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O Ultimo Voo do Flamingo

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O Ultimo Voo do Flamingo

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Autor: Mia Couto

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 225

Ano de edição: 2007

Peso: 300 g

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Excelente
Marcio Mafra
30/11/2007 às 19:12
Brasília - DF


“O último vôo do Flamingo” é provavelmente o melhor livro, dentre todos os livros de, aproximadamente, 25 bons escritores que compareceram à Flip em 2007. Sem nenhum medo de errar. A história se desenvolve na cidade de Tizangara, que é assaltada por um grande mistério: soldados estrangeiros desaparecem e seus corpos, simplesmente, explodem. Um consultor da ONU, o italiano Massimo , é encarregado de investigar e relatar o mistério. Seus passos são acompanhados pelo tradutor, que foi destacado pelo administrador de Tizangara para seguir o italiano. A narrativa vai enriquecendo quando entram os personagens: Estevão Jonas, a velha Temporina, a prostituta Ana Deusqueira, o feiticeiro Zeca Andorinho e ainda o controvertido velho Suplicio. Realidade e magia são as cores e a atmosfera da história de Tizangara e seus principais habitantes, que se alternam entre verdade e ficção, natureza e sobrenatural, encanto e desencanto, mundo dos vivos e mundo dos mortos, antepassados e futuro. O autor consegue ainda, com muito talento fazer a história beirar as fraldas do realismo fantástico, e fazer inveja a Garcia Márquez. Assim surge Temporina, com o rosto de velha e corpo de moça, uma parenta que, depois de morrer vira um louva-a-deus; e a cena mais delirante do "realismo" o personagem que, ao dormir, pendura os próprios ossos, fora do corpo.Segue a história, salpicada por cenas de muito humor, como a identificação do pênis pela prostituta da cidade,e também muito lirismo, quando alguém fala que os flamingos empurravam o sol para que o dia chegasse ao outro lado do mundo. Fenomenal. Mais que excelente.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Massimo Rissi, o italiano, representante da Onu, que foi a Moçambique fazer uma investigação oficial para descobrir porque os soldados das Nações Unidas, que serviam em Moçambique, desapareciam sem deixar qualquer rastro. Eles explodiam. De seus corpos sobrava, apenas, o pênis.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O padre Muhando já falara contra esse preconceito. O pensamento do sacerdote ia direito no assunto: mulatos, não somos todos nós? Mas o povo, em Tizangara, não se queria reconhecer amulatado. Porque o ser negro – ter aquela raça – nos tinha sido passado como nossa única e última riqueza. E alguns de nós fabricavam sua identidade nesse ilusório espelho.” “O inferno já não agüenta tantos demônios. Estamos a receber os excedentes aqui na Terra. Um gênero de deslocados do Inferno, está entender? E nós, os antigos revolucionários, fazemos parte desses excedentes.” “Pássaros nenhuns não havia. Tudo em liso silêncio. Mas meu pai, só ele escutava o rouco grasnar dos flamingos. Dívida que ele tinha com as aves pernaltas. Os pescadores chamam-lhes os "salva-vidas". No meio da noite, em plena tempestade, quando se perde noção da terra, é a presença e a voz dos flamingos que orienta os pescadores perdidos”. “Viver é fácil. Até os mortos conseguem. Mas a vida é um peso que precisa ser carregado por todos os viventes.” "A primeira vez que escutei os rebentamentos acreditei que a guerra regressava em suas tropas e tropéis. Meu pensamento tinha uma só idéia: fugir. Passei pelas últimas casas de Tizangara, minha pequena vila natal. Ainda vi, se silhuetando ao longe, a minha casa natal, depois, já mais perto, a residência de Dona Hortênsia, a torre da igreja. A vila parecia em despedida do mundo, tristonha como tartaruga atravessando o deserto." "Escapei nos matos onde ninguém nunca se apessoara. Sim, era certo: aquela floresta havia recebido nenhuma humanidade. Fiz um abrigo, de galhos e folhas. Pouca coisa, com discrição de bicho: não seria bom ser visto ali alguém em estado de pessoa. Eu tinha abrigo, não tinha morada. Fiquei nesse recôndito, conselhado pelo medo. Regressaria à vila quando me garantisse que a guerra não tinha regressado. Logo na primeira noite, porém, me amedrontaram os sons dos bichos e mais ainda as sombras do escuro. Estremeci de medo: não saltara eu da boca da quizumba para entrar na garganta do leão?" "Sentei-me a esclarecer. Minha alma parecia ter-me saído e flutuava como nuvem por cima de mim. A guerra tinha terminado, fazia quase um ano. Não tínhamos entendido a guerra, não entendíamos agora a paz. Mas tudo parecia correr bem, depois que as armas se tinham calado. Para os mais velhos, porém, tudo estava decidido: os antepassados se sentaram, mortos e vivos, e tinham acordado um tempo de boa paz. Se os chefes, neste novo tempo, respeitassem a harmonia entre terra e espíritos, então cairiam as boas chuvas e os homens colheriam gerais felicidades. O novos chefes pareciam pouco importados com a sorte dos outros. Eu falava do que assistia, ali em Tizangara. Do resto não tinha pronunciamento. Mas, na minha vila, havia agora tanta injustiça quanto no tempo colonial. Parecia de outro modo que esse tempo não terminara. Estava era sendo gerido por pessoas de outra raça." "Talvez fosse um grande cansaço que me fazia, afinal, ficar por aquela lonjura. Secretamente, eu deixara de amar aquela vila. Ou, se calhar, não era a vila, mas a vida que nela vivia. Eu já não tinha crença para converter a minha terra num lugar bem assombrado. Culpa do vigente regime de existirmos. Aqueles que nos comandavam, em Tizangara, engordavam a espelhos vistos, roubavam terras aos camponeses, se embebedavam sem respeito. A inveja era seu maior mandamento. Mas a terra é um ser: carece de família, desse tear de entrexistências a que chamamos ternura. Os novos-ricos se passeavam em território de rapina, não tinham pátria. Sem amor pelos vivos, sem respeito pelos mortos. Eu sentia saudade dos outros que eles já tinham sido. Porque, afinal, eram ricos sem riqueza nenhuma. Se iludiam tendo uns carros, uns brilhos de gasto fácil. Falavam mal dos estrangeiros, durante o dia. De noite, se ajoelhavam a seus pés, trocando favores por migalhas. Queriam mandar, sem governar. Queriam enriquecer, sem trabalhar." "Agora, na margem da floresta, eu via o tempo desfilando sem nada nunca acontecer. Esse era um gosto meu: pensar sem nunca ter nenhuma idéia. Seria, afinal, que me convertia em bicho, em lógica de unha e garra? A guerra o que havia feito de nós? O estranho era eu não ter sido morto em quinze anos de tiroteios e sucumbir agora em meio da paz. Não falecera da doença, morria do remédio?" "Foi numa dessas manhãs de retiro que senti vozes. Surgiam camufladas. Aquilo era gente que se cuidava não ser vista. Espreitei entre as moitas. Entrevi os vultos. Havia pretos e brancos. Se debruçavam no chão, pareciam escavar na berma de um atalho. Às tantas, um falou alto, bem audível. O grito, em inglês de fora: – Atention! E os outros estacaram. Depois, se retiraram, sem pressa. De quando em quando, se voltavam a debruçar em roda de outra qualquer coisa. Que procuravam? Mas eles se foram e eu voltei a ficar só. Dei um tempo para que se afastassem e me dirigi para onde haviam estado a coscuvilhar. Foi quando um braço me travou o intento. – Não vá que é perigoso! Me virei: era minha mãe. Ou seria, antes, a visão dela. Pois ela já há muito passara a fronteira da vida, para além do nunca mais. Naquele momento, porém, ela surgia das folhagens, envolta em seus panos escuros, seus habituais. Não me saudou, simplesmente me orientou para junto do meu abrigo. Ali se sentou, aconchegando-se na capulana. Fiquei mudo e miúdo, à espera. Se temos voz é para vazar sentimento. Contudo, sentimento demasiado nos rouba a voz. Agora, que ela transitara de estado, eu acedia, completo, às vistas dela. – Como é, filho: vive no lugar dos bichos? Devolvi pergunta com pergunta: – Há lugar, hoje, que não seja de bichos? Ela sorriu, triste. Podia ter respondido: há, onde eu venho é lugar de gente. Porém, ela permaneceu calada. Rodou pelos arbustos e desfez folhinhas entre o dedos. Apurava perfumes e levava-os lentamente junto ao rosto. Matava saudades dos cheiros. – A guerra já chegou outra vez, mãe? – A guerra nunca partiu, filho. As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda. – E a mãe anda a fazer o quê por essas bandas? Eu queria saber se tinha terminado sua tarefa de morrer. Ela explicou-se, lenta e longa. Andava com uma bilha a recolher as lágrimas de todas as mães do mundo. Queria fazer um mar só delas. Não responda com esse sorriso, você que não sabe o serviço do choro. O que faz a lágrima? A lágrima nos universa, nela regressamos ao primeiro início. Aquela gotinha é, em nós, o umbigo do mundo. A lágrima plagia o oceano. Pensava ela por outras, quase nenhumas, palavras. E suspirou: – Haja Deus! Lembrou-me como ela despertava, antes, toda alagada. Não houve, depois que o meu pai nos deixou, uma manhã em que o sol a encontrasse em panos secos. Sempre e sempre ela e os choros. Todavia, isso fora antes, quando ela padecia a doença de estar viva. – Não fique aqui que esses caminhos ainda têm o pé da guerra. A pegada está viva! – Estou tão bem aqui, mãe. Nem me apetece regressar. Ficamos ali horas trocando nadas, simplesmente adiando o tempo. Alongando o milagre de estarmos ali, na margem da floresta. Já entardecia, ela me avisou: – Volte para a vila, há-de acontecer tantíssima coisa. – Antes de ir, mãe, me lembre a estória do flamingo. – Ah, essa estória está tão gasta.


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