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John Lennon - A Vida

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John Lennon - A Vida

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Autor: Philip Norman  

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Biografia

Traduzido por: Roberto Muggiati

Páginas: 839

Ano de edição: 2009

Peso: 1.185 g

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Ótimo
Marcio Mafra
10/09/2010 às 17:32
Brasília - DF


A vida completa, ou em partes, do beatle John Winston Lennon foi exageradamente falada, escrita, discutida, filmada e comentada durante sua curta existência de 40 anos, e muito mais depois de 1980, quando morreu assassinado. Agora, em 2009 a editora Companhia das Letras, pelas mãos de Roberto Muggiati, traduziu John Lennon – The Life, escrito com o talento do jornalista Philip Norman. Num livrão de 839 páginas o autor narra a biografia de Lennon de uma forma razoavelmente equilibrada sem grandes dramas, nem sensacionalismo e menos ainda, sem o endeusamento de fã, comum em qualquer biografia, memória ou reportagem sobre os Beatles. Neste livro John Lennon não virou bonzinho porque morreu. Norman vai passando a infância, a adolescência e a fase adulta de Lennon com um incrível detalhismo, que – por vezes – torna a leitura monótona. Ele praticamente disseca o talento do compositor e do cantor, assim como disseca os motivos que o levaram a compor com Paul MacCartney, ou individualmente toda a imensa discografia, detendo-se em minudências sem fim. Na vida pessoal descreve cada baseado, cada ácido ou porre que Lennon tenha usado. Na vida sexual fala dos arranjos amorosos ou apenas dos encontros casuais, em cada cama, beco ou lugar que tenha acontecido, tanto com as mulheres conhecidas como Cynthia ou Yoko, sem poupar alusões de incesto ou de homossexualismo. Chega a enjoar. O mesmo acontece na vida familiar e social onde Norman escancara as taras, as manias, as idiossincrasias, as manifestações de amor, as besteiras e até os atos de pequenez ou de grandeza. O leitor fica com a impressão de que Norman tivesse acompanhado tudo de muito perto, inclusive seu assassinato à queima-roupa por um rapaz seriamente perturbado. Mas em qualquer circunstância o autor ilumina a personalidade as vezes surpreendentemente insegura e contraditória de Lennon. Não sobrou nenhum demônio íntimo que Philip Norman não tivesse perpassado. O resultado é bom, a leitura flui como um romance grande. Ao final fica a certeza de que John Lennon era autoritário, grosseiro, soberbo, machista, egoísta, doce, violento, egocêntrico, antipático, sarcástico, pedante, inseguro, carente, caseiro, inteligente, rebelde e criativo. Tudo ao mesmo tempo. Como compositor e cantor, simplesmente gênio. Gênio, e como todo gênio, imortal.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A vida – tumultuada, bela, famosa e breve – de John Winston Lennon, inglês de Liverpool, uma das personalidades mais marcantes da segunda metade do século XX.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

As várias ondas de misticismo da década de 1960 exerceram profunda influência sobre COX. Durante sua estada conjunta na Dinamarca, ele apresentou a John e Yoko o americano Don Hamrick, uma das principais luzes de um culto intitulado Os Arautos. Os dois se submeteram a hipnose com Hamrick numa tentativa de curar seu pesado hábito do fumo e, secundariamente, reviver suas existências anteriores. Ele também alegava estar em comunicação com outros mundos e, com um companheiro de culto, havia proposto trazer óvnis genuínos ao Festival da Paz de Toronto. Embora permanecesse amigo de Hamrick, Cox havia desde então avançado espiritualmente, convertendo-se, entre todas as coisas, ao movimento da Meditação Transcendental, do Maharishi Mahesh Yogi. No decorrer do tempo, sua opinião sobre John mudou radicalmente, de "grande sujeito" e apoiador em potencial este passou a ser um viciado em drogas e ameaça ao bem-estar moral de sua filha (embora ele tenha ficado satisfeito em filmar John e Yoko fumando maconha com Michael X enquanto Kyoko brincava na mesma sala). Cox passou então a dificultar cada vez mais o acesso à menína e, por fim, em meados de abril, sem qualquer aviso, abandonou com Melinda e Kyoko o apartamento londrino em que viviam.
Inicialmente não houve nenhuma pista sobre seu paradeiro ou suas íntenções. Então, seu amigo Arauto Don Hamrick deixou escapar que ele estava freeqüentando um curso de Meditação Transcendental na ilha espanhola de Maiorca, onde o Maharishi agora tinha uma casa. Com Dan Richter e o advogado espanhol Cesar Lozano, John e Yoko voaram em jato fretado até Maiorca e tiraram Kyoko do jardim-de-infância em Cala Ratjada onde Cox a havia matriculaado. Antes que pudessem escapar, Cox soube do ocorrido e chamou a polícia. John e Yoko foram detidos na sua suíte no Hotel Meliá, em Palma de Maiorca, de novo separados de Kyoko, e levados à delegacia de polícia.
Kyoko ainda relembra com nitidez o ciclo de suas emoções naquele dia entre o sol e as flores: do choque de ser arrancada da sala de aula ao prazer de rever John e Yoko, ao medo do que seu pai poderia dizer e ao temor de que os adultos tivessem outra de suas brigas aos gritos. Uma audiência sumária sobre o caso foi convoca da no tribunal de Palma, começando à meia-noite e prosseguindo quase até o amanhecer. O juiz ordenou que Kyoko fosse levada à sala onde estavam detidos John e Yoko e depois à outra sala onde seu pai injuriado aguardava com
Melinda. Num eco arrepiante do que acontecera com John mais ou menos à mesma idade, pediram a ela então que dissesse com quem preferia ficar. Acostumada com os cuidados de Cox, Kyoko o escolheu. Cox deixou o tribunal às pressas com ela nas costas e os dois foram levados embora de carro a toda velocidade. Poucos dias depois, os adversários deram uma entrevista coletiva e anunciaram que todo o episódio havia sido um infeliz mal-entendido. Kyoko teve até a permissão de voltar com sua mãe a Tittenhurst Park.
John e Yoko foram liberados, mas sob a condição de voltarem a Maiorca no fim do mês para responder novas interrogações sobre o "seqüestro". A data da audiência, porém, conflitava com a do Festival de Cinema de Cannes, onde iriam estrear os filmes Apotheosis e Fly (o primeiro debaixo de vaias, o segundo sob uma ovação do público em pé). Depois, tiveram de honrar uma promessa feita meses antes, de visitar Michael X no seu exílio em Trinidad. Assim, enquanto Richter ia tentar resolver as coisas em Palma, eles passaram uma semana lealmente na companhia do demagogo em desgraça e de sua família no condomínio fechado perto de Port of Spain onde ele planejava agora - com o patrocínio de John - fundar uma "universidade alternativa".
Em 24 de maio foi lançado no Reino Unido o segundo álbum solo de Paul McCartney. Intitulado Ram, era creditado a "Paul e Linda McCartney" em uma aparente imitação de John e Yoko. A capa mostrava Paul como um tosador escocês, agarrando os chifres torcidos de um carneiro lanoso. Embora mal recebido pela crítica, alcançou o primeiro lugar na parada americana e o segundo na Grã-Bretanha, gerando ainda um single de sucesso, "Uncle Albertl Admiral Hallsey". Incluía também uma faixa intitulada "Too Many People", claramente uma alusão ao fato de John ter ficado com Yoko em detrimento dos Beatles. "Aquele foi o seu primeiro erro", dizia o refrão. ''Você pegou sua chance e a rompeu pelo meio."
Por mais suave e oblíquo que fosse o comentário, pareceu atingir John em cheio no coração. Somado ao questionário enviado junto com o álbum McCarttney e o processo legal, era como o ponto sem volta de um casal que se divorciava, assinalando a transformação do amor numa hostilidade selvagem e sem limites. De fato, a raiva magoada de John mais parecia a de um ex-cônjuge que a de um ex-colega, reforçando as suspeitas de Yoko de que os sentimentos dele por Paul fossem bem mais intensos do que em geral se supunha. A partir de comentários casuais que ele fizera, ela depreendeu que houve um momento em que - segundo o princípio de que os boêmios deviam tentar de tudo -, ele até havia considerado a possibilidade de um caso com Paul, mas fora dissuadido pelos irredutíveis sentimentos heterossexuais deste. Nem, aparentemente, fora Yoko a única a ter detectado isso. Na Apple, pelo que ela ouvira, Paul às vezes era chamado de a "princesa" de John. Ela ouvira certa vez uma fita de ensaio em que a voz de John chamava "Paul... Paul..." de maneira estranhamente suplicante e subserviente. "Eu sabia que havia alguma coisa ocorrendo ali", lembra ela. "Da parte dele, não de Paul. E ele ficou tão furioso com Paul, não pude deixar de pensar o que haveria de fato naquilo."
Naquele momento, porém, o acerto de contas com Paul tinha de ficar em segundo plano diante da continuação da saga de Tony Cox e Kyoko. Depois de uma pequena trégua logo após o episódio de Maiorca, Cox sumiu de novo com a filha e Melinda, mais uma vez sem deixar vestígios. Em junho, os advogados de John receberam informação de que o trio estava agora nos Estados Unidos. Ele e Yoko voltaram a Nova York, na expectativa de retomar a pista de Cox, mas a missão foi infrutífera. Ironicamente, naquela semana a mãe aflita de Kyoko e John subiram ao palco com os Mothers of Invention, que gravavam um álbum ao vivo no auditório do Fillmore East.
De volta a casa, também, outra convocação urgente mobilizava a linha de ajuda "agitprop" de John e Yoko. Em maio de 1970, a revista underground Oz publicara um "número infantil", editado por estudantes do primário, cujo elemento mais chocante era uma tira de quadrinhos pornográficos com cabeças do ursinho Rupert superpostas aos personagens. Em conseqüência, Richard Nevillle,Jim Anderson e Felix Dennis, os três editores da Oz, foram acusados de "conspiração para corromper a moral pública", dando início ao mais longo e hilariante julgamento por obscenidade na história da Justiça britânica. John divulgou uma declaração em apoio à Oz, e ele e Yoko participaram de uma manifestação de protesto contra o absurdo rigor da acusação.
Por volta de julho, enquanto os "Três da Oz" estavam no banco dos réus, John ansiava por fazer um novo álbum. Para acicatá-lo, havia mais agora do que o álbum de George, All Things Must Pass, e o de Paul, Ram. Em abril, Ringo connseguira um êxito maciço com o single "It Don't Come Easy", co-escrito e produzido por George, que também tocou a guitarra principal, com Klaus Voormann no baixo e Stephen Stills no piano. Ninguém ficou mais feliz do que John ao ver Ringo começar a obter sucesso sozinho, mas ainda assim não podia reprimir uma ponta de competição. Havia feito sua terapia; agora era a hora de buscar o êxito comercial.
O estúdio em Tittenhurst Park fora afinal concluído, permitindo-lhe trabalhar como sempre quisera, livre das perturbações burocráticas de Abbey Road e da Apple, com todo o conforto caseiro à mão, perto de seus amados jardins. Uma vez mais, o álbum seria creditado conjuntamente para ele e a Plastic Ono Band, e co-produzido por Yoko, ele e Phil Spector. Mas, desta vez, a antiga formação espartana de Klaus Voormann e um baterista foi acrescida de músicos estelares, entre os quais George Harrison, o pianista Nicky Hopkins e o lendário saxofonista King Curtis, que havia tocado com Buddy Holly. Para dar a "camada de chocolate" que John desejava, havia até uma seção de cordas, intitulada os Flux Fiddlers.
As sessões de gravação foram filmadas como parte de um diário cinematográfico que ele e Yoko vinham mantendo desde alguns meses antes. Estas filmagens em cores, rodadas no estúdio, na casa e no terreno da propriedade, mostram um senhor e uma senhora Lennon muito diferentes de seus hirsutos quase-sósias de seis meses antes.John mergulhou de corpo e alma na moda da década de 1970, raspando a barba (embora mantendo costeletas longas para esconder a cicatriz do seu acidente de carro), adotando um corte de cabelo espigado, trocando as túnicas militares de brim por suéteres de lã curtos, calças com bocas de sino bem larrgas, e sapatos com salto-plataforma. Yoko passou a prender o cabelo, desnudando o rosto, e a usar jaquetas e calças justas, boinas francesas vistosas e extravagantes botas de salto alto. Ambos, na verdade, pareciam dez anos mais jovens. O único detalhe inalterado é a nuvem da fumaça de cigarro os envolvendo.
Enquanto servia de lar provisório para os músicos e o pessoal técnico participantes da gravação, Tittenhurst voltou a se tornar um santuário para oprimidos políticos. Os três acusados da Oz a essa altura tinham sido condenados e sentenciados a penas de prisão exageradamente severas. Enquanto aguardavam o resultado de seus recursos (que seriam bem-sucedidos), dois deles, Richard Neville e Jim Anderson haviam voado para o exterior, deixando seu colega menos abonado, Felix Dennis, para encarar sozinho o rescaldo da mídia. Quando souberam de suas dificuldades, John e Yoko ofereceram-lhe acomodações junto a Les Anthony no chalé da portaria.
À medida que as novas canções tomavam forma, Klaus Voormann via pouuca semelhança deste com o John "despirocado" que havia desabafado no berro a
angústia e fúria de sua infância um ano antes. Ele parecia feliz e descontraído e, como todo mundo que está emergindo da terapia, ansioso para falar da confuusão que costumava ser. Em ''Jealous Guy", ele admitia o lamentável ciúme de que havia sofrido desde o início do namoro com Cynthia e a baixa auto-estima que estava por trás disso: "Eu me sentia inseguro ... Você poderia deixar de me amar ... Eu estava tremendo por dentro ... Eu engolia minha dor". Na metade da canção, o solo que assobiava, quase ofuscado pelo acompanhamento, era de certo modo ainda mais pungente do que suas palavras. "Oh My Love" era um novo hino de gratidão para com Yoko, cantado com sua voz de julia, porque "pela primeira vez em minha vida ... minha mente é capaz de sentir". "Oh, Yoko" admitia sua necessidade de estar constantemente perto dela ("no meio de um banho", até "enquanto faço a barba") em uma canção country-and-western de alegria contagiante e com um vibrante solo de gaita-de-boca. "Yoko teve uma incrível influência positiva em todo o álbum", lembra Dan Richter. "Ela ficava apenas sentada ao fundo, uivando de vez em quando. Ela era capaz de ler e escrever partitura musical. Se houvesse algum problema, digamos, em relação à harmonia, Yoko muito provavelmente vinha com a solução."
Aqui e ali, a camada de chocolate mal ocultava um cerne rançoso. Um pequeno número esperto ao estilo caipira, por exemplo, era chamado "Crippled Inside" ('Aleijado por dentro"). O tristonho e acusatório "I Don't Wanna Be a Soldier" era um rock, com um baixo à la Link Wray e um "We-ell" eco ante como se fosse Gene Vincent em "Be-Bop-a-Lula". "Gimme Some Truth" escolhia um estilo quase de canção de show da Broadway para zombar dos "políticos cabeça-de-porcos neuróticos e psicóticos", e até mencionava o presidente americano Richard Nixon através de seu velho apelido de Tricky Dick ("Dick truqueiro").
Uma faixa, porém, não fazia nenhum esforço para dourar a pílula. "How Do You Sleep?" era uma réplica a Paul McCartney por aquele afrontoso comentário no álbum Ram. Seu título sinalizava a violenta reação que viria, pois embora Paul possa ter sido egoísta e desleal do ponto de vista de john, na verdade nada fizera que tirasse o sono de alguém. Enquanto seu ataque fora suave e indireto, o de John era brutal e direto, um míssil nuclear em resposta a uma alfinetada. Acusava Paul de se cercar de "quadrados" bajuladores e de ser dominado por Linda ('Jump when your Mamma tell you anything" ["Pule quando a Mãezona lhe der uma ordem"]). Chamava-o de "rostinho bonito" e inconseqüente, e fustigava suas músicas como "Muzak para os meus ouvidos". Insistia em referências
ao rumor de "Paul está morto" veiculado em Sgt. Pepper (''Those freaks was nght when they said you was dead" ['Aqueles doidaços estavam certos quando disseram que você estava morto"]) e, mais injustamente do que tudo, provocava "The only thing you done was Yesterday" ['A única coisa que você fez foi Yesterday"].
Felix Dennis, que estava por perto quando a letra adquiriu forma, lembra que os colegas músicos de John, incluindo Ringo, ponderaram que ele estava indo longe demais. Na versão original, o verso que vinha após a referência a 'Yesterday'' era ''Você provavelmente roubou essa porra também". Foi só quando o álbum estava sendo masterizado em Nova York que Allen Klein o convenceu a eliminar o verso, argumentando que Paul provavelmente o processaria. Em vez disso, Klein sugeriu "And since you're gone you're just another day" ("E desde que foi embora você não passa de outro dia") numa referência ao recente single solo de Paul. Até mesmo o arranjo de "How Do You Sleep" era sutilmente insultuoso, um soul-funk melodramático sugerindo que algum risível Gênio do Mal poderia aparecer através de um alçapão a qualquer momento. George Harrison tocou guitarra-slide, endossando assim cada palavra.
O insulto final tinha como alvo a nova vida rústica de Paul e Linda. Parodiando a capa de Ram, John se fez fotografar numa pose idêntica mas montado num porco. A foto foi transformada num cartão postal a ser inserido em cada exemplar do álbum. "Na época não me pareceu um exagero", diria mais tarde. "Não era uma vendeta terrível, cruel, horrível... Aproveitei meu ressentimento, e o distanciamento em relação a Paul e aos Beatles, e a relação com Paul para compor uma canção. Não fico pensando nessas coisas o tempo todo ... Na realidade estou atacando a mim mesmo. Mas lamento a associação - ora, o que há para lamentar? Ele sobreviveu àquilo."
É parte do incessante paradoxo de John que ele podia se permitir tais baboseiras pueris num instante e, no momento seguinte, criar uma canção encarada para todo o sempre como sua obra-prima. Graças ao diário filmado do álbum, podemos acompanhar tal desenvolvimento, desde uma versão-rascunho falada ao redor da mesa da cozinha ("Imagine no possessions ... da-da-de-dah...") até a primeira demo da banda e, afinal, à interpretação filmada na comprida sala de estar branca de Tittenhurst - uma transição sem esforço, porque inconsciente, do ridículo ao sublime.
"Imagine" é, em muitos aspectos, uma de suas menos inventivas canções.
Conforme admitiria, ela nasceu dos "poemas instrutivos" que Yoko vinha compondo desde o início dos anos 1960 - muitas vezes uma exortação com uma única palavra, como o "Respire" que o havia transfixado na exposição da galeria Indica. Ele também partiu para compor algo assumidamente "espiritual" em resposta ao "My Sweet Lord" de George e, também, ao "Let it Be" de Paul.
A visão que ele elaborou pode ser facilmente descartada como banal e mal pode ser considerada atraente. Somos convocados a imaginar um mundo dessprovida de sua antiga crença tanto no céu como no inferno e livre da religião organizada, da guerra e da fome, com todas as fronteiras nacionais abolidas para criar "uma irmandade do Homem"- um panorama de brandura purgatorial que, na verdade, teria provavelmente deixado o próprio John morto de tédio em cinco minutos. Tampouco a letra se aproxima do nível que alcançou em, por exemplo, "Norwegian Wood". Com Paul ainda olhando por cima do seu ombro, não podemos imaginá-lo rimando "isn't hard to" com "no religion, too", ou repetindo a mesma palavra no refrão (not the only one ... world will be as one"). O pequeno falsete "You-hoo" que usa como transição para o refrão parece pop demais - Beatle demais - para um tema tão elevado.
No final, contudo, nada disso importa. "Imagine" comoveria milhões enquanto ele estava vivo, e bilhões depois de sua morte, com sua paixão melancólica, seu otimismo e sua completa falta de pretensão, presunção ou pregação. E também o faria o clipe de John interpretando a canção em seu piano de cauda branco - os acordes esfuziantes, a jaqueta tão anos setenta cravejada de estrelas e os óculos com lentes amareladas, aqueles lábios finos cuidadosamente modelando "Imagine all the pee-pul", enquanto Yoko vai abrindo uma a uma as cortinas que vão do teto ao chão e pouco a pouco a sala é inundada pela luz do dia. À medida que a canção termina, ela se senta ao lado dele, os dois trocam um sorriso irônico e, no momento final, um pequeno beijo casto. O rock nunca foi tão poderoso, simples ou triste.
Mesmo lidando com esse tipo de tema, John ainda resistia a todas as tentativas de tratá-lo como um líder ou um visionário. O filme Imagine também o mostra conversando com um fã americano que foi apanhado dormindo no seu terreno e levado à sua presença como um invasor diante do grande proprietário rural. Dessa vez, o fã é totalmente inofensivo, um remanescente dos hippies da década anterior, com um estranho ar de Cristo, o que torna ainda mais patética a sua crença messiânica em John. "Sou só um cara, amigo, que escreve canções", protesta John. "Você pega palavras e as junta umas às outras para ver se fazem algum sentido ... Estou dizendo 'tive um lance legal hoje e foi o que me ocorreu hoje de manhã e eu amo você, Yoko'." Por fim, quando a exasperação se transforma em piedade, podíamos quase ouvir a severa e hospitaleira tia Mimi. "Está com fome? Mm?" o garoto abaixo das costeletas do homem acena tristemente com a cabeça. "oK, vamos dar-lhe alguma coisa para comer."


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Um artigo do jornal Valor Econômico, assinado por Luíza Mendes Faria em 5 de abril de 2009 mês levou a comprar John Lennon – Uma Vida.


 

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