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O Vôo da Rainha - Pecado Soberba

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O Vôo da Rainha - Pecado Soberba

Livro Excelente - 1 comentário

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Autor: Tomás Eloy Martinez

Editora: Objetiva

Assunto: Romance

Traduzido por: Sérgio Molina

Páginas: 276

Ano de edição: 2002

Peso: 465 g

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Excelente
Marcio Mafra
27/10/2002 às 21:48
Brasília - DF

Este é um livro que seu título deve ser grafado em maiúsculas. Um livro maior. História inteligentíssima (parafraseia um crime semelhante ocorrido recentemente), atualíssima (aproveita-se de um fato, no mínimo degradável, recém acontecido no Brasil, e o transforma no sétimo pecado desta coleção,a soberba) gostosissima (porque inteligente e atual) e imperdível (pois existe muito autor e pouco escritor). Mesmo argentino, quando o escritor não é apenas autor, dá nisso: um livro sensacional. Do começo ao fim.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O pecado da soberba.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A mulher era jovem e tinha um físico indestrutível. Às duas da tarde, o efeito do fenobarbiral já tinha passado por completo. Não parava de beber água e ia ao banheiro com freqüência. Sumiu por algum tempo de seu campo de visão, para tomar um banho, e voltou viçosa e cheia de energia. Preparou café, mas não comeu nada. Viu-a hesitar algumas vezes com a caixa de suco na mão e devolvê-la à geladeira. Não desconfiava de nada, disso você tinha certeza, mas deveria vigiar seus hábitos, caso ela rejeitasse o suco. Se isso acontecesse, você teria que pensar em outro recurso para a próxima dose de fenobarbital. O que sumir da sua memória sobreviverá no corpo. Sempre que ela se aproximar do suco de laranja, o passado voltará como se fosse presente. Tudo o que a mulher esquecer caberá a você recordar.
Viu-a sentar em frente ao computador e conferir o correio eletrônico. Estava agitada, sem tempo para responder às mensagens. De dia era mais difícil observá-la, porque a luz de fora criava muitas zonas de sombra. Mas seus movimentos ganhavam nitidez quando se aproximava da janela, se olhava no espelho ou abria a geladeira.
Você esperou uma semana, para que ela relaxasse seus hábitos. Nesse ínterim, soube, ela ligou duas vezes para o editor colombiano do telefone do trabalho, gastando o dinheiro alheio no seu namorico. Sua justificativa para a viagem ao Rio
de Janeiro é uma suposta investigação urgente, para que a empresa que a sustenta pague a despesa. Além de puta, ladra. Não merece a menor piedade.
Agora você sempre chega cedo a sua sala na rua Reconquista, antes das dez da noite. Deixa o fechamento nas mãos do editor noturno ou de Enzo Maestro, que você contratou pouco antes da troca de governo. Você o chamou por causa dos seus contatos políticos, depois o foi promovendo por sua lealdade sem falhas e acabou por transformá-lo em seu braço direito.
Agora, a primeira coisa que você faz já não é correr ao telescópio, e sim atravessar a rua para estabelecer um diálogo com o casal sem-teto que dorme ao lado do prédio da mulher. Quando você morava em Chicago, aprendeu que as pessoas, ao se dirigirem a alguém que não entende a língua do lugar, falam lentamente, pronunciando bem cada sílaba, como se a completa ignorância do idioma alheio se dissipasse só porque a voz se demora ou o tom é mais alto. Mas você sabe que nada é tão eficaz quanto a linguagem dos gestos. Assim foi-se entendendo com o sem-teto, só com o homem, porque a mulher não gosta de você: quando o vê chegar, aperta os lábios descarnados e tapa o rosto com sua manta de ruínas. São refugiados da guerra de Kosovo e falam uma intrincada variante dialetal do sérvio. Nem sequer são parentes: une-os o infortúnio de terem fugido da mesma aldeia na montanha, perto de uma cidade chamada Pranjani, pelo menos é o que você pensa entender. Gastaram uma fortuna para chegar a Buenos Aires, subornando agentes de imigração em Ciudad del Este e Posadas, apenas para descobrir que na capital estão condenados a um destino de mendigos. O homem às vezes recolhe latas e garrafas nos cantos da cidade ainda inexplorados por outros como ele. Ao invadir áreas já tomadas, corre o risco de ser
morto a pauladas e jogado numa sarjeta. Mas que alternativa lhe resta? Não há trabalho para ninguém, as pessoas perderam a cabeça, a única idéia fixa é comer. Somos barrigas, só barrigas, dizem os gestos do homem.
Às vezes você lhes leva umas latas de carne e de sopa. A sem-teto sabe dizer obrigado em espanhol, você já a ouviu agradecer toscamente quando alguém lhe joga uma moeda, mas quando você lhes dá comida e tenta conversar, ela apenas o olha com rancor e se dirige a seu companheiro, repetindo Bassmozedni. Pelo que você conseguiu saber, a frase significa "o que nós temos é sede", ou algo parecido. Tanta ojeriza poderia atrapalhar a relação que você foi construindo com o homem: você tenta ser gentil com ela, vencer sua desconfiança, relevar suas grosserias. Não é fácil, porque a simples visão dela é cada dia mais repulsiva. Quando emerge de seus trapos, exibe uma juba arrepiada, com nós de medusa. O fedor de seu corpo é insuportável. Pelo menos ela não se incomoda quando você caminha com o sem-teto por um ou dois quarteirões, embora não desgrude os olhos de vocês, e certamente fingiria um ataque se os perdesse. Você não consegue entender em que consiste a dependência que se estabeleceu entre os dois. Não pode ser física, porque o homem é ainda forte e, se não fosse pela falta de dentes, seria até atraente, ao passo que ela está completamente deformada, com suas crostas e chagas de pesadelo.
Mais de uma vez você lhes ofereceu pagar um quarto de pensão, mas eles o recusaram. Conservam certa altivez, como se a miséria fosse uma escolha e não uma derrota. Agora você não tem outro remédio que abrir o jogo e dizer para que precisa dele. A mulher do apartamento em frente deve ir para o Rio de Janeiro daqui a três dias, e você tem que impedir essa viagem, seja como for.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Emília, no meu aniversário, mandou ver este livro com a seguinte dedicatória: "Marcio, Parabéns e muitas felicidades. Emilia. 07.10.02"


 

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