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Espiral de Artilharia

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Espiral de Artilharia

Livro Ruim - 1 comentário

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Autor: Ignácio Padilla  

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Sérgio Molina

Páginas: 165

Ano de edição: 2003

Peso: 225 g

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Ruim
Marcio Mafra
24/11/2011 às 18:33
Brasília - DF

Ignácio Padilha faz parte dos escritores auto intitulados “Geração do Crack” um grupo literário surgido no México que se opõe ao realismo mágico. Daí a razão do leitor encontrar em seu livro “Espiral de Artilharia”, narrações sob quadros realistas, difusos, pobres, descritos em ambientes agressivos e fortes. O protagonista é um médico psiquiatra, marcado por um incidente de juventude e pelo vício de uma droga injetável, que vive a situação política de seu país, dividido entre uma ditadura feroz, e o inexorável movimento revolucionário contrário ao ditador. Embora bem arquitetada a história se passa sempre num ambiente de semi escuridão, com a cor e a pouca nitidez típica dos antigos sanatórios ou hospitais psiquiátricos, coisas, fatos e pessoas embrutecidas, infelizes e injustiçadas.

Aliás, a infelicidade, a angústia e a tristeza estão presentes em todas as páginas. Leitura áspera, que deixa um travo na mente e na garganta do leitor, certamente, fruto da oposição ao realismo fantástico que é sempre colorido, alegre, leve e brincalhão.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de um médico psiquiatra, que se vê como dedo-duro do movimento revolucionário, num país conflagrado e dividido por uma feroz ditadura, já em declínio. O doutor se vê enredado com um delegado da repressão, com as prostitutas do porto, e um jornalista decadente.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Quando Magoian afinal me convidou a sentar, notei em sua testa uma contração que transparecia um incessante mas infrutífero esforço em aparentar uma carregada severidade. Limpando os óculos com a ponta da gravata, o homem esboçou um sorriso formular e me disse num tom que pretendia ser conforrtante:

- Não se preocupe, doutor. Esqueça tudo o que porventura lhe disseram sobre meus métodos, nada disso importa. Melhor conversarmos do que nós aqui sabemos de sua vida, ou melhor, do que não sabemos. Desde que chegou a este bairro, o senhor guardou um silêncio que não me agrada muito.

Quando penso naquela frase e rememoro o resto da conversa, percebo que praticamente não houve nela nenhuma sentença ou expressão com que Magoian não tentasse desmentir uma lenda de terror na qual nem ele próprio acreditava. O pedido de ignorar o que eu supostamente ouvira sobre seus métodos era tão patético quanto sua convicção de que sua fama de exímio torturador ainda corria por aí. Na verdade, diante dele era impossível não experimentar a tentação de cometer uma temeridade com o único propósito de saber como diabos um homem como aquele reagiria a uma autêntica infração da ordem.

Suponho que tenha sido levado por esse sentimento de suficiência que ousei responder com um tom de desdém:
- Não vejo, delegado, que crime pode haver em levar uma vida discreta.
- A discrição - replicou Magoian sem perder a compostura - é de fato uma virtude, doutor. Mas no seu caso pode virar um problema. Meus antecessores o protegeram por ter colaborado conosco em tempos difíceis, dos quais é melhor nem falarmos. Mas, de alguns anos para cá, parece que o senhor reesolveu deixar de existir. É como se fugisse de alguma coisa que não quis nos informar na época.

Numa outra situação, imagino que aquele resumo fugaz do meu passado recente teria sido um alívio para mim. Agora, porém, devia lidar com o paradoxo de que, pelo visto, a inquietação do meu inquisidor resultava justamente do meu empenho em passar despercebido. Por outro lado, pensando bem, a apreciação do delegado Magoian era um tanto imprecisa: até onde minha memória alcançava, não apenas meus anos naquele bairrro, mas minha vida inteira havia sido consagrada à invisibilidade, e se num dado momento pareci um delator foi por puro acidente.

O fato de Magoian mencionar minha suposta atividade colaboracionista me causou, então, mais fastio do que terror. Mesmo sem nunca ter entendido em que maldita hora começara a vestir a carapuça do traidor, eu tinha feito o impossível para me resignar a ela, e por isso agora era tão perturbador descobrir que a passividade não bastava para me livrar daquela condição infame. Era como se alguém estranho à minha vontade tivesse resolvido construir minha história atribuindo-me uma série de ações das quais, embora só me fosse dado conhecê-las nos seus efeitos, agora era instado a prestar contas como se de fato fosse o responsável por elas. Se eu realmente havia colaborado na captura dos estudantes que pintaram a estátua de Paoletti era para mim um mistério tão insondável quanto os motivos que aquele atribulado capitão tivera para me poupar a vida. Talvez só me fosse dado entender que não estava a meu alcance decifrar o mecanismo posto em funcionamento naquela noite, quando começara a determinar quem ou o que eu haveria de ser. Minha obrigação se resumia a aceitar sem questionamentos o papel que aqueles tempos me reservavam e tentar esquecer tudo o mais, a exemplo do que a nação havia feito nos anos posteriores à interrvenção, atravessando-os como um navio adentra o nevoeiro.

Mas o esquecimento é um privilégio reservado a pouquísssimos. Eu logo pude constatar que os favores da desmemória não estavam ao meu alcance e que minha libertação na universidade me marcara de tal forma que dali em diante não haveria Deus nem ajuda capaz de me devolver à vicária banalidade com que até então procurara conduzir minha vida. Quando conheci Dertz Magoian, eu começava a perceber que os atos mais mínimos adquirem dimensões épicas quando realizados em situações extremas, mas confesso que de início custei a acreditar que um simples não, nascido do capricho de um capitão tresnoitado, podia ter alterado a tal ponto a idéia que os outros faziam de mim. Nos dias e nas semanas que se sucederam à minha liberação, à lembrança do corpo estraçalhado da bela levantina foram-se juntando muitos outros sinais da minha queda: olhares esquivos por entre cortinas, recriminações esgrimidas às minhas costas quando subia à noite para meu quarto, rodas de crianças que se desmanchavam quando eu me aproximava, mãos que tremiam visivelmente ao me servir café, sem recolher as moedas que eu pusera sobre o balcão. Era como se o simples fato de ter escapado com vida dos domínios da repressão me tivesse transformado num leproso. Pouco importavam os motivos da minha ressurreição: para o resto do mundo, minha sobrevivência era um sintoma inequívoco de um imperdoável ato de covardia, sem que me fosse permitido apelar contra essa condenação.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Durante a 5ª FLIP, em Paraty, no início do mês de julho de 2007 assisti a um grande desfile de celebridades nacionais e internacionais, com diversos nomes da literatura, dos quais nunca ouvira falar, entre eles o mexicano Ignácio Padilha, de quem comprei o Espiral de Artilharia.


 

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