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A Guerra de Clara

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A Guerra de Clara

Livro Ótimo - 1 comentário

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Autor: Clara Kramer  

Editora: Ediouro

Assunto: Memórias

Traduzido por: Alice Xavier

Páginas: 335

Ano de edição: 2008

Peso: 455 g

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Ótimo
Marcio Mafra
11/07/2010 às 15:04
Brasília - DF

Zolkiew era a cidadezinha do interior da Polônia onde viviam os Kramer e os Beck. Clara tinha 13 anos de idade. Ela e sua família não foram assassinadas pelos nazistas porque os Beck os esconderam no sub solo de sua casa. Foram 18 meses de agonia, sofrimento, esperança, fome, tristeza, desconforto, doenças, e escuridão. A guerra de Clara é uma história sobre a intolerância e o perdão, escrita por uma adolescente que viu e ouviu milhares a sua volta serem assassinados pelo simples fato de serem judeus. Não há como não comparar A Guerra de Clara, com o Diário de Anne Frank ou a Lista de Schindler. Afinal são histórias verdadeiras, de gente que sobreviveu ao holocausto. Em Zolkiew existiam 5 mil judeus, como os Kramer, pouco mais de 60 se salvaram. A leitura é boa e simples, talvez pela adição do estilo do jornalista e cineasta Stephen Glantz, mas a esperança é a marca mais contundente no viver de cada dia, da autora Clara Kramer. Muito bom.




Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Clara Kramer, que tinha 13 anos quando os nazistas invadiram a Polônia. Ela e sua família eram judias. Para não serem assassinados pelos nazistas, eles se esconderam no subsolo da casa do Senhor Beck, um anti-semita convicto, que decidiu desafiar as autoridades e manteve a família Kramer perigosamente escondida em sua casa até o final da guerra. A mãe de Clara a obrigava a anotar no diário tudo o que eles faziam no esconderijo. Este livro não é uma obra ficcional, a começar pela dedicatória da autora: “Aos meus pais, que me ensinaram compaixão e decência; a minha irmã caçula, que me mostrou a verdadeira bravura; e aos Beck, que me salvaram a vida e me devolveram a fé na humanidade.”

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Na manhã seguinte, Beck desapareceu e ficamos de novo a sós.
Mais uma vez o terror começou a nos devorar em nosso silêncio. Quiçá dessa vez Beck não retornasse. Não ouvíramos nada da parte de Júlia ou de Ala. Estávamos acostumados com o alvoroço e os acessos explosivos de Beck, mas contávamos com JÚlia. Ela era nossa rocha. Depois de cada emergência, Beck havia sistematicaamente tomado a decisão de nos manter vivos. Mas era Júlia quem, dia após dia, fazia compras, cozinhava e mantinha nossos corações batendo.
Uma parede do esconderijo desabara, e os homens passaram o dia a escorá-la com ripas de madeira, talvez agradecidos por ter uma tarefa que lhes mantivesse os pensamentos longe de suas aflições. Então a porta se abriu e por ela entraram Júlia e Ala. Nossos sorrisos foram aplausos silenciosos. Júlia veio direto à escotilha e chamou Patrontasch para abri-la. Trouxera uma sacola de maçãs e, quando as distribuiu, foi como se só tivesse se ausentado por minutos. Mostrava-se sorridente e feliz, e nem um pouco desgostosa com nada do que ocorrera. Todos tivemos diarréia por causa das maçãs.
No final da tarde, Júlia me convidou, junto com Lola, a subir para uma conversa. Não sei por que nos escolheu, mas alegrei-me pela oportunidade, qualquer uma, de sair do abrigo. O prazer de me sentar numa cadeira com muitos centímetros acima de minha cabeça até o teto e com uma janela pela qual olhar, embora as cortinas estivessem fechadas, me bastou para fingir por um momento que minha vida era normal. Naturalmente, temia que Júlia me pedisse conselho. Eu tinha dezesseis inocentes e inexperientes anos. Era uma garota que nunca segurara a mão de um rapaz para valer.
Júlia serviu um chá e nos deu uns pãezinhos para amenizar a diarréia. Sentou-se conosco à mesa.
- O problema não é só a K1ara.
Lola e eu nos entreolhamos. Dava para ver que Júlia queria deesabafar fazia muito tempo. Vi que ela tentava dar ao assunto um tom casual, como se tivesse passado dias inteiros ensaiando na frente do espelho, agora quebrado.
- O que quer dizer, Júlia?
- É a cunhada dele. A que ele ironiza porque ela se dá ares de que pertence à aristocracia polonesa. Ora bolas, eu sabia em que estava me metendo. Valentim já era assim quando o conheci, e não vai mudar até o dia em que eu o enterrar, coisa que vocês sabem que vai acontecer. Vou sentir falta do canalha.
Tanto Lola quanto eu tínhamos perguntas a fazer, porém ouvimos a chave girar na fechadura. Beck entrou em casa, cambaleando de bêbado. Trazia lírios numa das mãos e um casaco de pele na outra. Lola e eu começamos a nos erguer.
Beck gesticulou que nos sentássemos:
- Não, não. Fiquem ... Eu posso precisar de proteção.
- Isso depende de para quem são esses lírios.
Beck entregou as flores a Júlia e a beijou na face. O hálito e a pele dele fediam a álcool. Levantou o casaco de pele e o espalhou sobre a mesa.
- O que acha? Você precisa de um destes. Sempre quis lhe dar um mantô de pele, para que se igualasse a todas aquelas vacas endinheiradas que o tempo todo ficam nos olhando de nariz empinado.
- Não preciso de casaco de pele, Beck. Aliás, onde você conseguiu dinheiro para isso?
- Usei alguns dos dólares que recebi do farmacêutico.
- Dólares? Por que não vai logo dizer aos SS que estamos escondendo judeus?
- De quem você acha que comprei essa droga?
- De Krueger?
- É claro que de Krueger. Ele falou que recebe todos os dólares em que eu conseguir botar a mão. Está convencido de que agora é uma questão de tempo, coisa que deveria deixar vocês duas, senhoritas, muito satisfeitas, se até os SS têm certeza do fato.
Tornou a levantar o mantô num esforço de fazer Júlia admirar o agasalho. Realmente era uma pele de muita qualidade. Lola segurou o forro e olhou admirada os pontos da costura.
- Vejam só, é feito de peles inteiras, e não de retalhos costurados. Posso dizer que foi manufaturado por um de nossos melhores peleteiros.
Beck estava embevecido. Mas nesse momento algo chamou sua atenção. Olhou o casaco um pouco mais de perto. Ergueu-o contra a luz e meteu dois de seus dedos grandes e calejados em dois buracos. Remexeu os dedos e depois lançou o casaco sobre a mesa.
- Aquele filho da puta! Eu avisei a ele que era um presente para você. Acha que eu lhe daria um casaco com buracos de bala?! Acha que não sei como eles foram aparecer ai?!
- Beck, por favor, vá dormir. O casaco é lindo.
- Júlia ficou de pé e tentou levá-lo para o quarto.
- Lala pode consertá-lo. Vai ficar parecendo novo. Krueger é seu amigo; na certa nem sabia que os buracos estavam ali.
Beck lutou para se livrar dela.
- Ele sabia! Aquele filho da puta! - Cambaleante, dirigiu-se à porta da frente.
Júlia o agarrou.
- Clara, Lala, me ajudem aqui!
Agarramos o senhor Beck e tentamos afastá-lo da porta. Em ouutra circunstância teria sido uma tarefa impossível, pois ele é extremamente forte. Só de olhá-lo não se notava, pois era magro como um poste. Mas, por baixo, era feito de aço. Todos em Zolkiew garantiam que ninguém conseguia trabalhar tanto quanto Beck - quer sóbrio, quer embriagado.
- Depressa! Para o banheiro!
Era a única porta que tinha fechadura com chave. Júlia começou a empurrá-la para dentro do banheiro. Beck resistia, mas estava tão bêbado que mal conseguia se manter no prumo. Sem muita dificulljade conseguimos metê-lo no banheiro e trancar a porta. Júlia agarrou uma cadeira, que colocou travando a maçaneta, para que o malditp não pudesse girá-la.
Beck esmurrava a porta.
- Estão vendo o que ela faz comigo? Podem me culpar pelo que eu faço? Trago para ela um casaco de pele ... Uma famosa pele de Zolkiew; feita pelo melhor peleteiro judeu deste lugar amaldiçoado ... Os filhos dele são todos peleteiros em Paris!
- Vá dormir. Pode se deitar na banheira. Você já fez isso antes.
- Não sou tão burro que vá gritar por socorro ... Júlia, abra a porta! Abra essa maldita porta!
- Por favor, Valentim, deite-se e durma.
Esperamos por mais protestos, mas Beck havia desistido ou dessmaiado. Lola abraçou Júlia, que nos disse:
- Podem ir, meninas. Procurem dormir um pouco neste manicômio. Eu ficarei bem.
Fiz o possível para evitar olhar as mãos de Júlia enquanto ela me ajudava a descer ao porão. As juntas dos dedos eram inchadas de artrite, decerto por todo o trabalho de ficar limpando e esfregando nas casas alheias, torcendo a água das roupas que lavava na tábua de ensaboar. Eu nunca pensara muito sobre nada disso até então. Uma parte do dinheiro que Júlia ganhava com as mãos e de joelhos, esfregando os assoalhos das mulheres dos oficiais alemães e lavando roupa para elas, estava indo alimentar três famílias de judeus das quais ela fora empregada doméstica. Sim, nós fôramos gentis com Júlia e bons empregadores. Mas teríamos arriscado nossas vidas pelo seenhor e senhora Beck? Não sei. Gostaria de achar que sim. Quando o senhor Beck descia ao porão para beber, fumar e conversar conosco, Júlia ficava lá em cima, sentada na cama ouvindo a festa, se é que podemos chamá-la assim, acontecer sob seus pés. A artrite nos joelhos e quadris a impedia de descer ao subsolo, a não ser em ocasiões muito especiais, que em geral tinham a ver com salvar nossas vidas. Era uma mulher com poucas alegrias, mas com um impecável sentido de dever. Era religiosa, mas eu não sabia se era daí que advinha sua consciência. A Igreja Católica por aqui não era exatamente apaixonada pelos judeus. Júlia se autodenominava uma camponesa, com certa dose de orgulho. Os pais eram típicos camponeses da Polônia: sem instrução, supersticiosos, assustados e cheios de deferência perante todo e qualquer tipo de autoridade. O senhor Beck acreditava na própria sorte e era motivado por seu enorme desprezo por toda e qualquer pessoa em posição de mando. Mas Júlia Beck, banal, rústica, artrítica beirando à deformidade, precocemente envelhecida e desrespeitada pelo marido, era a mais forte de todos nós.
Se Beck fosse casado com outra mulher, nós já teríamos sido mortos havia muito tempo. Júlia era uma santa. Nossa santa. A santa padroeira dos judeus sofredores e dos maridos bêbados e infiéis. Desde que eu era criança me contavam as histórias dos trinta e seis justos por cujos méritos Deus não destruiu o universo. Eu gostava de pensar que o senhor e a senhora Beck eram dois deles. Deus sabe que eles não faziam lembrar o sábio rabino de longas barbas que, a meu ver, esses tzadekim recordavam, nos livros ilustrados. Mas, apesar de minha descrença em nossa possibilidade de escapar com vida daquela guerra, e da justificada insistência de minha mãe em me fazer registrar por escrito os tempos que passamos escondidos, para mais adiante se saber o acontecido aos judeus de Zolkiew, em noites como aquela eu me convencia de que iríamos sobreviver.
Lola entendeu o que eu queria dizer,porém, quando tentei explicar à minha mãe, ela disse que eu era tão maluca quanto os Beck. Eu sabia que minha irmã teria entendido, e me dei conta de que, por mais que escrevesse para atender à insistência de mamãe, passara a escrever meu diário para Mânia. Ela teria dado qualquer coisa para estar viva e assistir à briga dos Beck por causa do belo casaco de pele de Zolkiew, perfurado de balas. Mânia teria adorado meter os dedos nos buracos.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Folha de São Paulo, Globo e Valor Economico teceram compridos elogios à Guerra de Clara, sempre destacando que se tratava de uma história real da família judia salva do holocausto por um anti-semita. O fato de um jornalista e roteirista de cinema - Stephen Glantz - ter auxiliado a autora, contribuiu mais ainda para a compra do livro.


 

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