhor.

     

    IV - Considere apenas uma pequenina parte de toda a sua produção inicial, e invista na revisão dela, sabendo que revisar é cortar.

    O livro está pronto.

    Não tem mais do que 200 páginas, você dedicou anos a ele e ainda continua um iniciante.

    Mas um iniciante responsável, pois não mandou logo imprimir suas obras completas com não sei quantos tomos, logo você que talvez nem tenha completado 30 anos.

    Mas você quer fazer circular a sua literatura de maneira mais formal.

    Quer o livro impresso.

    E isso é hoje muito fácil.

    Você conhece um amigo que conhece uma gráfica digital que faz pequenas tiragens e parcela em tantas vezes.

    O livro está pronto.

    E anda sobrando um dinheirinho, é só economizar na cerveja.

     

    V - Gaste todo seu dinheiro extra em cerveja, viagens, restaurantes e não pague a publicação do próprio livro.

    Se você fizer isso, ficará novamente ansioso para mandar a todo mundo o volume, esperando opiniões que vão comparar o seu trabalho ao dos mestres.

    O livro impresso, mesmo quando auto-impresso, dá esta sensação de poder.

    Somos enfim Autores.

    E podemos montar frases assim: Borges e eu valorizamos o universal.

    Do ponto de vista técnico, Borges e eu estamos no mesmo nível: produzimos obras impressas; mas a comparação não vai adiante.

    Então como publicar o primeiro livro se não conhecemos ninguém nas editoras?

    E aí começa um outro problema: procurar pessoas bem postas em editoras e solicitar apresentações.

    Na maioria das vezes isso não funciona.

    E, mesmo quando o livro é publicado, ele não acontece, pois foi um movimento artificial.

     

    VI - Nunca peça a ninguém para indicar o seu livro a uma editora.

    Se por acaso um amigo conhece e gosta de seu trabalho, ele vai fazer isso naturalmente, com alguma chance de sucesso.

    Tente fazer tudo sozinho, como se não tivesse ninguém mais para ajudar você do que o seu próprio livro.

    Sim, este livro em que você colocou todas as suas fichas.

    E como você só pode contar com ele...

     

    VII - Mande seu livro a todos os concursos possíveis e a editoras bem escolhidas, pois cada uma tem seu perfil editorial.

    É melhor gastar seu dinheiro com selos e fotocópias do que com a impressão de uma obra que não será distribuída e que terá de ser enviada a quem não a solicitou.

    Enquanto isso, dedique-se a atividades afins para controlar a ansiedade, porque essas coisas de literatura demoram, demoram muito mesmo.

    Você pode traduzir textos literários para consumo próprio ou para jornais e revistas, pode fazer resenhas de obras marcantes, ler os clássicos ou simplesmente manter um diário íntimo.

    O importante é se ocupar.

    Com sorte e tendo o livro alguma qualidade além de ter custado tanto esforço, ele acaba publicado.

    Até o meu terminou publicado, e foi quando me tornei um iniciante adulto.

    Tinha um livro de ficção no catálogo de uma grande editora.

    E aí tive de aprender outras coisas.

    Há centenas de livros de iniciantes chegando aos jornais e revistas para resenhas e uma quantidade muito maior de títulos consagrados.

    E a maioria vai ficar sem espaço nos jornais.

    E é natural que os exemplares distribuídos para a imprensa acabem nos sebos, pois não há resenhistas para tantas obras.

     

    VIII - Não force os amigos e conhecidos a escrever sobre seu livro.

    Não quer dizer que eles não possam escrever, podem sim, mas mande o livro e, se eles não acusarem recebimento ou não comentarem mais o assunto, esqueça e não lhes queira mal,

    eles são nossos amigos mesmo não gostando do que escrevemos.

    Se um ou outro amigo escrever sobre o livro, festeje mesmo se ele não entender nada ou valorizar coisas que não julgamos relevantes em nosso trabalho.

    E mande umas palavras de agradecimento, pois você teve enfim uma apreciação.

    E se um amigo escrever mal de nosso livro, justamente dessa obra que nos custou tanto?

    Se for um desconhecido, ainda vá lá, mas um amigo, aquele amigo para quem você fez isso e aquilo.

     

    IX - Nunca passe recibo às críticas negativas.

    Ao publicar você se torna uma pessoa pública.

    E deve absorver todas as opiniões, inclusive os elogios equivocados.

    Deixe que as opiniões se formem em torno de seu trabalho, e talvez a verdade suplante os equívocos, principalmente se a verdade for que nosso trabalho não é lá essas coisas.

    O livro está publicado, você já pensa no próximo, saíram algumas resenhas, umas superficiais, outras negativas, uma muito correta.

    Você é então um iniciante com um currículo mínimo.

    Daí você recebe a prestação de contas da editora, dizendo que, no primeiro trimestre, as devoluções foram maiores do que as vendas.

    Como isso é possível?

    Vejam quantos livros a editora mandou de cortesia.

    Eu não posso ter vendido apenas 238 exemplares se, só no lançamento, vendi 100, o gerente da livraria até elogiou – enfim uma vantagem de ter família grande.

     

    X - Evite reclamar de sua editora.

    Uma editora não existe para reverenciar nosso talento a toda hora.

    É uma empresa que busca o lucro, que tem dezenas de autores iguais a nós e que quer ter lucro com nosso livro, sendo a primeira prejudicada quando ele não vende.

    Não precisamos dizer que é a melhor editora do mundo só porque nos editou, mas é bom pensar que ocorreu uma aposta conjunta e que não se alcançou o resultado esperado.

    Mas que há oportunidades para outras apostas e, um dia, quem sabe...

    Foi tentando seguir estas regras que consegui ser o autor iniciante que hoje eu sou.

  • Livros Mais Vendidos dos Escritores da Academia Brasileira de Letras ABL

    Os Livros Mais Vendidos dos Imortais da Academia Brasileira de Letras ABL

    Revista Veja - Editora Abril - Agosto de 2002.

     

     

    Os livros mais vendidos dos imortais:

     

    1. Paulo Coelho – O Alquimista – vendeu 11 milhões de exemplares

    2, João Ubaldo Ribeiro – Viva o Povo Brasileiro – vendeu 800 mil

    3, Zélia Gattai – Anarquistas Graças a Deus – vendeu 170 mil

    4. Lygia Fagundes Telles – Ciranda de Pedra – vendeu 150 mil

    5. Carlos Heitor Conny – Quase Memória – vendeu 105 mil

    6. Rachel de Queiroz – O Quinze – vendeu 100 mil

    7. Josué Montelo – Os tambores de São Luis – vendeu 30 mil

    8. Nelida Pinõn – A Republica dos Sonhos – vendeu 25 mil

     

  • Dez Mandamentos do Estilo - Camila Ribeiro

    Os dez mandamentos do estilo

    Camila Ribeiro, amiga de Fred Monteiro Filho, por e-mail

     

    "O estilo deve ter três virtudes: clareza, clareza e clareza."
    Anatole France

     

    Nós escrevemos para o leitor.

    Queremos que ele leia e entenda nosso texto.

    E mais: que aprecie a leitura, que não se arrependa da escolha.

    Com os dados à mão, objetivo definido e plano traçado, é hora de redigir.

    Como? Sem perder de vista o leitor.

    Seja natural.

    Imagine que ele esteja à sua frente ou ao telefone conversando com você.

    Fique à vontade.

    Espaceje suas frases com pausas e, sempre que couber, com perguntas diretas.

    Confira ao texto um toque humano.

    Você está escrevendo para as pessoas.

    Não o canse.

    Vá direto ao assunto.

    Comece pelo mais importante.

    E comece bem, com uma frase atraente, que lhe desperte o interesse e o estimule a prosseguir a leitura.

    No final, dê-lhe o prêmio: um fecho de ouro, como inesquecível sobremesa a coroar um lauto almoço.

    Os dados, o objetivo e o plano são os ingredientes.

    A forma de prepará-los é que dá o toque especial ao prato.

    Uma frase particularmente elegante, capaz de veicular com clareza e simplicidade a mensagem que você quer transmitir, é conquista pessoal, exercício diário de desapego, humildade e vontade de melhorar.

    William Strunk Jr, professor de altos estudos da língua inglesa, costumava dizer: "A prosa vigorosa é concisa. A frase não deve ter palavras desnecessárias, nem o parágrafo frases

    desnecessárias, pela mesma razão que o desenho não deve ter linhas desnecessárias, nem a máquna partes desnecessárias. Isso não quer dizer que o autor faça breves todas as suas

    frases, nem que evite todo detalhe, nem que trate seus temas só na superfície: apenas que cada palavra conta".

    Os segredos do estilo mais eficiente podem ser resumidos em dez preceitos:

     

    1. Use frases curtas e incisivas:

    O leitor só consegue dominar determinado número de palavras antes que seus olhos peçam uma pausa.

    Se a frase for muito longa, ele se sentirá perdido, sem capacidade de compreender-lhe o completo significado.

    Por isso, use sentenças de, no máximo, uma linha e meia.

    Lembre-se de que uma frase longa nada mais é do que duas curtas.

     

    2. Prefira palavras breves e simples:

    Palavras longas e pomposas funcionam como uma cortina de fumaça entre quem escreve e quem lê.

    Seja simples.

    Entre dois vocábulos, prefira o mais curto.

    Entre dois curtos, o mais expressivo.

     

    3. Ponha as sentenças na forma positiva:

    A regra é dizer o que é, não o que não é.

    Não ser honesto é ser desonesto; não lembrar é esquecer; não dar atenção é ignorar; não comparecer é faltar; não pagar em dia é atrasar o pagamento.

    Dizer o que não é em geral soa hesitante, impreciso, pouco objetivo.

    Dá a impressão de se estar fugindo do compromisso de afirmar.

    Compare as frases: Ele não acredita que o ministro chegue a tempo. Ele duvida que o ministro chegue a tempo.

    O presidente eleito diz que não fará alterações profundas no Plano Real. O presidente eleito nega que faça alterações profundas no Plano Real.

    Vargas Llosa não chegará hoje . Vargas Llosa chegará no sábado.

     

    4. Opte pela voz ativa:

    A voz ativa é mais direta, vigorosa e concisa que a passiva.

    Dê-lhe preferência sempre que puder.

    Ciro Gomes caracterizou o compulsório como medida transitória é construção preferível a  "O compulsório foi caracterizado por Ciro Gomes como medida transitória."

     

    5. Escolha termos específicos:

    Há palavras que são mais específicas do que outras.

    Gato siamês é mais singular do que simplesmente gato; homem, mais do que animal; laranjeira, mais que árvore; árvore, mais do que planta ou vegetal.

    Trabalhador é termo de sentido geral, muito amplo; jornalista tem sentido mais restrito; jornalista do Correio Braziliense, mais ainda.

    Ao descrever uma cena de rua, você pode referir-se genericamente a transeuntes ou particularizar: homens, jovens, estudantes, alunos da Escola Normal.

    Escrever "Foi um período difícil" constitui vagueza. "Estive desempregado durante três meses" é mais preciso, bem melhor.

    Não foi por acidente que Gonçalves Dias compôs: "Minha terra tem palmeiras / Onde canta o sabiá". Se tivesse dito Minha terra tem árvores / Onde canta o pássaro, seus versos estariam

    enterrados com ele, ignorados de todos.

    Siga a regra: o específico é preferível ao genérico; o definido ao vago; o concreto ao abstrato.

     

    6. Abuse de substantivos e verbos :

    Escreva com a convição de que no idioma só existem substantivos e verbos.

    As demais classes de palavras devem ser usadas com o cuidado do ourives e a parcimônia do sovina.

     

    7. Respeite a harmonia:

    A harmonia está ligada ao ouvido.

    Implica a habilidade de combinar as palavras e frases com elegância, sem tropeços, ecos, repetições ou dissonâncias.

    Os românticos impressionistas dizem que cada um escreve como quer, mas até eles reconhecem que a harmonia é o segredo dos grandes escritores, qualidade essencial do estilo.

     

    Por isso, leve em conta estes princípios:

     

    a. Dê prioridade ao termo mais curto:

    Na colocação dos termos na oração, o mais curto (o que tiver o menor número de sílabas) deve preceder o mais longo:

    Na livraria, comprei uma gramática, um dicionário e vários livros de geografia e história é construção preferível a

    Na livraria, comprei vários livros de geografia e história, uma gramática e um dicionário.

    Examine outros exemplos:

    O Mustang volta ao Brasil com tecnologia e desenho modernos por R$ 39mil

    (não: O Mustang volta com tecnologia e desenhos modernos por R$ 69 mil ao Brasil).

    Gláuber Rocha, diretor dos filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, foi homenageado no festival é preferível a:

    O diretor dos filmes Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, Gláuber Rocha, foi homenageado no festival.

    O Congresso Nacional votará o projeto na próxima semana em regime de urgência urgentíssima. Nunca:

    O Congresso Nacional voltará, na próxima semana em regime de urgência urgentíssima, o projeto.

     

    b. Evite os ecos:

    A rima, qualidade da poesia, é considerada defeito da prosa.

    Releia seus textos, de preferência em voz alta, para verificar se ocorre repetição de sons iguais ou semelhantes

    Mais confusão e provocação no Maranhão.

    O Plano Real acabou com a inflação inercial.

    O rigor do calor de Salvador lhe causava maior pavor.

     

    c. Cuidado com as cacofonias:

    Às vezes, a última sílaba de uma palavra se junta à primeira de outra e forma novo vocábulo, soando desagradavelmente aos ouvidos do leitor atento ou desavisado:

    por cada;

    uma mão;

    por razões,

    boca dela,

    por tal,

    por tais,

    por tão.

     

    d. Fuja da monotonia:

    As repetições, seja de palavras, seja de estruturas, são as grandes responsáveis pela monotonia do texto, transmitem a impressão de inexperiência , descuido e pobreza de vocabulário.

    Existem formas de evitá-las:

    1) suprimir a palavra;

    2) substituí-la por sinônimo ou pronome; e

    3) dar outro torneio à frase.

     

    8. Aproxime termos e orações que se relacionem pelo sentido.

    A liberdade de colocação de termos na frase e orações no período encontra limites nas exigências da clareza e da coerência.

    A boa norma manda "amarrar"cada termo determinante ao respectivo termo determinado.

    Haverá um seminário sobre Aids na Câmara dos Deputados.

    O seminário se realizará na Câmara, mas a colocação do adjunto adverbial na Câmara dos Deputados junto do termo Aids leva a outra leitura: o seminário tratará da ocorrência de Aids na Câmara dos Deputados.

    Evita-se a ambigüidade aproximando o adjunto adverbial do termo a que se refere: Na Câmara dos Deputados, haverá um seminário sobre Aids.

     

    9. Dê clareza às declarações.

    Dificultar a compreensão do texto é colocar uma pedra no caminho do leitor.

    Para que obrigá-lo a gastar tempo e energia na transposição do obstáculo?

    Facilite-lhe a passagem.

    Nas declarações longas, não o deixe ansioso.

    Identifique o autor imediatamente – antes da citação ou depois da primeira frase.

    Veuillot ensina: "É preciso escrever com a convicção de que só há duas palavras no idioma: o substantivo e o verbo. Ponhamo-nos em guarda contra as outras palavras". 

    "É preciso escrever com a convicção de que só existem duas palavras no idioma: o substantivo e o verbo", ensina Veuillot. Ponhamo-nos em guarda contra as outras palavras." 

    Nas declaraões curtas, a identificação do autor pode ser feita no começo ou no fim da fala:

    "Toda questão tem dois lados", escreveu Pitágoras.

    Pitágoras escreveu: "Toda questão tem dois lados".

     

    10. Seja conciso:

    Cultivar a economia verbal sem prejuízo da completa e eficaz expressão do pensamento tem dupla vantagem: respeita a paciência do leitor e poupa tempo e espaço (bens escassos no jornal).

    Conciso não significa lacônico, mas denso.

    Opõe-se a vago, impreciso, verborrágico.

    No estilo denso, cada palavra, cada frase, cada parágrafo devem estar impregnados de sentido.

    Eis algumas sugestões que contribuem para a concisão:

     

    a. Dispense, nas datas, os substantivos dia, mês e ano: em 20 de janeiro (não no dia 20 de janeiro);

    em dezembro (não no mês de dezembro);

    em 1995 (não no ano de 1995).

     

    b. Substitua a locução adjetiva por adjetivo:

    material de guerra ( material bélico);

    pessoa sem discrição (pessoa indiscreta).

     

    c. Troque a oração adjetiva por adjetivo:

    animal que se alimenta de carne (animal carnívoro);

    pessoa que planta café (cafeicultor);

    criança que não tem educação (criança mal-educada).

     

    d. Use aposto nominal em vez de oração apositiva:

    Brasília, que é a capital do Brasil, oferece serviços públicos de boa qualidade  - Brasília, capital do Brasil, oferece serviços públicos de boa qualidade.

    Jarbas Passarinho, que foi eleito senador pelo Pará, nasceu no Acre  - Jarbas Passarinho, eleito senador pelo Pará, nasceu no Acre.

    Jacó amou Raquel, que era a a filha mais nova de Labão  - Jacó amou Raquel, a filha mais nova de Labão.

     

    e. Substitua a oração pelo termo nominal correspondente:

    A comunidade exige que o criminoso seja punido (a punição do criminoso).

    Ninguém duvidava que o plano tivesse êxito (do êxito do plano) .

     

    f. Reduza orações:

    Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro  -  Explicado o título, passo a escrever o livro.

    Depois de redigir o texto, pensarei na legenda. -  Redigido o texto, pensarei na legenda.

     

    g. Elimine palavras ou expressões desnecessárias:

    decisão tomada no âmbito da diretoria (decisão da diretoria);

    trabalho de natureza temporária (trabalho temporário);

    problema de ordem emocional (problema emocional);

    curso em nível de pós-graduação (curso de pós-graduação);

    lei de alcance federal (lei federal);

    doença de característica sexual (doença sexual);

    casos de ocorrência (ocorrências);

    casos de atraso (atrasos).

     

    h. Substitua a locução verbo + substantivo pelo verbo:

    Fazer uma viagem (viajar).

    Fazer música (compor).

    Pôr as idéias em ordem (ordenar as idéias).

    Pôr moedas em circulação (emitir moedas).

     

  • Todo Critico é Chato - Osman Lins.

    Entrevista (extrato) de Osman Lins, em maio de 1969 ao jornal O Estado de São Paulo.

    "Não considero o crítico meu professor ou meu juiz, não espero que dê nota a meus livros, como se faz com um dever escolar."

    "Gostaria que a crítica se preocupasse mais com o leitor, preparando-o para a obra a ser lida.

    Seria também interessante que o crítico, sempre que possível, não tentasse parecer inteligente demais.

    Nada mais apropriado para afugentar o leitor, principalmente o leitor de ficção, que uma crítica demasiado erudita."

     

  • Dez Mandamentos da Redação - Dad Squarisi

    Os 10 mandamentos da redação nota 10
    Dad Squarisi - Correio Braziliense - 3 de julho 2011

     

    1. Seja adequado

    A língua se parece a imenso armário.

    Nele há todos os tipos de roupas.

    O desafio: escolher a mais adequada para o momento.

    A piscina pede biquíni.

    O baile de gala, longo e black-tie.

    O cineminha, traje esporte.

    Trocar as vestes tem nome.

    É inadequação.

    O mesmo princípio orienta o texto.

    Horóscopo exige palavras abstratas e genéricas.

    Dirá que o domingo trará surpresas.

    Jamais que a pessoa ganhará na loteria ou comprará um carro.

    Se e-mails, redações de concurso e provas de vestibular usarem a língua do horóscopo, terão destino certo - a reprovação.

    Não se trata de certo ou errado.

    Mas de adequado ou inadequado.

    Pais arrancam os cabelos quando veem a comunicação da moçada nas salas de bate-papo.

    Ali estão abreviaturas inventadas, troca de letras, signos incompreensíveis.

    "Não é português", reclamam eles.

    Enganam-se.

    É o português adequado à ocasião.

    Para participar da comunidade marcada pela informalidade e rapidez, o jovem tem de usar o código do grupo.

    Recusar-se a fazê-lo tem preço.

    É a exclusão.

     

    2. Seja claro

    Montaigne, há 400 anos, disse que o estilo tem três virtudes.

    A primeira: clareza. A segunda: clareza. A terceira: clareza.

    Graças a ela, o receptor entende a mensagem sem ambiguidades.

    Como ensina Íñigo Dominguez, "uma frase tem de estar construída de tal forma que não só se entenda bem, mas que não se possa entender de outra forma'.

     

    3. Seja preciso

    A precisão tem íntima relação com as palavras.

    Buscar o vocábulo certo para o contexto é trabalho árduo.

    Exige atenção, paciência e pesquisa.

    Consulte dicionários e textos especializados.

     

    4. Seja natural

    Imagine que o leitor, o ouvinte ou o telespectador esteja à sua frente conversando com você.

    Sinta-se à vontade.

    Faça pausas e perguntas diretas.

    Dê ao texto um toque humano.

    Você se dirige a pessoas de carne e osso.

     

    5. Seja fácil

    No mundo de corre-corre, queremos textos curtos, precisos e prazerosos.

    Rapidez de leitura fisga.

    Pra chegar lá, opte por palavras familiares.

    Informe - rápido e bem.

    Respeite a memória do leitor.

    Ele só consegue reter determinado número de palavras.

    Depois, os olhos pedem uma pausa.

    Escolha bom título.

    Prefira a ordem direta .

    Evite intercalações.

    Vacine-se contra redundâncias, pedantismo e verborragia.

    Escreva frases curtas. "Uma frase longa", escreveu Vinicius, "não é nada mais que duas curtas"

     

    6. Seja leve

    Não canse quem o prestigia.

    Nem o obrigue a ter o dicionário ao lado.

    Muito menos a voltar atrás para recuperar o que foi dito.

    Respeite-lhe o tempo, os ouvidos e o bom gosto.

    Em suma: busque a frase elegante, capaz de veicular com clareza e simplicidade a mensagem que você quer transmitir.

     

    7. Seja respeitoso

    Boa parte das pessoas se indigna com palavrões, obscenidades e expressões chulas.

    Só os acolha em situações excepcionais.

    É o caso da manifestação de alguém quando a palavra tiver indiscutível valor informativo ou reflita a personalidade de quem a profere.

     

    8. Seja surpreendente

    Surpresa chama a atenção e desperta a curiosidade.

    É o gosto pelo inusitado.

    O chavão vai de encontro à novidade.

    Palavra ou expressão, tantas vezes repetida, perde o viço.

    Pontapé inicial, abrir com chave de ouro, chorou um rio de lágrimas, ver com os próprios olhos, cair como uma bomba & Cia. tiveram frescor algum dia.

    Hoje soam como coisa velha.

    Transmitem a impressão de profissional preguiçoso, desatento ou malformado.

    Em bom português: incapaz de surpreender.

     

    9. Seja dinâmico

    Água parada apodrece.

    Exala mau cheiro que espanta os próximos e deixa os distantes de sobreaviso.

    Só o movimento a mantém viva.

    O mesmo ocorre com a língua.

    Frases mornas e tedioosas afugentam o leitor.

    Ele larga a leitura e interrrompe a navegação na internet.

    Seja dinâmico.

    Vá logo ao ponto.

    Abuse de verbos e substantivos concretos.

    Prefira a voz ativa.

    Fuja de adjetivos e advérbios.

    Evite palavras longas e pomposas.

    Opine.

    Não ache.

     

    10. Seja gentil

    As palavras carregam carga ideológica.

    Algumas mais, outras menos.

    A sociedade está atenta aos vocábulos que reforçam preconceitos.

    Fuja deles.

    Cor, idade, peso, altura, origem, condição social e preferências sexuais são as principais vítimas.

    Gentileza não se restringe a palavras.

    Atinge os períodos, passa pelos parágrafos, chega ao texto completo.

    Ao se expressar, comece pelo mais importante.

    E comece bem, com uma frase atraente, que desperte o interesse e estimule a vontade de avançar até o fim.

    Aí, ofereça o prêmio cuidadosamente escolhido: um fecho marcante, tão forte quanto a introdução.

    Lembre-se: a última impressão é a que fica.

    Sempre, principalmente no texto.

     

  • Extermínio dos Índios no Brasil e os Padres Jesuítas

     

    O Extermínio dos Indios no Brasil e os Jesuítas da Companhia de Jesus. 

    Internet - Orkut 7/11/2004 - Autor não identificado: http://www.orkut.com/Main#CommMsgs?tid=3563848&cmm=700853&hl=pt-BR

    Fundada em Roma em 1539, por Inácio de Loyola, com o principal objetivo de combater a Reforma Protestante, a Companhia de Jesus foi uma das instituições mais importantes na colonização do Brasil.

    Os primeiros padres da ordem desembarcaram na Bahia, junto com o governador geral Tomé de Souza, em 29 de março de 1549, e aqui permaneceram até a sua expulsão, levada a cabo pelo Marquês de Pombal, em 1759.

    Sua intensa atividade foi marcada por ações tão enérgicas quanto polêmicas.

    Ao mesmo tempo em que defendiam os índios, fechavam os olhos para a escravidão dos negros.

    Combatiam o canibalismo e foram responsáveis pelo extermínio de tribos inteiras.

    Apesar do antagonismo entre evangelho e colonialismo, a aventura portuguesa no Brasil teria, provavelmente, tomado outro rumo sem os jesuítas. 

     

    As Missões Os jesuítas agrupavam os índios em aldeias as quais chamavam "Missão".

    A vida na Missão era marcada pelo cultivo da terra e pela catequese.

    Para o jesuíta, o índio era uma ovelha desgarrada cuja alma precisava de salvação.

    A organização das aldeias era extremamente metódica, e o excedente produzido pelos índios era negociado diretamente com os colonos.

     

    Entre 1557 e 1561, existiam 34.000 índios em 11 aldeias perto de Salvador, liderados pelos padres Manoel da Nóbrega e José de Anchieta.

    Em 1562, o governador geral Men de Sá declarou guerra aos índios Caetés que haviam devorado o primeiro Bispo do Brasil, Dom Pero Fernandes Sardinha.

    Cerca de 15.000 índios foram mortos ou escravizados e uma epidemia de varíola matou outros 15.000.

    O restante se entregou aos colonos.

     

    Depois da tragédia da Bahia, a experiência das missões se deslocou para os lados do Paraguai, Paraná, Mato Grosso, Norte da Argentina e oeste do Rio Grande do Sul, onde floresceram, entre os séculos 17 e 18, os 30 povos Guaranis.

    Nessas comunidades, com escolas, carpintarias, agricultura, artesanato e etc., reinava uma disciplina rígida, de caráter militar.

    Para os colonos, que escravizavam os índios de modo brutal e imediatista, os jesuítas eram um estorvo.

    Apesar do trabalho dos religiosos gerar novas oportunidades para a colonização, o relacionamento entre padres e colonos sempre foi complicado.

    Os jesuítas possuíam vastas extensões terra, escravos (negros), mão-de-obra barata (índios), negociavam no mercado de açúcar e - a gota d'água para uma revolta - eram ainda

    financiados pelo tesouro de Portugal, ou seja, pelos impostos que eles, colonos, pagavam.

     

    Perseguidos, os Guaranis foram massacrados e os jesuítas expulsos das Américas.

    Para alguns historiadores, as Missões teriam sido um projeto comunista, baseado na "Utopia" de Thomas Morus.

    Para outros, os jesuítas teriam se inspirado na "República" de Platão ou na "Cidade do Sol", de Campanela.

     

    Há ainda aqueles que acreditam que o trabalho dos padres foi um "genocídio controlado", nada tendo de humanitário.

     

  • O Dia do Homem - Cronica de Conceição Freitas

    O Dia do Homem - Crônica de Conceição Freitas - Jornal Correio Breziliense, 9/3/2008

     

    Casada há mais de 40 anos com o mesmo homem, a senhora calma e sorridente comenta: sei mais sobre ele do que ele mesmo.

    Sei o que ele quer, o que está sentindo, onde se atrapalhou e, na maioria das vezes, ele fica sem saber.

    Eu resolvo e pronto.

    Homem é isso.

    Uma entidade movida a sexo, mas pouco ou nada sabe sobre si mesmo.

    Nós, mulheres resolvidas, de cama, mesa, banho, profissão, contas, educação dos filhos, contas pagas com o passado, o presente e o futuro, temos o mapa nas mãos.

    E isso de pouco tem nos adiantado.

    Homem não fala de si mesmo, pouco sabe de si mesmo.

    Homem é exibido - e como o homem é exibido.

    Flaubert, no Madame Bovary, diz que o homem é por natureza covarde.

    Não me lembro as circunstâncias da cena onde o narrador dizia isso, mas se ele se referia às coisas da emoção, sabia muito bem o que estava dizendo.

    As meninas acham o pai uma entidade absoluta, a perfeição com excesso de pêlo no corpo, voz encorpada; sem cintura e sem peito.

    A adolescência começa a ensinar a elas que eles não são essa monumentalidade toda.

    São cheios de buraquinhos, um em cada poro, como uma amiga disse ao marido pra mostrar a ele que o ser humano, homem e mulher, é todo inconduso, imperfeito e falho.

    Homem, sexo masculino, não dá muito conta disso.

    Homem parece ser eternamente o menininho que aposta quem faz jato de xixi mais longe.

    Não é mole ser homem, sem trocadilho infame.

    Nem antes, quando deles se exigia a fortaleza desprovida de choro e emoções, nem agora, quando a mãe não se importa que ele chore, mas o pai faz cara de "né possível que você vai ser

    viado".

    (Ser homem e gay, então, é mais difícil ainda. É preciso ser muito macho para ser gay, mas essa é outra conversa).

    E parece ser mais difícil ser homem e mulher no jogo entre homem e mulher, porque a mulher parece que virou homem e o homem não tem mais o lugar dele a partir do olhar dela.

    Não sei se me fiz entender.

    O homem está atarantado: perdeu seu lugar e a roda da história parece que vai tomar dele o poder e entregá-Io à mulher.

    No meu tempo de criança, o pai ficava na cabeceira da mesa, a mãe de um lado e os filhos ao redor.

    Parece que hoje o homem não vai mais tranqüilamente para a cabeceira.

    Alguém puxou a cadeira dele e ele até faz pose de macho, pra não perder a pose, mas tá num medão danado porque ficou sem lugar determinado.

    E homem com mêdo é um perigo.

    As mulheres sabemos o preço que pagamos para dar conta das vitórias do feminismo.

    Mas a situação deles é muito pior.

    Eles terão de fazer longa, dolorosa e incerta viagem, de fora para dentro, para fabricar um novo lugar que lhes caiba justa e confortavelmente.

    Sem perder a pose de macho, porque isso tem um charme que faz muito bem às mulheres.

    Uma mulher só é mulher mesmo diante de um homem homem mesmo.

     

     

  • Sucesso de Autor Estrangeiro

    Livros estrangeiros - Millor Fernandes, Revista Veja -19/10/2005

     

    Os estrangeiros, porém, todos escrevem best-sellers que vendem bastante e fracassos totais que vendem ainda mais.

    Seguem este figurino: Morris West, Jack Higgins, John Grisham, Mario Puzzo, John Le Carré, Sidney Sheldon,

    Harold Robbins, Hermann Hesse, JM Simmel, Janet Dailey, Stephrn King, Tom Clancy e outros menos votados.

     

  • O Livro Surgiu há 6.000 anos - Klick Escritores

    História do Surgimento do Livro - Site www.klickescritores.com.br - maio de 2005

     

    A história do livro tem cerca de 6.000 anos, desde o papiro, o pergaminho, passando pelo papel manufaturado a partir de trapos até os sofisticados papeis industriais feitos da pasta da madeira.

     

    Segundo definição de Wilson Martins, existem três grandes aspectos desta história:

    1º a técnica da gravura,

    2º a técnica da fundição manual e

    3º a técnica da fundição mecânica.

     

    4.500 a.C Escrita - Primeira forma de transmissão física do conhecimento.

    3.500 a.C Escrita cuneiforme.

    600 a.C Papiro.

    331 d.C Códice.(surgimento do primeiro códice)

    1008 Códice de Leningrado.(o texto mais antigo e fidedigno do Antigo Testamento)

    1460 Tipografia. (composição através de tipos móveis e prensa manual - Gutenberg)

    1500 Inconábulos.(Livros impressos no século XV desde a invenção da tipografia)

    1590 Renascimento.(Os tipógrafos constituem uma dinastia de verdadeiros humanistas)

    1750 Industrialização.(Inicia o século mais longo da história, que termina em 1914)

    1789 Máquina de papel contínuo.

    1814 Prensa mecânica, cilíndrica e movida por força motriz. (A composição ainda é manual)

    1844 Papel industrializado(papel desenvolvido a partir da pasta da madeira)

    1850 Prensa rotativa.(Inventada por Marconi)

    1885 Linotipo(Composição mecânica)

    1904 Offset. 1953 Fotocomposição.

    2000 e-book (Livro Eletrônico)

     

     

  • Definição de Obra de Ficção - Marcelo Lyra

    Costuma-se dizer que toda obra de ficção é um pouco autobiográfica, na medida em que o escritor costuma se basear na vivênvia pessoal.

    Por Marcelo Lyra, Jornalista, publicado no jornal Valor Econômico em 19 de março de 2010

     
  • Livrarias e Bibliotecas no Brasil - Nando

    Estatísticas literárias e livrarias no Brasil. Blogo do Nando, 27 setembro 2007 - bloque-do-nando.blogspot.com/

     

    Há mais municípios com bibliotecas e menos com livrarias, diz IBGE.

    Os números têm um “certo gosto amargo”, segundo o ministro da Cultura, Gilberto Gil: o Brasil de hoje tem 17% mais municípios com bibliotecas e 15% menos livrarias do que o Brasil em

    1999, revela a Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic 2006), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

    Mas ela não se refere apenas aos resultados da cultura dos livros, mas de música, Internet, rádio, museus, cinema, quase todos com algum crescimento no período de 7 anos pesquisados.

     

    O problema, segundo Gil, é a falta de reconhecimento que a cultura proporciona desenvolvimento social, e isso está enraizado na sociedade e nas decisões e estruturas do poder.

    A saída, para ele, é o Sistema Nacional de Cultura, que visa reduzir o hiato “sertão-mar” e espalhar a cultura que hoje se encontra concentrada no litoral e não distribuído entre as mais de 5

    mil cidades do país.

     

    A Argentina tem mais livrarias que o Brasil?

    Que nada.

    O mais recente censo realizado pela Associação Nacional de Livrarias (ANL) (e divulgado pela PublishNews) calculou que existem 2.680 livrarias em território nacional - o dobro do nosso

    vizinho sul americano.

    A distribuição entre as regiões, entretanto, deixa muito a desejar, pois 68% das livrarias se concentram no sudeste e no sul do país.

     

    Segundo o Blog do Galeno, mais de mil dessas livrarias estão em São Paulo e no Rio de Janeiro.

    O Distrito Federal é campeão de ratos de livro: lá existe uma loja para cada 30.890 habitantes.

    E também que, no quesito leitura, a velha disputa Brasil-Argentina já não faz mais sentido - se é que um dia já fez.

     

     

  • Filosofia Para Leigos - Chaves

    Ensaio Curto do site www.chaves.com.br

     

    A palavra "filosofia" freqüentemente causa um sentimento de apreensão ao leigo.

    Este geralmente crê que a filosofia lide com aspectos misteriosos da realidade - aspectos que a ciência não consegue elucidar - ou que trate de questões altamente abstratas que nada têm

    que ver com a vida diária.

    O leigo geralmente pensa que a filosofia lide com idéias que apenas mentes muito brilhantes conseguem entender.

    Essa apreensão faz com que ele geralmente feche sua mente para a filosofia.

    A palavra lhe lembra lúgubres edifícios medievais onde pessoas que não tinham algo mais útil para fazer exercitavam seus intelectos - geralmente em latim, língua ideal para dar brilho ao

    intelecto.
     

  • Educação Religiosa - Richard Dawkins

     

    Educação Religiosa Como Parte da Cultura Literária.

    Richard Dawkins - no livro Deus, Um Delírio.

     

    .... Um consenso avassalador de professores de literatura em lingua inglesa de que o conhecimento biblico é essencial para a plena apreciação de seu objeto de estudo.

    Sem duvida o equivalente tambem acontece com o frances, o alemão, o russo, o italiano, o espanhol e outras grandes literaturas europeias.

    E, para os falantes de linguas arábicas ou indianas, o conhecimento do Corão ou do Bhagavad Gita é presumivelmente tão essencial quanto, para a apreciação plena de seu patrimônio

    literario.

     

    Por fim, para completar a lista, não dá para apreciar Wagner (cuja musica, como ja se disse, é melhor do que soa) sem conhecer os deuses nórdicos.

    Uma visão de mundo ateísta não é justificativa para excluir a Bíblia, e outros livros sagrados, de nossa educação.

    E é claro que podemos manter uma lealdade sentimental as tradições culturais e literárias, por exemplo, do judaismo, do anglicanismo ou do islã, e até participar de rituais religiosos como

    casamentos e enterros, sem aderir às crenças sobrenaturais que históricamente acompanham essas tradições.

    Podemos abrir mão de acreditar em Deus sem perder contato com uma história valiosa.

     

  • Discurso que antecipou a Revolução (Golpe de Estado) de 1964 no Brasil

    Discurso do Presidente da República, João Belchior Marques Goulart (Jango), em 13 de março de 1964, na Central do Brasil, Rio de Janeiro.

     

     

    Devo agradecer em primeiro lugar às organizações promotoras deste comício, ao povo em geral e ao bravo povo carioca em particular, a realização, em praça pública, de tão entusiasta e calorosa manifestação.

    Agradeço aos sindicatos que mobilizaram os seus associados, dirigindo minha saudação a todos os brasileiros que, neste instante, mobilizados nos mais longínquos recantos deste país, me ouvem pela televisão e pelo rádio.

    Dirijo-me a todos os brasileiros, não apenas aos que conseguiram adquirir instrução nas escolas, mas também aos milhões de irmãos nossos que dão ao Brasil mais do que recebem, que pagam em sofrimento, em miséria, em privações, o direito de ser brasileiro e de trabalhar sol a sol para a grandeza deste país.

    Presidente de 80 milhões de brasileiros, quero que minhas palavras sejam bem entendidas por todos os nossos patrícios.

    Vou falar em linguagem que pode ser rude, mas é sincera sem subterfúgios, mas é também uma linguagem de esperança de quem quer inspirar confiança no futuro e tem a coragem de enfrentar sem fraquezas a dura realidade do presente.

    Aqui estão os meus amigos trabalhadores, vencendo uma campanha de terror ideológico e sabotagem, cuidadosamente organizada para impedir ou perturbar a realização deste memorável encontro entre o povo e o seu presidente, na presença das mais significativas organizações operárias e lideranças populares deste país.

    Chegou-se a proclamar, até, que esta concentração seria um ato atentatório ao regime democrático, como se no Brasil a reação ainda fosse a dona da democracia, e a proprietária das praças e das ruas.

     

    Desgraçada a democracia se tiver que ser defendida por tais democratas.

    A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do anti-sindicato, da anti-reforma, ou seja, aquela que melhor atende aos interesses dos grupos a que eles servem ou representam.

    A democracia que eles querem é a democracia para liquidar com a Petrobrás; é a democracia dos monopólios privados, nacionais e internacionais, é a democracia que luta contra os governos populares e que levou Getúlio Vargas ao supremo sacrifício.

    Ainda ontem, eu afirmava, envolvido pelo calor do entusiasmo de milhares de trabalhadores no Arsenal da Marinha, que o que está ameaçando o regime democrático neste País não é o povo nas praças, não são os trabalhadores reunidos pacificamente para dizer de suas aspirações ou de sua solidariedade às grandes causas nacionais.

    Democracia é precisamente isso: o povo livre para manifestar-se, inclusive nas praças públicas, sem que daí possa resultar o mínimo de perigo à segurança das instituições. (...)

    Estaríamos, sim, ameaçando o regime se nos mostrássemos surdos aos reclamos da Nação, que de norte a sul, de leste a oeste levanta o seu grande clamor pelas reformas de estrutura, sobretudo pela reforma agrária, que será como complemento da abolição do cativeiro para dezenas de milhões de brasileiros que vegetam no interior, em revoltantes condições de miséria.

    Ameaça à democracia não é vir confraternizar com o povo na rua.

    Ameaça à democracia é empulhar o povo explorando seus sentimentos cristãos, mistificação de uma indústria do anticomunismo, pois tentar levar o povo a se insurgir contra os grandes e luminosos ensinamentos dos últimos Papas que informam notáveis pronunciamentos das mais expressivas figuras do episcopado brasileiro.

     

    Àqueles que reclamam do Presidente de República uma palavra tranqüilizadora para a Nação, o que posso dizer-lhes é que só conquistaremos a paz social pela justiça social.

    Perdem seu tempo os que temem que o governo passe a empreender uma ação subversiva na defesa de interesses políticos ou pessoais; como perdem igualmente o seu tempo os que esperam deste governo uma ação repressiva dirigida contra os interesses do povo.

    Ação repressiva, povo carioca, é a que o governo está praticando e vai amplia-la cada vez mais e mais implacavelmente, assim na Guanabara como em outros estados contra aqueles que especulam com as dificuldades do povo, contra os que exploram o povo e que sonegam gêneros alimentícios e jogam com seus preços.

    Não receio ser chamado de subversivo pelo fato de proclamar, e tenho proclamado e continuarei a proclamando em todos os recantos da Pátria – a necessidade da revisão da Constituição, que não atende mais aos anseios do povo e aos anseios do desenvolvimento desta Nação.

     

    Essa Constituição é antiquada, porque legaliza uma estrutura sócio-econômica já superada, injusta e desumana;

    o povo quer que se amplie a democracia e que se ponha fim aos privilégios de uma minoria;

    que a propriedade da terra seja acessível a todos;

    que a todos seja facultado participar da vida política através do voto, podendo votar e ser votado;

    que se impeça a intervenção do poder econômico nos pleitos eleitorais e seja assegurada a representação de todas as correntes políticas, sem quaisquer discriminações religiosas ou

    ideológicas.

     

    Todos têm o direito à liberdade de opinião e de manifestar também sem temor o seu pensamento.

    É um princípio fundamental dos direitos do homem, contido na Carta das Nações Unidas, e que temos o dever de assegurar a todos os brasileiros.

     

    É apenas de lamentar que parcelas ainda ponderáveis que tiveram acesso à instrução superior continuem insensíveis, de olhos e ouvidos fechados à realidade nacional.

    São certamente, trabalhadores, os piores surdos e os piores cegos, porque poderão, com tanta surdez e tanta cegueira, ser os responsáveis perante a História pelo sangue brasileiro que

    possa vir a ser derramado, ao pretenderem levantar obstáculos ao progresso do Brasil e à felicidade de seu povo brasileiro.

     

    E podeis estar certos, trabalhadores, de que juntos o governo e o povo – operários , camponeses, militares, estudantes, intelectuais e patrões brasileiros, que colocam os interesses da

    Pátria acima de seus interesses, haveremos de prosseguir de cabeça erguida, a caminhada da emancipação econômica e social deste país.

     

    O nosso lema, trabalhadores do Brasil, é “progresso com justiça, e desenvolvimento com igualdade”.

     

    Vamos continuar lutando pela construção de novas usinas, pela abertura de novas estradas, pela implantação de mais fábricas, por novas escolas, por mais hospitais para o nosso povo sofredor;

    mas sabemos que nada disso terá sentido se o homem não for assegurado o direito sagrado ao trabalho e uma justa participação nos frutos deste desenvolvimento.

     

    Não, trabalhadores; sabemos muito bem que de nada vale ordenar a miséria, dar-lhe aquela aparência bem comportada com que alguns pretendem enganar o povo.

     

    Brasileiros, a hora é das reformas de estrutura, de métodos, de estilo de trabalho e de objetivo.

    Já sabemos que não é mais possível progredir sem reformar;

    que não é mais possível admitir que essa estrutura ultrapassada possa realizar o milagre da salvação nacional para milhões de brasileiros que da portentosa civilização industrial

    conhecem apenas a vida cara, os sofrimentos e as ilusões passadas.

     

    O caminho das reformas é o caminho do progresso pela paz social.

    Reformar é solucionar pacificamente as contradições de uma ordem econômica e jurídica superada pelas realidades do tempo em que vivemos.

     

    Trabalhadores, acabei de assinar o decreto da SUPRA com o pensamento voltado para a tragédia do irmão brasileiro que sofre no interior de nossa Pátria.

    Ainda não é aquela reforma agrária pela qual lutamos.

    Ainda não é a reformulação de nosso panorama rural empobrecido.

    Ainda não é a carta de alforria do camponês abandonado.

    Mas é o primeiro passo: uma porta que se abre à solução definitiva do problema agrário brasileiro.

     

    O que se pretende com o decreto que considera de interesse social para efeito de desapropriação as terras que ladeiam eixos rodoviários, leitos de ferrovias, açudes públicos federais e

    terras beneficiadas por obras de saneamento da União, é tornar produtivas áreas inexploradas ou subutilizadas, ainda submetidas a um comércio especulativo, odioso e intolerável.

    Não é justo que o benefício de uma estrada, de um açude ou de uma obra de saneamento vá servir aos interesses dos especuladores de terra, que se apoderaram das margens das

    estradas e dos açudes.

    A Rio-Bahia, por exemplo, que custou 70 bilhões de dinheiro do povo, não deve beneficiar os latifundiários, pela multiplicação do valor de suas propriedades, mas sim o povo. 

     

    Reforma agrária com pagamento prévio do latifundio improdutivo, à vista e em dinheiro, não é reforma agrária.

    É negócio agrário, que interessa apenas ao latifundiário, radicalmente oposto aos interesses do povo brasileiro.

    Por isso o decreto da SUPRA não é a reforma agrária.

     

    Sem reforma constitucional, trabalhadores, não há reforma agrária.

    Sem emendar a Constituição, que tem acima de dela o povo e os interesses da Nação, que a ela cabe assegurar, poderemos ter leis agrárias honestas e bem-intencionadas, mas

    nenhuma delas capaz de modificações estruturais profundas.

     

    Graças à colaboração patriótica e técnica das nossas gloriosas Forças Armadas, em convênios realizados com a SUPRA, graças a essa colaboração, meus patrícios espero que dentro de

    menos de 60 dias já comecem a ser divididos os latifúndios das beiras das estradas, os latifúndios aos lados das ferrovias e dos açudes construídos com o dinheiro do povo, ao lado das

    obras de saneamento realizadas com o sacrifício da Nação.

     

    E, feito isto, os trabalhadores do campo já poderão, então, ver concretizada, embora em parte, a sua mais sentida e justa reinvindicação, aquela que lhe dará um pedaço de terra para

    trabalhar, um pedaço de terra para cultivar.

     

    Aí, então, o trabalhador e sua família irão trabalhar para si próprios, porque até aqui eles trabalham para o dono da terra, a quem entregam, como aluguel, metade de sua produção.

    E não se diga, trabalhadores, que há meio de se fazer reforma sem mexer a fundo na Constituição.

     

    Em todos os países civilizados do mundo já foi suprimido do texto constitucional parte que obriga a desapropriação por interesse social, a pagamento prévio, a pagamento em dinheiro.

    No Japão de pós-guerra, há quase 20 anos, ainda ocupado pelas forças aliadas vitoriosas, sob o patrocínio do comando vencedor, foram distribuídos dois milhões e meio de hectares das

    melhores terras do país, com indenizações pagas em bônus com 24 anos de prazo, juros de 3,65% ao ano.

     

    E quem é que se lembrou de chamar o General MacArthur de subversivo ou extremista?

     

    Na Itália, ocidental e democrática, foram distribuídos um milhão de hectares, em números redondos, na primeira fase de uma reforma agrária cristã e pacífica iniciada há quinze anos, 150

    mil famílias foram beneficiadas.

    No México, durante os anos de 1932 a 1945, foram distribuídos trinta milhões de hectares, com pagamento das indenizações em títulos da dívida pública, 20 anos de prazo, juros de 5% ao

    ano, e desapropriação dos latifúndios com base no valor fiscal.

    Na Índia foram promulgadas leis que determinam a abolição da grande propriedade mal aproveitada, transferindo as terras para os camponeses.

    Essas leis abrangem cerca de 68 milhões de hectares, ou seja, a metade da área cultivada da Índia.

     

    Todas as nações do mundo, independentemente de seus regimes políticos, lutam contra a praga do latifúndio improdutivo.

    Nações capitalistas, nações socialistas, nações do Ocidente, ou do Oriente, chegaram à conclusão de que não é possível progredir e conviver com o latifúndio.

     

    A reforma agrária é também uma imposição progressista do mercado interno, que necessita aumentar a sua produção para sobreviver.

     

    Os tecidos e os sapatos sobram nas prateleiras das lojas e as nossas fábricas estão produzindo muito abaixo de sua capacidade.

    Ao mesmo tempo em que isso acontece, as nossas populações mais pobres vestem farrapos e andam descalças, porque não tem dinheiro para comprar.

     

    Assim, a reforma agrária é indispensável não só para aumentar o nível de vida do homem do campo, mas também para dar mais trabalho às industrias e melhor remuneração ao

    trabalhador urbano.

     

    Interessa, por isso, também a todos os industriais e aos comerciantes.

    A reforma agrária é necessária, enfim, à nossa vida social e econômica, para que o país possa progredir, em sua indústria e no bem-estar do seu povo.

     

    Como garantir o direito de propriedade autêntico, quando dos quinze milhões de brasileiros que trabalham a terra, no Brasil, apenas dois milhões e meio são proprietários?

    O que estamos pretendendo fazer no Brasil, pelo caminho da reforma agrária, não é diferente, pois, do que se fez em todos os países desenvolvidos do mundo.

     

    É uma etapa de progresso que precisamos conquistar e que haveremos de conquistar.

    Esta manifestação deslumbrante que presenciamos é um testemunho vivo de que a reforma agrária será conquistada para o povo brasileiro.

     

    O próprio custo daprodução, trabalhadores, o próprio custo dos gêneros alimentícios está diretamente subordinado às relações entre o homem e a terra.

    Num país em que se paga aluguéis da terra que sobem a mais de 50 por cento da produção obtida daquela terra, não pode haver gêneros baratos, não pode haver tranquilidade social.

     

    No meu Estado, por exemplo, o Estado do deputado Leonel Brizola, 65% da produção de arroz é obtida em terras alugadas e o arrendamento ascende a mais de 55% do valor da produção.

    O que ocorre no Rio Grande é que um arrendatário de terras para plantio de arroz paga, em cada ano, o valor total da terra que ele trabalhou para o proprietário.

     

    Esse inquilinato rural desumano é medieval é o grande responsável pela produção insuficiente e cara que torna insuportável o custo de vida para as classes populares em nosso país.

     

    E é claro, trabalhadores, que só se pode iniciar uma reforma agrária em terras economicamente aproveitáveis.

    E é claro que não poderíamos começar a reforma agrária, para atender aos anseios do povo, nos Estados do Amazonas ou do Pará.

    A reforma agrária deve ser iniciada nas terras mais valorizadas e ao lado dos grandes centros de consumo, com transporte fácil para o seu escoamento.

     

    Não me animam, trabalhadores – e é bom que a nação me ouça – quaisquer propósitos de ordem pessoal.

    Os grandes beneficiários das reformas serão, acima de todos, o povo brasileiro e os governos que me sucederem.

    A eles, trabalhadores, desejo entregar uma Nação engrandecida, emancipada e cada vez mais orgulhosa de si mesma, por ter resolvido mais uma vez, pacificamente, os graves problemas

    que a História nos legou.

     

    Dentro de 48 horas, vou entregar à consideração do Congresso Nacional a mensagem presidencial deste ano.

    Mas estaria faltando ao meu dever se não transmitisse, também, em nome do povo brasileiro, em nome destas 150 ou 200 mil pessoas que aqui estão, caloroso apelo ao Congresso

    Nacional para que venha ao encontro das reinvindicações populares, para que, em seu patriotismo, sinta os anseios da Nação, que quer abrir caminho, pacífica e democraticamente para

    melhores dias.

     

    Mas também, trabalhadores, quero referir-me a um outro ato que acabo de assinar, interpretando os sentimentos nacionalistas destes país.

     

    Acabei de assinar, antes de dirigir-me para esta grande festa cívica, o decreto de encampação de todas as refinarias particulares.

    A partir de hoje, trabalhadores brasileiros, a partir deste instante, as refinarias de Capuava, Ipiranga, Manguinhos, Amazonas, e Destilaria Rio Grandense passam a pertencer ao povo,

    passam a pertencer ao patrimônio nacional.

     

    Ao anunciar, à frente do povo reunido em praça pública, o decreto de encampação de todas as refinarias de petróleo particulares, desejo prestar homenagem de respeito àquele que

    sempre esteve presente nos sentimentos do nosso povo, o grande e imortal Presidente Getúlio Vargas.
     

  • Deus Uma Grande Dúvida - Ézio Flávio Bazzo

    Deus, Uma Dúvida

    Ezio Flavio Bazzo, Correio Braziliense 27/09/2011

     

    Nas últimas décadas - por sorte - o mundo não viu apenas o crescimento vertiginoso de religiões, de sectarismos, de seitas, desvarios místicos e de fundamentalismos associados ao terror e à fé.

    Vem testemunhando também a reação de livres pensadores, filósofos e intelectuais ateus de todos os matizes.

    Cientes de que o radicalismo nas religiões pode ser maléfico, e da possibilidade de ser honesto, ético, verdadeiro, menos salafrário, criativo e até mesmo espiritualista sem Deus, os

    intelectuais produzem trabalhos importantes sobre a temática.

     

    Para eles, por debaixo da aparente democracia do velho axioma "religião e política não se discutem" , havia - e há - um sutil artifício de censura e de interdição de esclarecimento pessoal

    que pode muito bem ter sido responsável pelo estado de alienação e de atraso em que os países latinos em geral - e o Brasil em particular - se encontram atualmente, tanto no universo da

    política como no da religiosidade.

     

    A crença num ou noutro Deus ou em nenhum, a filiação a esta ou àquela religião ou a nenhuma, têm sido o motivo principal daquelas tão bem conhecidas discórdias e mixórdias que

    vieram pelos séculos afora regando a terra de imposturas e de sangue.

     

    Entre os livros lançados recentemente no Brasil sobre o assunto, destacam -se Deus, um delírio, do biólogo norte-americano Richard Dawkins, Carta a uma nação cristã, de um filósofo

    formado em Stanford, o norte americano Sam Harris, e O espírito do ateísmo, do pensador francês André Comte-Sponville.

    Três ensaios mais do que oportunos que, sem nenhuma sisudez ou fobia, mostram-se conectados.

     

    Principalmente pela consciência de que o ateísmo não é o fim do mundo e que o fanatismo e o irracionalismo religioso são igualmente insalubres - tanto para a civilização como para as sociedades.

     

    Além dos esclarecimentos concernentes à crença no suposto design inteligente, o que é precioso nesses livros é tanto a sinceridade como a objetividade com que os autores tratam os

    absurdos, os erros, as ficções, as irracionalidades e as neuroses inerentes às crenças no sobrenatural que, mesmo estando presentes em todo o planeta, inclusive em paises influentes

    como os Estadis Unidos, causam mais estragos naqueles atacados na pobreza e no subdesenvolvimento.

     

    Para Harris, o fato de quase a metade da população norte-americana ainda acreditar na vinda de Cristo, na idéia que o mundo está prestes a acabar - e mais - que o fim será glorioso deve

    ser considerada uma emergência moral e intelectual.

     

    Sobrevivência em risco Além do resgate das idéias clássicas anticlericais e ateístas, esta tríade de pensadores contemporâneos chama a atenção para outro fato: tanto a pregação da

    intolerância religiosa contra os "infiéis" e contra os "ateus" como a interpretação ao pé da letra dos ditos livros sagrados, além de desrespeitar a liberdade individual e de interditar os

    avanços das ciências, podem colocar em risco até mesmo a sobrevivência da humanidade.

     

    Nesse particular (sem falar do dogmatismo religioso a respeito de questões como o aborto, a transfusão de sangue, o uso de preservativos, as células tronco etc.), é importante lembrar

    que, em muitas das escolas primárias dos EUA onde a Bíblia é usada como livro didático, continua sendo proibido mencionar o nome de Darwin, assim como fazer menção às suas teorias

    evolucionistas.

     

    Daí o espirituoso alerta de Harris: "Os que têm o poder de eleger presidentes, deputados e senadores - e muitos dos que são eleitos - acreditam que os dinossauros sobreviveram aos

    pares na arca de Noé, que a luz de galáxias distantes foi criada a caminho da Terra e que os primeiros membros da nossa espécie foram modelados a partir do barro e do hálito divino, em

    um jardim com uma cobra falante e pela mão de um Deus invisível".

     

    E o mais bizarro de tudo isso é que esse Deus absconditus tem sido o motivo principal de muitas chacinas, de muitas imposturas e de incontáveis sofrimentos.

     

    Se pelo menos aparecesse, desse uma pista aos homens de pouca fé...

    Mas não, prefere o anonimato e a clandestinidade. Insiste em habitar o invisível, fato que, para o filósofo Comte-Sponville, é simplesmente espantoso.

    Um Deus que se esconde com tanta obstinação! "Seria mais simples e mais eficaz - diz - Deus consentir em se mostrar, pois, se quisesse que eu acreditasse nele, resolveria num

    instantinho esse assunto.

     

    Um Deus oculto! Os humanos só se escondem quando têm medo ou vergonha. Mas Deus?

    Para Dawkins, um dos efeitos verdadeiramente negativos da religião é que ela nos ensina que é uma virtude satisfazer-se com o não-entendimento.

    Sim, a religião permite - segundo também Harris - que as pessoas imaginem que suas preocupações são morais quando não são - isto é, quando elas não têm nada a ver com o

    sofrimento ou com o alívio do sofrimento.

     

    A religião permite que as pessas imaginem que suas preocupações são morais, quando na verdade são altamente imorais - isto é, quando insistir nessas preocupações inflige sofrimento

    atroz e desnecessário em seres humanos inocentes.

     

    Sem Glamour

    Mas ser ateu não é necessariamente uma opção glamorosa e nem tão fácil como se pode pensar.

    Pesquisas nos Estados Unidos, Brasil e em outros países já demonstraram que a população que votaria num candidato ateu à presidência da república é mínima e que os eleitores

    elegeriam com mais tranqüilidade (apesar do racismo e da homofobia latente) um candidato que fosse bandido, negro ou homossexual.

     

    "Se você tem razão ao acreditar que a, fé religiosa oferece a única base real para a moralidade.,.. escreve Harris-, então os ateus deveriam ser menos imorais do que as pessoas de fé.

    Na verdade, os ateus deveriam ser totalmente imorais.

    Será que são mesmo?

    Será que os membros das organizações de ateus nos EUA cometem crimes violentos em proporção maior que a média?

    Será que os membros da Academia Nacional de Ciências, dos quais 93% não aceitam a idéia de Deus, mentem, enganam e roubam deslavadamente?

    Podemos estar razoavelmente seguros de que esses grupos se comportam pelo menos tão bem quanto a população em geral.

     

    "Não tenho uma idéia muito elevada da humanidade em geral e de mim mesmo em particular para imaginar que um Deus esteja na origem desta espécie e deste indivíduo", declara

    Comte-Sponville para explicar seu ateismo.

    È esse mesmo filósofo materialista e recionalista que acredita que prescendir de religião não o obriga a prescendir de espiritualidade e que ser ateu não significa abandornar seu espírito

    aos padres, mulás ou espiritualistas.

    Tanto a intervenção de Harris como a de Sponville bem que poderiam fazer o universo religioso mais tolerante para com os ateus.

     

    Está provado, por um lado, que o ateísmo é compativel com as apirações básicas de qualquer sociedade civil e por outro, que a crença generalizada em Deus não é garantia para a saúde

    física e nem para a saúde mental de ninguém, pelo contrário.

    Entre seus correspondentes, Harris lembra que os mais mentalmente perturbados sempre citam capítulos e versículos bíblicos.

     

    Em Carta a uma nação cristã, o filósofo norte-americano lembra ainda que, embora se acredite que acabar com a religião é um objetivo impossível, é importante perceber que o fato já é

    realidade em muitos países do mundo desenvolvido.

    Noruega, Islândia, Austrália, Canadá, Suécia, Suíça, Bélgica, Japão, Holanda, Dinamarca e o Reino Unido estão entre as sociedades menos religiosas da Terra.

     

    De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas (2005), essas sociedades também são as mais saudáveis, segundo os indicadores de expectativa de vida,

    alfabetização, renda per capita, nível educacional, igualdade entre os sexos, taxa de homicídios e mortalidade infantil. Inversamente, os 50 países que ocupam os lugares mais baixos,

    segundo o índice de desenvolvimento humano das Nações Unidas, são inabalavelmente religiosos.

     

    Enfim, as leituras mencionadas são obrigatórias a qualquer um ateu ou crente - que queira estar à altura de sua época, pois o dogmatismo e o obscurantismo são temas aos quais

    ninguém pode ficar indiferente.

     

    As pessoas precisam tomar as rédeas de suas vidas nas próprias mãos e quem qu1ser compreender como acontecem a fanatização e a massificação na fé basta lembrar que se você

    levar a vítima (principalmente crianças e pessoas pouco esclarecidas) por um caminho conhecido, ela não perceberá que você a está levando para uma armadilha.

     

    "Seria um erro alerta Sponville - abandonar o terreno para eles.

    A luta pelas luzes continua, raramente foi tão urgente, e é uma luta pela liberdade,"

     

    Para aqueles que não vivem sem seus álibis e que estão acostumados a fazer jogo duplo em tudo, inclusive em relação às coisas da eternidade, Dawkins nos lembra que, quando

    perguntaram a Bertrand Russell o que ele diria se morresse e se visse confrontado por Deus, exigindo saber por que Russell nunca acreditou nele, este teria respondido:

    "Não havia provas suficientes".

     

     

  • Finalidade da Vida - José Saramago

    Destino ou finalidade da vida. José Saramago, escritor.

     

    Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o ultimo para outros e que, para a maioria, é só um dia mais. 

     

  • Cada Coisa Tem Seu Tempo - Fernando Pessoa

    "Cada coisa a seu tempo tem seu tempo.

    Não florescem no inverno os arvoredos,

    Nem pela primavera

    Têm branco frio os campos"

     

  • Carnaval Tempo de Reflexão - Conto Gustavo Mafra

    Carnaval! Tempo de reflexão!

    Fevereiro 2002 - Gustavo Mafra

     

    Fevereiro. O Brasil pára.

    A folia toma conta das cidades e dos corações. 

    O calor torna ainda mais forte o cheiro de samba, suor e cerveja, que vai se alastrando pelo ar, como gás napalm no meio de uma guerra civil.

    Não há quem não se contagie com o Carnaval.

     

    Amigo meu, uma década de rock'n'roll, esse ano se rendeu.

    Vai vestir plumas, paetês e lantejoulas e desfilar pela Caprichosos de Pilares.

    Caprichoso como só ele.

    Pois é.

    Hoje o carnaval é só alegria.

    Arlequins, Pierrôs e Colombinas vestem roupas coloridas, saem as ruas cantando velhas marchinhas, jogam confete e serpentina.

     

    Mas houve um tempo em que a alegria era proibida.

    Em que ser feliz era mal visto, e que o amor era só uma lenda.

    Eram tempos muito antigos.

    Música, fantasia, luxo, nada disso estava disponível para o povão.

     

    A única diversão eram os livros e a comida.

    E eram escassos.

    Afinal não haviam prensas.

    Os livros eram escritos a mão.

    E só quem tinha tempo de escrever ou copiar um livro inteiro a mão eram monges, rabinos e outros religiosos.

    E justamente por serem escritos por religiosos que os livros eram muito chatos. Sérios. Em alguns casos, davam medo.

    E foi nesse cenário que o primeiro carnavalesco do mundo surgiu. 

     

    Foi ele quem teve a idéia de montar o primeiro Grêmio Recreativo e Escola de Samba do mundo, a Unidos da Galiléia.

    Eram 12 integrantes. Todos usavam mantos coloridos (o costume de usar trajes sumários de lantejoulas veio bem depois).

    Seu nome: Jesusinho 30.

    Ele já nasceu carnavalesco.

    Ao invés de uma camisa do flamengo e uma banheira de plástico, ganhou na maternidade ouro, incenso e mirra.

    Seu primeiro grande feito foi dar uma conotação divertida aos livros que existiam.

     

    Para ele, cada história era um enredo a ser contado por alas e carros alegóricos numa avenida.

    Aliás, a idéia de avenida foi dele:

    "Houve um dia em que meu povo não teve onde se assentar /

    e foi aí que nosso líder sambou, fez abrir o mar /

    e o povão foi pro Egito cheio de ginga nas canelas /

    e Moisés, velho bonito, fez da água passarela"

    Jesusinho 30 se notabilizou também por explicar a origem do mundo numa bela história, cheia de serpentes, frutos proibidos.

    Foi aí que surgiu o primeiro tapa-sexo.

     

    Ele misturou naturalismo, luxo, elegância e minimalismo ao usar uma folha de parreira para esconder a xoxota de Eva e o Bilau de Adão.

    Jesusinho também era craque em contar histórias bonitas, cheias de luxo e galhardia.

    Promovia banquetes com camarotes patrocinados por grandes marcas de vinho, com muito peixe, muito pão.

     

    Protagonizou o primeiro beijo entre homens.

    O liberalismo e a traição inspiraram festas como o baile de gala do metropolitan e o gala gay.

     

    Neste carnaval, lembremos então daquele que foi o maior! Jesusinho 30!

    Alô povão agora é sério!

  • Breakfast at Augusto's - Sergio, amigo do Gustavo

    Break Fast At Augusto's.

    Sergio, amigo do Gustavo Mafra

     

    A família estava toda reunida para o café da manhã... só faltava o Giba.

    - Giba! - berrou a mãe na escada - já acordou?

    Lá do quarto, o rapaz murmurou algo incompreensível e ouviu-se o barulho da descarga.

    -Jaêvem - esclareceu o irmão mais velho, descendo e ajeitando a gravata.

     

    Todos se serviam quando Giba irrompeu na cozinha.

    - Giba - chamou a mãe - vou esquentar o café.

    Giba tirou a caixa de fósforos da mão dela e recitou, enquanto riscava:

    "Pego de um fósforo.

    Olho-o.

    Olho-o ainda.

    Risco-o depois.

    E o que depois fica e depois Resta é um ou,

    por outra, é mais de um,

    são dois túmulos dentro de um carvão promíscuo."

     

    - Bonito - disse o pai, sem tirar os olhos do jornal.

    A mãe pôs os ovos com bacon e presunto no prato, e Giba berrou, teatral:

    "Cedo à sofreguidão do estômago.

    É a hora de comer.

    Coisa hedionda!

    Corro.

    E agora, antegozando a ensangüentada presa, rodeado pelas moscas repugnantes, para comer meus próprios semelhantes eis-me sentado à mesa!"

     

    Um frio passou pela espinha de todos.

    Afinal, não havia muito tempo o Giba tinha passado por um surto de só falar em palíndromos...

    - Giba!

    - Você bebeu? - Perguntou o pai, sem paciência.

    - Bebi! Mas sei porque bebi!...

    Buscava em verdes nuanças de miragens,

    ver se nesta ânsia suprema de beber,

    achava a Glória que ninguém achava"

     

    A irmã soltou um risinho nervoso, e sobrou pra ela:

    "Bendito sejas, riso, clown da sorte, fogo sagrado nos festins da morte, eterno fogo, saturnal do inferno!"

     

    -Filho, você está me assustando - choramingou a mãe...

    "Como a crisálida emergindo do ovo,

    para que o campo florido a concentre,

    assim,

    oh! mãe,

    sujo de sangue,

    um novo ser,

    entre dores,

    te emergiu do ventre!"

     

    O pai correu pro quintal.

    - Ari, o menino tá doente, não faça isso!

    Não adiantou e seu Ari soltou o pitbull:

    - Pega ele, Gigante Adamastor!!!

     

    O bicho, feroz, avançou, mas não o suficiente.

    Giba agarrou a focinheira e imobilizou o animal:

    "Cão! - Alma de inferior rapsodo errante!

    Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a

    A escala dos latidos ancestrais...

    E irás assim, pelos séculos, adiante,

    Latindo a esquisitíssima prosódia

    Da angustia hereditária dos teus pais!"

     

    - Rapsodo... prosódia... - repetiu a avó, que sofria do Mal de Alzheimer, enquanto mastigava um pedaço de queijo.

    A mãe tentou um último recurso - um beijo.

    "O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

    A mão que afaga é a mesma que apedreja.

    Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

    Apedreja essa mão vil que te afaga,

    Escarra nessa boca que te beija!"

     

    Quando ia preparando a cuspida, o irmão aplicou-lhe um sossega-leão.

    Imobilizado, Giba foi levado ao hospital, ainda berrando:

    "Que importa a mim que a bicharia roa

    Todo o meu coração, depois da morte?!

    Ah! Um urubu pousou na minha sorte!"

     

    - Epigênese...rutilância... repetia a avó, entre dentadas na bolacha.

     

    - É TOC - concluiu o médico

    - E desta vez, ele está recitando toda a obra de Augusto dos Anjos.

    - Doutor, da outra vez que ele falava palíndromo a gente deu remédio.

    Agora ele voltou com isso.

    - Sugiro terapia ocupacional – sorriu o médico, pegando um violão de dentro do armário.

    - Tentem isto.

     

    No dia seguinte, a mãe nem precisou chamar.

    Giba desceu, sorridente, dedilhando o violão:

    -Açaí, guardiã Zum de besouro um imã Branca é a tez da manhã

    - Djavan é foda - observou o pai.

     

    - Sevilha incensa o ar andaluz babalaó, olorum, alá, dalai-lama - completou a avó com Alzheimer.

  • A Primeira Vez que Você Me Beijou - Conto Rafael Mafra

    A Primeira Vez que Você Me Beijou.

    Rafael Mafra

     

    Voltando para casa depois de mais um exaustivo dia de trabalho, já com a gravata afrouxada e o colarinho encharcado de suor em decorrência da quebra do ar condicionado do escritório,

    Mauro só pensava em chegar em casa, dar um suave beijo em sua esposa e se entregar à leitura dos jornais do dia, em primeiro lugar, e depois assistir à TV sem assisti-Ia, para esvaziar a

    mente.

    Antes de chegar ao carro, que estava estacionado bem longe pois, como se sabe, é impossível estacionar-se perto do serviço no Setor Comercial,

    Mauro avistou um rosto vagamente familiar vindo em sua direção.

    Isso ocorria com freqüência em sua vida porque era dotado de uma excelente memória para fisionomias, em contrapartida à sua falha memória para nomes.

    Era capaz de reconhecer um colega do pré-primário depois de vinte anos e esquecer o nome de sua tia.

     

    E agora que se deparava com a situação novamente, procederia como de costume: olharia para pessoa para que ela pudesse reconhecê-Io também.

    Entretanto, isso quase não ocorria porque nem todos tem a memória de Mauro, como porque poucas pessoas conseguiram notá-Io ao longo de sua discreta vida.

    Assim que olhou nos olhos do transeunte, este virou o rosto, abriu um sorriso escancarado e bradou:

    - Mauro Carlos Ladisfau Abreu!

    Mauro ficou surpreso já que aquele rosto não era mais que "vagamente familiar" o que significava que era um colega, parente, ou o que fosse de muito, muito tempo atrás.

    Então, para não criar uma situação desagradável, começou a forçar sua fraca memória para lembrar-se ao menos do nome ou apelido de quem sabia seu nome completo.

    Na sua mente veio a letra "M", começou a murmurar, como que falando consigo:

    - Marcos, Martine num estalo lembrou-se e falou

    - Milton?

    - Grande Mauro! Como é que tá, rapaz?

    - Bem, bem.

    E você?

    - Sabe como é, tamos aí, na luta, batalhando.

    Era o tipo de conversa de duas pessoa que não se conhecem e Mauro sabia disso.

    E para completar, ele não se lembrara, ainda, de quem se tratava a pessoa que tão largamente o cumprimentava.

    - Bem, eu vou indo - disse - senão, já viu, né? O trânsito...

    - Claro, claro - respondeu Milton - a gente se vê.

     

     

    Saindo aliviado, orgulhoso da sua saída estratégica, Mauro ainda teve tempo de ouvir aquele grito final de quando duas pessoas se despedem, que quase sempre dispensa uma resposta

    - Manda um beijo para Helena... Palavras tão usuais que, entretanto, paralisaram Mauro.

    Como alguém que ele nem sabia de onde ou quando conhecia sabia seu nome e sobrenome?

    E ainda que fosse cabível, devido à uma memória privilegiada, como poderia lembrar-se do nome de sua esposa?

    Entrou no carro, e tomou o rumo de sua confortável casa, com a cabeça no encontro casual que acabara de ter.

     

    Dirigindo calmamente, começou a remoer as lembranças, explorar o passado armazenado no subconsciente e voltou mais de uma década, mais precisamente até o segundo grau.

    Chegando lá, no seu colegial, viu antes de tudo sua esposa, ainda jovem, desejável como sempre.

    A maior de suas conquistas e responsável pela única vez que teve coragem para fazer algo.

    Declarar-se não é tarefa fácil, ainda mais quando a timidez é sua principal característica.

    Podemos dizer, assim, que declamar uma poesia no auditório da escola, perante boa parte dos corpos docente e discente, para uma garota com a qual nunca tinha trocado palavras mais profundas que "tem grafite 0.57" era a ousadia personificada.

    Bem, deu certo.

     

    Cobiçada por vários garotos como jogadores de futebol, de basquete, guitarristas, e toda sorte da representantes do sexo masculino, ela o escolheu.

    Escolheu um dos caras que sentava encostado na parede falava com duas, no máximo três pessoas na sala de aula, tirava notas acima da média, mas sem destaque.

    Com quase dez anos de casado, ainda estava longe de saber porque ela gostava dele.

    Só conseguia lembrar-se dos dias que passou a contemplá-Ia, esquecendo de ao menos anotar em seu caderno qualquer coisa sobre química orgânica, ou não sabe-se o quê.

    E, pensando bem, ao lado dela sentava um cara, meio calado, com um penteado esquisito...Glaro! O tal do Milton.

     

    -Bingo! - exclamou Mauro quando já reduzia a marcha para entrar na garagem de casa.

    Saiu do carro, satisfeito, e entrou em casa.

    Logo que entrou, Helena, que estava cozinhando, começou a contar um caso engraçado que tinha acontecido na sala de aula aonde lecionava para garotos de dez a onze anos e, com seu

    encanto natural, fez com que ele esquecesse do Milton, ou Martin, ou o que fosse, pois ele esqueceu mesmo.

     

    Sob o efeito da nostalgia dos tempos de colégio, Mauro dormiu sem perceber, observando sua mulher, deitada, vestindo um conjuntinho de seda, que realçava sua beleza ruiva e madura de

    quem já passara alguns anos dos trinta, imaginando que ele envelheceria ao lado dela e que já com cabelos brancos, ainda repetiria o gesto de olhá-la até adormecer.

     

    No dia seguinte, Mauro acordou bem tarde.

    Mesmo porque era sábado e aos sábados ele sempre fazia isso.

    Não que sua vida fosse monótona, mas a rotina lhe dava uma sensação de estabilidade e segurança.

    Seguindo a rotina, saiu exatamente às onze horas para comprar o jornal.

    Foi até ali na banca de jornal, saudou o jornaleiro com um sincero bom dia e tomou o caminho de volta.

    Foi andando, observando uns garotos que jogavam futebol ali perto e , de supetão, alguém esbarrou nele.

    O jornal caiu, ele o apanhou e quando se levantou:

     

    - Grande Mauro! Que coincidência te encontrar por aqui!

    - Oi, Milton. Como vai? - falou sem retribuir a empolgação

    - Vou indo. Você mora por aqui?

    - Moro. - disse secamente.

    - Que bacana!

    O bate-papo sem graça já estava longo demais na opinião de Mauro, que já buscava mais uma saída estratégica, quando ouviu:

    - E como é que está a Helena?

    Mauro, não conseguiu segurar a curiosidade:

    - Como você sabe que nós casamos?

    - Bem, na época que vocês noivaram, eu estava na faculdade.

    A Helena chamou o Fernando, que era muito amigo do Beto, que era primo de um colega meu.

    Nossa mas como eu não pensei nisso antes? - pensou ironicamente Mauro.

    - Você não respondeu - atacou Milton.

    - Vai bem. Milton, olhou no relógio e disse:

    - Bom eu vou indo. Já está no hora do almoço.

    Mauro pensou entre outras coisas "Graças à Deus" e "Já vai tarde" .

    - Porque você não almoça conosco? - falou contrariando seus pensamentos, concordando com a boa educação recebida.

    Naturalmente, uma pessoa educada notaria que o convite foi só por educação.

    - Claro, eu adoraria - respondeu Milton, frustrando todas as expectativas de Mauro.

    Agora o mal já estava feito. Mauro sabia que Helena não gostava de receber visitas sem ser avisada com antecedência.

    Mas depois ele iria explicar que ele era aquele colega deles, que o convidou por educação e ele aceitou e tudo o mais.

    Abriu a porta da casa lentamente, disse ao seu indesejado convidado que entrasse e se sentisse em casa embora não o quisesse lá.

    Chamou sua esposa meio sem jeito e avisou que estavam com visita para o almoço.

    Helena veio da cozinha com um pano de prato nas mãos e com um olhar curioso. E surpreendeu-se com o que viu.

    - Não acredito!

    Seu marido não entendeu direito, achou que ela estava falando com ele o que seria uma tremenda falta de educação.

     

    Mas ele a entendia e até concordava, já ia dizer alguma coisa, mas ela gritou novamente.

    .. Miltinho!!!

    Mirtinho?- pensava Mauro - Como ela lembra dele?

    - Helena! - agora era o próprio Milton.

    Surpresos correram um em direção ao outro e se abraçaram forte e demoradamente.

    - Por que você não avisou que vinha? Eu tinha preparado algo melhor.

    .. Eu e o Mauro nos esbarramos aqui perto e ele me chamou. Não é incrível que tenhamos nos encontrado duas vezes em dois dias depois de tanto tempo.

    .. Ué? Vocês se encontraram ontem? - perguntou.

    - Por que você não me contou? - disse, virando-se para o marido.

     

    Mauro estava pronto a explicar que esqueceu, quando lembrou-se que isso não tinha a menor importância e ainda pensava no que dizer e notou que Helena não esperou por sua resposta e

    já conversava com o visitante como se fossem velhos amigos.

    Durante o almoço, Mauro sentiu-se completamente ignorado.

    Sua mulher parecia hipnotizada por Milton.

    Ele apenas assistia a conversa dos dois passar por nomes que ele nunca tinha ouvido.

    Rose, Marlon, Robertínho, até Ancestral ele ouviu.

     

    Enquanto isso engolia o almoço, aonde o strogonoff que ele sempre gostou tanto, tinha mais o gosto da batata palha que ele comprou.

    Depois de horas que pareceram meses, Milton disse que era chegada a hora de ir embora.

    Apesar da insistência para que ficasse um pouco mais se despediu com três beijinhos de Helena e ouviu o tradicional volte sempre.

    Helena esperou que ele se virasse e partisse, fechou a porta, suspirou e disse, voltando-se para Mauro pela primeira vez desde que ele entrara em casa.

     

    - Quem diria né? O Milton...Ele é ótimo, não é? Mauro preferiu o silêncio.

    O resto do final de semana não foi agradável como de costume.

    Ao menos para Mauro.

    Helena ficou falando do Mil- já o chamava pelo apelido - como eles eram amigos, como eles foram felizes no colegial, como ela gostava dele e muito mais.

    Mauro ouvia tudo sem dizer uma palavra.

    Não se lembrava de notar tanta intimidade entre os dois nos tempos de colégio, sem se esquecer que ele a observava em todos os seus atos.

    Não se lembrava também de ter alguma passagem que viesse dar aonde ele se encontrou com Milton pela segunda vez.

     

    Era tudo muito estranho.

    Não que ele estivesse sendo acometido por um ataque de ciúmes, claro que não.

    Ele nunca foi ciumento.

    Mas, refletindo melhor, as únicas amizades de Helena eram as colegas da escola, já que ela acabou se separando de sua turma de amigas e amigos fúteis assim que entrou na faculdade

    de pedagogia.

    Na verdade, eles que se distanciaram dela, alegando que ela ficou muito metida porque foi a única a entrar de primeira na universidade, que ela já não queria mais sair, que estava ficando

    chata e que tudo era culpa do tal do Mauro, aquele namorado dela, sem graça,

     

    - Isso não pode continuar assim. - pensou

    Resolveu que ia combater aquela "Miltonmania" de alguma forma.

    Sua idéia consistia, em primeiro lugar, em organizar uma festa, aproveitando a proximidade do aniversário de casamento deles e chamar todas as amigas dela do tempo de segundo grau.

    Com isso, ela não precisaria se contentar com o "Mil".

    Mauro refletia, organizava suas idéias, mas Helena ainda estava falando do Milton e quando ele notou isso, sem pensar exclamou:

    - Será que você podia parar de falar nesse cara? Quem é ele? Não sabia que vocês eram tão amigos! Quer que eu o chame para que você tenha uma companhia mais agradável que eu?

    Quer que eu penteie meu cabelo de um modo esquisito para se sentir mais perto dele?

    E entrou corredor adentro, indo em direção ao quarto, batendo todas as portas que pôde.

     

    Helena ficou estarrecida.

    Nunca o vira desta maneira, com as veias saltando do pescoço.

    E há muito tempo ela não o via gritando, e puxando pela memória, era a primeirissima vez que ele gritava com ela.

    Além de magoada, ficou preocupada também.

    Por tudo isso, Helena decidiu que não iria mais falar do Milton para ele, e só falaria com ele por telefone.

    Assim seu marido não teria mais motivos para ter ataques de ciúmes.

     

    Mauro começou a executar seu plano logo na segunda-feira.

    Procurou sua antiga agenda de telefones para fazer uma lista bem grande de convidados.

    Ligou para alguns deles e viu que teria muito trabalho pela frente, a maioria dos telefones mudaram e ele ia precisar de muita paciência para atualizar suas informações.

    Tudo valeria a pena, porém, para fazer sua esposa feliz e afastá-Ia daquele falso amigo que era o Milton.

    Voltou para casa no final do expediente, disposto a não mais brigar com ela por ciúmes.

     

    Antes de entrar no quarto, porém, ouviu que ela estava ao telefone.

    Parou perto da porta para ouvir com quem ela falava.

    Ouviu então o riso infantil que ele tanto gostava, seguido das palavras "ai, Milton, você não existe".

    Ele entrou no quarto e ela, desconcertada, falou:

    - Eu tenho que desligar...Denise. Tchau.

     

    Tudo seria melhor se ela não tivesse feito isso. Mauro sentiu-se queimando por dentro.

    Ele esperava qualquer coisa dela, exceto mentiras, farsas e coisas do gênero.

    Infelizmente, ele teria que tomar uma atitude mais drástica.

    Lutas corporais nunca foram o seu forte.

    Sempre preferiu fazer inglês, natação ou qualquer coisa que não precisasse de violência.

    Agora, pela primeira vez em sua vida, se arrependia de não saber resolver as coisas por meio da coação física.

    Ele só sabia de uma coisa: algo deveria ser feito e logo.

     

    No dia seguinte, Mauro saiu um pouco mais cedo do serviço, para dar início no processo de aquisição de uma arma.

    Matriculou-se num curso de tiro, o qual freqüentaria na hora do almoço.

    Retirou dinheiro da poupança e comprou um revólver.

    Em poucas semanas, ele já sabia atirar.

    Pensava até que isso era uma vocação sua.

    Todavia, o tempo foi passando e ele nunca mais soube do Milton.

     

    E como se aproximava o aniversário de casamento deles, Mauro foi esquecendo e já estava decidido a vender aquela arma.

    As coisas haviam entrado nos eixos naturalmente, sem nenhuma interferência mais ríspida. - Graças a Deus- pensou.

    Faltava apenas uma semana uma semana para a festa surpresa que ele vinha preparando.

    Conseguira encontrar quase todo mundo.

    As pessoas mais importantes já haviam confirmado suas presenças.

     

    Mauro já irradiava felicidade só de pensar em como aquilo deixaria sua linda esposa feliz.

    Tal era sua excitação, que decidiu chegar mais cedo em casa com o intuito de surpreendê-Ia, chamá-Ia para jantar fora, e ter momentos mais intimos com ela.

    Sua vida retomara à perfeição.

    Já nem se chateava tanto como a lembrança de Milton, ao menos este episódio fê-lo enxergar que desde que casara vivia na mais santa paz.

    Ao chegar em casa, abriu a porta vagarosamente.

    Caminhou em direção ao quarto.

    Ouviu a melodiosa voz de Helena, provavelmente ao telefone.

    Abriu a porta do quarto e a viu na cama com Milton, rindo.

    Eles estavam na cama, mas não no sentido mais contemporâneo da expressão.

     

    Estavam apenas deitados lado a lado, conversando.

    Ela, com sua roupa bem folgada, usada para ficar em casa.

    Ele, sem a camisa e sem os sapatos com o rosto virado para ela.

    Mauro não tinha mais sanidade suficiente para raciocinar.

    Sentiu uma forte dor de cabeça imediatamente e até uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto.

    Teve um forte pressentimento que a sua vida nunca mais seria a mesma.

     

    Sacou a arma de dentro do terno e a balançava no ar como se não fosse nada.

    Falava enquanto isso.

    - Vocês não tem um pingo de vergonha na cara?

    Acham que isso vai ficar assim, que eu não vou fazer nada?

    Ninguém vai me sacanear desse jeito! Ninguém.

     

    - Calma Maurinho, não é nada do que você está pensando - disse Milton levantando-se.

    - Claro que não! Nunca é, não é mesmo?

    Pode começar a explicar.

    Pode começar a enganar o otário aqui.

    Só não me chama de Maurinho de novo.

    Pode aproveitar e fazer seu último pedido.

     

    Milton, parecia hesitante entre falar, tirar a arma de Mauro ou fazer alguma outra coisa.

    Olhou para Helena que já estava aos prantos.

    Seus olhos se encheram d'água e ele respirou fundo como quem está prestes a tomar uma atitude drástica.

    Mauro viu as mãos de seu oponente avançarem contra sua cabeça e não conseguiu reagir.

    Milton agarrou sua nuca, puxou Mauro contra si e deu-lhe um longo e lascivo beijo na boca.

     

    Veio um estrondo forte.

    Milton caiu sobre os próprios joelhos e depois tombou de lado.

    Mauro, com o sangue de Milton Ihe escorrendo da boca, olhou para uma Helena em estado de choque e debulhou-se em lágrimas.

     

    Somente olhando para sua esposa compreendeu que Milton forjou uma situação para aproximar-se dele e não dela.

    E que somente uma mulher brilhante como a sua poderia aceitar um amigo homossexual apaixonado pelo próprio cônjuge dela.

    Mauro acabara de estragar uma vida perfeita.

    Ainda que fosse absolvido, que sua esposa o perdoasse, nada pareceria ao menos com o que foi antes.

    Resolveu ali mesmo, babando sangue alheio sobre o colchão aonde tantas vezes amara sua esposa, que não merecia ser casado com o ser perfeito.

    Seu pressentimento se confirmara.

    Sua vida nunca mais seria a mesma.

    Helena ainda gritava palavras incompreensiveis, com uma força suficiente para chamar atenção da vizinhança inteira.

    Mauro achou que fora injusto com ela, que ela não merecia tal sofrimento.

    Ergueu sua mão direita e acabou com o sofrimento de quem ele tanto amava.

    Em seguida, apontou a arma para sua boca suja.

    Atirou de modo que a bala primeiro dilacerou os lábios que só haviam sido beijados por uma mulher e por um homem em toda sua vida.

     

    Depois, estilhaçou seus dentes tão cuidadosamente conservados ao longo de sua vida, trespassou sua cinzenta massa encefálica e saiu do outro lado, manchando de sangue seus

    cabelos, que estavam vermelhos como os de sua esposa e que nunca chegariam a ser branco.

     

     

  • A Biblia Cresce com a China - Beniaminio Natale

    Biblia Tem Boom de Vendas na China - Beniamino Natale. Pequim 13 dezembro 2007.

    - A demanda de Bíblias na China tem crescido tanto que a Amity Print, empresa que publica mais Bíblias no país e, provavelmente, no mundo, tem encontrado dificuldades para atender os

    pedidos.

    "Desde que começamos, em 1988, não paramos de crescer", disse o diretor da editora, o neozelandês Peter Dean.

    "Este ano publicamos 3,1 milhões de cópias, somente na China", acrescentou.

    A Amity Print, que tem sede em Nanjing, no sul da China, produz Bíblias também para exportação, principalmente para Rússia e países da África.

     

    Desde que começou a funcionar, a empresa já vendeu 41 milhões de Bíblias na China e 9 milhões para exportação.

    Dean explicou que a Amity produz Bíblias baseando-se em pedidos do Conselho de Cristãos da China, o órgão reconhecido pelo governo chinês, que depois se encarrega de distribuí-las.

    "O procedimento para vender diretamente nas livrarias é mais complexo e nós não somos uma editora, o editor é o Conselho de Cristãos", disse Dean.

    "Também a Igreja Católica chinesa nos pediu uma grande quantidade de cópias", acrescentou.

    De 500 mil cópias em 1988, a Amity passou para 3 milhões em 2007, em uma demanda que cresce de acordo com a economia chinesa.

    "A que mais vende é a edição de bolso, acho que isso significa que quem compra a Bíblia são os jovens", afirmou Dean.

    A mudança foi profunda desde o início dos anos 70, quando a polícia comunista queimava livros religiosos em público.

     

    Segundo números oficiais, na China existem hoje 4 milhões de católicos, 17 milhões de protestantes e 100 milhões de seguidores do budismo e do taoísmo.

    Em seu livro "Jesus in Beijing", o jornalista norte-americano David Aikman afirma que os cristãos são mais de 80 milhões, enquanto observadores independentes afirmam que aqueles que

    praticam os ritos das religiões tradicionais na China são pelo menos 200 milhões.

    O problema da religião na China continua a ser delicado.

    O governo de Pequim reserva-se o direito de nomear os bispos católicos e de encontrar a reencarnação dos lamas tibetanos.

    Em outubro passado, o Comitê Organizador das Olimpíadas de 2008 em Pequim foi obrigado a voltar atrás em sua decisão de proibir os membros das equipes olímpicas de trazer ao país

    "livros de propaganda religiosa".

    "Se vemos o assunto em perspectiva, o que acontece hoje na China não é muito diferente do que aconteceu antes na Europa, quando não havia sido resolvido o problema da relação entre

    os governos e o poder espiritual", afirmou Dean.

    A difusão da Bíblia e de outros livros religiosos é permitida na China desde 1979.

    A maior parte das Bíblias é distribuída pelas igrejas durante cerimônias religiosas e uma rede de livrarias especializadas, mas não é difícil encontrar cópias nas grandes livrarias, como a

    que pertence à Nova China, a editora proprietária da maior agência de notícias do país.

     

  • A Palavra foi feita para dizer - Graciliano Ramos

    A Arte de Escrever - Graciliano Ramos, em entrevista concedida em 1948.

    ..."Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício.

    Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer.

    Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes.

    Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão.

    Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota.

    Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.

    Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer."

     

  • Defeitos. Autor desconhecido

    São poucos os defeitos que não possuo

     

  • O Amor Anoitece - Conto de Giovanni Fabbro,

    O Amor Anoitece - Giovanni Fabbro (físico), publicado na Revista Piaui, Edição Flip em Julho de 2008. 

    O Amor Anoitece

     

    No dia 16 de janeiro, o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar recebeu um e-mail.

    Não reconheceu o remetente.

    Olhou o campo do assunto e leu: "Convite poético."

    Havia a dúvida: seria um convite em forma de poesia? Um convite para uma tertúlia poética? Nem uma coisa nem outra.

     

    "Oi, Fabrício, tudo bem?", começava o texto.

    "Não nos conhecemos pessoalmente.

    Meu nome é Eliza, sou jornalista.

    Escrevo por um motivo especial.

    Pode parecer estranho, mas vale a pena tentar..."

    O poeta leu até o fim, e depois releu.

    Pensou consigo mesmo, pasmo. "Fui convidado para um casamento. Para celebrar um casamento..." Era isso.

     

    Eliza Muto e Stefan Gan tinham decidido oficializar uma união que já existia de fato havia seis anos.

    Como não eram religiosos, dispensavam padres, pastores, rabinos e até um juiz de paz em troca de um poeta.

    "Afinal, quem mais capacitado para celebrar o amor do que o meu poeta favorito?", perguntava a noiva, não sem sinceridade, mas com uma ponta de astúcia.

    Poderia haver argumento mais definitivo?

    O poeta acedeu.

    A delicadeza do pedido era sublime.

     

    Carpinejar tomou um avião e no dia 29 de março, um sábado, desceu em São Paulo.

    O casamento estava marcado para as seis da tarde, numa chácara da Vila Mariana.

    Às 5 horas, já esperava na recepção pelo noivo, que viria buscá-lo.

    Nunca o vira -"Sinceramente, não conhecia ninguém: padrinhos, pais, parentes, amigos... iria para uma festa sem nenhum vínculo, a não ser a poesia" -, mas não tinha dúvida de que seria

    reconhecido.

    Poetas gozam do direito a certas liberdades, e, no que diz respeito à etiqueta do vestuário, Carpinejar é um homem livre.

     

    Para a cerimônia, escolheu uma "calça esverdeada fashion", uma camisa de botões de madrepérola (que, fosse outra a ocasião, formariam um belo time de botão) e um lenço carijó

    gaudério, preso por um anel no qual se entrelaçavam a bandeira do Rio Grande do Sul e a do Brasil.

    Ornando o rosto, óculos verdes louva-deus.

     

    O corte à máquina deixara sua cabeça calva, com exceção de três letras capilares: POA vistosa homenagem aos 236 anos do torrão natal.

    A mão direita mostrava-se convencional.

    A esquerda, não: trazia as unhas pintadas de marrom, uma pequena traição à mulher, que agora disputava o horário da manicure com o marido.

    A quem lhe perguntasse sobre a idiossincrasia, Carpinejar oferecia respostas elaboradas: "Para não confundir meu filho: duas mãos pintadas são de mulher, uma é de poeta; ser

    conduzido por uma mão feminina, mesmo que seja a minha, é muito melhor; e também serve para não lavar louça: minha mulher nunca podia, alegava que estragava as unhas. Agora eu

    também não posso. Passamos a comer fora."

     

    O noivo chegou às 17h4o e não hesitou: era aquele o poeta.

    Entraram numa van, na qual já estavam os pais do nubente.

    Eram americanos e não falavam português.

    Muito menos esperavam por semelhante aparição.

    Não souberam disfarçar uma expressão de "Ah, Deus, é ele?!”, mas nada além: foram gentis, até porque não tinham escolha.

    Chovia a cântaros.

     

    Ao chegar ao local do enlace matrimonial, a abundância semiótica de Carpinejar fez com que variadas pessoas o tomassem por:

    a) líder de uma seita regionalista desconhecida (lenço gaudério);

    b) curandeiro (unha pintada de marrom);

    c) membro de uma facção budista (cabeça raspada);

    d) homem-propaganda (um segurança decifrou POA como marca de água mineral); e

    e) cover de Bono Vox (óculos louva-deus).

     

    A desorientação não era apenas dos circunstantes.

    Também o poeta se viu confuso.

    A noiva entraria em cena somente no momento do altar - mas a noiva é quem o tinha convidado.

    "O que vocês combinaram?", perguntou ansioso, ao noivo.

    "Nada", disse o rapaz, incapaz de desanuviar o celebrante.

     

    "Nem na minha primeira sessão de autógrafos fiquei tão nervoso", confessaria depois Carpinejar.

    Quando finalmente a noiva abriu espaço - de braço enlaçado ao do pai, luminosa, com seu vestido branco e suas tatuagens de flores derramadas nos ombros desnudos -, instalou-se o

    pânico.

    "Onde eu fico?", perguntou ela ao poeta.

    "Por Deus", contaria Carpinejar, "eu acreditava que não imitaríamos uma encenação oficial. Na ausência de coordenadas, assumi totalmente o sacerdócio.

     

    Distribuí os padrinhos, armei a entrega das alianças, improvisei os passos.

    " E esperou pelo milagre. Que demorou a vir. Na primeira palavra, o microfone falhou.

    Uma criança gritou.

    Relampejou forte.

    O poeta pigarreou.

    E disse: "Sem querer, o casal está realizando o sonho da minha mãe.

    Ela queria que um de seus filhos fosse padre.

    Não entendia a desigualdade divina, que deu à família vizinha três padres e uma freira, mas para ela não reservou ninguém."

     

    Sentiu que reassumira a própria voz.

    Os noivos sorriam os padrinhos também, havia algo de bom no ar.

    Ele então decidiu cumprir a função para a qual fora chamado: foi poeta.

     

    Olhou para os dois e disse:

    "O tempo passa rápido para os outros, não para vocês. O tempo está vivo em vocês. Minucioso. Detalhista. Obcecado. É como ficar o dia inteiro em casa. E, de repente, perceber que anoiteceu.

    'Já anoiteceu' é uma das expressões mais bonitas.

    Significa que não controlamos as horas.

    Casar é anoitecer.

    É quase perguntar: 'Como chegamos aqui?”

    E, como os noivos sabiam muito bem como haviam chegado ali, o poeta encerrou:

     

    "Stefan, você ama Eliza?" Ela disse que sim.

    "Eliza, você ama Stefan?" Stefan amava.

     

    "O 'Eu te amo' dispensa qualquer nova pergunta.

    O que vier depois será resposta, como este casamento.

    Eu abençôo os noivos, casados em nome da poesia."

     

    O casal se beijou, e o sacerdote desconfia "que os dois choraram dentro do beijo."

     

     

  • Leitura Furiosa - Não de Fio a Pavio

    Leitura furiosa - Inês.

    Sei apenas que li de modo desordenado e furioso.

    Não li tudo de fio a pavio.

    Certos livros percorro como se sobrevoasse uma paisagem, e ao passar por elas já sabia o que estava escrito.

     

  • Livro nas mãos de um bom leitor

     

    É muito dificil adaptar um livro para o cinema.  

    São dois territórios diferentes.

    O Cinema não quer sua imaginação.

    Já um livro só se torna bom nas mãos de um bom leitor.