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Antes do 174

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Antes do 174

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Autor: Janda Montenegro  

Editora: Ibis Libris

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 79

Ano de edição: 2010

Peso: 135 g

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Bom
Marcio Mafra
20/12/2010 às 19:24
Brasília - DF

É curioso que Janda Montenegro logo no seu livro de estréia tenha escolhido demonstrar os pensamentos que teria tido um bandido momentos antes do cometimento de um crime. A trama arquitetada pela autora é ficcional, mas o bandido, o crime, o seqüestro, os reféns, as mortes foram absolutamente reais. Reais, tristes, lamentáveis e agressivas. A barbárie repercutiu mundo afora de tal maneira que rendeu um documentário em 2002 (Ônibus 174) e um filme (Última Parada 174) do Bruno Barreto em 2008. Em tamanha calamidade, ainda faltava alguém imaginar o que se passou na cabeça doentia do bandido-personagem Sandro Barbosa do Nascimento. Foi isso que fez Janda. Ela disseca os problemas da sociedade, especialmente a sociedade carioca, e as conseqüências sociais, educacionais e de cidadania que podem atingir pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza. “Antes do 174” é quase um ensaio sociológico. A leitura é boa: a linguagem é crua, mordaz, mas intensa. O final é lógico, mas não esperado. Como livro de estréia, está bom demais.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história do que teria pensado Sandro Barbosa do Nascimento, supostamente drogado e armado com um revolver calibre 38, momentos antes de assaltar, no bairro Jardim Botânico o ônibus urbano, da empresa Amigos Unidos, que fazia a linha 174. Passageiros foram mantidos como reféns durante quase 5 horas. Era o dia 12 de junho de 2000, segunda-feira, e os relógios marcavam 14 horas na cidade do Rio de Janeiro. O bandido foi uma das vítimas da “Chacina da Candelária” que ocorrera na madrugada de 23 de julho de 1993.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Inferno. Já haviam lhe dito essa palavra algumas vezes em sua pouca não-existência. Disseram até que você tinha feito um pacto com o diabo. Talvez fosse verdade, deve ser. Se você tem esse papo todo de que esse tal de Deus não existe, deve ser porque fez um pacto com o demo. Ou talvez digam isso, porque conseguiu sobreviver a tal chacina, onde quase dez morreram e não sei quantos ficaram feridos. Acho que só mesmo o diabo para segurar as pontas em momentos como esse, não é? Tem de ser forte como o diabo, esperto como o diabo, sagaz como o diabo. Tudo bem, você não era nada disso, mas sobreviveu. Talvez tenha sido coisa desses repórteres que ficam fazendo não sei quantas mil perguntas para forçá-lo a se contradizer, para ver se estava mentindo. Não, você não mentiu. Você não mente.
Mas esse negócio todo de diabo é só uma forma de se proteger, de se fazer de forte para os outros. Você sabe disso. Você nem sabe qual a diferença entre o Deus que você desacredita e esse diabo que você tenta fortalecer. Sem conhecer a diferença, como saber em quem ou no que acreditar? Mas pacto com diabo é forte, é estratégico, mete medo e você gosta. Uma vez lhe disseram isso, que você tinha feito uma espécie de trato com o coisa-ruim e, por isso, estava na situação em que se encontrava agora - ou seja, sem nada, nem ninguém. Você não gostou do que ouviu na hora, mas depois pensou melhor e achou que devia estar certo, porque, senão, não falariam aquilo. Assim, começou a frisar isso por onde passava, fazendo as pessoas que existiam acreditarem no que você queria. E, com certeza, hoje à tarde, você frisaria isso uma vez mais, para dar mais peso ao seu plano.
Você lembra daqueles momentos em frente à igreja.
Lembra agora por que está dentro desta igreja, é a primeira vez que você entra em uma desde aquela madrugada do dia 23 de julho. Desde aquele dia, você nunca mais quis entrar em uma igreja. Já não gostava delas antes, agora, menos ainda. Não havia motivo para entrar e, agora, muito menos ainda. Igrejas provocam sentimentos contraditórios em você, um misto de sufoco e opressão. Talvez porque não tenham janelas ou todos entrem ali por algum motivo - e você, não. Sim, tem algo de estranho que acontece ali dentro, mas talvez você nunca venha a descobrir por que está condenado a ficar do lado de fora. Como em tudo.
Os tiros. Os tiros daquela noite parecem voltar agora, você ainda se lembra deles. Sete anos se passaram e não há qualquer diferença entre aquela noite e agora. Tudo é igual, ao menos para a sua pouca existência. É indescritível o som daqueles tiros. Você já ouviu outros tiros antes e depois daquela noite, mas não são iguais aos daquele dia 23. Aqueles foram quase gritos, ou misturados a gritos, sufocados pelo choro de quase setenta alminhas que se desgarraram naquele momento. Um único momento. Quase dez desfeitas. Outras tantas mutiladas para sempre. E você entre elas.
Dá quase vontade de chorar. O impulso vem, dá para sentir. Mas você não sabe o que é chorar, acha que é uma coisa de quem tem rosto. Acha que, para chorar, é preciso beber muita água e água limpa, e você quase nunca bebe água. Bebe refrigerante e outras sobras que consegue por aí. Água só quando você está mais para lá do centro da cidade, onde tem um filetinho que escorre onde os transportadores de água abastecem os caminhões. Ali escorre um pouquinho quando fecham a torneira e você aproveita. Sabe que ali não dá para beber muito, mas não há como escolher, e você bebe mesmo assim. Dependendo da fila, às vezes, dá até para tomar banho. Tudo depende de quanto os outros sem rosto estarão cobrando pela lasquinha de sabão do lado de fora.
Mas você não chora. Porque não quer, porque não pode, porque não consegue. Não chora. Lembrar daquela noite dá mais ânsia de vômito do que vontade de chorar. Você sente, em seu estômago vazio, a revolta e o nojo, sensações típicas dos poucos que sobreviveram àquela noite. Os jornais chamaram aquela madrugada de "chacinà'. Você nunca havia escutado essa palavra antes, mas agora tem certeza de ter medo dela. Nunca sentiu medo de nada antes, mas hoje sabe do medo dessa palavra. E nunca, até hoje, sentira tanto asco, tanta vontade de botar para fora tudo o que nesses últimos sete anos foi-se acumulando no vazio do lado de dentro. Mas não vomita. Não tem o que vomitar. É vazio aqui.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Na cidade de Paraty circulam pelas pedras do Centro Histórico artistas de rua, poetas, autores independentes, contistas, cronistas, repentistas, autores iniciantes, a malta underground e desconhecidos, apesar da discreta repressão. Volta e meia passa alguém vendendo livros, manifestos da contracultura e jornais alternativos. Em meio a tanta literatice não há como deixar de apoiá-los pois faturar é preciso. A maioria busca uma oportunidade para ser notado e se colocar no mercado.
Na Flip de 2010 esbarrei com Janda Montenegro. Bonita, bem vestida, crachá à vista, cabeça e nariz erguido, postada na esquina da Tenda dos Artistas, me perguntou se eu era escritor. Respondi que era apenas leitor. Para não me obrigar a comprar mais um livro acrescentei que não gostava de poesia nem de conto.
Antes do 174, não é livro de poesia nem conto, disse-me a autora.
Então, comprei.
Ela, gentilmente, escreveu na folha de rosto: “Para Márcio, o leitor petulante! Obrigado pelo apoio. Janda Montenegro, Flip 2010”


 

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