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A Guerra Solitária - Conceição Freitas

A guerra solitária

Faz muito tempo, quase 20 anos, quando eu ainda achava que era a dona da razão, me envolvi num episódio constrangedor, quase violento. Um homem havia fechado a passagem de carro improvisada nos fundos das 700s Norte.


Ele era proprietário de um caminhão guincho e o consertava. Era noite, talvez um sábado, não me lembro ao certo.
Eu vinha de Fusca 72 e fui impedida  de prosseguir por causa do caminhão parado no meio da trilha improvisada.
Buzinei e o cara respondeu de lá com gestos nada civilizados.

Desci do carro e comecei um bate-boca com o caminhoneiro. Por pouco, ele não me espancou.
Contando o episódio a um psicanalista, ele me alertou, para meu estranhamento. "Não se deve provocar o pior das pessoas".

Demorei um pouco para entender o que o amigo me dizia, mas consegui aprender que a minha razão não me protegia de nada nem me dava nenhuma salva-guarda.

Que em muitas circunstâncias, é preciso engolir - como pedra - a razão, e que a verdade, até onde ela tem validade, só serve a mim mesma.

O jovem, belo, indignado e protetor Isaque Nilton Alves Boschini foi vítima do crack, da impunidade, da ausência do Estado e de tudo aquilo que todos conhecemos e de que até agora somos sobreviventes.

Mas Isaque foi vítima da própria imprudência, do transbordamento que sentiu quando viu aquele grupo de homens pondo fogo em pedra bem perto de onde ele protegia sua família, sua vida e seu futuro.

Isaque era muito jovem, ainda acreditava que sua interferência forte, viril, justa e destemida protegeria os seus da perigosa ameaça fumegante.

Se acreditasse na pronta ação da polícia, se confiasse na corporação, ele teria ligado primeiro para o 190.

Mas Isaque, como todos nós, sabe que pouco ou nada adianta chamar a viatura.

Estamos todos acostumados à inoperância policial.

Se a sensação é de que o Estado não nos garante a segurança pública, só nos resta agir perigosa e solitariamente.

Nas atuais circunstâncias, temos de aprender a engolir pedra, a domar nossa coragem.

Claro que é muito fácil ficar debulhando regra sentadinha numa mesa de computador; claro que quando a ira nos invade, ela dá as cartas e num átimo ficamos subjugados ao nosso desejo de fazer o que deve ser feito e ninguém faz.

É como se estivéssemos no front dos horrores, num jogo de vida e morte entre a violência e nossos tesouros afetivos.

Tem sido uma guerra sem trégua a de todos nós tendo de enfrentar os bandidos num corpo a corpo inescapável, 

Debaixo do bloco, nos arredores das casas, no ponto de ônibus, dentro do ônibus, no estacionamento do shopping, em todos os estacionamentos da cidade, nas comerciais, nas residenciais, no Plano Piloto, no Recanto das Emas, na zona urbana, na zona rural, dentro das escolas, fora das escolas, estamos todos acuados.

Daí reagimos como um soldado de infantaria na linha de fogo.

Temos de aprender que a violência está em flagrante vantagem e que, desprotegidos, temos de nos apegar à prudência.

A razão pode muito pouco quando está sozinha.

 

 

 

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