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Dois Amigos - Crônica de Conceição Freitas

Dois Amigos

Era uma solidão escandalosa aquela.


Entrava dia e saía noite e o homem cruzava o portão sozinho, entrava no elevador desacompanhado e abria a porta despovoado de companhia.

Tinha uma rotina severa, o homem.

Acordava pontualmente às seis, dormia às exatas onze, almoçava na aridez da uma da tarde e não jantava.

Fazia check - up uma vez ao ano, ia ao dentista de seis em seis meses, conferia o extrato bancário de dois em dois dias, checava a validade dos alimentos todos os sábados e cortava as unhas do pé aos domingos.

Tinha emprego público, casa própria, plano de saúde, previdência privada, seguro de vida, seguro contra incêndio, aplicações em renda fixa, mas nenhum deles lhe fazia companhia.

Não tinha carro e essa foi a sua salvação, como se verá daqui a pouco.

Comentava-se que o solitário tinha temperamento difícil. Queria ter razão em tudo e até tinha, dada a sua racionalidade e sua lógica severas - eram intensas as relações de amizade entre eles.

Tudo era motivo para discurso de protesto, o que o fazia saltar de indignação em indignação, como se o chão da Terra fosse feito de ferro e fogo.

Quem ficaria ao lado desse homem incandescente, quando ele envelhecesse? Familiares, colegas de trabalho, amigos distantes, ex-mulheres, porteiro do prédio se perguntavam a cada vez que a misantropia do homem cruzava seus caminhos.

O que nenhum deles percebera é que o eremita era imperfeito.

Ele tinha um amigo quase invisível aos olhos viciados do senso comum.

O parceiro do homem ermo o acompanhava havia mais de dez anos. Era o taxista do ponto próximo à sua casa.

A amizade - sim, eram amigos - começou vagarosamente.

Só depois do primeiro ano de corridas constantes, do trabalho para casa, da casa para o trabalho, taxista e passageiro mantiveram o primeiro diálogo.

Foi num sábado pela manhã: "Estou meio febril. Você pode passar numa banca e me trazer algumas revistas e jornais?".

Vê-se que era um homem antigo, que gostava de leituras em papel.

Vieram outros pedidos - trazer uma sopa da padaria, buscar a faxineira em dia de greve de ônibus, providenciar um bombeiro-hidráulico, levar documentos ao trabalho num dia de gripe forte.

Estavam estabelecidas as condições para uma conversa mais pessoal: 

"Passei o fim de semana sem água no banheiro, vê se pode?". Ou: "Fazia tempo que uma gripe não me derrubava, cruzes". Ou ainda: "Aquela padaria já fez sopas melhores". Ou seja: reclamações, reclamações, reclamações. Mas, enfim, um diálogo.

O paciente taxista começou a sentir um misto de comiseração e afeto por aquele casmurro brasiliense.

Só então descobriram que eram corinthianos até os poucos fios de cabelo.

Daí em diante, taxista e misantropo fortaleceram os laços de afeto a ponto de o motorista ter a chave da casa do solitário.

"Moro sozinho, de repente me acontece alguma coisa e eu não tenho a quem recorrer. Você se importa?", perguntou o quase ex-eremita.

Neste fim de semana, casmurro vai almoçar na casa do taxista.

Aceitou se sentar à mesa com a mulher do amigo, os quatro filhos, três netos, dois cunhados, uma avó e dois agregados.

Soube que ontem à tarde ele pesquisava na internet qual a melhor doceria de Brasília. Quer levar a sobremesa.
 

 

 

 

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