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Refrão da Fome

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Refrão da Fome

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Autor: J M G Le Clézio  

Editora: Cosac Naify

Assunto: Romance

Traduzido por: Leonardo Fróes

Páginas: 240

Ano de edição:

Peso: 480 g

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Bom
Marcio Mafra
08/08/2012 às 10:50
Brasília - DF


J M G Le Clézio é um craque do romance. Em 2008 recebeu o Premio Nobel de Literatura. Este francês da cidade de Nice foi um dos convidados da FLIP 2012. O autor já usou a figura de seu pai para romancear um livro. Em "Refrão da Fome" ele usou a figura de sua mãe e a personificou no livro. Ela é a figura principal de nome Ethel BVrun. Começa a historia na infância de Ethel, quando ela não entendia, nem gostava de assistir as intermináveis discussões de seus pais. Nessa fase, um tio quase avô, de nome Soliman era seu ídolo. Com ele Ethel ia aos parquinhos, aos museus, aos passeios. A historia de Ethel continua marcante com a chegada de Xênia, sua colega de escola, uma decendente russa, cuja família roía o pão da miséria. Xênia tinha uma personalidade forte e virou "alter ego" de Ethel. Finalmente vem a parte do livro que trata da destruição da familia, dos grupos de amigos, do patrimônio de todos, provocado pelas agruras e a "fome" quando Paris foi dominada pelos nazistas.Ethel e seus familiares perdem tudo, mesmo assim precisam deixar Paris, pela porta dos fundos. É livro sobre a guerra, a comunicação e a familia, a família de Le Clézio. A leitura é fácil, a arquitetura da história é construída com talento de um excelente escritor, mas a história é sem graça. Talvez para europeu - inglês, frances, espanhol ou israelense a história possa ser comovente. Eu não achei.



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A História de Ethel Brun, quando menina, abomina (claro) as interminaveis discussões de seus pais. Filha unica, esta parisiense guarda na lembrança a figura de Soliman, seu quase avô, com quem viveu os melhores dias de sua infância. Na adolescência é fissurada na amiga Xênia, russa cuja família vive na penúria. Depois, quando Paris sofre as agruras da segunda guerra mundial é Ethel que conduz a fuga de sua família.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Sempre a mesma algazarra. Palavras, risos, o tilintar das colherinhas nas xícaras de café. Sentada ao fundo da sala de jantar, Ethel olhava os convivas, um após outro, com curiosidade, quando o que experimentava tempos antes era um sentimento de segurança ou, melhor dizendo, certo entorpecimento ao ouvir suas vozes, no sotaque cantado de Maurício que sempre punha uma pitada de graça nos ditos mais violentos, tudo pontuado pelas exclamações, pelos "ayôs!" das tias e contido na bruma dos cigarros suaves - Justine conseguira proibir os mais fortes, que lhe davam tosse. Agora Ethel sentia-se tomada pela angústia e pela cólera. Levantando-se de sua cadeira, isolava-se na cozinha, onde a empregada Ida lavava a louça, e a ajudava a enxugar e guardar os pratos. No dia em que Justine lhe fez esta observação: "Você sabe que seu pai faz questão de você na sala, vive te procurando com Os olhos", ela respondeu, com enfado: "Ah, sim, todo aquele falatório, aquela tagarelice! No salão do Titanic, quando o navio afundou, devia ser a mesma coisa!".

À medida que a nau familiar ia a pique, Ethel rememorava todos aqueles barulhos de vozes, aquelas conversas absurdas e inúteis, aquele ácido que acompanhava o fluxo das palavras como se da banalidade do que era dito, tarde após tarde, se desprendesse uma espécie de veneno que corroía tudo ao redor, os rostos, os corações e até mesmo o papel de parede do apartamento.
No mesmo caderno em que, na adolescência, anotava os repentes, os ditos espirituosos, as frases poéticas de Alexandre, os fantásticos ditos espirituosos das tias mauricianas, ela agora registrava raivosamente os ridículos, as calúnias, os trocadilhos de segunda, as imagens carregadas de ódio:
- Lutero, Rousseau, Kant, Fichte, os quatro gagagelistas.
- As famílias judias, protestantes, o Estado emperrado ou em mãos de imigrantes, o mundo maçônico.
- A lepra semita.
- O honesto cidadão francês explorado pelo banqueiro judeu cosmopolita.
- A cabala, o reino de Satã (Gouguenot des Mousseaux, aprovado por S.S. Pio IX).
- O judeu contra produtivo (Proudhon).
- O judeu não é como nós: tem nariz torto, unhas quadradas, pés chatos e um braço menor que o outro (Drumont).
- E fede.
- Sua própria natureza o imuniza contra as doenças que nos matam.
- O cérebro dele é diferente do nosso.
- Para o judeu, a França é um país rentável. O judeu só acredita no dinheiro, seu paraíso está na terra (Maurras).
- Os judeus estão mancomunados com a quiromancia e a feitiçaria.
- Nossos grandes líderes políticos se chamam Jean Zay, aliás Isale Ézéchiel, e Léon Blum, aliás Karfunkelstein.
- Os colaboradores do jornal L'Humanité chamam-se Blum, Rosenfeld, Hermann, Moch, Zyromski, Weil-Reynal, Cohen Adria, Goldschild, Modiano, Oppenheim, Hirschowitz, Schwartzentruber (saúde!), Ilmre Gyomal, Hausser.
- Os ingleses são mais bárbaros que os alemães, vejam o caso da Irlanda.
- Olier Mordrel já disse: não deixemos negrejar a Bretanha.
- E Hitler disse em Nuremberg: a França e a Alemanha têm mais razões para se admirarem do que para se odiarem.
- Ele avisou aos culpados: os judeus e os bolcheviques não serão esquecidos.
- Maurras escreveu em L’Allée des philosophes: o gênio semita, depois da Bíblia, se extinguiu. Hoje a República é um Estado sem ordem, no qual triunfam os quatro confederados: os judeus, os maçons, os protestantes e os imigrantes.
- Julius Streicher disse em Nuremberg: a única solução é a destruição física dos israelitas.
Após esses vagalhões violentos sobrevinha a calmaria, constatava Ethel, como se, terminado o ataque, restasse tão somente um dorido langor, uma lassidão envergonhada, que até mesmo a verve das tias custava um pouco a dissipar. Falava-se de moda, de automóveis, de esportes ou de cinema.
- O Peugeot 402, o Leve, vai derrubar todos os outros, o Renault, o Delage, o Talbot, o De Dion, o Panhard, o Hotchkiss e até o famoso Rolls-Royce!
-Vimos na vitrine, num revendedor Messine na avenida Wagram, é uma maravilha!
- Mas o preço! Vocês viram quanto custa?
- Com todas as desvalorizações, primeiro lá na América, depois aqui, neste verão!
- Os tais que têm férias pagas, com seus bonés na cabeça!
- Enfim, não deixa de ser um pouco normal que essas pobres pessoas também possam ver o mar! (Justine)
- Vocês já ouviram falar da última invenção, a radiovisão?
- Béatrice Bretty entrando na nossa casa para falar com a gente! E Sarah Bernhardt!
- É, sim, queridas, mas tudo em verde. Todas elas verdes como fantasminhas!
- Gosto mais de ir ao cinema. Vocês viram A Brande ilusão?
- Nem pensar. Mais guerra ainda? Prefiro ver O diabo a quatro, com os irmãos Marx.
Era nesse ponto que a generala nunca deixava de comentar:
"Pois eu só irei ao cinema quando ele estiver no ponto".
Quanto aos homens, esses formavam um pequeno círculo. Na ausência de Chemin, a atmosfera se distendia. Ethel preferia essa parte do salão, de onde ouvia o ronco dos motores de avião de que Alexandre gostava. Seu grande projeto de construir uma aeronave com asas e hélices. Será que ainda acreditava nele? Ethel se perguntava se seria ela a única a saber que a bancarrota estava cada vez mais perto. Olhava para o homem alto, sua pele de velho mauriciano que nem o inverno parisiense conseguira empalidecer, sua cabeleira negra e brilhante, sua barba aparada com apuro, suas mãos de artista, de dedos longos e nervosos.
- Tudo depende da hélice, é o que eu digo desde o início.
A integral até que é boa, com ela foram batidos os primeiros recordes, Paulhan na Inglaterra, Morane, Chávez. Na época o motor era o Gnôme, de setenta cavalos e polimento duplo. Mas a minha preferida é a Ratmanoff. É uma hélice antiquada, concordo. Mas dá o máximo de potência atravancando o mínimo.
- Acha melhor então a de madeira?
- É claro. Conserta-se logo, e sobretudo é mais leve.
- Mas e Breguet?
- Ele trabalha para as Forças Armadas, é outra história.
Para combates a hélice de aço é indispensável.
Ele fumava seus cigarros, o olhar azul-acinzentado perdido nas volutas. Ethel tinha por que detestá-la, por causa de todo o mal que ele fizera, de suas mentiras, das traições à mãe, de suas fanfarronadas. Mas não conseguia distanciar-se, olhá-la com frieza, como a um estranho.
Talvez agora, que ele estava à beira da ruína, a ponto de soçobrar, ela até se sentisse mais próxima dele que nunca. Vinha-lhe à memória o severo julgamento de monsieur Soliman sobre o marido da sobrinha: "É um fracassado, nunca fez nada de bom, a não ser você!". Como se tivesse sido um acaso, o fruto de uma miraculosa providência. Ele dizia para Ethel:
"Você é meu talismã, minha boa estrelinha".

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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Como neste ano não vai dar para ir a FLIP, em maio fui a Livraria da Villa, em São Paulo e comprei diversos titulos de autores convidados da FLIP 2012. De J.M.G. Le Clézio comprei Refrão da Fome, Pawama e Peixe Dourado., considerando que Le Clézio ganhou o Nobel de 2008.


 

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