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Breakfast at Augusto's - Sergio, amigo do Gustavo

Break Fast At Augusto's.

Sergio, amigo do Gustavo Mafra

 

A família estava toda reunida para o café da manhã... só faltava o Giba.

- Giba! - berrou a mãe na escada - já acordou?

Lá do quarto, o rapaz murmurou algo incompreensível e ouviu-se o barulho da descarga.

-Jaêvem - esclareceu o irmão mais velho, descendo e ajeitando a gravata.

 

Todos se serviam quando Giba irrompeu na cozinha.

- Giba - chamou a mãe - vou esquentar o café.

Giba tirou a caixa de fósforos da mão dela e recitou, enquanto riscava:

"Pego de um fósforo.

Olho-o.

Olho-o ainda.

Risco-o depois.

E o que depois fica e depois Resta é um ou,

por outra, é mais de um,

são dois túmulos dentro de um carvão promíscuo."

 

- Bonito - disse o pai, sem tirar os olhos do jornal.

A mãe pôs os ovos com bacon e presunto no prato, e Giba berrou, teatral:

"Cedo à sofreguidão do estômago.

É a hora de comer.

Coisa hedionda!

Corro.

E agora, antegozando a ensangüentada presa, rodeado pelas moscas repugnantes, para comer meus próprios semelhantes eis-me sentado à mesa!"

 

Um frio passou pela espinha de todos.

Afinal, não havia muito tempo o Giba tinha passado por um surto de só falar em palíndromos...

- Giba!

- Você bebeu? - Perguntou o pai, sem paciência.

- Bebi! Mas sei porque bebi!...

Buscava em verdes nuanças de miragens,

ver se nesta ânsia suprema de beber,

achava a Glória que ninguém achava"

 

A irmã soltou um risinho nervoso, e sobrou pra ela:

"Bendito sejas, riso, clown da sorte, fogo sagrado nos festins da morte, eterno fogo, saturnal do inferno!"

 

-Filho, você está me assustando - choramingou a mãe...

"Como a crisálida emergindo do ovo,

para que o campo florido a concentre,

assim,

oh! mãe,

sujo de sangue,

um novo ser,

entre dores,

te emergiu do ventre!"

 

O pai correu pro quintal.

- Ari, o menino tá doente, não faça isso!

Não adiantou e seu Ari soltou o pitbull:

- Pega ele, Gigante Adamastor!!!

 

O bicho, feroz, avançou, mas não o suficiente.

Giba agarrou a focinheira e imobilizou o animal:

"Cão! - Alma de inferior rapsodo errante!

Resigna-a, ampara-a, arrima-a, afaga-a, acode-a

A escala dos latidos ancestrais...

E irás assim, pelos séculos, adiante,

Latindo a esquisitíssima prosódia

Da angustia hereditária dos teus pais!"

 

- Rapsodo... prosódia... - repetiu a avó, que sofria do Mal de Alzheimer, enquanto mastigava um pedaço de queijo.

A mãe tentou um último recurso - um beijo.

"O beijo, amigo, é a véspera do escarro,

A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

Apedreja essa mão vil que te afaga,

Escarra nessa boca que te beija!"

 

Quando ia preparando a cuspida, o irmão aplicou-lhe um sossega-leão.

Imobilizado, Giba foi levado ao hospital, ainda berrando:

"Que importa a mim que a bicharia roa

Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!"

 

- Epigênese...rutilância... repetia a avó, entre dentadas na bolacha.

 

- É TOC - concluiu o médico

- E desta vez, ele está recitando toda a obra de Augusto dos Anjos.

- Doutor, da outra vez que ele falava palíndromo a gente deu remédio.

Agora ele voltou com isso.

- Sugiro terapia ocupacional – sorriu o médico, pegando um violão de dentro do armário.

- Tentem isto.

 

No dia seguinte, a mãe nem precisou chamar.

Giba desceu, sorridente, dedilhando o violão:

-Açaí, guardiã Zum de besouro um imã Branca é a tez da manhã

- Djavan é foda - observou o pai.

 

- Sevilha incensa o ar andaluz babalaó, olorum, alá, dalai-lama - completou a avó com Alzheimer.

 

 

 

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