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Enquanto Água

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Enquanto Água

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Autor: Altair Martins  

Editora: Record

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 151

Ano de edição: 2011

Peso: 220 g

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Ótimo
Marcio Mafra
09/09/2012 às 20:45
Brasília - DF


O gênero "conto" ou "crônica" é como "estágio" de universitário ou como a "residência" dos que estudam medicina. Bons contistas ou cronistas viram excelentes escritores. Por óbvio. Ninguém é escritor se não for um bom contador de casos e de histórias. Para incensar contistas, críticos e editores inventaram o tal "fio condutor". Esta bobagem nada mais é que um personagem, uma paisagem ou um tema comum presente em todas ou na maioria das crônicas que compõem um livro. Bestagem pura: conto e crônica são histórias breves. Romance requer uma história grande, por isso os melhores e mais festejados escritores são romancistas. Historias inteiras, longas, compridas. Aliás, nunca se viu um contista ou um cronista receber o prêmio Nobel, o Pulittzer ou o Premio da Academia Francesa de Literatura. Então crônica é crônica, sem precisar de nehum fio condutor. Ou são boas, ou são ruins. Geralmente são ruins. "Enquanto Água", como livro de crônicas é uma das raras e caras exceções.Mesmo tendo água como fio condutor. Altair Martins tem talento (além de preparo) e demonstra isso na construção de seus personagens com finuras leves, inteligentes, movimenta-os com emoção. Rubem, o auxiliar de Pastor que se apaixona e dorme e foge com a mulher do pescador e o cachorro Mundinho, são personagens do conto "margem futura" e transitam muito bem no primeiro conto. O livro é bom. O autor melhor que o livro.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Dezoito contos de Altair Martins sob o titulo de Enquanto Água em quatro temas igualmente úmidos:

(a) Chuva na Cara (b) Depois da Chuva (c) Garoa e (d) Água com Gás.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O mar tudo recobre
sem nada asfixiar.

"O mar, no living",

Carlos Drummond de Andrade.

Hoje não se vê a draga, Ana disse. Para Guilherme, devia ser a vista do living, navio naufragado não se mexia. Depois ele foi até o vidro e vasculhou com os olhos da praia ao horizonte. A torre de engrenagens, normalmente a única parte visível do navio-draga há muito submerso, tinha mesmo sumido. Maré alta, ele concluiu. Era um perigo pros barcos que não eram da região. Mas, para Ana, a ferrugem podia ter derrubado a torre, não podia? Não, Guilherme já tinha mergulhado lá várias vezes, e o navio, mesmo corroído, não se entregava: era mais fácil acreditar que continuava dragando.

Ana ainda tentou avistar a draga, imaginando tola a ideia de um navio morto que se enterrava. Acabou desviando o olhar para o living e conferiu as horas.
O apartamento ficava à beira-mar. Pelos vidros das janelas, não havia como fugir do oceano. Os convidados deveriam estar chegando: salgadinhos e doces já estavam à mesa; refrigerantes e cervejas, gelados; depois haveria bolo. Guilherme e Ana se olhavam, buscando adivinhar, um no olho do outro, o que estaria faltando. Mas não achavam, e então voltaram a sondar o mar em silêncio. Decifravam uma mesma pessoa e sua teimosia.

Foi que Ana perguntou E se ele vier? Não tenho medo dele, Guilherme disse, e ela disse É, mas o clima vai ficar meio pesado. Então que não venha, ele disse. Mas, Guilherme, entende: este apartamento, por exemplo, foi ele quem comprou. Se ele deu o apartamento pra ti, é teu, Guilherme respondeu. Mas ele é avô da Clarinha.

Imediatamente ficaram em silêncio. Clarinha. Precisavam acordá-la, já eram quase três da tarde. E Ana foi enfrentar os humores da criança, retirada da quietação e do conforto. E por isso Clarinha entrou no living vestida para sua festa, mas chorando, apesar de Ana embalá-la nos braços e mostrar-lhe a janela de onde se via o mar. Dentro do cercado, a menina acalmou-se com dois peixinhos de escama verde e sons de bolha dentro d'água.

Dali a pouco, a campainha começava, e os convidados chegavam em procissão: primeiro os padrinhos, depois alguns parentes mais próximos e primos de viagem distante. A mãe de Ana chegaria só, comentando pouco: a cabeça dura do marido, aquelas coisas de outros tempos, era possível que chegasse bem na hora. E Ana entendeu rápido que sua preocupação só cessaria após o parabéns. Guilherme servia as bebidas, explicava coisas sobre a praia aos que admiravam a vista da janela e, de vez em quando, abria a porta para mais algum convidado. Às quatro horas, todos os assentos possíveis do apartamento estavam ocupados.

Então, um pouco depois das quatro, quando preparavam o parabéns, o avô apareceu: da porta que a filha lhe tinha aberto, ele varreu os convidados com os olhos altos e, avistando a esposa, retirou a boina e aproximou-se lentamente. Pessoas que o iam reconhecendo vinham cumprimentá-lo pelo aniversário da neta, mas ele apenas se desviava com um sorriso duro. Clarinha estava nos braços do genro, no meio do living, e o avô fingiu que não os via. E, estacado ao lado da esposa, ficou a observar os enfeites da mesa. Quando Guilherme lhe trouxe uma cerveja, que ele recusou, desviando o corpo inteiro de algo muito inconnveniente, muitas pessoas notaram, e tudo foi ficando pesado.

Primeiro os balões em branco e rosa, parecendo inflados de água, ameaçavam despencar ao chão. Em seguida os talheres de plástico, feitos de chumbo, caíam das mãos dos convidados e tinham de ser erguidos do soalho com desproporcional força. O mesmo aconteceu com as bandejas de doces e salgados, e os copos de cerveja ou refrigerante, e a vassoura trazida de última hora: tudo pesava, e as pessoas, constrangidas, faziam bastante força para que o ambiente se mantivesse com a inocência necessária a uma festa de primeiro ano. Cansado de segurar Clarinha, Guilherme foi o último a ceder: disfarçando o esforço, colocou a filha sobre a cadeira alta, de onde ela poderia ver a vela de número um ser apagada pelo pai e pela mãe tão logo terminasse o parabéns. A vela que assustadoramente se enterrava no bolo; o bolo que parecia não sustentar o próprio peso.

O avô, como não conseguiria reter o braço da esposa por toda a festa, encontrou uma poltrona magra de frente para o mar que, naquele momento da tarde, acenava espumas brancas. Dali viu sua mulher se divertir com as duas meninas. Ele não. E, por isso, sólido de silêncio, virou os olhos para detê-los fixamente no horizonte. Pessoas vinham devolver-lhe o living, mas qual living? quais pessoas? A mulher, por exemplo: ela veio, Clarinha ao colo, convencê-lo a ir à mesa, iriam cantar o parabéns. Nem as duas juntas lhe demoviam os olhos retidos no mar.

Ele procurou a torre da draga e, não a encontrando, julgou que o espelho d'água o traía. O dragão invencível: havia comprado o apartamento por causa da vista e notara que era um navio - não uma rocha apenas - no segundo ano, quando só ele e a esposa vieram para as férias, e ele jurou matar Guilherme, desconfiando de que nunca iria além da vontade. E enfim também ela, a vontade, cedeu, e ele restou cumprindo uma palavra áspera para si mesmo.

Agora via o mar xucro, incontido. A falange de ondas avançava, rasgando as pedras e a carne sempre crua da praia.

Ana pediu que todos cercassem a mesa do bolo para que se cantasse o parabéns. Os convidados, puxando os corpos com enorme dificuldade, pareciam vultos de um asilo, e Ana percebeu que seu pai não sairia do sofá em que estava, diante do mar.

E então, mal a vela se acende, o mar entra no living, atravessando os vidros e ocupando, com azul e fauna, os espaços da festa. E, posto seja mar e se comunique com o oceano, ele surpreende em ser tudo menos violento, e não apaga vela ou palma. Apenas que a festa segue, percebida pelos sentidos abafados. É a luz de uma vela sob o mar. É um parabéns afogado. São as raízes da fumaça dentro d'água. A seguir, o mau cheiro das algas que boiam.

Por fim as coisas voltam a regular seu peso. E é este o resumo: o mar atravessa os vidros, e, borrados de azul, todos comemoram Clarinha, que se entretém com um cubo de números e letras, presente preferido da tarde. Todos aceitam o mar no living, farejando a festa e preenchendo os recantos mínimos. Todos, menos o avô, que, agora olhando a totalidade da cena, escuta uma voz conhecida. Peixes cruzam o espaço sem ousadias de atacar a comida. Caranguejos cor de ferrugem correm pelo soalho, vasculhando as tocas e as considerando inadequadas.

E contudo a voz os atravessa e alcança o avô e subitamente ele escuta que é estúpido, é estúpido, é estúpido. E é assim que, tentando avistar Clarinha, já não a encontra, escondida que está atrás de um cardume em que também se misturam as pessoas. E todas elas não o notam mais, não o veem mais. Ele é o mar onde se esconde e por isso ele se ergue e caminha em direção a Clarinha, a quem agora avista nos braços da avó, e, quando se aproxima o suficiente para roubá-la da esposa e esquecer pela primeira vez que é um homem de palavra, eis que o mar começa seu recuo. O abano de espuma branca ganhará distância novamente e arrastará as algas de mau cheiro. Assim que a cabeça do avô emerge, feito ferro e coral, já ele é visto por todos e então caminha de volta à poltrona, de onde vê o mar atravessar o vidro, cumprir todo o estágio de retorno da onda e devolver-se ao colo do oceano, agora vermelho no horizonte da tarde e transpassado de calma pela torre da draga vingadora.

Correndo sobre seu corpo, os caranguejos minúsculos cor de ferrugem procuram toca, assustados com o anúncio da primeira fatia de bolo.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Porque não iria comparecer a FLIP 2012, em agosto na cidade de Paraty, quando deu maio fui até S.Paulo e na Livraria da Vila comprei quase todos os livros dos autores convidados. Altair Martins era um deles. Ele estava na primeira mesa do dia, que apresentou três jovens escritores: André de Leones, Altair Martins e Carlos de Brito e Mello que debateram o tema “Escritas da Finitude”, traduzindo: a morte. Altair Martins declarou na ocasião que a proximidade do tema "morte" se deu a partir da morte de seu pai.

Enquanto Àgua é um de seus mais festejados livros, por isso o comprei.


 

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