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Boneca de Pano - Resposta de Conceição Freitas - Ao Leitor Abestado

Ao leitor abestado

Leitor arguto e direto me manda e-mai! Diz ele, sem delongas:

Conceição Freitas,

Cronista, colunista, contista ou jornalista escreve muita bobagem.

Certamente porque têm que escrever todo dia. Ou quase todo dia.

De você tenho guardado três ou quatro Crônica da cidade porque as achei espetaculares, geniais.

Pois é - às vezes - cronista, colunista, contista ou jornalista escreve com talento.

Boneca de pano, "do último domingo, é mais que genial.

Fiquei abestado. Guardei. Parabéns"

 

Assumo a cabotina reprodução de um elogio a mim mesma, e prossigo.

O e-mail supracitado me deu frio na barriga. O leitor foi duro e preciso. É incontestável:

"Cronista, colunista, contista ou jornalista escreve muita bobagem". Mas não necessariamente porque tem de escrever todo dia ou quase todo dia.

Dostoiévksi, Tolstoi, Tchecov, Flaubert, Machado, Nelson Rodrigues, só pra citar alguns dos meus mais queridos, foram ou contistas ou cronistas ou jornalistas, ou a mistura dos três, e escreviam todos os dias.

Quase todos eles porque precisavam garantir o leite das crianças.

O e-mail do leitor me conduziu a questões sobre as quais venho refletindo há algum tempo.

Dostoiévksi, Tolstoi, Nabocov, Flaubert, Machado e Nelson Rodrigues são Dostoiévksi, Tolstoi, Nabocov, Flaubert, Machado e Nelson Rodrigues. Eu sou só Conceição Freitas, é este o meu tamanho e é com ele que tenho de me virar para garantir o iogurte dos pimpolhos.

Poucas coisas sei fazer direitinho nesta vida, uma delas é escrever, na largura, extensão e profundidade daquilo que consegui ser até agora.

Talvez eu até pudesse ter sido melhor, mas a vida foi me empurrando e eu, não poucas vezes, deixei que ela me levasse, quando poderia ter aumentado as medidas do meu existir e produzir.

É me perdoando pelo meu vaguear solitário, é percebendo que sou Conceição Freitas, nem mais nem menos que eu mesma, é tentando um pouco mais aperfeiçoar aquilo de que sou capaz de fazer, é que prossigo meu escrever. 

Mas, caro leitor, essa que não é Dostoiévksi, Tolstoi, Nabocov, Flaubert, Machado e Nelson Rodrigues, lhe assegura: não sou eu quem escreve crônicas merecedoras de constar de seus guardados.

É um estado que se apodera de mim e me conduz às letrinhas do teclado.

As melhores crônicas já nascem prontas.

Surgem no instante em que todos os caminhos se abrem e me levam, docemente, até o mais essencial de minha experiência de viver.

Elas existem onde eu não sei o que sou.

As demais são só a produção necessária para assegurar o salário no fim do mês.

Muito agradecida pela contundência concisa de suas palavras, Conceição.

 

 

 

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