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O Quarto de Giovanni

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O Quarto de Giovanni

Livro Péssimo - 1 opinião

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Autor: James Baldwin

Editora: Companhia das Letras

Assunto: LGBT

Traduzido por: Paulo Henriques Britto

Páginas: 229

Ano de edição: 2018

Peso: 230 g

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Péssimo
Marcio Mafra
27/01/2019 às 00:00
Brasília - DF
Gostei não!
O Quarto de Giovanni, a despeito de autoria de um escritor festejado nos EUA, na Inglaterra e muito no Brasil, é uma história angustiante.
Talvez seja este o talento do escritor: provocar angústia.
A história de David, sua namorada Hella e Giovanni é uma novela de fatos agressivos, tristes, pobres e até miseráveis.
O restante dos personagens, quando aparecem nos capítulos também são furtivos e tristes.
Não há um só momento de alegria, compaixão ou afeto no livro.
Os jornais brasileiros destacam que Baldwin era um questionador dos padrões morais vigentes na comunidade negra, no Harlen, em Nova York onde viveu batalhando pelos dilemas de gênero e sexo, lá pelo final dos anos 50.
Também há quem diga que “O quarto de Giovanni” é uma autobiografia do próprio Baldwin, que era briguento até com os Panteras Negros.
Pra mim a história do livro é um vazio existencial.

Marcio Mafra
27/01/2019 às 00:00
Brasília - DF

A historia do encontro do americano David com o italiano Giovanni em Paris.

David esperava sua namorada Hella, que estava na Espanha pensando se casaria, ou não, com David.

Ele conhece Giovanni, um garçom italiano por quem se apaixona.

O quarto de Giovanni expõe as agruras de personagens que enfrentam o vazio existencial ao perceber a fragilidade dos laços e as frustrações de seus desejos.

Marcio Mafra
27/01/2019 às 00:00
Brasília - DF

Aqui estou, em pé diante da janela deste casarão no sul da França enquanto chega a noite, essa noite que me arrasta ao pior de todos os amanheceres de minha vida. Tenho um copo na mão, uma garrafa encostada ao cotovelo, Observo meu reflexo no brilho mortiço da vidraça, e vejo que meu vulto é alto, talvez bem parecido ao de uma flecha, e meu cabelo louro também brilha um pouco. O meu rosto é igual a rostos que já foram vistos muitas vezes, em numerosos lugares. Meus antepassados conquistaram um continente, atravessando planícies habitadas pela morte, até chegarem a um oceano que ficava para o lado oposto ao da Europa, voltando-se para um passado mais sombrio. Quando amanhecer talvez eu esteja bêbado, mas de nada isso adiantará. De qualquer modo, bêbado ou não, tomarei o trem para Paris. Esse trem vai ser o mesmo de sempre, com os passageiros esforçando-se para obter acomodação melhor e até mesmo aspecto de dignidade naqueles bancos de costas retas, feitos de madeira e de terceira classe. Eu também serei o mesmo. Passaremos pela mesma campina rumo ao norte, deixando para trás as oliveiras, o mar e toda a glória contida no céu que promete tempestade e ingressaremos no nevoeiro e na chuva que cobrem Paris. Alguém vai me oferecer um pedaço de sanduíche, outrem me oferecerá um gole de vinho e certamente haverá quem me peça um fósforo. Nos corredores lá fora haverá gente a andar de um para outro lado, espiando pelas janeias e para nós. A cada parada surgirão recrutas em seus uniformes marrons e grandes, com chapéus coloridos, abrindo a porta do compartimento e perguntando: "Complet?" E todos nós anuiremos um "sim" em resposta, como conspiradores, sorrindo de leve uns para os outros enquanto os rapazes percorrerão o trem fazendo a mesma pergunta. Dois ou três deles terminarão em frente à porta de nosso compartimento, gritando uns com os outros em suas vozes firmes e irreverentes, fumando seus pavorosos cigarros dados pelo exército. Vai haver uma moça sentada no banco à minha frente, a imaginar o motivo pelo qual não tenho flertado com ela e que ficará animadíssima com a presença dos recrutas. Eu estarei da mesma forma, porém, saberei me controlar melhor. Acontece, também, que esta noite a campina está tranquila e parada, essa campina que se reflete através da minha imagem no vidro da janela. Esta casa fica bem ao lado de uma pequena estação de veraneio — vazia ainda, pois a estação de férias não começou. Fica sobre um pequeno morro, e pode-se olhar daqui as luzes da cidade, e ouvir as ondas do mar. Minha pequena, Hella, e eu, alugamo-la em Paris há alguns meses, tendo-a visto em fotografias. Já faz uma semana que ela se foi, e deve estar agora em meio ao oceano, de volta aos Estados Unidos. Imagino sua imagem neste instante, muito elegante, nervosa e brilhando, rodeada pela luz que enche o salão do transatlântico, bebendo depressa demais e rindo, observando os homens presentes. Estava assim quando a conheci, num bar em St. Germain-des-Prés, bebendo e observando, e por isso gostei dela, achei que seria divertido participar de sua alegria. Foi assim que começou e para mim representou apenas isso; a despeito de tudo, não sei ainda com certeza se a coisa toda realmente representou mais do que isso para mim. E não creio que tenha mesmo significado mais do que isso para ela — pelo menos enquanto não fez aquela viagem à Espanha e, tendo-se encontrado sozinha por lá, talvez começasse a imaginar se uma vida de beber e observar os homens era o que desejava. Àquela altura, de qualquer modo, era tarde demais. Eu estava com Giovanni. Eu a pedira em casamento, antes de Hella seguir para a Espanha, e ela rira muito, mas isso, de algum modo, tornara a coisa ainda mais séria para mim, e insisti. Foi então que a ouvi dizer que teria de afastar-se de mim e pensar no caso. E ontem à noite estivera aqui, na última vez em que a vi, enquanto arrumava a mala. Eu lhe dissera que a amara uma vez, e me obrigara a acreditar no que eu próprio dizia. Mas teria conseguido isso? Estava pensando, certamente, nas noites que passamos na cama, naquela inocência e naquela confiança peculiares, que nunca mais existirão, e que tornaram aquelas noites tão deliciosas, tão desligadas do passado, presente ou qualquer coisa vindoura, tão desligadas de minha vida, afinal, pois eu não precisava fazer mais do que assumir responsabilidade puramente mecânica por elas. E aquelas noites eram vividas sob um céu estrangeiro, sem pessoa alguma a observar, sem penalidades ou castigos — e foi este último fato a causa de nossa ruína, pois nada se mostra mais insuportável do que a liberdade, depois de a possuirmos. Acho que foi esse o motivo pelo qual a pedi em casamento — para obter alguma coisa à qual eu ficasse amarrado, preso. Talvez tenha sido por isso que ela, na Espanha, resolveu casarse comigo. Infelizmente, não podemos inventar o que nos vai prender, ou inventar nossos amantes e nossos amigos, assim como não podemos inventar e escolher nossos pais. A vida nos dá tudo isso, e também os tira de nós, e o grande problema está em dizermos "sim" a ela, a vida. Quando disse a Hella que a amava, eu pensava naqueles dias antes de uma coisa horrível e irrevogável haver-me ocorrido, quando um caso era apenas um caso sem maior importância. Agora, a partir desta noite e do amanhecer que logo virá, sejam quantas forem as camas nas quais eu me encontre, entre o momento presente e meu último e derradeiro leito, jamais poderei entregar-me a qualquer desses casos juvenis e entusiásticos — casos que na verdade, quando se pensa bem no assunto, não passam de um tipo de masturbação mais elevada, ou pelo menos mais pretensiosa. As pessoas variam demais para que as possamos tratar com tanta leviandade. Eu sou volúvel demais para que possam confiar em mim. Não fora assim, e não estaria sozinho agora, nesta casa, nem Hella estaria cruzando o oceano, e Giovanni não estaria tão perto de ser levado, em qualquer momento até o amanhecer, para a guilhotina. Arrependo-me agora — ainda que isso de nada sirva — por uma determinada mentira entre as muitas que já usei, vivi, e em que acreditei. É a mentira que contei a Giovanni, mas nunca o consegui fazer crer, de que jamais dormira antes com outro homem. Eu dormira, sim. Tinha resolvido nunca mais fazer isso. Há alguma coisa fantástica no espetáculo que agora apresento a mim mesmo, o de correr tanto, e com tanto esforço, tendo até atravessado o oceano, para mais uma vez me encontrar diante do cão de guarda, em meu próprio quintal — e havendo esse quintal ficado menor, e o cão de guarda bem maior, no tempo transcorrido desde então. Não tenho pensado naquele menino — o Joey — há muitos anos, mas posso vê-lo com toda clareza esta noite. Foi há anos atrás. Eu era ainda adolescente, ele tinha mais ou menos minha idade, um ano a mais ou a menos. Joey era muito bom menino, vivo e moreno, e sempre risonho. Durante algum tempo foi meu melhor amigo e mais tarde a simples ideia de que uma pessoa assim pudesse ser meu melhor amigo constituía, para mim, a prova de alguma mancha horrível. Por isso eu o esqueci, mas o vejo claramente esta noite. Foi no verão, e estávamos em férias. Os pais dele saíram e eu passava o mesmo fim de semana em casa dele, perto de Coney Island, no Brooklyn. Nós também morávamos em Brooklyn, naquele tempo, mas em bairro melhor do que o de Joey. Acho que estivemos pela praia, nadando um pouco e observando as moças seminuas que passavam, assobiando para elas e rindo. Tenho certeza de que se alguma das moças para quem assobiávamos naquele dia desse qualquer sinal de corresponder, o oceano não teria sido fundo o bastante para afogar nossa vergonha e pavor. Mas com certeza as moças faziam ideia disso, talvez por causa do modo de assobiar, e não nos deram confiança. Com o sol já se pondo, seguimos em direção à casa dele, trazendo por baixo das calças compridas os calções de banho, ainda molhados. Acredito que a coisa tenha começado no banheiro, no banho de chuveiro. Sei que senti alguma coisa — enquanto brincávamos naquele aposento pequeno, cheio de vapor, batendo com toalhas molhadas um no outro — que não sentira antes, e que o incluía, por algum meio misterioso, embora sem intuito. Lembro ter tido grande relutância em vestir-me, e culpei o calor por isso. Mas vestimos alguma coisa, comemos frios tirados da geladeira e tomamos muita cerveja. Devemos ter ido ao cinema. Não consigo recordar qualquer outro motivo pelo qual saímos, e lembro ter andado pelas ruas escuras e quentes de Brooklyn enquanto o calor emanava do chão e vinha das paredes das casas com força bastante para matar um homem. E parecia que todos os adultos do mundo estavam por ali sentados, desalentados e desarrumados, em frente às casas, bem como todas as crianças do mundo nas calçadas ou sarjetas ou penduradas nas escadas de incêndio, enquanto eu passava com o braço em volta do ombro de Joey. Eu sentia orgulho, parece-me agora, porque ele era mais baixo do que eu. Seguíamos andando e Joey fazia comentários muito irreverentes e divertidos, e ríamos a valer. Como é estranho recordar, e recordar pela primeira vez depois de tanto tempo, como me senti bem aquela noite, como gostei de Joey... Ao voltarmos por aquelas ruas, tudo estava sossegado e nós também. Continuamos muito sossegados no apartamento, e o sono nos assaltava enquanto tirávamos a roupa no quarto de Joey. Deitei-me e adormeci — por bastante tempo, ao que acredito. Mas acordei e verifiquei que a luz estava acesa e Joey examinava o travesseiro com meticulosidade feroz. — O que houve? — Acho que um percevejo me mordeu. — Seu porcalhão! Percevejo na cama? — Acho que um me mordeu. — Você já foi mordido por percevejo antes? — Não. — Então volte a dormir. Você sonhou. Joey olhou para mim, boquiaberto e com os olhos escuros bem arregalados. Era como se acabasse de descobrir que eu era uma autoridade em percevejos. Ri e agarrei-lhe a cabeça como tantas vezes fizera, quando brincávamos ou quando ele me aborrecia. Mas daquela vez, quando o toquei, alguma coisa aconteceu nele e em mim, tornando aquele contato diferente de qualquer outro que conhecêssemos. E ele não resistiu, como fazia quase sempre, mas ficou ali onde eu o levara, contra meu peito. E eu compreendi que meu coração disparara e que Joey estremecia, e a luz no quarto era muito brilhante e quente. Comecei a mover-me e a fazer algum tipo de brincadeira, mas Joey murmurou alguma coisa e inclinei a cabeça para ouvir o que era. Joey ergueu a dele enquanto eu abaixava a minha, e nos beijamos por assim dizer, acidentalmente. E então, pela primeira vez em minha vida, tive plena consciência do corpo de outra pessoa, do cheiro de outra pessoa. Tínhamos os braços passados em volta um do outro. Era como se eu segurasse na mão algum pássaro raro, exausto, quase condenado, que milagrosamente eu conseguira descobrir. Eu estava muito assustado, tenho a certeza de que ele também, e fechamos os olhos. Lembrar isso tão clara e penosamente, esta noite, mostra-me que nem por um único instante consegui esquecer. Sinto em mim agora um despertar distante e temível do que me empolgou de modo tão esmagador naquele momento, de um imenso calor sedento, e de um tremor, e de uma ternura tão penosa que pensei que ia levar o coração a explodir. Mas daquela dor espantosa e intolerável veio a alegria, e nós nos demos mutuamente alegria naquela noite. Pareceu, naqueles momentos, que toda uma vida não bastaria para que eu executasse com Joey o ato do amor.

 


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Marcio Mafra
27/01/2019 às 00:00
Brasília - DF

James Baldwin, escritor americano de sucesso há 30/40 anos atras.

Um de seus livros virou filme em 1974 e  - agora - voltou ao sucesso, inclusive no Brasil porque questiona os padrões morais vigentes na comunidade negra de Nova York.

Todas as críticas do Globo, Folha São Paulo, Veja, Valor Econômico em dezembro de 2018 teciam loas ao autor, sempre descrevendo seus dois livros reeditados aqui: O Quarto de Giovanni e Terra Estranha.

Comprei os dois.


 

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