carregando

Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns segundos...

 

O Rochedo de Tanios

Para usar as funcionalidades você precisa estar logado(a). Clique aqui para logar
Erro ao processar sua requisição, tente novamente em alguns minutos.
O Rochedo de Tanios

Livro Excelente - 1 comentário

  • Leram
    1
  • Vão ler
    3
  • Abandonaram
    0
  • Recomendam
    0

Autor: Amin Maalouf  

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Maria Lucia Machado

Páginas: 265

Ano de edição: 1988

Peso: 355 g

Avalie e comente
  • lido
  • lendo
  • re-lendo
  • recomendar

 

Excelente
Marcio Mafra
11/07/2012 às 21:17
Brasília - DF


O Rochedo de Tânios é livro com um pano de fundo histórico. Nele Amin Maalouf agrega fatos históricos reais, reflexões filosóficas e generosos capítulos de pura fantasia. As venturas e desventuras dos personagens acontecem durante a dominação otomana do Líbano e abordam, também, a interferência política e econômica da França e Inglaterra nos governos daquela parte do território libanês. O autor demonstrou sensibilidade e delicadeza de escrita, como se o livro fosse uma pintura clássica. Via de regra os romances de autores indianos, árabes, egípcios, turcos, libaneses ou iranianos contam histórias melosas, açucaradas que se arrastam entre a vida rica e a paixão desvairada. Amin Maalouf, ao contrário, escreveu com leveza de anjo e fineza de confeiteiro, usando açúcar comedidamente. Só carregou mesmo no talento. O personagem principal Tânios, herói do rochedo que leva seu nome era um jovem bonito, filho bastardo do Scheik Francis com Lâmia, uma mulher belíssima que era a esposa do superintendente do castelo. “...bela como Lâmia, que carrega sua beleza como uma cruz. Que significam, aos olhos dos séculos, o adultério, a virtude ou a bastardia? São apenas os ardis do parto...” Na juventude Tânios era amigo de Raad, que depois lhe passa a perna e se casa com Asma, outra bela mulher que era a paixão de Tânios. Gério, pai “oficial” de Tânios era o administrador do castelo do sheik. Ele tem destaque na história devido ao servilismo e vassalagem que dedicava ao Scheik. O Rochedo de Tânios é prova de que histórias baseadas na simplicidade da vida, mesmo da elite dominante não precisam de grandiloqüentes divagações, para tornar a leitura memorável, sutil, gostosa e acessível ao leitor comum. O Rochedo de Tânios merece ser lido. Livro bom, escrito com talento, delicadeza e inteligência. Excelente.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Tânios, filho bastardo do Sheik Francis e de Lâmia, mulher do superintendente do palácio. Drama de amor, covardia, traição, luta e justiça que se passa no remoto povoado Kfaryabda, na época da dominação Otomana do Líbano. Tânios se apaixona por Asma, filha de Roukoz, o maior inimigo do Sheik, um antigo aliado que tinha sido expulso dos domínios do Sheick Francis. Roukoz, que se torna poderoso, rico e influente na política otomana busca a vingança, invadindo e tomando a vila para destronar o Sheick. Mas a bela Asma se casa com Raad, inimigo de Tânios, embora este seja um protegido de Roukoz.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Quando a mulher do sheik voltou a Kfaryabda na primeira semana de agosto, seu pai a acompanhava, também seus cinco irmãos, assim como sessenta cavaleiros e trezentos homens a pé, e escudeiros, damas de companhia, criadas e servidores - perto de seiscentas pessoas ao todo.
Os guardas do castelo queriam espalhar-se pelo domínio com o intuito de chamar os aldeões às armas, mas o sheik lhes disse que se acalmassem, que fizessem boa figura; apesar das aparências, era apenas uma visita. Ele próprio saiu ao patamar a fim de receber dignamente seu sogro.
- Vim com minha filha, como havia prometido. Estes poucos primos fizeram questão de me acompanhar. Disse-lhes que sempre se encontram nas terras do sheik um canto de sombra onde pousar a cabeça e duas azeitonas para enganar a fome.
- Estais em casa, entre os vossos!
O senhor do grande Jord voltou-se então para seus partidários.
- Ouvistes, estais em casa aqui. Reconheço aí a generosidade de nosso genro!
Palavras acolhidas por vivas alegres demais para não serem preocupantes.
No primeiro dia, houve um banquete de boas-vindas, como quer o costume. No segundo dia, foi preciso igualmente alimentar toda aquela gente, e ainda no terceiro dia, no quarto, no quinto ... As provisões para o novo ano ainda não estavam prontas e, à razão de um festim por dia, às vezes dois, as reservas do castelo foram muito rapidamente esgotadas. Mais nenhuma gota de azeite, de vinho ou de áraque, nada de farinha, nada de café nem de açúcar, nada de conserva de cordeiro. A colheita já se anunciava magra, naquele ano, e, a ver os animais que eram abatidos todo dia - vitelos, cabras para a carne moída, carneiros às dúzias e galinheiros de aves -, as gentes de minha aldeia sentiam despontar a penúria.
Então, por que não reagiam? Por certo, não era a vontade que lhes faltava, não era tampouco a pretendida "intocabilidade dos convidados" que os detinha - oh, não, eles os teriam traspassado até o último, de muito boa consciência, a partir do instante em que aqueles "convidados" haviam cientemente infringido as regras da hospitalidade. Porém, o acontecimento era singular demais para ser pesado segundo as convenções. Pois era, não o esqueçamos, uma briga de casal. Grotesca, desproporcionada, mas assim mesmo uma briga de casal. O senhor do grande Jord viera tratar rudemente, à sua maneira, um genro que o ofendera, e ninguém melhor que a mulher do sheik soubera exprimir isso, quando lançara a uma aldeã que se queixava do que acontecia: "Vai dizer a teu senhor que, se não tem meios de manter uma comitiva de grande dama, teria feito melhor em desposar uma de suas camponesas!". Era esse o estado de espírito daqueles "visitantes". Não tinham vindo massacrar a população, incendiar a aldeia, saquear o castelo ... Procuravam apenas esgotar os recursos de seu hospedeiro.
De resto, seus heróis não eram seus mais valorosos combatentes, e sim seus maiores comilões. A cada festim, eles eram reunidos no meio da tropa que os encorajava com suas aclamações e risos, e eram medidos assim, por quem devoraria mais ovos duros, por quem engoliria sozinho uma jarra de vinho dourado, ou uma bandeja inteira de kebbé, uma bandeja larga como braços abertos. A vingança pela comilança, de alguma maneira.
E se aproveitassem um desses banquetes abundantemente regados para lhes saltar à garganta? As gentes de Kfaryabda tinham o culto das façanhas guerreiras, e mais de um bravo tinha vindo murmurar ao ouvido do sheik que bastaria uma palavra dele, que bastaria um gesto ... "Não se trata de massacrá-las, de modo nenhum, nós nos contentaríamos em espancá-las, depois os despiríamos, os amarraríamos completamente nus às árvores, ou os penduraríamos pelos pés aguardando que tivessem vomitado."
Mas o sheik respondia invariavelmente: "O primeiro de vós que desembainhar sua arma, eu o estripo com minhas próprias mãos. O que sentis, eu o sinto; o que vos faz mal, me faz mal; e o que tendes vontade de fazer, tenho mais vontade de fazê-lo do que todos vós. Sei que sabeis lutar, mas não quero uma carnificina, não quero inaugurar vinganças sem fim com meu próprio sogro que dispõe de vinte vezes mais homens do que eu. Não quero que esta aldeia se encha de viúvas, geração após geração, porque um dia não tivemos paciência com esses inomináveis. Tenhamos confiança em Deus, Ele saberá fazê-los pagar!".
Alguns jovens haviam saído do castelo praguejando. Comumente, era o cura quem invocava Deus e o sheik quem conduzia as tropas ao combate ... No entanto, a maioria aceitou a opinião do senhor, e ninguém, em todo caso, queria tomar a iniciativa de fazer correr o primeiro sangue.
Limitaram-se então a uma outra vingança, a dos sem-braço: a aldeia se pôs a rumorejar anedotas ferozes sobre aquele que, por uma ligeira distorção de palavra, começaram a chamar não mais de senhor do grande Jord - que quer dizer "as alturas áridas" - mas de senhor dos jrad - que quer dizer "gafanhotos". Os ditos espirituosos, na época, eram compostos em versos populares, à maneira deste:
Perguntam-me por que lamento minha sorte,
Como se nunca antes houvesse sofrido com gafanhotos!
É verdade que eles invadiram meu campo no ano passado,
Mas os do ano passado não devoravam carneiros.
A cada serão, os declamadores de versos exaltavam-se contra as gentes do grande Jord, zombando de seu sotaque e de seus trajes, ridicularizando sua região e seu chefe, pondo em dúvida sua virilidade, reduzindo todos os seus feitos guerreiros passados e futuros aos da matilha dos comilões, que haviam marcado as imaginações de maneira duradoura. Contudo, a mais maltratada de todos era a mulher do sheik, que era descrita nas posturas mais escabrosas, sem preocupação com a presença das crianças. E ria-se até o esquecimento.
Em compensação, ninguém teria se aventurado a fazer a menor brincadeira, a menor alusão descortês a Lâmia, a seu marido ou à paternidade incerta de seu filho. Não há dúvida de que, se todos esses acontecimentos não houvessem ocorrido - se a mulher do sheik não houvesse procurado vingar-se, se apenas houvesse partido lançando mão de alguma frase provocadora -, os murmúrios e os olhares enviesados teriam tornado insuportável a vida de Gérios e dos seus, e os teriam obrigado a exilar-se. Porém, ao declarar guerra à aldeia inteira, empenhando-se em empobrecê-la, em esfaimá-la, em humilhá-la, o senhor do grande Jord chegara ao resultado inverso. De agora em diante, pôr em dúvida a virtude de Lâmia e a paternidade de seu filho era reconhecer a legitimidade dos argumentos dos "gafanhotos", era justificar suas extorsões. Quem quer que adotasse tal atitude se colocava como inimigo da aldeia e de seus habitantes, não tinha mais lugar entre eles.
Mesmo Gérios, que depois do episódio do nome se sentira convertido a objeto de chacota da aldeia, agora via as pessoas espremerem-se a sua volta, com abraços calorosos, como para felicitá-lo. Felicitá-lo por quê? Aparentemente, pelo nascimento de um filho, mas a verdade era outra, e, se ninguém teria sido capaz de explicá-la, todos a compreendiam no coração: aquele delito por que eram punidos, os aldeões o haviam erigido, por bravata, em ato de desafio pelo qual cada um dos protagonistas estava doravante absolvido, e devia ser defendido, fosse amante imprudente, esposa infiel ou marido enganado.
Falando deste último, é preciso dizer que, desde a chegada dos "gafanhotos" e enquanto esperava sua partida, Gérios prudentemente deixara o castelo, com sua mulher e o recém-nascido, então com quarenta dias, para alojar-se algum tempo na casa do cura, seu cunhado, em uma peça contígua à igreja. Ali, houve um desfile ininterrupto de visitantes atenciosos - mais do que os que havia recebido em dois anos em seus aposentos "do alto" -, especialmente mães que, todas, faziam questão de amamentar aquela criança, ainda que apenas uma vez, para exprimir na carne sua fraternidade.
Muita gente devia se perguntar se essa extrema benevolência iria continuar quando os "gafanhotos" não estivessem mais lá para alimentá-la.
" ... Pois sua nuvem ia acabar por alçar vôo", diz a Crônica, "rumo às alturas áridas do grande Jord."
Na véspera desse dia abençoado, haviam corrido rumores, mas os aldeões não acreditaram neles; fazia seis penosas semanas, boatos circulavam todos os dias para ser desmentidos ao cair da noite. Muitas vezes, aliás, emanavam do castelo, e dos próprios lábios do sheik, a quem, contudo, ninguém culpava por essas mentiras. "Não se diz que as épocas sombrias são atravessadas de falsa claridade em falsa claridade, como quando, na montanha, na primavera, encontramo-nos no meio de um curso d'água e temos de avançar para a margem saltando de uma pedra escorregadia a outra?"
Daquela vez, porém, o sheik tivera a impressão de que seus "convidados" estavam realmente a ponto de partir. Meio prisioneiro em seu próprio castelo, ele se esforçara, no entanto, por preservar as aparências, e todas as manhãs convidava seu sogro para vir tomar o café em sua companhia no liwan em forma de balcão interno que dava para o vale, o único lugar de onde se podia contemplar outra coisa que não as tendas armadas em barafunda pelos visitantes, que haviam transformado as cercanias do castelo em um verdadeiro acampamento nômade.
Já fazia um certo tempo sogro e genro atiravam-se flechas molhadas no mel, quando a mulher do sheik veio dizer a seu pai que estava preocupada com o filho, deixado com a avó durante aquela "visita", e que gostaria muito de revê-lo. O senhor dos "gafanhotos" fingiu a mais franca indignação:
- Como? É a mim que pedes permissão para partir quando teu marido está presente?
O dito marido teve então a impressão de que o círculo enfim se fechava. Alegrou-se e inquietou-se com isso a um só tempo. De fato, temia que, no momento de despedir-se, como a gota d'água e para deixar uma lembrança, a horda se entregasse a uma orgia de pilhagem e fogo. Muita gente na aldeia sentia o mesmo medo, a ponto de já não ousar desejar que o dia fatídico da partida estivesse próximo, preferindo ver prolongar-se ainda as semanas de pilhagem pacífica.
Os acontecimentos iriam desmentir esses temores. Contra todas as expectativas, os "gafanhotos" retiraram-se em boa ordem, ou quase; era fim de setembro, as vinhas e os pomares foram "visitados" de passagem, e cuidadosamente despojados mas isso ninguém pensava poder evitar. Em compensação, não se deplorou nenhuma morte, nenhuma destruição. Eles também não queriam desencadear um thar, um ciclo de vingança; queriam apenas infligir ao sheik uma humilhação dispendiosa, e estava feito. O sheik e seu sogro até se abraçaram no patamar, como na chegada, no meio dos mesmos vivas zombeteiros.
As últimas palavras ouvidas da boca da mulher do sheik foram: "Voltarei no final do inverno". Sem esclarecer se estaria tão abundantemente escoltada.
Naquele inverno, a região inteira conheceu a penúria, e nossa aldeia sofreu com ela mais duramente que outras. Quanto mais os víveres escasseavam, mais se amaldiçoavam os "gafanhotos"; se aquela gente se atrevesse a voltar, ninguém, nem mesmo o sheik, poderia impedir uma carnificina.
Durante anos esperou-se por eles, postaram-se vigias nas estradas e no topo das montanhas, combinaram-se planos para exterminá-las e, se alguns temiam seu retorno, muitos outros o esperavam sem arredar pé, inconsoláveis por terem se mostrado tão pacientes da primeira vez.
Eles não voltaram. Talvez jamais houvessem tido essa intenção. Mas talvez fosse em razão da doença que atingiu a mulher do sheik, uma tísica ao que se diz, na qual as gentes de minha aldeia, naturalmente, viram apenas um justo castigo.
Visitantes que retomavam do grande Jord e que a tinham avistado na casa de seu pai contaram que estava enfraquecida, emagrecida, envelhecida, irreconhecível, e que evidentemente definhava ...
Pouco a pouco, à medida que o perigo se afastava, os que sempre haviam tido dúvidas quanto ao nascimento de Tânios, e que consideravam ter pago um pouco caro demais por aquela aventura galante, arriscaram-se a levantar a voz.
No começo, o filho de Lâmia não teve disso nenhum eco, ninguém teria desejado falar em sua presença. Se, como todos os aldeões de sua geração, crescera na obsessão dos "gafanhotos", não podia desconfiar que fora sua vinda ao mundo que atraíra sobre os seus aquela calamidade. Teve uma infância feliz, calma, e mesmo comilona, alegre e caprichosa; era um pouco o mascote da aldeia, e aproveitava isso com toda a inocência.
Ao longo dos anos, aconteceu algumas vezes de um visitante, ignorante ou perverso, vendo aquela bela criança vestida com roupas novas pular à vontade pelos corredores do castelo, perguntar-lhe se não era o filho do sheik. Tânios respondia, rindo: "Não, sou filho de Gérios". Sem hesitar, e sem levar a mal.
Parece que nunca tivera a mais ínfima suspeita com respeito ao seu nascimento antes daquele dia maldito entre todos em que alguém lhe gritou na cara por três vezes: "Tânios-kichk! Tâânios-kichk! Tânios-kichk!".


Nenhuma informação foi cadastrada até o momento.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Amin Maalouf foi convidado para a FLIP de 2012, em Parati RJ. Como nesse ano eu não poderia comparecer, me antecipei a visitei a Livraria da Vila, em São Paulo no dia 24 de maio e adquiri O Rochedo de Tânios.


 

Receber nossos informativos

Siga-nos:

Baixe nosso aplicativo

Livronautas
Copyright © 2011-2020
Todos os direitos reservados.