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A Queda Para o Alto

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Livro Ótimo - 2 comentários

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Autor: Anderson Herzer

Editora: Vozes

Assunto: Jornalismo

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 201

Ano de edição: 1983

Peso: 230 g

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Excelente
Gibson Santana
07/02/2018 às 11:33
Mossoró - RN
Um dos primeiros livros que li. Emocionante.
Uma página leva a outra.
Relatos que mexem com sua imaginação.
A pura realidade de menores que sofrem nas casa de reabilitação educacional e
um exemplo que todos podem se recuperar de seus erros. Sandra Mara Herzer (Anderson Herzer) nos presenteia com uma bela obra literária.

Bom
Marcio Mafra
24/07/2002 às 14:24
Brasília - DF
No seu livro Herzer não faz divagações, nem especulações sobre o porque dos comportamentos humanos. Como mencionou Eduardo Matarazzo Suplicy no prefácio, o depoimento de Herzer constitui o retrato de um dos mais sérios problemas da realidade brasileira: o do menor em dificuldades, por não ter tido condições adequadas de sobrevivência em casa ou na Febem, que terminam por levá-lo a uma situação de desespero. A narração do que passou na Febem choca de tanta crueza. Espancamentos constantes, perseguições psicológicas e torturas são coisas cotidianas. O que impressiona em Anderson é como foi capaz de construir uma certa carga poética e literária num ambiente de tanta hostilidade. Ele escrevia poesias e peças teatrais que eram encenadas pelas internas. Os relatos e poemas do autor, que só conviveu com o lado cruel da vida, surpreendem pela qualidade. Vale a leitura.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Sandra Mara Herzer ou Anderson Bigode Herzer, que morreu antes da publicação de seu livro-denúncia sobre a Febem com objetivo de "tentar diminuir as violências, corrupções e a morte de menores, que necessitam apenas de amor, compreensão e não serem massacrados pela sociedade."

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Logo algumas funcionárias novas que ainda não me conheciam perguntavam às menores quem eu era, e nada melhor do que as menores para saber meu curriculum por inteiro. As funcionárias pediam às menores que me apresentassem a elas, e eu ia ficando cada vez mais conhecido. O nome soava simples dentro da FEBEM, a palavra "Bigode" significava não somente um apelido, mas era algo carinhoso guardado para qualquer ocasião. Eu sabia que de longe as pessoas comentavam a meu respeito, de como eu poderia estar no meio das meninas, se eu não era um simples "machão" da FEBEM. As pessoas viam claramente que em mim acontecia algo diferente, dai a simpatia de tantas menores por mim, pois na FEBEM existem meninas que só mantêm carinhos com pessoas do mesmo sexo, mas isto lá dentro, porque saindo de lá são mulheres como qualquer outra, sendo que algumas conservam este hábito ou modo de vida tanto lá dentro como lá fora. Mas na existência de "machões", as menores que chegam da rua talvez já conheçam e portanto logo arrumam um par para si também, mas deve-se ressaltar que algumas delas não gostam desse tipo de par que é formado, dando preferência ao homem. Essas meninas, entretanto, aos poucos diziam estar gostando de um ou outro inspetor ou funcionário, mas muitas delas, mesmo não concordando, por fim acabavam gostando de mim e. diziam isso, muitas vezes conversando a respeito afirmando não concordar, mas para elas eu não me encaixava na área dos machões e sim um homem qualquer que estivesse em meio às meninas. Para mim eu era um rapaz em fase adolescente, e para alguns um caso que deveria ser tratado clinicamente. Mas para o Sr. Humberto não havia outra palavra; simplesmente um machão da V. Maria. E logo fomos transferidos para a V. Maria, pois nossa ficha era fácil de ser encontrada, todos sabiam nosso nome completo. Último dia de carnaval, a UT4 (Vila Maria) não estava, pois algumas menores estavam em outras unidades da FEBEM (de meninos), passando o carnaval. o Sr. Humberto não estava na casa, o inspetor que nos recebeu mandou que fôssemos para trás do pátio. Era certo, tínhamos que enfrentar nosso castigo. Atrás do pátio, longe dos olhos de qualquer outro funcionário ou menor, tivemos que tirar toda roupa e nus andamos de joelhos sobre milhos, feijões, pedras e areia durante aproximadamente umas três horas, com um inspetor vigiando. Meu joelho sangrava ao se arranhar na areia, pois no início era fácil levantar bastante o joelho e colocá-lo levemente sobre o obstáculo, mas quando o corpo e os músculos da perna se cansam, não há outra alternativa senão praticamente arrastar-se no solo, fazendo com que as pequenas pedras e os feijões marquem profundamente a pele depois da areia, as partes já afetadas vão cedendo e aos poucos sangrando. Aninha chorava, pois seu joelho direito já estava cortado, mas este não era um motivo forte para que saíssemos daquele castigo. Para o funcionário era até melhor assim. Doía mais e estaria mostrando a ela que não deveria mais tentar fugir. Às vezes, exaustos, parávamos, e já éramos ameaçados de apanhar de joelhos. Numa certa hora senti que não agüentaria mais e parei, devagar tirei o joelho do solo, para retirar uma pedrinha que grudou em minha carne e já estava vermelha pelo sangue que aos poucos escorria de um ou outro corte. Aroldo se atirou sobre mim, dando tapas e pontapés, que me jogaram meu corpo no cimento. Eu sabia que enquanto continuasse deitado iria apanhar, mas não tinha forças para levantar, os gritos dele ecoavam na minha cabeça. Um de seus pontapés acertou-me de cheio ao lado esquerdo da face, minha boca começou a sangrar e ele vendo que eu não iria conseguir, parou por um momento e na minha frente gritou para que eu me ajoelhasse e continuasse meu castigo. Enquanto me batia, sempre as mesmas palavras: "Machão sem saco, saiba que eu sou o macho aqui, pois tenho duas bolas. . . " Estas palavras me ardiam ao fundo da razão, como seria o mundo se todos os homens trouxessem sua virtude, seu caráter no formato de duas bolas? Soa o sinal para o banho. Alguns minutos após, ele nos manda parar. Colocamos as roupas e fomos para a enfermaria fazer os curativos, nos lugares que estavam machucados. Logo após o banho, ficamos à espera do Sr. Humberto para saber o que teríamos que fazer como castigo pela nossa fuga. Antes do jantar, ouvi os gritos de alguns que anunciavam o retorno das meninas que voltavam de São Vicente (Unidade Masculina da FEBEM). Mesmo com o corpo dolorido, minha face não hesitou em se abrir num pequeno e saudoso sorriso, Ivete por certo estava entre elas. Não tive coragem para ir até a portaria. Fiquei parado, ela também ficou sabendo que eu estava de volta, mas ao invés de me procurar foi até o refeitório da UE (refeitório reservado para menores da Educacional). Algumas meninas vieram me chamar dizendo que ela estava lá sozinha. Pouco depois a saudade apertava e eu não resisti, entrei no refeitório. Ela estava sozinha no fundo do mesmo, devagar me aproximei, sentei-me a seu lado, e ela não se atreveu a erguer os olhos. Olhando para ela, antes de dizer qualquer coisa, fiquei imaginando meus dias passados, como eu me recordava dela, a saudade que sentia, a lágrima que corria pelo rosto lentamente num silêncio quase fúnebre mas cheio de vida. Disse simplesmente "oi". Minha voz soou fraca e quando ela ergueu os olhos, não tinha resposta. Mas por fim sua resposta veio num grande abraço apertado por ambos, sem vontade nenhuma de um movimento sequer. Uma palavra, palavras... elas não eram necessárias, aquele abraço transmitia milhões de poemas reencontrados, poemas talvez sem rimas, mas terminado sempre numa frase marcante, tão marcante qual aquele momento que nos envolvia de forma absoluta sem saídas, sem preconceitos, sem nada e ao mesmo tempo com todos os caminhos e luzes voltados para um só lugar, mesmo que pequeno, mas um lugar onde se pode amar, mesmo que este só pudesse viver entre nossos corações, ele era cultivado por nós, e na nossa existência ninguém mais era necessário existir. Logo o jantar, depois um passeio no pátio de mãos dadas como crianças na adolescência, na descoberta de suas existências. Porém esse passeio foi interrompido. Quando mais tarde o Sr. Humberto retorna à unidade, eu e Aninha fomos chamados. Entramos na sala dele, não disse muita coisa, apenas em voz autoritária ordenou: "Um mês limpando o refeitório inteiro no almoço e jantar. À noite, paredão durante o mês todo. Quando não tiver nada para fazer, limpem o pátio. Não quero pegar vocês conversando". Aquele mês certamente fora infernal, o dia todo com a preocupação em saber se o Sr. Humberto estava na casa ou se algum funcionário estava por perto. Aos poucos os dias iam passando e nós contando o tempo para que tudo aquilo terminasse de vez e pudéssemos viver como todos que ali estavam, apesar que mesmo do modo normal era difícil suportar aquele local. Mais difícil ainda quando alguém nos vigiava, e quando o dia era lento, sabendo-se que à noite iríamos para o paredão novamente deixando que os funcionários noturnos descarregassem seus complexos machistas em tapas e socos. Findou-se o castigo, e começamos a mísera rotina da casa. Meses após, a fama do Sr. Humberto crescia: as reclamações eram freqüentes, os espancamentos diários. Se dormia na Unidade um dia sequer sem que alguém fosse espancado por um ou outro motivo. Ele estava tentando Fazer com que seu nome governasse e se expandisse por todas as unidades da FEBEM, mas infelizmente nós da UT4 estávamos pagando por seu alto posto.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Desconheço como este livro chegou aqui.


 

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