carregando

Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns segundos...

 

Bela do Senhor

Para usar as funcionalidades você precisa estar logado(a). Clique aqui para logar
Erro ao processar sua requisição, tente novamente em alguns minutos.
Bela do Senhor

Livro Excelente - 1 comentário

  • Leram
    1
  • Vão ler
    4
  • Abandonaram
    0
  • Recomendam
    0

Autor: Albert Cohen  

Editora: Nova Fronteira

Assunto: Romance

Traduzido por: Aulyde Soares Rodrigues

Páginas: 784

Ano de edição: 1985

Peso: 1.120 g

Avalie e comente
  • lido
  • lendo
  • re-lendo
  • recomendar

 

Excelente
Marcio Mafra
04/03/2003 às 22:24
Brasília - DF
Bela do Senhor é livro de estilo clássico, ou "barroco". Nele, o Albert Cohen se utiliza de quatro técnicas literárias: a narrativa, a descrição, o diálogo e o monólogo. Estas formas de escrever tornam o livro denso e "robusto". Só quem possui o talento de escritor consegue fazê-lo, num só romance, num só livro. Por isso pode-se dizer, com tranqüilidade, que a láurea "Grande Prêmio de Romance" atribuída ao livro pela Academia Francesa de Literatura, não foi uma "ação entre amigos". Nas passagens em que o personagem conversa consigo mesmo, como não poderia deixar de ser, as frases são longas. Algumas tão longas, que se estendem por 14 páginas, entre o início e o final da frase. Neste ponto, A Bela do Senhor, se assemelha ao Ulysses, de James Joyce. Haja fôlego. Haja imaginação. Não é livro para iniciantes, mas é bom. Embora não se pareça nada, com o existencialismo ateu de Jean Paul Sartre, nem com o existencialismo católico de Gabriel Marcel, é um romance cujo âmago trata do vazio da existência. Ao final, o romance transmite a angustiante sensação, de que o homem personagem se afunda no nada.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história do vazio da existência. Solal, o principal personagem, é perseguido pela angústia e pela solidão, na busca de sua identidade. Nem a paixão, nem o amor conseguem superar o vazio da sua existência.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Naquela noite, sua primeira noite, na saleta que ela quisera lhe mostrar, de pé na frente da janela aberta sobre o jardim, respiravam a noite adiamantada de estrelas, ouviam os murmúrios surdos das folhas nas árvores, murmúrios do seu amor. De mãos dadas, um sangue de veludo nas veias, contemplavam o céu sublime e seu amor nas palpitantes estrelas, que abençoavam lá de cima. Sempre, disse ela em voz baixa, intimidada por estar em sua própria casa com ele. Então, de sua felicidade cúmplice, invisível em sua árvore, um rouxinol entoou sua súplica desvairada, e ela apertou a mão de Solal para compartilhar com ele o pequenino anônimo que se esforçava, se extenuava a proclamar o seu amor. Subitamente ele se calou, e envolveu-os o denso silêncio da noite, pontuado às vezes pelo trêmulo cricrilar de um grilo. Ela se afastou lentamente, foi até o piano, nobre e ridícula vestal, pois acabava de sentir que devia tocar para ele, santificar sua primeira hora de solidão com um coral de Bach. Sentada diante das teclas brancas e pretas, esperou um instante, de cabeça baixa, numa homenagem de respeito aos sons que iam sair do instrumento. Como ela estava de costas, ele apanhou um espelho de cabo de prata que se encontrava sobre a mesinha, examinou o rosto de um homem amado, sorriu para ele. Ó dentes perfeitos de juventude. Ó dentes cintilantes, ó felicidade de viver, ó a jovem amante e sua música enfadonha como oferenda. Piedosamente, ela tocava para ele, com expressão crédula, absorta. Sobre a banqueta, enquanto tocava, seus quadris generosos se movimentavam, comoventes, docemente movediços, a ele prometidos. Ele a observava e sabia, e lastimava saber, sabia que ela estava envergonhada, embora quase sem saber, por ter dançado colada a ele no Ritz ainda há pouco, vergonha do êxtase de partir com ele para o mar, e ele sabia que, desde o momento em que entraram naquela sala, ela confusamente desejara uma redenção. Redenção, a contemplação do céu, o sempre, o casto aperto de mão quando no Ritz apertava o corpo contra o dele, a atenção respeitosa ao canto do rouxinol, chavão insuportável e cantor ultrapassado. Redenção, o coral para purificar esse amor que acabava de nascer, dosá-lo com sentimento, provar a si mesma que sentia com toda a alma, para poder saborear sem remorsos as alegrias do corpo. Depois do último acorde, ficou imóvel na banqueta, olhos baixos nas teclas, em respeito aos sons desaparecidos. Depois desse intervalo de transição, passagem do celestial para o terreno, voltou -se para ele, deu-lhe toda a sua fé com um sorriso grave, apenas esboçado. Um pouco idiota, pensou ele. Ela levantou-se, resistiu à vontade de sentar-se ao lado dele, no sofá de seda gasta, acomodou os quadris numa poltrona e esperou um comentário sobre o coral. No jardim, um pica-pau noctâmbulo escutava os ruídos da noite. Como Solal não dissesse nada, pois detestava Bach, ela atribuiu o silêncio a uma admiração viva demais para ser expressa em palavras, e sentiu-se comovida. Intimidada por esse silêncio e porque ele era esbelto e alto, tão elegante de branco vestido, ela cruzou as pernas, puxou a saia, imobilizou-se em posição poética. Querida, pensou ele, comovido com essa fraqueza e o patético desejo de agradar. Incomodado com aquele olhar de adoração, ele baixou os olhos, e ela estremeceu ao perceber a cicatriz. Oh, beijar aquela pálpebra, apagar o mal que havia causado, pedir perdão. Ariane pigarreou para que sua voz fosse perfeita. Mas ele sorriu e ela se levantou. Enfim perto dele, enfim os pontos dourados tão próximos, enfim o refúgio do ombro, enfim abraçada. Ela afastou a cabeça para ve-lo melhor, depois aproximou o rosto, abriu os lábios. como uma flor desabrocando.rochando, abriu-os piedosamente, cabeça inclinada e pálpebras semicerradas, bem-aventurada e aberta, santa em êxtase. Fim do coral e do rouxinol, pensou ele. A realidade, agora que ela havia empenhado a alma, pensou ele, e detestou o demônio dentro dele mesmo. Mas, naturalmente, se faltassem quatro incisivos, não teria havido toda aquela concentração, não teria havido o rouxinol, o coral. Ou melhor, se tivesse todos os dentes, mas fosse um desempregado em andrajos, não teria havido-" do concentração, nem rouxinol, nem coral. Os rouxinóis e os corais eram reservados à classe dominante. Contudo, ela era sua bem-amada, e basta, basta, maldito psicólogo! No sofá de seda gasta, sofá de Tantlérie, bocas unidas, saboreavam um ao outro, olhos fechados, saboreavam longamente, profundos, perdidos, diligentes, insaciáveis. Ela se desprendia às vezes para vê-lo e conhecê-lo, com adoração o contemplava, olhos desvairados, e consigo mesma lhe dizia duas palavras em russo, aquela língua que por amor a Varvara tinha aprendido e que agora lhe servia para dizer a um homem que era sua mulher. Tvaiá gená, dizia ela no seu íntimo, segurando o rosto desconhecido com ambas as mãos, depois aproximava-se e entregava-se, e lá fora um gato e sua gata salmodiavam, roucos, o seu amor. Tvaiá gená, dizia ela no íntimo, a cada parada e retomada de alento, dizia" dentro da alma para sentir melhor, sentir mais humildemente que era dele, dele e dependente, primitivamente sentir, camponesa de pés nus e com cheiro de terra, sentir que era sua mulher e serva, que desde o primeiro momento se inclinara e beijara a mão do seu homem. Tvaiá gená, e ela se dava de novo, e eles se beijavam, ora com precoce fúria de juventude, ora em ímpetos rápidos e repetidos, ora com lentos cuidados de amor, e paravam, olhavam-se, sorriam, ofegantes, úmidos, amigos, e se interrogavam, e era a litania. Santa estúpida litania, canto maravilhoso, alegria dos pobres humanos prometidos à morte, duo sempiterno, imortal duo por graça do qual a terra é fecundada. Ela dizia e tornava a dizer que o amava, e perguntava, sabendo a miraculosa resposta, perguntava se ele a amava. Ele dizia e repetia que a amava, e perguntava, sabendo a miraculosa resposta, perguntava se ela o amava. Assim o amor nos primeiros momentos. Monótono para os outros, para eles tão interessante. Incansáveis em seu duo, anunciavam um ao outro que se amavam, e suas pobres palavras os entusiasmavam. Muito juntos, sorriam ou riam levemente de felicidade, beijavam-se e se separavam para anunciar um ao outro a prodigiosa novidade, logo selada pelo trabalho retomado dos lábios e das línguas em raivosa procura. Lábios e línguas unidos, linguagem de juventude. Ó primeiros momentos, beijos primeiros, precipícios dos seus destinos, ó primeiros beijos no sofá de austeras gerações desaparecidas, pecados tatuados em seus lábios, ó olhos de Ariane, seus olhos erguidos de santa, seus olhos fechados de crente, sua língua ignorante subitamente habilidosa. Ela o empurrava para vê-la melhor, a boca ainda aberta depois do beijo, para vê-la e conhecê-la, ver outra vez esse estranho, o homem de sua vida. Sua mulher, eu sou sua mulher, Tvaiá gená, balbuciava, e se ele ameaçava se desprender, segurava-o. Não me deixe, balbuciava, e bebiam à vida, a suas vidas enlaçadas. Ó primeiros momentos, ó beijos, ó prazer da mulher na boca do homem, sucos de juventude, tréguas súbitas, e eles olhando-se com entusiasmo, se conhecendo, beijando-se furiosamente com beijos fraternais nas faces, na testa, nas mãos. Diga, é Deus, não é? perguntava ela, fascinada, sorridente. Diga, você me ama? Diga, nada além de mim, não é verdade? Nenhuma outra, não é verdade? perguntava ela dando à voz inflexões douradas para lhe agradar e ser mais amada, e beijava as mãos do desconhecido, depois tocava os ombros dele e o empurrava um pouco para adorá-la com um muxoxo divino. Ó primeiros momentos, noite dos primeiros beijos. Ela queria se desprender, subir para o quarto, apanhar os presentes e entregá-las a ele, mas como deixá-la, deixar esses olhos, esses lábios sombrios? Ele a prendia contra o peito e porque a apertava machucando-a, e ela gostava de ser machucada, repetia que-era sua mulher. Sua mulher, sua mulher, só sua, dizia ela, louca e gloriosa, enquanto lá fora o rouxinol continuava seu delírio imbecil. Extasiada por ser a mulher dele, suas faces iluminaram-se de lágrimas, lágrimas nas faces que ele beijava. Não, a boca, dizia ela, beije-me, dizia ela, e suas bocas se uniam num frenesi, e de novo ela recuava para adorá-la. Meu arcanjo, minha atração mortal, dizia ela sem saber o que dizia, sorridente, melodramática, de mau gosto. Arcanjo e atração mortal tanto quanto você quiser, pensava ele, mas não me esqueço que esse arcanjo e essa atração mortal, devo-os aos meus trinta e dois dentes. Mas eu a adoro, pensava também, e louvados sejam meus trinta e dois dentes. Ó primeiros momentos, jovens beijos, pedidos de amor, absurdos e monótonos pedidos. Diga que me ama, pedia ele, e para melhor prender seus lábios apoiava-se nela, apoiava-se sobre uma coxa, e ela juntava imediatamente os joelhos, fechando-se diante do homem. Diga que me ama, repetia ele, preso ao importante pedido. Sim, sim, respondia ela, nada mais posso dizer além deste miserável sim, dizia ela, sim, sim, eu o amo como jamais esperei amar, dizia ela, ofegante entre dois beijos, e ele respirava seu hálito. Sim, querido, eu o amo antes, agora e sempre, e sempre será agora, dizia ela, rouca, insana, perigosa de amor. Ó primeiros momentos, dois desconhecidos de súbito maravilhosamente se conhecendo, lábios atarefados, línguas temerárias, línguas jamais saciadas, línguas se procurando e se confundindo, línguas combate, misturadas em terno ódio, santo trabalho do homem e da mulher, sucos das bacas, bocas alimentando-se uma da outra, alimento de juventude, línguas confundidas em impossível desejo, olhares, êxtases, vivos sorrisos de dois mortais, balbucios molhados, ternuras, beijos infantis, inocentes beijos nas comissuras, repetições, súbitas buscas selvagens, troca de sucos, tome, dê-me, mais uma vez, lágrimas de felicidade, lágrimas bebidas, amor solicitado, amor repetido, maravilhosa monotonia. Ó meu amor, aperte-me com força, sou toda e unicamente sua, dizia ela. Quem é você, o que fez para me prender assim, prender minha alma, prender meu corpo? Aperte-me, aperte-me mais forte, mas poupeme esta noite, dizia ela. De espírito, já sou sua mulher, mas não esta noite, dizia ela. Vá, deixe-me sozinha, deixe-me pensar em você, pensar no que está me acontecendo, dizia ela. Diga, diga que me ama, balbuciava ela. Ó meu amor, dizia ela, feliz e em lágrimas, ninguém, ó meu amor, ninguém antes de você, ninguém depois de você. Vá, meu amado, vá, deixe-me sozinha, sozinha para estar mais com você, dizia ela. Não, não, não me deixe, suplicava ela, segurando as duas mãos dele, só tenho você no mundo, nada posso sem você, suplicava enlouqueci da , agarrada a ele. Amor e suas ousadias. Lâmpada subitamente apagada por ele, e ela, com medo, por que e o que ia ele querer? Seios expostos na noite, doce claridade dos seios, mão de homem sobre o seio iluminado de luar, vergonha e doçura de mulher, os lábios entreabertos à espera, medo e felicidade envolvendo-a, medo e doçura, rosto inclinado do homem, ousadias na noite, ousadias que o amor exige, ousadias aceitas por ela com abandono, entregue e logo aceitando, ó seus arquejos molhados e salivantes, iguais aos da hora da morte certa, ó seus sorrisos de agonia, seu rosto pálido pela lua iluminado, vivente morta deslumbrada, a si mesma revelada, confusa e santa, as mãos errantes nos cabelos do homem sobre seu seio debruçado, mãos finamente acariciadoras, acompanhando sua felicidade, mãos agradecidas, mãos ligeiras que agradeciam, acariciavam, queriam mais. Amor, teu sol brilhava naquela noite, a primeira noite dos dois.


Nenhuma informação foi cadastrada até o momento.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O Bela do Senhor foi premiado, em 1968, com o Grande Prêmio de Romance da Academia Francesa. Este fato foi determinante para que eu comprasse o livro do Albert Cohen.


 

Receber nossos informativos

Siga-nos:

Baixe nosso aplicativo

Livronautas
Copyright © 2011-2021
Todos os direitos reservados.