carregando

Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns segundos...

 

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Para usar as funcionalidades você precisa estar logado(a). Clique aqui para logar
Erro ao processar sua requisição, tente novamente em alguns minutos.
O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Livro Excelente - 1 comentário

  • Leram
    2
  • Vão ler
    15
  • Abandonaram
    0
  • Recomendam
    6

Autor: José Saramago

Editora: Companhia de Bolso

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 374

Ano de edição: 2005

Avalie e comente
  • lido
  • lendo
  • re-lendo
  • recomendar

 

Excelente
Marcio Mafra
11/04/2009 às 20:43
Brasília - DF

Só um gênio como Saramago teria a coragem e o talento, nos seus 80 anos de idade, para provocar tanta celeuma, tanta ira, tanta indignação com um só livro. O Governo, em pleno estado democrático, censurou a participação dele num evento internacional de literatura, porque Saramago iria representar Portugal com o "Evangelho Segundo Jesus Cristo". O romance é mais que genial, mais que excelente, pois a história de Cristo já foi contada por todo mundo. Pelos evangelistas, em todos os idiomas e dialetos vivos e desaparecidos, em latim, grego, aramaico e hebraico por todos os religiosos de todas as religiões conhecidas. Nunca, porém, tinha sido escrita pelo próprio Jesus Cristo. Assim, os mesmos acontecimentos são contados numa versão humana e atualizada: "... A barriga de Maria crescia sem pressa, tiveram de passar-se semanas e meses antes que se percebesse às claras o seu estado, e, não sendo ela de dar-se muito com as vizinhas, por tão modesta e discreta ser, a surpresa foi geral nas redondezas..." O romance não é ofensivo, não é profano, não contesta o poder de Deus, nem da igreja cristã. Saramago trabalha a figura de Jesus histórico, que ganha existência e personalidade absolutamente diferentes do que até então se conheceu. Desde o início do livro o autor vai alimentando a narrativa em outras narrativas, num estilo contínuo de mérito e de forma. A história segue - razoavelmente - o roteiro dos evangelhos canônicos, mas com uma linguagem artística e utópica, que só os gênios conseguem criar, profanando algumas coisas tidas como divinas e também, divinizando outras consideradas profanas. No meio dessa linguagem poética e utópica é que explode o lirismo humano, bem no estilo saramaguiano, ao narrar cada tempo do amor entre Jesus e Maria Madalena. O conhecido hiato da vida de Jesus, do período que vai de sua adolescência aos 12 anos, até os 30, no evangelho do Saramago é construído ao longo da narrativa, sem causar nenhuma omissão de tempo, na biografia de Cristo, terminando com a sua morte, em nada diferente da história tradicional. Vale a leitura. Muito mais que excelente. Espetacular.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Jesus contada por ele mesmo.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

No dia seguinte, manhã cedo, abalaram para Jerusalém muitos dos viajantes que tinham passado a noite no caravançarai, mas os grupos de caminhantes, por casualidade, formaram-se de maneira que José, embora mantendo-se à vista dos conterrâneos que iam para Bercheva, acompanhava desta vez a mulher, seguindo ao lado dela, à estribeira, por assim dizer, precisamente como o mendigo, ou quem quer que fosse, fizera no dia anterior. Mas José, neste momento, não quer pensar na misteriosa personagem. Tem a certeza, íntima e profunda, de que foi beneficiário dum obséquio particular de Deus, que lhe permitiu ver o seu próprio filho ainda antes de ser nascido, não envolto em faixas e cueiros de infantil debilidade, pequeno ser inacabado, fétido e ruidoso, mas homem feito, alto um bom palmo mais do que o seu pai e o comum desta raça. José vai feliz por ocupar o lugar de seu filho, éao mesmo tempo o pai e o filho, e a tal ponto este sentimento éforte que subitamente perde sentido aquele que é seu verdadeiro filho, a criança que ali vai, ainda dentro da barriga da mãe, no caminho de Jerusalém...." ..." Dentro da caverna fazia escuro, a entraquecida luz exterior detinha-se logo à entrada, porém, em pouco tempo, chegando um punhado de palha às brasas e soprando, com a lenha seca que ali havia, a escrava fez uma fogueira que era como uma aurora. Logo, acendeu a candeia que estava dependurada duma saliência da parede, e, tendo ajudado Maria a deitar-se, foi por água aos poços de Salomão, que ali são perto. Quando voltou, achou José de cabeça perdida, sem saber que fazer, e não devemos censurá-lo, que aos homens não os ensinam a comportar-se utilmente em situações destas, nem eles querem saber, o mais de que hão-de vir a ser capazes é pegar na mão da mulher sofredora e ficar à espera de que tudo se resolva em bem. Maria, porém, está sozinha, o mundo acabaria de assombro se um judeu deste tempo ousasse cometer esse pouco. Entrou a escrava, disse uma palavra animadora, Coragem, depois pôs-se de joelhos entre as pernas abertas de Maria, que assim têm de estar abertas as pernas das mulheres para o que entra e para o que sai, Zelomi já perdera o conto às crianças que vira nascer, e o padecimento desta pobre mulher é igual ao de todas as outras mulheres, como foi determinado pelo Senhor Deus quando Eva errou por desobediência, Aumentarei os sofrimentos da tua gravidez, os teus filhos nascerão entre dores, e hoje, passados já tantos séculos, com tanta dor acumulada, Deus ainda não se dá por satisfeito e a agonia continua. José já ali não está, nem sequer à entrada da cova. Fugiu para não ouvir os gritos, mas os gritos vão atrás dele, é como se a própria terra gritasse, a tais extremos que três pastores que andavam por perto com os seus rebanhos de ovelhas foram para José e perguntaram-lhe, Que é isto, que parece que a terra está gritando, e ele respondeu, É a minha mulher que dá à luz além naquela cova, e eles disseram, Não és destes sítios, não te conhecemos, Viemos de Nazaré de Galileia ao recenseamento, na hora que chegámos cresceram-lhe as dores, e agora está nascendo. A crepúsculo mal deixava ver os rostos dos quatro homens, em pouco tempo todos os traços se iriam apagar, mas as vozes prosseguiam, Tens comida, perguntou um dos pastores, Pouca, respondeu José, e a mesma voz, Quando tudo estiver terminado vem dizer-me e levar-te-ei leite das minhas ovelhas, e logo a segunda voz se ouviu, E eu queijo te darei. Houve um longo e não explicado silêncio antes que o terceiro pastor falasse. Finalmente, numa voz que parecia, também ela, vir de debaixo da terra, disse, E eu pão lhe hei-de levar. O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo. Envolto em panos, repousa na manjedoura, não longe do burro, porém não há perigo de ser mordido, que ao animal prenderam-no curto. Zelomi saiu fora a enterrar as secundinas, ao tempo que José se vem aproximando. Ela espera que ele entre e deixa-se ficar, respirando a brisa fresca do anoitecer, cansada como se tivesse sido ela a parir, é o que imagina, que filhos seus próprios nunca os teve....." ...." Depois comecei a ser prostituta, Já deixaste tal vida, Mas o sonho não foi desmentido, nem mesmo depois que te conheci, Diz-me outra vez, como foram as palavras, Deus é medonho. Jesus viu o deserto, a ovelha morta, o sangue na areia, ouviu a coluna de fumo suspirando de satisfação, e disse, Talvez, talvez, porém uma coisa é ouvi-Io em sonho, outra será vivê-Io em vida, Prouvera a Deus que o não viesses a saber, Cada um tem de viver o seu destino, E do teu já tu recebeste o primeiro aviso solene. Sobre Magdala e o mundo, gira lentamente a cúpula de um céu crivado de estrelas. Em algum lugar do infinito, ou infinitamente o preenchendo, Deus faz avançar e recuar as peças doutros jogos que joga, é demasiado cedo para preocupar-se com este, agora só tem de deixar que os acontecimentos sigam naturalmente o seu curso, apenas uma vez ou outra dará com a ponta do dedo mindinho um toque a propósito para que algum acto ou pensamento desgarrados não quebrem a implacável harmonia dos destinos. Por isto é que não cura de interessar-se pelo resto da conversa que Jesus e Maria de Magdala prosseguem, E agora, que pensas fazer, perguntou ela, Disseste que irias comigo para onde eu fosse, Disse que estaria contigo onde tu estivesses, Qual é a diferença, Nenhuma, mas podes ficar aqui pelo tempo que quiseres, se não te importa viver comigo na casa onde fui prostituta. Jesus pensou, ponderou, finalmente disse, Buscarei onde trabalhar em Magdala e viveremos juntos como marido e mulher, Prometes demasiado, já é bastante que me deixes estar ao pé de ti. Trabalho, Jesus não teve, mas teve o que deveria ter esperado, risos, chufas e insultos, realmente o caso não era para menos, um homem, pouco mais do que adolescente na idade, a viver com a Maria de Magdala, aquela gaja, Deixem vocês passar uns dias e ainda o vamos ver sentado à porta de casa, à espera que saia o cliente. Duas semanas se aguentou a troça, mas ao cabo Jesus disse a Maria, Vou-me embora daqui, Para onde, Para a borda do mar. Partiram de madrugada, e os habitantes de Magdala não chegaram a tempo de aproveitar alguma coisa na casa que ardia.


  • Morte de José Saramago.

    Autor: Vanessa Rodrigues

    Veículo: Blog da Flip

    Fonte:

    MORTE DE JOSE SARAMAGO EM 18/06/2010 POR VANESSA RODRIGUES, JORNALISTA PORTUGUESA

    Publicado no Blog da Flip, sob o titulo "Um Saramago hormonal" - em 18 de junho de 2010

    A morte de Saramago pegou-nos de surpresa. Apesar da idade e dos problemas de saúde, parecia inquebrável, tal sua verve, entusiasmo e firmeza. No blog da Companhia das Letras, Chico Buarque afirma, em parte por todos nós: "Perco um grande amigo. Perdemos todos um ser humano admirável, um escritor imenso, zelador apaixonado da língua portuguesa." A jornalista portuguesa Vanessa Rodrigues, correspondente em São Paulo da rádio portuguesa TSF, escreveu um emocionante texto sobre o escritor, o qual publicamos, com exclusividade. Vanessa, que esteve na Flip em 2006, pelo Público, e em 2008 e 2009 pelo Diário de Notícias, ambos jornais portugueses, conheceu Saramago pessoalmente e leu todos os seus livros – O Ensaio sobre a Cegueira, A Caverna, o Ano da morte de Ricardo Reis e Caim são seus favoritos. Chama-o de ” mestre literário deste meu Português salgado”. E diz que por causa dele, acredita “que a escrita é a melhor das terapias para tornarmos a vida um pouco mais suportável.” Ensaio sobre a traição; um Saramago hormonal, em estado de excepção Por Vanessa Rodrigues Vi-o duas vezes, mas cheguei a viver a vida dele, mais do que gostaria, sempre num estado de excepção. Trai-o, tantas vezes! E ele a mim. Nunca soubemos bem da vida um do outro (e ele nem sempre me fazia bem), porque ele era isso: um estado de excepção, a subverter regras, imposições, valores. E isso incomodava-me. Mexia comigo. E nós não gostamos que mexam connosco. Depois, ele encafuava-me numa gruta, para que pudesse ouvir o eco da minha voz, o bafo de mim e os sentidos. Ele queria que eu percebesse que para respirar, é melhor estar sozinho. E lê-lo é essa solidão connosco, estando nele. Por isso, ele tinha a vida na ponta dos dedos sem medo de ser, acto contínuo. Era um homem sem parágrafos porque a vida é escorreita. Deixava-me num deserto. Ele atirava-me sempre para um deserto. E a respiração ofegava-me perto dele. Era hormonal. Tudo nele era hormonal, por isso me apertava sempre o peito quando ele estava por perto, nem que fosse só um pedaço dele nas estantes do meu quarto. Sabia que se pegasse nele, se lhe folheasse a vida, não poderia voltar atrás. Havia amor e ódio. Talvez não fosse ódio, mais uma repulsa. Ele não tinha o direito de me trazer a mim. Sempre trazia. Quando percebia, ele já o tinha feito. A vida com ele mudava sempre mais um pouco. Tornava-me mais pequena. E isso porque ele era bom a esmiuçar valores. Um colosso intratável, ácido, cáustico. Das vezes que o vi, receei sempre não fazer a pergunta certa. Precisava tanto fazer a pergunta certa. Por isso, saiu-me: "O que o deixa feliz?", cheguei a perguntar-lhe, há dois anos, no consulado de Portugal, em São Paulo, quando veio apresentar a Memória do Elefante. "Escrever", respondeu-me. Era isso: a vida-divã na terapia do branco das páginas, como forma de não se trair. E ser quem estava preparado para ser: esse homem aziago e doce que só queria viver o melhor que podia para não se trair a si próprio. Então, viver a vida dele não era coisa leve e bonita de se viver. Viver a vida dele era sentar-me num divã de analista para dele nunca mais sair; e ver casas em chamas quando o que resta de nós está lá dentro e pode não sobrar nada. Será que sobra alguma coisa? Viver a vida dele era viver num abismo de identidade, numa nuvem densa, ainda que lúcida, sapiente, sobretudo se soubermos ler nas entrelinhas e tivermos coragem de agarrar a vida com a mesma rudeza, cadente, até ao ponto final. Houve alturas, confidencio, em que me esforcei para não o ler nas entrelinhas, mas ele arranjava sempre forma de me dizer: "Estás a ver aquilo que és! És isto, pó". Ainda que mo dissesse com palavras - nada que eu não soubesse - o mais acutilante era que elas encontravam maneira de ir directamente às gavetas da minha cabeça para se guardarem lá, impositivas e agarradas às texturas mais imperceptíveis. Ele sabia como entrar e de lá nunca mais sair. Ele remexia-me as feridas, as fragilidades, a pequenez e a insignificância a que se pode reduzir a vida. E que nada importa. (O que te importava a ti, afinal?). Era isso que ele fazia com a vida para contar histórias: agarrava nela, amassava-a, cozia-a em forno lento (podia jurar que ouvia o crepitar da lenha lenta como ele gostava) e quase tudo o que de lá saía tinha sabor aziago, seco, rude. Demasiado rude para aquilo que estava preparada. Chegou, por isso, a dar-me alguns socos no estômago. Desconcertou-me ao mostrar que a lucidez está na cegueira, e que a cegueira está na lucidez, que a morte é intermitente, que a identidade é subversão, máscaras, desconstrução, reflexos e sempre um confronto entre nós e os outros; ou nós e nós próprios, as nossas frustrações, enquanto cobardes para sermos e mostrarmos quem realmente somos. Ele lembrou-me sempre que somos uns canalhas. Somos barro pobre que sai da terra para nos moldarmos numa coisa ainda mais vil. Somos Caim; somos esse homem “imaginário” (um outro nós que tantas vezes gostaríamos de ser e outras vezes renegamos) que vive cá dentro, desta redoma da possibilidade de ser à procura de outros portos, a trair-nos, sempre. Depois dele, nunca mais consegui voltar. Tornei-me num estado de excepção para não me trair, mas falho sempre um pouco. (mantivemos a grafia de Portugal)

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O livro máximo do Saramago não podia faltar na prateleira.


 

Receber nossos informativos

Siga-nos:

Baixe nosso aplicativo

Livronautas
Copyright © 2011-2019
Todos os direitos reservados.