Carregando, aguarde...
Você está aqui Principal / Livros / Contos Mineiros
Para usar as funcionalidades você precisa estar logado(a). Clique aqui para logar
Erro ao processar sua requisição, tente novamente em alguns minutos.
Contos Mineiros

Livro Excelente

  • Leram
    1
  • Lendo
    0
  • Vão ler
    2
  • Relendo
    0
  • Recomendam
    0
Título: Contos Mineiros Autor: Adelia Prado Editora: Ática Assunto: Coletânea Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil Páginas: 126 Ano de edição: 1984 Peso: 220 g
  • lido
  • lendo
  • vou-ler
  • re-lendo
  • recomendar
tenho
trocar
empresto
doar
aceito-doação
favorido
comprar
quero-ganhar

 

  • Excelente Marcio Mafra
    25/09/2004 às 18:40 Brasília - DF

    Toda regra tem alguma exceção. A coletânea de contos mineiros vem confirmá-la. Por fora bela viola, e por dentro, nada de pão bolorento, uai sô!

    Dezoito dos melhores e mais famosos escritores mineiros, escrevem excelentes contos abrangendo os contrastes da vida urbana e os dramas do cotidiano de uma pequena cidade, narrados de maneira gostosa, agradável, de onde se constata que cada mineiro - homem, mulher, poeta ou lobisomem - têm seu jeito próprio de viver a vida.

    Vida e alma de mineiro uai.

    Excelente

    (0) (1)
  • Contos mineiros de autores modernos:
    Adélia Prado,
    Aníbal Machado,
    Carlos Drumond de Andrade,
    Duílio Gomes,
    Elias José,
    Fernando Sabino,
    Garcia Paiva,
    Godofredo Rangel,
    Ivan Ângelo,
    Luiz Vilela,
    Manoel Lobato,
    Maria Lysia Correa de Araújo,
    Murilo Rubião,
    Orlando Bastos,
    Otto Lara Resende,
    Paulo Mendes Campos,
    Roberto Drumond e
    Wander Piroli.

  • O ovo com solenidade. O cego estava quebrando o ovo para fazer omelete quando o porco entrou na cozinha. Sentiu-o aos seus pés; em silêncio cheirava os seus pés. O cego estava de sandalias e a saliva do porco era uma coisa quente e líquida molhando o seu calcanhar direito. Os músculos do cego se retesaram. Sua mulher e a sua filha haviam saído. Elas sabiam do grande medo que ele tinha de porcos e por isso os trancavam no chiqueiro. O cego percebeu, dentro da névoa do seu medo, que eles haviam arrebentado as tábuas podres do chiqueiro e saído. A mulher já o havia advertido: "As tábuas do chiqueiro estão podres. Precisamos trocá-las". Eram três porcos gordos e espremidos no chiqueiro cujas tábuas iam apodrecendo debaixo das chuvas e dos carunchos. Viviam alucinados pelo calor, engordando e envelhecendo com as moscas que lhes trepavam nos lombos.
    O cego estava sempre adiando a data de matá-las esperava uma visita importante qualquer. Já não sabia há quanto tempo eles estavam em sua casa. Só sabia de sua aversão por eles e de uma iminente visita importante, quando então os mataria. Havia deixado a casca do ovo cair no chão e o porco agora a comia. Pelo menos enquanto ele come não se lembra de mim, pensou. Os velhos e agudos dentes do porco trituravam a casca e o cego pensou então que aqueles dentes, apesar de velhos, rasgariam a carne de suas pernas como se elas fossem manteiga. Tinha tanto medo do porco morder as suas pernas que elas não obedeciam ao seu intenso desejo de correr, e permaneciam fincadas no chão, expostas aos agudos dentes velhos do porco que agora, pelo silêncio, o cego sabia ter terminado de comer a casca do ovo e começava a cheirar o ar com o seu largo, sujo e enrugado focinho de porco velho. As tábuas da escada que dava do quintal para a cozinha rangeram. Estão subindo os outros, pensou o cego e o seu terror nesse momento foi tão intenso que ele sentiu, no escuro poço de sua vertigem, as pernas bambearem. Não posso cair, murmurou, não posso cair. Como um soco em sua memória, o aviso da mulher: Só chegaremos à noite. Haviam saído, ela e a filha, para visitar uma parenta doente e o cego se rendeu, subitamente, à dolorosa realidade - ter de permanecer durante longo tempo como um monumento lívido e frágil em meio aos porcos. Eles agora rodeavam as suas pernas, grunhindo. Misturado aos seus roncos, que ecoavam na cozinha como a nota mais grave de um instrumento de sopro, o cheiro enjoativo do ovo sobre o prato. O cego lembrou-se, com uma ponta de desespero, da omelete que nunca comeria e então fez o gesto que talvez o salvasse da fome e do ódio dos seus porcos: com as mãos trêmulas derramou o ovo no chão. Foi um gesto mecânico e tateante mas que inaugurou nele uma certa paz - os porcos lambiam o ovo no chão e isso era a trégua; enquanto eles se alimentavam não se lembrariam de suas pernas. Sua mulher tinha o costume de deixar os mantimentos sobre a pia, na frente da qual se encontrava, e ele tentava agora localizá-las. Sabia que a menina havia feito a feira naquela manhã e que enquanto
    entregava os mantimentos para a mãe, ia nomeando-os. Estava tudo na sua frente, além do vácuo negro dos seus olhos. Precisava detectar os mantimentos e com eles saciar a dura fome dos porcos. Apalpando a superfície úmida da pia, seus dedos tocaram num objeto morno. Era um objeto morno e redondo, com uma haste encimando-o. Abóbora, pensou, e puxou-a pela haste. O ruído seco da abóbora caindo. No chão foi o ruído de uma abóbora que se partia e que se ofertava, amarela e luminosa, à avidez dos porcos. O ruído que se seguiu ao da abóbora se partindo foi o ruído dos porcos mastigando. Mastigavam com pressa e grunhiam: Havia satisfação nos seus grunhidos: O cego, então, com uma escura dificuldade, foi localizando e atirando ao chão O arroz, os quiabos, a couve, até que, não encontrando mais nada para atirar, escutou: a bolha de saliva arrebentando. Pelo denso silêncio que subia do chão ele entendeu que a bolha de saliva fora o final do festim. Entendeu também, com a profunda e mágica percepção dos cegos, que os porcos ainda não estavam saciados. E que o rodeavam, pensativos, os olhos fixos em suas pernas.

  • Marcio Mafra
    18/01/2013 às 19:17 Brasília - DF

    Não há registros sobre este livro.

 

  Livro ainda não disponível.