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Sábado Sangrento - Conto Livre Rafael Mafra

Sábado Sangrento.

Rafael Mafra - junho de 1998

 

Levantou-se.

Era melhor nem pensar que era mais um dia de trabalho, mais um dia como todos os outros.

Sem pensar, então, foi até o banheiro, lavou o rosto e se olhou no espelho.

- Fazer a barba - pensou.

Mecanicamente ele a fez.

Seus instintos matinais o fizeram escovar os dentes também. Depois, café, pão, ele poderia fazer isso depois de morto!

Vestiu-se: temo, gravata (maldita gravata!), e, novamente, escovar os dentes.

Foi aí que aconteceu.

Algo alterou sua rotina idiossincrática!

Sim! Caiu pasta de dente na sua gravata!

Pode não parecer nada demais, mas foi a única coisa diferente que lhe aconteceu nos últimos 345 dias úteis.

 

Sandoval- católico apostólico romano praticante, como dizia orgulhosamente - ficou muito feliz, pois aquilo era realmente diferente.

Lá foi Sandoval todo feliz, com a gravata manchada de alívio refrescante, trabalhar.

 

No caminho, de tanta felicidade, resolveu fazer algo que realmente o deixava realizado.

E como era excitante, moderno, como era legal (como era despojado o vocabulário de Sandoval!) sacar dinheiro no banco eletrônico.

Normalmente ele preferia usar o cartão de crédito, entretanto hoje era um dia especial.

E foi no centro da cidade, pra todo mundo ver seu sagrado ato de sacar dinheiro numa maquininha que, aliás, era muito mais educada que qualquer caixa de banco.

Ela pedia, inclusive, por favor. Realmente muita fina.

Lentamente, retirou o cartão.

Inseriu tal e qual o indicado, mas ele nem precisou olhar as instruções porque ele dominava a fera.

Estremeceu de prazer quando a máquina deu aquela" sugadinha" pro cartão entrar de vez.

Pressionou "saque" , num delírio.

Digitou sua senha, que não era seu aniversário! Isso seria muito banal. Era seu aniversário...mais dez!

-Sou brilhante- pensou.

Aí, momento de tensão.

Escolher o valor.

Porque não havia pensado nisso antes..50 reais, não 100! Claro! Ele queria ver o peixe de novo.

Peixe sagrado aquele da nota de cem. Fim da pescaria, abriu-se a portinhola com o dinheiro e, simultaneamente, a maravilha tecnológica cuspiu o cartão.

Meio atabalhoado, Sandoval pegou o cartão primeiro e embananou-se na hora de guardá-lo e, de supetão, a portinhola fechou-se com dinheiro e tudo.

Com o peixinho de Sandoval.

 

Mas como, indagou-se. Como isso foi acontecer?

Já estava exaltando-se.

Por que, meu Deus, isso tinha que acontecer logo comigo?!

Eu quero meu dinheiro!

Eu quero! - bradava, enraivecido.

Já era notável a vermelhidão de seu rosto, veias lhe saltaram do pescoço, seu cenho, antes calmo, era de um lutador de boxe, e ele sentiu algo que lhe vinha subindo, subindo...

 

-AHHHH! Em milésimos de segundos, cravou seus dedos na portinhola e puxou com uma força descomunal e, ainda assim, ela não abriu.

Bateu com o joelho repetidas vezes, e aquele plástico quebrou-se em mil pedaços.

Então, abaixou-se como um primata, e olhou com curiosidade animal pelo furo, ou melhor, pelo rombo aberto pelos seus joelhos e o dinheiro não estava lá.

Sem pensar uma fração de segundo, meteu o braço dentro da portinhola, e seguiu o caminho que era possível.

A despeito de sua manga de paletó rasgada, ainda quebrou algumas ferragens que lhe impediam de chegar ao objetivo, sentiu aquela textura característica das cédulas e puxou.

 

Olhando para seu braço sangrando, com o semblante transtornado e sorriu de satisfação, um sorriso diabólico.

Enfiou a cédula toda engrunhada na boca e bateu no peito com vigor.

Antes de sair, precisava passar pela porta de vidro que separava o local de retirada de dinheiro, o que fez com uma cabeçada inacreditável que a trincou por inteiro.

Trespassou-a como se não fosse nada e, com um requinte de crueldade, chutou violentamente, com o bico do pé, o cachorro que passeava por ali.

Não sem antes ajeitar o óculos.

 

A multidão perplexa só assistiu ao homem sangrando pela testa e pelo braço esquerdo entrar em seu carro, nota na boca e largar calmamente pelas ruas da cidade.

 

No carro, olhou o jornal que estava no banco do carona e constatou que era sábado.

 

E, oras bolas, sábado não era dia de trabalhar!

Aquela gravata então não alterou nada, não alterou um dia como os outros.

E, por isso, ele não teria motivos para sacar o dinheiro no banco.

Retirou a nota de cem da boca, colocou-a no bolso pensou como era bobo e como a vida era engraçada.

 

Riu discretamente: -Hoje é Sábado. 

 

Parou na esquina, já que não tinha mais que ir ao trabalho, pra tomar um refrigerante dietético naquela máquina genial de onde caiam as latinhas.

Nela enfiou o dinheiro ensangüentado e apertou o botão de sua opção.

Mas a lata não caiu.

Não há testemunhas vivas do fato. 

 

Um rapaz sedento se dirige a uma máquina de refrescos.

Coloca uma cédula e aperta o botão do refrigerante desejado.

Estranhando a demora da queda da lata, abaixa-se e olha pelo buraco por onde ela deveria aparecer e tudo que vê são dois olhos vermelhos.

 

Não acreditando no que vê, esfrega os olhos, como que para despertar ,e aproxima-se um pouco mais.

Ao longe ouve-se um grito.

Nunca mais o rapaz foi visto. Nem Sandoval. 

 

Por enquanto. Se você teve o privilégio de ler este conto, não se esqueça que é a primeira vez que eu faço isso, então não me culpe, afinal Jesus também não pregava com dezoito anos, nem Jack, o Estripador, matava aos dezoito. E Pelé que se exploda. Obrigado pela paciência. H.

 

 

 

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