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Vésperas

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Vésperas

Livro Ótimo - 1 comentário

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Autor: Adriana Lunardi

Editora: Rocco

Assunto: Contos

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 127

Ano de edição: 2002

Peso: 205 g

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Ótimo
Marcio Mafra
26/11/2011 às 21:37
Brasília - DF


Raramente um livro de contos se destaca entre a miríade de livros que são lançados todos os anos no Brasil. Muitos escritores começam a vida literária pelo caminho do conto, ou da crônica. Outros ficam a vida inteira nisso. Poucos ficam famosos. Conto, ou crônica, tem jeito de que são mais fáceis de ser escrito. Fácil, porque é uma historinha, com um ou dois fatos marcantes. Moleza. Na maioria dos livros de contos, os autores – geralmente - costuram uma forma de entrelaçar, ou relacionar histórias ou personagens.

Adriana Lunardi, no seu “Vésperas” não fugiu do figurino. Os nove contos se entrelaçam e seus personagens também. As histórias retratam angústia, dor, tristeza, solidão e busca da compreensão de seus atos ou da vida. Todavia são contos surpreendentes bons, maravilhosamente escritos, e as histórias – embora tristes – não são agressivas, apelativas, nem piegas. O leitor percebe o talento da autora, principalmente, no conto Ana C.

Véspera é livro que emociona.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

São nove contos, sobre nove pessoas nas vésperas de suas mortes.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Desta vez foi preciso uma ambulância para tirar-me de casa. Eu estava tão fraco que não podia contar nem mesmo com minhas pernas. A noite tinha sido difícil, a pior até agora, embora eu já estivesse acostumado ao interregno turbulento em que meu sono havia se transformado. Eram pequenas nebulosas no estado de vigília e não duravam mais de quinze minutos, tempo suficiente, contudo, para inquietar-me com as imagens pavorosas que apareciam nos sonhos.

A lâmpada de cabeceira permanecera acesa, e entre os acessos de tosse eu podia retomar a leitura de Alice no país das maravilhas, usando a lente de aumento que ficava em meu colo sobre o livro aberto. Era uma edição ilustrada por John Tenniel e eu me demorava apreciando as cenas que o artista escolhera para registrar em suas litografias. Alice parecia comprida demais, loira demais. O ar malévolo de suas expressões brigava com a Alice que eu tinha em minha imaginação desde a infância e que, anos depois, vi materializar-se na face de Audrey Hepburn.

A febre estacionara nos 39,7°C e o conta-gotas de morfina parecia lento demais para a voracidade das dores que atacavam por todos os flancos. Era minha terceira pneumonia neste verão. Os pulmões, muito exigidos, já não davam conta de completar sozinhos sua função. Anita, a enfermeira que me vigiava no horário noturno, parecia mais preocupada do que o habitual. Tagarelava pouco e media minha pulsação a todo instante. Cochilou apenas naquela hora fronteiriça entre noite fechada e dia que rompe. Desperta, olhou para o relógio e veio direto até mim. Seus dedos gordinhos procuravam um batimento tranqüilo, não aquele coração aos pinotes dentro de um corpo estacionado há meses. Anita disse que não estávamos indo muito bem. Usa o plural quando quer me fazer acreditar que somos um time, idéia tirada dos filmes americanos que passam de madrugada na tevê. Eu sorrio e penso em dizer que somos uma equipe em meio a uma gincana de tarefas imprevisíveis, todas fatais. Mas não digo. Nos olhos de Anita, consigo medir a gravidade do meu próprio sofrimento, e antes que ela tivesse de dizê-lo, pedi para irmos ao hospital.

Homens fortes encaixam a maca nos trilhos e sou deslizado para dentro daquela grande barriga, em uma espécie de nascimento ao contrário. Quero voltar ao útero de minha mãe, ouço Ginsberg uivar, do lado de fora. O aro de tartaruga de seus óculos desaparece atrás da cortina de uniformes que se fecha sobre mim. Tento erguer-me da maca para pedir a ele que me acompanhe, que faça meu kaadish, mas os enfermeiros me impedem, afivelando-me com um cinto de segurança tão longo que daria para abraçar duas vezes meu corpo. Esse mesmo corpo que outrora, e aqui a palavra nunca me pareceu tão justa, bronzeou-se nas dunas brancas de Ipanema, dançou até o amanhecer e abraçou todos os homens que o quiseram, embora nem todos os que quis. Corpo que agora é apenas um conjunto de pele murcha e carne furada de agulhas, incapaz de qualquer rebeldia, e cuja única função é adiantar o trabalho do primeiro verme que há de me roer. Agora o monóculo é de Machado e, assim, parece que estou indo em boa companhia.

Antes de as portas se fecharem, levanto com pesar as pálpebras para o céu azul de fevereiro. A luz me intimida e cega o pouco que ainda vejo. A mim só resta imaginar o flamboaiã explodindo flores alaranjadas ao sol e o muro caiado que reserva a frieza necessária para enfrentar um dia de verão. Zelda não está por ali. Gatos nunca se despedem. Poupam-nos de nossas próprias pieguices e, solenes, nos ensinam a também falsear dignidade.

Estou ansioso por partir. Há algum tempo comecei a me desligar da casa em que nasci. Talvez longe dela e de suas histórias eu possa dormir um pouco sem ter a memória torturada a cada xícara de chá, cada quadro na parede, livro na estante. Esquecer é a grande dádiva com a qual não fomos suficientemente premiados.

Tudo será branco de agora em diante. Os aventais, os lençóis, o interior da ambulância. Menos os braços negros de Anita, que aponta o polegar para cima enquanto abre um sorriso para me dar confiança. Ao lado dela há uma pequena valise, contendo remédios e algum pijama, decerto. São tantos os suores, que preciso ser mudado muitas vezes. As mãos hábeis de Anita me despem, me banham e me vestem outra vez. Volto a ser um menino incapaz de administrar a si mesmo. E estou leve como os meninos magros que se negam a comer, teimosia que Anita tantas vezes conseguiu dobrar com a perícia de sua sedução. Ela lembrou de trazer o livro que eu estava lendo. Sinto infiltrar-se em meus ossos uma gratidão beatífica. Anita ainda pensa em mim como alguém que está vivo e que merece ser mimado até o fim.

O carro arranca e a sirena começa a uivar. Tantas vezes vi essa cena da calçada, acompanhando involuntariamente o balé solidário dos carros que, a despeito da pressa de chegar, diminuem a marcha, trocam de pista e abrem espaço. Em meio ao caos urbano, um silêncio de tribo, o pesar por um dos seus que se vai. Do lado de dentro, curiosamente, a dramaticidade não é a mesma. A enfermaria ambulante segue sendo enfermaria, um pouco mais sacolejante e ruidosa. Os paramédicos parecem não se importar com o fato de estarem em movimento. Fazem perguntas a Anita, falam em um rádio e conferem os conta-gotas de remédio que atravessam canudos antes de chegar nas agulhas cravadas em minha mão.

Anita encolhe-se em um cantinho. Entre os seios fartos, abraça Alice. Está concentrada e seus olhos começam a ver alguma coisa além do que a profissão lhe ensinou. A rainha de copas está furiosa, Anita, digo mentalmente, tentando de algum modo confortá-la, e também para não pensar tanto em mim mesmo. Quero chegar o mais depressa possível ao estado inconsciente que me aguarda.

Por que rua estaremos passando agora? Se eu ao menos soubesse o itinerário, tentaria traçar meu último passeio pela cidade. As árvores, calçadas e letreiros de todas as cidades que amei. Uma improvável esquina entre as palmeiras da avenida Getúlio Vargas e o Boulevard Raspail até Saint-Germain des Près. O passeio pela Castellana, esticando o pescoço para os arranha-céus da Broadway. Depois os tijolos vermelhos de Portobello Road, as nove curvas da Cândido Mendes e a descida impiedosa até Montego Bay continuando pela Consolação. Agora Corrientes de madrugada e o atalho florido que leva àquela praça minúscula do centro de Praga, onde as crianças ainda pulam amarelinha. Um mapa que ficará para sempre incompleto, deixando saudade das ruas que nunca passei. Aperte minha mão, querido poeta, me dê coragem e me dê humor.

Pronto, chegamos. O hospital tem o mesmo barulho das escolas em hora de recreio. Vozes se aproximam e se afastam, deixando fiapos de fala. As rodas da cama em que me jogaram deslizam rápidas, fazem voltas e finalmente param.

É tarde, muito tarde. Estarei delirando ou um coelho branco passa correndo sobre minha barriga? Já não consigo conservar os olhos abertos. Foram tantos os sedativos que algum deve estar fazendo efeito. Vislumbro apenas um pedaço da saia de Alice, que corre estabanada assim que as portas se abrem.

Um rápido degrau e sou empurrado para o novo ambiente. As pessoas se aglomeram, muito próximas de mim. Crescem até tocar no teto. A acústica abafada faz as palavras ficarem mais claras. Sétimo, ouço uma voz dizer, e sinto a leve vibração de um motor que se põe em movimento.

Ao velho sétimo andar. A ante-sala do inferno, cabala de despedidas. Pisei lá pela primeira vez há três anos, fazendo esse mesmo trajeto, só que com uma irritante esperança de cura. Depois, era a raiva, um ódio ingênuo, puro, que me insuflava de forças misteriosas e me fazia dar murros nas paredes e maldizer a medicina e os médicos, que, em sua embaraçosa falta de explicações, me punham nas mãos de Deus. Aos poucos fui percebendo que eu estava sozinho, e que a verdade sobre a existência ou não das mãos de Deus não iria adiar nenhum dos prognósticos a mim reservados. Ficar íntimo das sombras terá sido meu último aprendizado.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

8ª Flip. Uma grande festa. Adriana Lunardi participou da mesa “Primeiro Tempo, Novos Autores” em conjunto com Emilio Fraia, Michel Laub e Vanessa Barbara. Não foi um sucesso retumbante, mas marcou sua passagem com beleza, elegância e muito charme.


 

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