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Livro Ótimo - 1 comentário

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Autor: Gay Talesse  

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Jornalismo

Traduzido por: Luciano Vieira Machado

Páginas: 535

Ano de edição: 2004

Peso: 640 g

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Ótimo
Marcio Mafra
04/01/2011 às 10:58
Brasília - DF

Jornalista só escreve sobre um assunto perguntando: o quê, quem, quando, onde, como e porque. Menos Gay Talese. Ele é mais escritor que jornalista. Este livro foi citado durante muito tempo como “orientador profissional” para todos aqueles que desejassem fazer do jornalismo uma profissão. Talese, jornalista do New York Times, nos anos 60, foi para as ruas pesquisar e para narrar com charme e talento, como era a vida da cidade, através do olhar de pessoas anônimas, como só ele sabia fazê-lo. Descobriu que quando chovia, o movimento do comércio caia de 15 a 20%, que um mergulhador ganhava a vida recuperando objetos perdidos no fundo da baía de Nova York; que as faxineiras, do Empire State, encontravam cerca de 5 mil dólares por ano nas 3 mil salas do edifício, e por aí vai. Riquíssimo em detalhes, a leitura é uma análise minuciosa do ser humano, do cidadão, do consumidor.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Uma história de Nova York sobre o lado oculto das celebridades, contratando com a vida de pessoas desconhecidas e anônimas que Gay Talese descobriu e escreveu na condição de Mestre da Reportagem , o jeito como ele é conhecido pelo mundo jornalístico.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Frank Sinatra Está Resfriado.

Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon numa mão e um cigarro na outra, estava num canto escuro do balcão entre duas loiras atraentes, mas já um tanto passadas, que esperavam ouvir alguma palavra dele. Mas ele não dizia nada; passara boa parte da noite calado; só que agora, naquele clube particular em Beverly Hills, parecia ainda mais distante, fitando, através da fumaça e da meia-luz, um largo salão depois do balcão, onde dezenas de jovens casais se espremiam em volta de pequenas mesas ou dançavam no meio da pista ao som trepidante do folkkrock que vinha do estéreo. As duas loiras sabiam, como também sabiam os quatro amigos de Sinatra que estavam por perto, que não era uma boa idéia forçar uma conversa com ele quando ele mergulhava num silêncio soturno, uma disposição nada rara em Sinatra naquela primeira semana de novembro, um mês antes de seu qüinquagésimo aniversário.

Sinatra estava fazendo um filme que agora o aborrecia e não via a hora de terminá-lo; estava cansado de toda a falação da imprensa sobre seu namoro com Mia Farrow, então com vinte anos, que aliás não deu as caras naquela noite; estava furioso com um documentário da rede de televisão CBS sobre a vida dele, que iria ao ar dentro de duas semanas e que, segundo se dizia, invadia a sua privacidade e chegava a especular sobre suas ligações com os chefes da máfia; estava preocupado com sua atuação num especial da NBC intitulado Sinatra - Um Homem e a Sua Música, no qual ele teria de cantar dezoito canções com uma voz que, naquela ocasião, poucas noites antes do início das gravações, estava debilitada, dolorida e insegura. Sinatra estava doente. Padecia de uma doença tão comum que a maioria das pessoas a considera banal. Mas quando acontece com Sinatra, ela o mergulha num estado de angústia, de profunda depressão, pânico e até fúria. Frank Sinatra está resfriado.
Sinatra resfriado é Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível - só que pior. Porque um resfriado comum despoja Sinatra de uma jóia que não dá para pôr no seguro - a sua voz -, minando as bases de sua confiança, e afeta não apenas seu estado psicológico, mas parece também provocar uma espécie de contaminação psicossomática que alcança dezenas de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, gostam dele, pessoas cujo bem-estar e estabilidade dependem dele. Um Sinatra resfriado pode, em pequena escala, emitir vibrações que interferem na indústria do entretenimento e mais além, da mesma forma que a súbita doença de um presidente dos Estados Unidos pode abalar a economia do país.
Porque Frank Sinatra agora estava comprometido com tantas coisas que tinham a ver com tantas pessoas - sua companhia cinematográfica, sua gravadora, sua companhia aérea, sua indústria de componentes de mísseis, seus títulos imobiliários em todo o país, seu staff pessoal de 75 pessoas - que são apenas uma parte do poder que ele representa. Agora ele parecia ser a personificação do macho plenamente emancipado, talvez o único da
América, o homem que pode fazer tudo o que desejar, tudo mesmo, porque tem dinheiro, energia e nenhum sinal de culpa. Numa época em que os muito jovens parecem estar assumindo o controle da situação, protestando e manifestando-se e exigindo muudanças, Frank Sinatra se mantém como um fenômeno nacional, um dos poucos produtos do pré-guerra que resistiu à prova do tempo. Ele é o campeão que fez a volta triunfal, o homem que tinha tudo, perdeu tudo e depois recuperou tudo, fazendo o que poucos homens são capazes de fazer: destruiu sua vida, deixou sua família, rompeu com tudo que lhe era familiar, aprendendo nesse processo que a única maneira de conservar uma mulher é não tentar segurá-la. Agora ele goza da afeição de Nancy, de Ava e de Mia, a fina flor de três gerações de mulheres, e ainda é adorado pelos filhos, tem a liberdade de um homem solteiro, não se sente velho, faz com que homens velhos se sintam jovens, faz com que eles pensem que, se Sinatra é capaz de fazer alguma coisa, ela pode ser feita; não que eles mesmos sejam capazes de fazê-la, mas agrada-lhes saber que, aos cinqüenta anos, essa coisa ainda é possível.

Mas agora, naquele bar em Beverly Hills, Sinatra estava ressfriado, e continuava bebendo em silêncio, parecendo estar a quiilômetros de distância, num mundo só dele, sem demonstrar reação nenhuma, nem mesmo quando, de repente, o estéreo do outro salão passou a tocar uma canção de Sinatra, "In the wee small hours of the morning".

É uma balada encantadora que ele gravou pela primeira vez dez anos atrás, e agora estimulava muitos jovens casais que estavam sentados, cansados de rodopiar, a se levantar e a se movimentar devagar, bem agarradinhos, pela pista de dança. A modulação de voz de Sinatra, precisa e ao mesmo tempo plena e melodiosa, dava maior profundidade à letra simples - "In the wee small hours of the morning/ while the whole wide world is
fast asleepl you lie awake, and think about the girl..:'.* Como tantos de seus clássicos, uma canção que evocava solidão e sensualidade, e, somada à meia-luz, ao álcool, à nicotina e às carênncias das horas tardias da noite, se tornava uma espécie de afrodisíaco etéreo. Com certeza a letra dessa música e de outras semelhantes contribuíram para criar um clima entre milhões de casais. Era uma canção para se ouvir na hora do amor, e com certeza embalou casais em toda a América, à noite, nos carros, enquanto as baterias descarregavam, em cabanas à beira de lagos, em praias em fragrantes noites de verão, no recesso dos parques, em luxuosos apartamentos de cobertura e em quartinhos alugados; em camarotes de cruzeiros, táxis e cabanas - em todos os lugares onde se ouviam as canções de Sinatra estavam aquelas palavras que excitavam as mulheres, as cortejavam e as venciam, cortando os últimos fios da inibição, e satisfaziam o ego masculino de amantes ingratos; duas gerações de homens se beneficiaram dessas baladas, o que os faz eternos devedores de Sinatra, e talvez os faça também odiá-lo. Mas lá estava ele, o homem em pessoa, nas primeiras horas da madrugada, em Beverly Hills, inacessível.

As duas loiras, que pareciam estar na casa dos trinta anos, eram elegantes e refinadas, os corpos maduros ligeiramente moldados por tailleurs pretos justos. De pernas cruzadas, empoleiravam-se nos altos bancos do balcão e escutavam a música. Então uma delas pegou um Kent e logo Sinatra pôs seu isqueiro de ouro debaixo dele. Ela segurou a mão dele, observou os dedos dele: eram nodosos e ásperos, e os dedos mínimos, esticados, pois a artrite os tornara tão duros que ele mal podia flexioná-los. Como sempre, estava vestido de forma impecável.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

 Em abril de 2009, quando Gay Talese confirmou sua presença na Flip, consegui comprar o seu livro mais famoso: Fama & Anonimato.


 

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