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Antes Que Anoiteça

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Antes Que Anoiteça

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Autor: Reinaldo Arenas  

Editora: Bestbolso

Assunto: Memórias

Traduzido por: Irêne Cubric

Páginas: 377

Ano de edição: 2009

Peso: 275 g

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Bom
Marcio Mafra
22/08/2010 às 15:30
Brasília - DF

A história de Reinaldo começa na década de 50, na infância passada na roça, comendo terra, cantando sozinho pelo mato, vivendo numa família de mulheres abandonadas, morando em uma casa minúscula. Permeia, na juventude, por vivências com revolucionários, escritores e poetas que marchavam diante de Fidel, extremamente viris e leais, embora também adotassem práticas homossexuais. Segue por passagens de prisões e torturas até a saída da Ilha promovida por Fidel, quando da invasão da embaixada do Peru. Depois vem a fase de Miami e Nova Iorque, até quando a noite chega e ele termina sua obra. Reinaldo Arenas, escritor de talento não consagrado, foi um dos poucos que conseguiu gritar ao mundo as mazelas do regime castrista, assim como os mitos e mentiras deslavadas que cercam qualquer revolução. Seu livro é um pungente protesto pela miséria material, intelectual, econômica, financeira, social, cultural, política e tecnológica que Fidel Castro impôs ao povo cubano. Ao longo da leitura se percebe que os governantes de Cuba bem poderiam figurar no livro a Marcha Insensatez, da Barbara Tuchman, onde os imperadores dos EUA têm lugar de destaque. Livro que vira filme geralmente é bom, mesmo sob o efeito midiático.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Autobiografia do cubano Reinaldo Arenas, que se suicidou em dezembro de 1990 na cidade de Nova York. Relato minucioso e rico das transformações sociais em Cuba antes e depois da tomada do poder por Fidel Castro em 1959. O livro resulta numa crítica contundente à ditadura castrista, porque o autor reunia as condições essenciais para se tornar uma vítima do regime de Fidel Castro: escritor, homossexual e dissidente político.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Por volta de 1958 a vida em Holguín foi se tornando cada vez mais insuportável; quase sem comida, sem eletricidade; se morar lá antes já era muito chato, agora era simplesmennte impossível. Fazia tempo que eu queria ir embora e juntar-me aos rebeldes; estava com 14 anos e não tinha outra solução. Precisava me alistar; talvez pudesse ir embora com Carlos para participarmos juntos de uma batalha e perder a vida, ou ganhá-la; mas tinha de fazer alguma coisa. Dei a suugestão a Carlos e ele me respondeu afirmativamente; eu deeveria acordá-lo de madrugada; iríamos juntos até um povoado chamado Velasco, o qual, conforme os boatos, já se encontrava nas mãos dos rebeldes.
Levantei- me de madrugada, fui até a casa de Carlos e o chamei várias vezes diante da janela do seu quarto; mas Carlos não respondeu; obviamente, não queria responder. No entanto, como eu já estava resolvido a largar tudo, comecei a andar na direção de Velasco; passei o dia todo caminhando até chegar ao povoado. Pensei que fosse encontrar muitos rebeldes, que me receberiam com alegria, mas em Velasco não havia rebeldes, nem soldados de Batista; havia gente morrendo de fome, composta em sua maioria de mulheres. Eu possuía apenas 47 centavos. Comprei umas bolachas típicas do lugar, sentei-me num banco e comi tudo. Fiquei horas sentado naquele banco; não tinha a menor vontade de voltar a Holguín nem forças para fazer a mesma caminhada. Ao entardecer, um homem que ficara me observando aproximou-se e perguntou se eu tinha vindo alistar-me. Respondi que sim e ele me disse que se chamava Cuco Sánchez; devia ter uns 40 anos. Todos os seus irmãos - sete - já estavam alistados; apenas ele ficara no povoado para cuidar da mãe e da esposa. Levou-me até sua casa; a esposa estava transtornada, talvez porque só tivesse um prato de feijão para me oferecer, e eles também precisavam comer; comi, envergonhado, mas com muito apetite. A mãe de Cuco Sánchez me animava para que eu ficasse com eles; disse a Cuco que devia levar-me até a Sierra de Gibara, onde os rebeldes se encontravam. Ela tinha uma lojinha que havia sido saqueada, primeiro pelos rebeldes e em seguida pelos soldados de Batista. Há uma semana passsara por lá um dos mais importantes tiras de Batista, Sosa Blanco; acabara com o povoado, um homem fora queimado vivo, e o pouco que ainda restava na lojinha da mãe de Cuco Sánchez tinha sido roubado; em seguida, o soldado de Batista atirara na vitrine e uma balança, único objeto que ainda restava, ficara completamente destruída. "Veja só o que fizeram comigo", dizia a mãe de Cuco, furiosa e aterrorizada. Sim, eu tinha que me alistar, na opinião dela; como se eu precisasse assumir a responsabilidade de vingar sua balança quebrada. Os irmãos de Cuco Sánchez encontravam-se naquela região, e para Cuco não seria difícil levar-me ao encontro deles; Cuco tinha como tarefa fabricar balas para os rebeldes;enquanto permaneci em sua casa, ajudei a fabricar aquelas munições. Finalmente, fomos até o quartel dos rebeldes em Sierra de Gibara.
O capitão dos rebeldes teve uma conversa comigo; chamava-se Eddy Sufíol e estava ferido; levara um tiro à chegada de Sosa Blanco, conforme ele mesmo me explicou. Também tinha um curativo enorme e bastante rústico de um lado do corpo; acho que uma das suas costelas estava quebrada. Aquele homem era um camponês de Velasco; olhou-me com certa admiração, mas não me aceitou; eu era muito jovem e não tinha arma. "O que temos de sobra são guerrilheiros, o que nos falta são armas", disse ele. Fiz todo o possível para ficar, e Cuco também me ajudou; assim, acabamos convencendo Sufíol, que disse que eu podia permanecer com eles por uma semana; depois, um grupo iria para Sierra Maestra e me levaria junto; se lá iriam aceitar-me ou não já não era mais da sua responsabilidade. Mas eu podia ficar por uma semana, ajudando em tudo o que fosse preciso: cozinhando, carregando água, indo buscar lenha.
Ao final de dez dias esperando a ordem de partir para Sierra Maestra chegaram de lá 45 homens e sete mulheres que Sufíol havia mandado como guerrilheiros; no entanto, como não tinham armas, foram expulsos, porque Castro não precisava deles. Eu não podia mais ficar; tinha de voltar para Holguín, matar um guarda, pegar seu fuzil e retomar. "Se você trouxer uma arma, será aceito na hora", disse-me Sufíol. Um dos rebeldes, um jovem de 18 anos aproximadamente, deu-me de presente sua única faca, explicando que eu não podia andar por aí sem arma; devia enfiar a faca nas costas de um guarda de Batista e voltar. "Vou ficar à sua esspera aqui", disse o rapaz. Talvez tenha falado para me dar coragem, para que eu partisse com algum ânimo; e assim voltei para Holguín.
Agora eu me encontrava num caminhão com várias pessoas que tinham autorização para viajar até Aguas Claras, um lugarejo perto de Holguín. Essas pessoas eram conhecidas dos soldados de Batista, mas eu, não; o motorista já me dissera que corria um grande risco pelo fato de me levar; na verdade, se descobrissem que eu era um dos alistados ou que não pertencia àquela região, todos seriam mortos. Finalmente, chegamos a Aguas Claras, sem nenhum problema; ali, a uns 10 quilômetros de Holguín, despedimo-nos; fiquei escondido até o anoitecer, e então comecei a andar rumo ao povoado.
Cheguei em casa à meia-noite; bati na porta e minha avó abriu, dando um grito; meu avô fez com que ela se calasse imediatamente: "Se encontrarem você aqui, vão matá-lo na hora e levar a gente presa", disse ele.
Cometi a imprudência de deixar um recado na cama, onde estava escrito que eu ia embora com os rebeldes, mas ninguém podia saber. Aos gritos, aquelas dez mulheres que havia na casa divulgaram a notícia por toda a vizinhança. Agora, a polícia de Batista andava atrás de mim. Eu tinha que voltar a Velasco e, obviamente, nem em sonho conseguiria matar algum tira com uma facada nas costas. De qualquer maneira, na noite em que estava indo embora, aproximei-me de um policial; olhei para ele, que também olhou para mim, e o único gesto que fez foi segurar os bagos que eram quase tão grandes quanto os do meu avô. Afastei-me o mais rápido possível daquele lugar, enquanto ele conntinuava sacudindo seus magníficos testículos.
Voltei a Velasco andando por dentro do matagal; cheguei ao acampamento e tiveram que me aceitar; não podiam deixar que retomasse a Holguín. Assim, fiquei ajudando em tudo o que me pediam. A alguns quilômetros morava
aquela tia que comprara o sítio do meu avô; quando atravessava as montanhas, às vezes eu a visitava; ela sempre me dava algo para comer, e como seu marido não simpatizava com os rebeldes, era conveniente que justamente eu, um rebelde, os visitasse.
Nunca participei de nenhum combate; nem de longe pude ver um combate durante todo o tempo em que permaneci com os rebeldes; esses combates foram mais míticos do que reais. Foi uma guerra de palavras. A imprensa e quase todo o povo diziam que o campo estava repleto de milhares de rebeldes armados até os dentes. Era mentira; as poucas armas que tinham eram as que haviam sido roubadas dos casquitos - os soldados de Batista - ou, então, velhas espingardas, amarradas com arame, fabricadas no século XIX e utilizadas pelos mambises, os soldados cubanos da guerra de independência.
Enquanto fiquei com os rebeldes, vi atos de injustiça sendo cometidos e que, até certo ponto, fizeram com que eu desconfiasse da boa vontade daquelas pessoas. Certa vez, um grupo de rebeldes foi prender um camponês que morava com a mãe; ela dava gritos horríveis. Seu filho havia sido denunciado como chivato, isto é, como delator. Levaram-no, e foi fuzilado; na verdade, antes de Fidel Castro tomar o poder, já começaram os fuzilamentos das pessoas contrárias ao regime ou conspiradores; eram chamadas de traidores; essa era, e ainda é, a palavra utilizada.
Eddy Suiol, que ordenava os fuzilamentos naquela reegião,acabou, 15 anos depois, matando-se com um tiro na cabeça. A morte de Suiol não passou de mais um suicídio em nossa história política, que é a história do suicídio incessante.
A maioria das pessoas alistadas não acreditava que a ditadura de Batista fosse cair tão rapidamente. Quando correu a notícia de que Batista fugira, muita gente nem acreditou. O próprio Castro foi um dos que ficaram mais surpresos; ele havia vencido uma guerra sem que esta chegasse ao fim. Castro tinha que agradecer a Batista; o ditador havia fugido, deixando-lhe a ilha intacta, e sem que Castro sofresse um único arranhão. Por outro lado, Fidel Castro jamais pensou em executar algum tipo de atentado contra Batista; quem o fez foi um grupo de estudantes quase desarmados, que morreram no local, e os que se salvaram nunca chegaram ao poder sob o domínio de Castro. É bom lembrar também que o cunhado de Castro era um adepto dos mais conhecidos de Batista; um ministro, nada menos. Embora Batista tivesse fugido em 31 de dezembro de 1958, Castro levou muitos dias para descer de Sierra Maestra e chegar até Havana; depois, veio a lenda. Protegido por enormes tanques de guerra que não lhe pertenciam, ele chegou a Havana cercado por uma tropa enorme que o considerava vitorioso e pelo povo já cansado de Batista.
Além do mais, os rebeldes eram bonitos, jovens e viris; aparentemente, pelo menos. Toda a imprensa mundial ficou fascinada por aqueles lindos barbudos, dentre os quais muitos tinham uma bela cabeleira.
Descemos das colinas e éramos recebidos como heróis; no meu bairro em Holguín deram-me uma bandeira do 26 de Julho e fiquei correndo pelo quarteirão com aquela enorme bandeira na mão. Senti-me um tanto ridículo, mas havia muita alegria, os hinos ecoavam e toda a cidade saíra para a rua. Os rebeldes não paravam de chegar com crucifixos e correntes feitos de sementes; eram os heróis. Na realidade, alguns dentre eles haviam-se alistado há apenas quatro ou cinco meses; de forma geral, as mulheres e muitos homens da cidade também ficavam loucos por aqueles rebeldes; todos queriam levar um dos barbudos para casa. Quanto a mim, minha barba ainda não havia crescido, pois eu só tinha 15 anos.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

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