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Ulisses Manda Recado - Conceição Freitas

Autor: Conceição Freitas- Jornalista do Correio Braziliense
Veiculo:Jornal Correio Braziliense, publicado na coluna dia 7 de maio de 2008.

Nunca li Ulisses, o de Joyce.

Nem estava nos meus planos, a essa altura, enfrentar a peleja. Não tenho veleidades beletristas, não quero ler tudo nem todos nem os melhores. Não tenho tempo para tanto. A vida bruta corre ao largo e exige, cada vez mais, mais.

Mas num desses acasos carregados de mistério, como de resto são os acasos; um exemplar de edição recente do Ulisses aboletou-se na minha mesa. E como ele não é um exemplar que passe despercebido, nas suas 850 páginas, folheei o bicho. Não estava interessada, admito, nas sabedorias do Joyce.

Queria mesmo era sentir o cheiro de livro novo - que, como o cheiro de boneca nova e de carro novo, são os mais reconfortantes cheiros que a era industrial já foi capaz de produzir. E já que estava com o livrão ali me olhando com seus olhos de "eu sou sabichão e você é uma burralda e preguiçosa que não tem coragem de conferir se dá conta ou não de me enfrentar, decidi comer o bicho pelas bordas.

Descobri que Uisses conta um día na vida da humanidade, o que, de cara, é de uma pretensão sem tamanho."Se fosse possível laçar o tempo ou capturar o infinito, poderíamos dizer que James Joyce o conseguiu em seu livro", puxa-me a orelha mestre Antônio Houaiss, tradutor de Ulisses.

Ao contar um dia na vida de um ser humano, Jóyce mostrou que não importa se você se chama Ulisses ou Maria dos Anzóis Pereira. Ou que se chame Pedro de Alcântara (e mais 14 sobrenomes) e tenha sido imperador do Brasil ou Pedro e Só e seja um pobre trabalhador braçal,pouco importa. Todos nós carregamos na nossa história uma tragédia trivial. Portanto, diz Houaiss, "qualquer supervalorização de mim mesmo, em face dos meus semelhantes, é um exagero, é um egocentrismo, é um egoísmo: somos todos, de Ulisses a João da Silva, feitos da mesma argamassa de fragilidades, puerilidades, ordinariedades e - se quiser - grandezas e heroísmos de que são feitos quaisquer Joões da Silva ou Ulíssesses.

" Comido o mingau pela borda, fui atrás de um exemplar do Ulisses. Esgotado. Recorri a uma rede virtual de sebos, que sempre me salva. Achei dezenas. Escolhi o mais barato, mas o livreiro avisava que era um livro velho, sujo, cheio de anotações. Ok. E já fiquei imaginando que anotações viriam, que eu iria ler um livro já lido por um desconhecido e iria então ler dois livros, o meu e o do desconhecido.

O livro chegou ontem, edição de 1967, bem mais acabadinho do que eu imaginava. Sujão mesmo e com um cheiro de mofo. Até aí, nenhum grande problema que me impedisse a leitura.

O problema veio quando abri a primeira página. Logo na folha ,de rosto, li a seguinte dedicatória: "Leia sossegada. Quando você acabar, Jeanete e eu enterraremos você com muitas margaridas, tá? Abraços nossos." Rasguei a folha de rosto em pedacinhos.

Sobrou o Ulisses - inteiro.

 

 

 

 

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