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Eles se Acreditavam Ilustres e Imortais

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Eles se Acreditavam Ilustres e Imortais

Livro Bom - 1 comentário

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Autor: Michel Ragon  

Editora: Difel

Assunto: Biografia

Traduzido por: Marcelo Rouanet

Páginas: 125

Ano de edição: 2011

Peso: 190 g

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Bom
Marcio Mafra
07/04/2012 às 12:32
Brasília - DF

Este é um livro que leitores idosos, velhos ou antigos gostarão de ler. Os leitores jovens – entre 15 e 35 anos – dificilmente ouviram falar de qualquer dos personagens do livro, ainda que nenhum deles seja ficção. São celebridades mundiais que morreram doentes, desprezadas, esquecidas e até odiadas por parentes, amigos e fãs, numa triste repetição do mistério da vida. O tempo de vida é contado em anos. Raramente ultrapassa cem. O individuo nasce sozinho, vive em conjunto e morre sozinho, às vezes abandonado. Os leitores jovens não darão relevância à leitura, já os menos jovens, concordarão com o autor: O apogeu e a queda da vida são cruéis. Das celebridades é muito pior, pois geralmente só lhes sobram a ingratidão, esquecimento, pobreza e solidão. Assim foi a vida do arquiteto francês Le Courbusier, o arquiteto que fez escola mundial, cujos maiores discípulos foram Oscar Niemayer e Lucio Costa, autores do Plano Piloto, cidade de Brasília, em 1960. Leitura fácil, rápida e triste.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Breve historia do triste final de vida de artistas e celebridades mundiais, como Chaplin, Ezra Pound, Gustave Courbel, Piotr Kropotkin, Alexandre Dumas, René Descartes, Le Corbuisier e Francoise Sagan.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Quem é esse velho que corre na areia? 1887-1965


Quem é esse velho, sempre de torso nu, cabelos brancos, bem curtos, desalinhados, óculos de lentes grossas com aros de casco de tartaruga, que corre na areia e se joga na água resolutamente? Nada para bem longe, chegando a inquietar certos banhistas.

Volta com a água escorrendo, evita os importunos, caminha rapidamente para a cabaninha onde se tranca até nos horários das refeições. O dono do botequim praiano é quem traz sua comida.

Quando indagado sobre o curioso inquilino, responde: - Deixem-no em paz. Ele já foi muito importunado durante toda a sua vida. Tem direito ao repouso, não?

Curiosos são essa atenção e esse respeito prestados a ele pelo proprietário desse abominável boteco abaixo da estrada, onde o Antigo (assim os frequentadores do local designam o desconhecido) se tranca em um barracão de obra, curiosamente ali colocado.

Só sai para mergulhar. Nada com braçadas surpreendentemente vigorosas, considerando a idade que aparenta.

É o único octogenário nessa minúscula praia à margem da autoestrada. Os recém-chegados se intrigam e depois se acostumam a esse estranho ancião.

Ao sair da cabaninha, olhos fixados no mar, alguns continuam a dizer:

- Olhe aí, o Antigo vai dar um mergulhinho. Sem olhar ninguém, corre para a água.

- É um pouco orgulhoso esse seu cliente - dizem alguns ao dono do estabelecimento. - É como se a gente fosse umas medusas. Ele trata de não nos pisar, é o mínimo que se deve fazer.

- Deixem o Antigo em paz. Ele os incomoda? Não o chateiem.

Os dias passam tranquilos nesse verão de 1965.

O Antigo fica trancado em sua cabaninha. O que será que ele faz? Deve assar lá dentro.

Ele tem, aliás, a pele bronzeada por suas idas e vindas do barracão ao mar.

Não fala com ninguém. Se o cumprimentam, não responde.

- Esse seu cliente não deixa de ser um pouco orgulhoso.

- Não é, não, ele só não gosta de que o chateiem.

- É isso, ele acha que somos uma chateação.

- Ora, deixem-no em paz. Durante toda a sua vida o aborreceram. Agora, nessa idade, ele bem que tem o direito de descansar.

O lugar nada tinha de um balneário de férias.

Perto da estação da ferrovia Nice-Vintimille, embaixo, a cabaninha fora colocada nos rochedos. A 50 metros abria-se a praia, minúscula.

Quem lhe teria escolhido essa paisagem miserável para moradia, distante dos padrões da Côte d' Azur?

Seria ele tão pobre, tão abandonado? E por que tão solitário?

Se bem que só o vissem praticamente nu, ele não aparentava ser pobre. Um burguês, falido, decerto, porém não um velho proleta.

Nos breves momentos em que aparecia, adivinhava-se, pela maneira como se comportava, algo de patrão, de chefe. Nada de incomodá-lo. Quem se arriscava a interpelá-lo fazia isso por sua conta. Era surdo? Orgulhoso demais? Por que escolhera morar nesse barracão?

- Diógenes em seu tonel- disse um dia alguém com instrução.

A reflexão não produziu efeito. Ninguém conhecia esse tal Diógenes. Ninguém enxergava tonel algum. Esses engraçadinhos ...

Os dias passavam nesse verão escaldante.

Às vezes o Antigo ia até a arrebentação, voltava e começava a desenhar na areia molhada. As crianças, curiosas, acorriam e, decepcionadas, só percebiam riscos sem figuras. Quadrados, retângulos que o desconhecido comparava cuidadosamente, ficando ocasionalmente pensativo ou perplexo.

- Por que você não faz um castelo? - perguntou uma criança.

O Antigo sobressaltou-se, como se lhe tivessem batido no ombro, e tartamudeou:

- Um castelo, vejam só. E você, mora onde?

O Antigo apagou encolerizado seu desenho e mergulhou nas ondas.

Finalmente, deixaram de prestar atenção ao Antigo. Até que um dia alguém se preocupou ao não vê-Io aparecer.

- Então, o Antigo partiu?

Claro que não, esta manhã ele foi visto correndo para o mar.

- Quem o viu voltar?

-Ninguém.

- De todo jeito, não éramos pagos para vigiá-Io.

- O dono do bar correu para o barracão.

Vazio.

- Sim, disse alguém, eu o vi nadar muito longe, depois o perdi de vista.

Estavam acostumados demais a suas singularidades.

O proprietário do botequim ficou tão transtornado que parecia ter perdido algum familiar.

O inquérito policial apontou afogamento.

No dia seguinte, todos os jornais imprimiam na primeira página:

"O maior arquiteto do mundo", declara André Malraux. Desaparecido acidentalmente no Mediterrâneo.


Nenhuma informação foi cadastrada até o momento.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

No jornal Valor Econômico edição de 6 de novembro de 2011, o jornalista José Castello fala sobre a velhice, num artigo intitulado “Vertigem do Tempo”, motivo da compra deste “Eles se acreditavam ilustres e imortais” logo em janeiro de 2012.

A rainha Elizabeth II cumprimenta Chaplin por volta de 1975. Já em cadeira de rodas na época, poucos o reconheciam em eventos e ele se queixou à filha: "Sabe, eu também era conhecido antigamente"
No verão de 1965, um velho senhor mergulhava, todas as manhãs, no mar de um balneário próximo a Nice, na França. Os frequentadores da praia diziam que era um homem rabugento, pois não falava com ninguém, ignorava o mundo. "Ora, deixem-no em paz!", defendia-o o dono do botequim praiano. "Durante toda a sua vida o aborreceram. Agora, ele tem o direito de descansar."

As crianças se intrigavam porque, entre um mergulho e outro, o velho tinha o hábito de desenhar, na areia molhada, riscos enigmáticos, nunca figuras. Ele passava longas horas em uma pequena cabana, erguida no rochedo. Parecia perdido e estranho. Em uma manhã escaldante, o velho senhor deu seu mergulho matinal e não foi mais visto. Nunca mais. O inquérito policial falou em "afogamento", quando seu destino se parecia mais com uma escolha. No dia seguinte, os jornais estampavam: "Morre Le Corbusier".

O triste fecho para a vida do arquiteto genial contradiz todo o seu passado de glórias. Durante seus 68 anos de vida, Le Corbusier parecia imortal. A consagração era asfixiante. Apesar dela, a chegada dos anos o transformou em um velho qualquer. Será que ele contava com isso? Uma frase de Louis-Ferdinand Céline, escrita também na velhice, sintetiza esse destino incongruente: "Não passamos de um velho poste de lembranças em uma esquina que quase ninguém mais cruza".

Para autor, a velhice, é uma espécie de arma enfurecida, que fulmina, indistintamente, tudo e todos. Não faz escolhas, faz vítimas
A triste história de Le Corbusier é só um dos capítulos de "Eles se Acreditavam Ilustres e Imortais...", coletânea de ensaios breves sobre a velhice incoerente de artistas famosos. O livro é assinado por Michel Ragon. Doloroso paradoxo: quanta glória e quanta tristeza! A velhice, nos mostra Ragon, é uma espécie de arma enfurecida, que fulmina, indistintamente, tudo e todos. Não faz escolhas, faz vítimas. Não tem moral, ou gosto, tampouco bons sentimentos - tem fome.

Lembra Ragon que um dia, já velho e doente, Charles Chaplin chegou, amparado pela filha Geraldine, a um vernissage na Suíça. "Ninguém reconhecia nem se importava com o ancião de cadeira de rodas que Carlitos se tornara", relata. Atordoado não pelo assédio, mas pelo desprezo, Chaplin teria dito a Geraldine: "Sabe, eu também era conhecido antigamente". Velhices, o autor nos lembra, são sempre inverossímeis. Desmentem, sem pudor ou delicadeza, toda a vida que a antecedeu. Nem todos os artistas conseguem, apesar da dor e fraqueza, conservar a dignidade. Muitos sucumbem - como corpos que devorassem a si mesmos.

Para montar sua coleção de retratos, Ragon partiu de um princípio: "Todos tiveram uma velhice trágica, com esquecimento que, para alguns, parecia definitivo". Quem se lembra, por exemplo, de Paul Fort, o penúltimo Príncipe dos Poetas franceses (o último teria sido Jean Cocteau)? "Do poeta popular que foi, e dos 40 volumes de suas 'Ballades Françaises', permanecem apenas alguns textos encantadores musicados por Georges Brassens", o autor rememora. Quando digitamos "Paul Fort" no Google, não chegamos a mais que três linhas. 

Le Corbusier, que aos 68 anos deu um mergulho sem volta no mar de um balneário perto de Nice: esse triste fim do genial arquiteto contradiz o seu passado de glórias
Michel Ragon nos lembra do destino trágico de Alexandre Dumas, homem vigoroso e sensual, que, aos 68 anos, só se movimentava com uma poltrona rolante. "Seu sexo, do qual tanto se orgulhara, agora o envergonha", descreve. "Precisa chamar alguém para que sua incontinência não molhe as calças." Um dia, o filho tenta reanimá-lo, anunciando que Garibaldi está na Borgonha, à frente dos camisas-vermelhas, em combate contra a Prússia. No passado, os dois lutaram juntos. Mas e agora, o que ainda os aproxima? "A paixão prevalece", ainda diz Dumas, apegando-se a um fio de esperança. O filho o aniquila: "A paixão não desculpa nada".

A escritora Françoise Sagan e a atriz Brigitte Bardot foram amigas de juventude e parceiras de beleza. "Simbolizaram a libertação da mulher de todas as imposições, preconceitos, proibições", escreve Ragon. Aos 17 anos, quando publicou o célebre "Bom Dia Tristeza", Françoise parecia uma estrela que jamais deixaria de brilhar. Levou, porém, uma existência desordenada, sempre perseguida pelo fisco e pela polícia de entorpecentes. Aos 54 anos, uma velha precoce, fraturou o fêmur. "Sua derrocada é tão vertiginosa quanto seu sucesso", Ragon constata. Recolhida a um hospital geriátrico, recebe, um dia, uma visita de surpresa. É Brigitte Bardot que, sustentando ainda restos de esplendor, deseja estar com ela. Françoise, porém, se recusa a vê-la, "para não expor sua ruína".

Mas, na maior parte das vezes, a ruína não se deixa esconder. Em 1945, ano em que Adolf Hitler foi derrotado, Knut Hamsun - o mais importante narrador norueguês do século XX - tem dificuldades para escutar a notícia. "Marie, sua mulher, grita-lhe no ouvido. Ele está surdíssimo", conta Ragon. Mesmo fraco, Hamsun logo decide escrever o necrológio de Hitler. O ódio aos ingleses e aos americanos, com seu apego à modernidade que ele execrava, o levou a aderir ao nazismo. A admiração por Hitler, porém, não macula a grandeza da obra literária. "A obra tão singular de Knut Hamsun se explica ao mesmo tempo por seu autodidatismo, sua perpétua vagabundagem e pela situação singular de seu país natal", cogita Ragon.

Quando, em 1905, a Noruega recuperou a independência, Hamsun já tinha 46 anos. Quando o nazismo se expande sobre a Europa, já é um septuagenário. Suas escolhas políticas não combinam, porém, com sua grandeza literária. É internado como louco e submetido a longos interrogatórios. A velhice o põe sob suspeita. Foi, enfim, liberado - para uma decadência interminável. Só morreu em 1952, aos 93 anos. Seu estado era digo de lástima. Mais repulsivo ainda era o sentimento de exclusão. "O que fiz não foi bem compreendido", disse. "Perdi e devo assumir isso."

A glória literária não estanca a derrota do corpo e as suspeitas que recaem, em consequência, sobre o psiquismo. O filósofo René Descartes, que jamais adoecera, desprezava as drogas e os boticários. Doente, prescrevem-lhe lavagem e sangria. Recusa não só os remédios, mas a comida. Só acreditava em certa emulsão infalível, resultado do tabaco infundido no vinho. Seu médico, mesmo horrorizado, cede - mas exige que as doses sejam diluídas. Quem pode levar a sério o desejo de um velho? Em 11 de fevereiro de 1650, René Descartes morre. Carregou consigo a crença de que Cristina, a rainha da Suécia, sua aluna de filosofia, mesmo diante de sua indisfarçável decadência, se interessava por ele. "Acreditava que a rainha o amava (quer dizer, amava seu espírito) e que ela o matou." Mesmo a mais brilhante das mentes se deixa roer. A vertigem não poupa a glória.


 

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