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O Amor Anoitece - Conto de Giovanni Fabbro,

O Amor Anoitece - Giovanni Fabbro (físico), publicado na Revista Piaui, Edição Flip em Julho de 2008. 

O Amor Anoitece

 

No dia 16 de janeiro, o poeta gaúcho Fabrício Carpinejar recebeu um e-mail.

Não reconheceu o remetente.

Olhou o campo do assunto e leu: "Convite poético."

Havia a dúvida: seria um convite em forma de poesia? Um convite para uma tertúlia poética? Nem uma coisa nem outra.

 

"Oi, Fabrício, tudo bem?", começava o texto.

"Não nos conhecemos pessoalmente.

Meu nome é Eliza, sou jornalista.

Escrevo por um motivo especial.

Pode parecer estranho, mas vale a pena tentar..."

O poeta leu até o fim, e depois releu.

Pensou consigo mesmo, pasmo. "Fui convidado para um casamento. Para celebrar um casamento..." Era isso.

 

Eliza Muto e Stefan Gan tinham decidido oficializar uma união que já existia de fato havia seis anos.

Como não eram religiosos, dispensavam padres, pastores, rabinos e até um juiz de paz em troca de um poeta.

"Afinal, quem mais capacitado para celebrar o amor do que o meu poeta favorito?", perguntava a noiva, não sem sinceridade, mas com uma ponta de astúcia.

Poderia haver argumento mais definitivo?

O poeta acedeu.

A delicadeza do pedido era sublime.

 

Carpinejar tomou um avião e no dia 29 de março, um sábado, desceu em São Paulo.

O casamento estava marcado para as seis da tarde, numa chácara da Vila Mariana.

Às 5 horas, já esperava na recepção pelo noivo, que viria buscá-lo.

Nunca o vira -"Sinceramente, não conhecia ninguém: padrinhos, pais, parentes, amigos... iria para uma festa sem nenhum vínculo, a não ser a poesia" -, mas não tinha dúvida de que seria

reconhecido.

Poetas gozam do direito a certas liberdades, e, no que diz respeito à etiqueta do vestuário, Carpinejar é um homem livre.

 

Para a cerimônia, escolheu uma "calça esverdeada fashion", uma camisa de botões de madrepérola (que, fosse outra a ocasião, formariam um belo time de botão) e um lenço carijó

gaudério, preso por um anel no qual se entrelaçavam a bandeira do Rio Grande do Sul e a do Brasil.

Ornando o rosto, óculos verdes louva-deus.

 

O corte à máquina deixara sua cabeça calva, com exceção de três letras capilares: POA vistosa homenagem aos 236 anos do torrão natal.

A mão direita mostrava-se convencional.

A esquerda, não: trazia as unhas pintadas de marrom, uma pequena traição à mulher, que agora disputava o horário da manicure com o marido.

A quem lhe perguntasse sobre a idiossincrasia, Carpinejar oferecia respostas elaboradas: "Para não confundir meu filho: duas mãos pintadas são de mulher, uma é de poeta; ser

conduzido por uma mão feminina, mesmo que seja a minha, é muito melhor; e também serve para não lavar louça: minha mulher nunca podia, alegava que estragava as unhas. Agora eu

também não posso. Passamos a comer fora."

 

O noivo chegou às 17h4o e não hesitou: era aquele o poeta.

Entraram numa van, na qual já estavam os pais do nubente.

Eram americanos e não falavam português.

Muito menos esperavam por semelhante aparição.

Não souberam disfarçar uma expressão de "Ah, Deus, é ele?!”, mas nada além: foram gentis, até porque não tinham escolha.

Chovia a cântaros.

 

Ao chegar ao local do enlace matrimonial, a abundância semiótica de Carpinejar fez com que variadas pessoas o tomassem por:

a) líder de uma seita regionalista desconhecida (lenço gaudério);

b) curandeiro (unha pintada de marrom);

c) membro de uma facção budista (cabeça raspada);

d) homem-propaganda (um segurança decifrou POA como marca de água mineral); e

e) cover de Bono Vox (óculos louva-deus).

 

A desorientação não era apenas dos circunstantes.

Também o poeta se viu confuso.

A noiva entraria em cena somente no momento do altar - mas a noiva é quem o tinha convidado.

"O que vocês combinaram?", perguntou ansioso, ao noivo.

"Nada", disse o rapaz, incapaz de desanuviar o celebrante.

 

"Nem na minha primeira sessão de autógrafos fiquei tão nervoso", confessaria depois Carpinejar.

Quando finalmente a noiva abriu espaço - de braço enlaçado ao do pai, luminosa, com seu vestido branco e suas tatuagens de flores derramadas nos ombros desnudos -, instalou-se o

pânico.

"Onde eu fico?", perguntou ela ao poeta.

"Por Deus", contaria Carpinejar, "eu acreditava que não imitaríamos uma encenação oficial. Na ausência de coordenadas, assumi totalmente o sacerdócio.

 

Distribuí os padrinhos, armei a entrega das alianças, improvisei os passos.

" E esperou pelo milagre. Que demorou a vir. Na primeira palavra, o microfone falhou.

Uma criança gritou.

Relampejou forte.

O poeta pigarreou.

E disse: "Sem querer, o casal está realizando o sonho da minha mãe.

Ela queria que um de seus filhos fosse padre.

Não entendia a desigualdade divina, que deu à família vizinha três padres e uma freira, mas para ela não reservou ninguém."

 

Sentiu que reassumira a própria voz.

Os noivos sorriam os padrinhos também, havia algo de bom no ar.

Ele então decidiu cumprir a função para a qual fora chamado: foi poeta.

 

Olhou para os dois e disse:

"O tempo passa rápido para os outros, não para vocês. O tempo está vivo em vocês. Minucioso. Detalhista. Obcecado. É como ficar o dia inteiro em casa. E, de repente, perceber que anoiteceu.

'Já anoiteceu' é uma das expressões mais bonitas.

Significa que não controlamos as horas.

Casar é anoitecer.

É quase perguntar: 'Como chegamos aqui?”

E, como os noivos sabiam muito bem como haviam chegado ali, o poeta encerrou:

 

"Stefan, você ama Eliza?" Ela disse que sim.

"Eliza, você ama Stefan?" Stefan amava.

 

"O 'Eu te amo' dispensa qualquer nova pergunta.

O que vier depois será resposta, como este casamento.

Eu abençôo os noivos, casados em nome da poesia."

 

O casal se beijou, e o sacerdote desconfia "que os dois choraram dentro do beijo."

 

 

 

 

 

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