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Barco a Seco

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Barco a Seco

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Autor: Rubens Figueiredo  

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 191

Ano de edição: 2008

Peso: 245 g

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Bom
Marcio Mafra
13/10/2012 às 16:56
Brasília - DF


Embora toda a crítica e toda a imprensa especializada e tudo o mais que se encontra no Google só tenham elogios para Rubens Figueredo, autor do Barco a Seco,  achei o livro apenas mediando. O autor é do ramo. Além de ser formado em letras ele é professor de portugues. Tem diversos livros publicados. Ganhou o prêmio Jabuti de Literatura duas vezes,  em 1998 e 2002. Portanto não há como dizer que o livro não é bem arquitetado. É bem arquitetado, bem estruturado, corretíssimo no desenvolvimento do tema, que vai juntando a historia dos personagens, capítulo sim, capítulo não. Usa com equilíbrio a linguagem erudita e a linguagem dita popular. Tudo gira obsessivamente em torno do mar: Tanto a pintura de Emilio Vega, como a vida do narrador e até a vida de Inácio Cabrera. É agua que dá para afogar qualquer leitor. O autor, com muita competencia, usa alguns capítulos para fazer ilações existenciais sobre a vida, e claro, sobre o mar.  A leitura é doce, fácil, porém o livro não empolga. O final é absolutamente previsível. Como leitor achei um livro chato.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A historia de um crítico de arte, que na infância foi expulso da casa paterna porque além de muito pobre era órfão e filho bastardo. Na juventude quase morreu afogado. Ele se especializou no artista Emilio Vega, um pintor desconhecido que pintava o mar. O crítico ganhava a vida examinando as pinturas de Vega e emitindo laudos de autenticidade. Existia no mercado muitissimas obras falsas em quantidade - talvez - superior às obras autênticas.

 

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Ninguém fala pelos mortos, a não ser para traí-los. Por instinto, os vivos unem-se em confraria contra os que morreram, aliam-se contra a sua impertinência, em repúdio ao desaforo de terem deixado a vida escapar. No caso de Vega, é pior ainda. Quando o engano fincou raízes, quando o fruto da árvore proibida já foi tantas vezes mastigado e digerido a ponto de tornar-se a dieta mais corriqueira, é melhor tratar os testemunhos com cautela. Eu sabia disso, está claro. Mas talvez exatamente por esse motivo eles me atraíam e eu nunca deixava de tentar ouvi-los. Eu tinha certo prazer em dizer a mim mesmo que minha destreza consistia em banhar em ácido as deturpações, até que algum vestígio de verdade emergisse dali.
Mas há um ácido mais forte, há uma corrosão que vai mais fundo e arranca pedaços de tudo. Foi o que não pude deixar de pensar, enfim, diante de Inácio Cabrera. Prestei atenção, agora mais de perto, e vi que Inácio tinha sido operado de catarata nos dois olhos. Uma cintilação de lâminas no olho esquerdo me levava a apostar que fizera também um transplante de córnea. Um faiscar discreto de metal acusou em sua boca uma espécie de ponte que substituía boa parte dos dentes. O pavilhão da orelha desabrochava mais largo do que se vê em geral e seu ouvido - só agora notei - era arrolhado por um diminuto aparelho auditivo.
Morava no segundo andar de um prédio antigo de três pavimentos, sem elevador. Na portaria, placas de mármore revestiam o chão e as paredes. Pareciam irradiar um frescor de água, o que me incitou a experimentar seu toque gelado na ponta dos dedos. Os veios da pedra riscavam ondulações e transparências de um líquido. Mas o frio maciço que roçou minha pele arrepiou em mim outro tipo de pensamento: havia ali mármore bastante para um pequeno cemitério. Seria mesmo a entrada de um mausoléu, não fossem os cães que se puseram a latir atrás das portas fechadas de quase todos os apartamentos por que eu ia passando. Através de cada porta, no risco de luz comprimido rente ao chão, eu ouvia suas unhas arranharem o soalho, eu sentia o ofegar hostil entre os dentes, eu entrevia a sombra dos movimentos nervosos dos cães, porta-vozes exatos dos proprietários.
Duas das três lâmpadas no corredor estavam queimadas. O vidro de uma escotilha, mais acima na parede, despejava um cone de luz sobre a escada de mármore. Em contraste com a penumbra elo corredor, os degraus emitiam um reflexo raso, só o bastante para formar o halo de um tapete luminoso. Refleti que Inácio Cabrera teria de subir aquela escada todos os dias, quem sabe mais ele uma vez por dia - um homem daquela idade. E me perguntei se isso não o deixaria irritado, se isso faria bem a ele, se a casca de ovo de seus ossos não estalaria dentro do joelho a cada degrau que ele escalasse. De um jeito ou de outro, subir aquela escada sob o facho da escotilha me deu a ilusão de sair do fundo de um poço em direção à luz, no alto. Irritado, enquanto subia, joguei mentalmente nas costas de Inácio toda a culpa por esse embuste. Que da próxima vez a escada fizesse carga à vontade sobre seus joelhos frouxos. Que a dureza do mármore espremesse todo o suco de seus tornozelos.
Nem passos tateantes, nem casca de ovo, os movimentos de Inácio guardavam uma solidez, ou pelo menos uma resistência, maior do que sua idade fazia supor. Uma densidade maior do que o deslocamento curto das pernas e os desenhos bem medidos das mãos permitiam imaginar. Aos poucos, em lugar de alheamento, descobri uma espécie de rigor e de disciplina em seus intervalos de imobilidade. Inácio não disse quantos anos tinha, não contou quanto lhe custara chegar até ali. Mas estava claro que sabia poupar. Sabia negociar seus prazos. Alargava ao máximo o intervalo entre as prestações que o tempo vinha lhe cobrar: a dívida pelos dias que, década após década, Inácio havia recebido pontualmente, todas as manhãs, na porta de casa, como o assinante de um jornal.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Rubens Figueredo foi convidado para a FLIP de 2012, em Parati RJ. Como nesse ano eu não poderia comparecer, me antecipei a visitei a Livraria da Vila, em São Paulo no dia 24 de maio e adquiri Barco a Seco.


 

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