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Cabeça de Papel

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Cabeça de Papel

Livro Ótimo - 1 comentário

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Autor: Paulo Francis  

Editora: Civilização Brasileira

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 197

Ano de edição: 1977

Peso: 235 g

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Ótimo
Marcio Mafra
23/07/2002 às 12:56
Brasília - DF
Paulo Francis, no jornalismo, marcou pela agressividade. Fazia questão de parecer mais antipático do que era, falava e escrevia com inexplicável arrogância. Era prepotente e tinha a postura de rico-exótico-decadente. O Cabeça de Papel comprova isso. Tanto que não é um livro do gênero romance, contrariamente ao que está escrito na capa do mesmo. Até porque, romance é a descrição de ações e sentimentos de personagens fictícios, na transposição da vida real para o plano artístico. O livro do Paulo Francis é o oposto disso: seus personagens não são fictícios e a descrição de suas ações e sentimentos, mais parecem terem saído do plano artístico para a vida real. Cabeça de Papel já foi uma expressão popular, utilizada para designar uma pessoa inconseqüente ou irresponsável. Impossível atribuir melhor título ao seu livro. Mesmo assim o livro é bom.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Histórias da vida de Paulo Francis, dos anos: 1944-1969, 1960-1976.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A vida social em Yale também o impressionara e lisongeara. O germanismo dele caiu muitíssimo bem, principalmente depois que explicou ser filho de industrial e não de plantador de café. Alguns colegas passaram a chamá-lo de "De Hesse", "parente daquele moço de recados entre Hitler e os junkers, Philip de Hesse". "Você não avalia o anti-semitismo da elite americana. Truman reconheceu o Estado de Israel porque se não teria de asilar os sobreviventes de Auschwitz, etc. E antes dos massacres, o Departamento de Estado fechou a entrada aos judeus, quando havia tempo de salvá-los, pois Hitler os cederia em troca da abstenção dos EUA na guerra. A "solução final" começou precisamente em dezembro de 1941". Os rapazes, à brasileira, eram cronistas do respectivo machismo, contando a evolução da pegada nos seios, à punheta, ao dedo, à trepada. Hesse ouviu, entediado, o companheiro de quarto, Dick, floreando os mínimos detalhes. "Meus prazeres não são muito eclesiásticos e prefiro mantê-los no sigilo do confessionário, ha, ha". Apesar disso, aprendeu coisas de Dick, a quem invejava a cobiçada participação em Skull and Bones, sem admiti-la, a inveja, claro, "ser excluído é também uma experiência útil". Um dia, Dick perguntou-lhe se ficaria nos EUA, pós-graduação. Hesse respondeu que sim. O amigo, então, espinafrou-lhe o sotaque. Hesse riu muito: "Essa é a verdadeira herança da decantada fronteira, a dissimulação, elevada à categoria de arte, de um país conquistado pela escória européia, escoladíssima em esconder crimes passados, mestra na reticência charmosa. Achavam meu inglês excelente. Ao me admitirem "em casa", virei cucaracha. O desdém deles pelo resto do mundo é orgânico. E por que não? Tomaram tudo que quiseram, na marra ou conto do vigário, Napoleão que o diga". Em todo o caso, Hesse absorveu meticulosamente a fonética de Dick. Novos conhecidos o imaginavam americano. E Dick era cheio de surpresas. Depois de uma reunião alcoólica nos aposentos de um colega, "os filhos da puta põem preparados para envelhecer as janelas, você acredita? Há vários tipos de saudade da senzala e de senzalas, eles continuam de quatro diante de títulos e tradições", voltaram ao quarto e Hesse caiu exausto na cama. Minutos depois sentiu que lhe seguravam o pau, que lhe abriam a braguilha e que o chupavam. Dick. "Não reagi, talvez porque o porre amortece esse tipo de reflexo hostil, ou porque estivesse gostando, ou porque não quisesse ofendê-lo e, de qualquer forma, why not? Agora, quando acabou, permaneci imóvel, metade cansaço, álcool, e o resto encabulamento. Ele ficou histérico. Deu de gritar "você tem nojo de mim", bis, encore, ia acordar a casa toda, foi só o que me bateu na cabeça. E aí se mandou. No dia seguinte, mudou-se. Escreveu um bilhete cheio das bobagens de praxe, "me considere seu amigo", sem tocar nos motivos. Não fiz nada. Cumprimentava sempre em aula, mas me evitou, até em grupos. O bom é que ninguém pergunta nada entre homens, a discrição é compulsória. E a namoradinha dele é uma graça. Casaram assim que Dick tirou o Master. Não me convidaram. Soube que Skull and Bones compareceu em peso". Hesse se diplomou em business administration magna cum laude. Deslumbrado pelo ingresso do filho no aprisco, o pai passou a mandar-lhe cheques a pedido, sem perguntar nada, confiando em que Hesse se doutoraria tecnocrata, assumindo, no futuro, as empresas da família. Vi parte de uma cena importante, em Petrópolis, num fim de semana, em que Hesse informava precisar de um PhD "em cultura geral", e o velho, com a condescendência dominadora de um coronel atendendo à puta preferida, concordou prazerosamente, "o que você quiser, agora, veja lá, não vá se empanturrar de teoria, a vida prática é cheia de surpresas e nisso teu pai é mestre. Estou orgulhoso de você, do seu brilho, você é mesmo meu filho, saiu a mim". Mais tarde, nós dois, no D'Angelo, ao chegarem os martinis secos e chasers de cerveja, mistura com que nos envenenávamos na época, Hesse ergueu o copo e disse: "Você sabe, se Judas tivesse investido as trinta moedas de prata num movimento revolucionário passaria à História como um líder. Afinal, foi para ele que Jesus insultou o proletariado, ao declarar que "os pobres estarão sempre convosco". Desconheço detalhes do período pós-graduação, em que Hesse pegou história, sociologia e economia, exceto pelo que mencionava ter lido, na coluna que fez nos anos sessenta, de ultra-esquerda, e cartas raras, politizadíssimas, o inverso da atitude de jeunesse dorée que assumira antes, sempre pontilhadas do espírito esculhambativo sobre coisas, pessoas e costumes, que davam molho à substância política. "Sou um bom aluno, faço provas escrevendo o que me ensinaram. Quero saber como pensam e usar o que aprendo contra eles, quando me convier. O timing é essencial". Ou: "Vale tudo. Teu amigo Trotsky tinha razão nisso. Jesuítas, ou comunistas, nunca disseram que os fins justificam os meios, e, sim, que não se pode julgar meios independentemente dos fins. Q.E.D." Ou: "Nada mais repulsivo que liberais. Enriquecei-vos, disse Bukharin aos kulaks e, depois de ricos, os expropriaria. OK. Enriquecei-vos, dizem os liberais americanos e os nossos e, isso feito, acrescentam, "uma esmola pelo amor de Deus". É o que passa por reforma no capitalismo e na social democracia. Tome nota não há o que eu não seja capaz de fazer para destruir esse sistema. É meu objetivo na vida. É minha vida. Minha única dúvida é tática". Agora, ali, no escritório, Wellegunde, Wogline e Flosshilde e, inédito em Wagner, Dimple, fazendo coisas nos meus nervos de que amanhã me arrependerei "nenhuma palavra de Hesse, desdenhosa que fosse, pelo que renegou, sobre amigos e companheiros que fizeram dele uma escarradeira onde descarregam as humilhações, o sentimento de rejeição e de insegurança, que é o pão nosso de cada dia esses anos todos". "Amigos a gente só tem os de infância e juventude. Sempre quis saber porque. Por que um ampara o outro, pela presença, comunizando as primeiras vulnerabilidades, quando não se é nada e não dá para disfarçar, e se espera tudo, em geral tudo de pior? Você se lembra a primeira vez que entrou num bar, enfrentando os grandes, como iguais? Ou rodar num caminhão no escuro, no mato, numa espécie de caixão aberto e volante, em que se ri, meio encagaçado, o riso de volta reassegura que ainda há vida, ou saindo de uma porrada coletiva e se apalpando todo, bestificado de estar inteiro? Ou a subida do pau que na entrada do primeiro puteiro parecia encolher cada vez mais? Sempre que encontro alguém daquele tempo, mesmo que não sobre nada de novo em comum, o sentimento de intimidade me volta por baixo da máscara que enfiamos durante os anos. É impressão só, claro, que no papo some logo. A máscara é a cara da gente". Hesse está de olho no disco, em que Siegfried entoa os lamentos maniqueístas do autor, o ódio de Wagner ao mundo material em glorious technicolor and stereophonic sound, que se resolve quando os heróis morrem, o último gesto de agressão, fascinante, inevitável, mas desde o início em clímax, é como entrar numa briga de amantes no fim, em que se disse e fez o imperdoável e não há retirada possível, em que o intelecto crítico, o articulador da crise, obedecendo a algum impulso inconsciente, perdeu o controle da situação, virou servo do impulso, e se debate, inutilmente, tentando recuperar prumo. Hesse aciona o fecho éclair: "Infância, primeiras impressões, e daí e dai. Nunca te ocorreu que é apenas uma questão de precedência e, antes que eu me esqueça, de dependência? É claro que um bebê tonto, confuso, impotente, se agarra em mamãe, babá, cachorro, cadeira, o que for, porque estão lá, ocupando o vazio. O resto é literatura e Freud é um grande escritor, ele e Platâo ficaram célebres nas disciplinas erradas. E você se lembra, pois esses troços ou pessoas te preencheram antes que você criasse capacidade de analisá-los, de discriminar. Madeleine de matuto é sujeira e cheiro de mato. Vale? Em Paris, comi um doce de laranja e foi aquele retorno do reprimido. Detesto doce de laranja, cuspia fora em criança e minha mãe me esbofeteava, obrigando a engolir. A emoção é forte, não nego, como dessa merda aí, Wagner, corta o discernimento crítico, talvez ele pensasse que assim afugentaria os credores. Você não ia discutir minha traição, meu ostracismo, apesar de sermos íntimos, mas somou os dablius, whiskey e Wagner, e voltamos à aurora da nossa vida. Esquece. O que há de comum entre nós é que não nos interessamos o bastante pelos outros para dependermos deles, vivemos nossas abstrações particulares mais intensamente que qualquer contato humano. É o nosso "segredo", que os outros vislumbram, sem entender direito, só percebendo que os exclui, o que é correto. Sílvia Maria te esnobou hoje porque me reconhece em você, um desvio de ressentimento". "Muito bem, e os madeleines do esquerdismo? Se dói, por que me cortaram? Ou eu os cortei? Continuam indo ao jornal, pedindo matérias promocionais ao meus editores, adulando-os, e sabendo que não sai uma linha sem autorização minha. Logo, é a mim que adulam, de dia, e à noite me esculhambam. Não só a mim, claro, ao Sadat, Brito, Blochs, Civitas, Marinhos, aos Mesquitas. O feudalismo dos Mesquitas. Meu caro, os Mesquitas converteram o esquerdismo bilubilu do teatro paulista num acontecimento nacional. Você conhece algum diretor de cinema novo ou canário contestatório que não tenha se servido de Manchete ou da Abril? Nossa Esquerda quer destruir o Walter Moreira Salles, mas antes e durante fica puta se ele não a convidar, R.S.V.P., a drinques. Você pode conceber Lenin tentando penetrar em bailes no Palácio de Inverno? ..."


  • Paulo Francis

    Autor: Marcos Augusto Gonçalves

    Veículo: Ilustrada, caderno da Folha de São Paulo, edição 4/fevereiro/2007

    Fonte:

    Seria um erro procurar medir a relevância de Paulo Francis na história da imprensa brasileira utilizando como metro as prescrições dos manuais de redação ou as convenções mais cIássicas do jornalismo. Quando morreu, aos 66 anos, no dia 4 de fevereiro de 1997, ele já era considerado o mais cáustico polemista do país e havia se transformado numa personalidade midiática, exercitando para milhões, com seu sarcástico e divertido personagem do "Jornal Nacional", um pouco da vocação que, na juventude, o levara a se alistar no grupo de teatro de Paschoal Carlos Magno.
    Ninguém esperava dele o texto eqüidistante e exemplar ou a reportagem premiada, mas a opinião, a maneira como utilizaria a sua pesada caixa de ferramentas para desmontar este ou aquele imbróglio politico, comentar a atuação de presidentes e candidatos, elogiar ou demolir escritores, livros, filmes, óperas ou montagens teatrais londrinas.
    Francis foi o maior polemista da imprensa brasileira das últimas décadas do século passado. Era imbatível em pelo menos três pontos: na versatilidade dos assuntos que abordava, no senso de humor ao escrever e na capacidade de combinar um repertório intelectual elevado com uma forma de expressão direta e coloquial", avalia Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha.
    "Ele preservava a tradição do grande jornalismo autoral internacional que um dia se leu
    nas páginas do último "The New Y ork Herald Tribune", na revista "Esquire", de Harold Hayes; na "New Yorker" ou no londrino "Observer", de "David Astor", diz Matinas Suzuki Jr.,
    ex-editor da Ilustrada.
    Leitor voraz, com uma cultura descrita por muitos como "impressionante", seu leque
    era amplo e as suas opiniões, provocativas, irônicas, agressivas, engraçadas, politicamente incorretas, não raro preconceituosas - mas nunca indiferentes, mesmo quando previsíveis. Francis desenvolveu como ninguém uma espécie de relação sadomasoquista com uma legião de leitores que de antemão o odiava, "sabia" o que ele diria, mas, não resistia à tentação de se irritar com as suas certezas defirlitivas.
    Na realidade, essas certezas mudaram ao longo do tempo. O jovem simpatizante de Trótski tornar-se-ia um contumaz crítico da esquerda, percorrendo o mesmo caminho de outros intelectuais, quando já se mostravam cada vez mais enfáticos os sinais de que o totalitarismo e a ineficiência do mundo socialista não eram apenas um "desvio" da revolução, mas algo intrinsecamente ligado ao projeto comunista.
    "O ex-comunista é alguém que se sente traído, e ele passou a reagir assim, como se tivesse sido vítima de uma traição", diz o jornalista Sérgio Augusto sobre a mudança ideológica daquele sujeito "extremamente generoso" que o convidou a escrever no "Pasquim".
    Foi no ambiente bem-humorado e egocêntrico do semanário carioca que o texto de Francis
    inicialmente sisudo e convencional, começou a ganhar contornos mais descontraídos e a sua imagem de polemista ferino se difundiu.
    Para Caetano Veloso, que manteve com ele uma relação ambígua de admiração e ódio (o que não era incomum), Francis e o "Pasquim" sofriam de uma doença arrogante, por ele apelidada de "ipanemia".
    Na passagem da década de 70 para a de 80, a "ipanemia" contagiou São Paulo. A cidade emergia como principal pólo da redemocratização e da modernização política e cultural do país. Francis e outros ex-articulistas do "Pasquim", como Tarso de Castro e o próprio Sérgio Augusto, haviam passado a escrever na Folha, que despontava como a mais. vigorosa e interessante novidade da imprensa brasileira.

    "A coluna "Diário da Corte", assinada por Francis e publicada duas vezes por semana pela Ilustrada, obteve grande repercussão. Daquele espaço, a metralhadora giratória do polemista atirou como nunca.
    Num quadro de declinio do socialismo, no qual as propostas de esquerda na América Latina soavam tragicômicas (em especial para alguém que vivia em Manhattan e aprendera a apreciar o dinamismo liberal da rica sociedade dos EUA), Francis mostrava-se cada vez mais cético e exasperado em relação às perspectivas do país e à capacidade do ideário nacionalista, com o qual simpatizara, de apresentar soluções.
    Movia, em sua coluna, uma espécie de cruzada contra o que passara a identificar como as fontes do atraso do país - e isso incluía petardos contra o então esquerdista Lula ("uma besta quadrada"), ataques a representantes da velha oligarquia (como o presidente Sarney, que chamava de "Ribamar" ou "côco de bigode"), tiradas discriminatórias em relação a nordestinos, ataques a cineastas que sobreviviam às custas de dinheiro estatal e elogios a personagens, como o economista Roberto Campos, vistos como vilões pela intelectualidade "progressista".
    O colunista Diogo Mainardi, 44, da revista "Veja", considera que, para sua geração, "as páginas dele na llustrada, como linguagem e informação, foram o que houve de mais importante na imprensa brasileira".
    Para Suzuki Jr., Francis também deve ser lembrado por ter "levado o jornalismo autoral para o primeiro caderno, tirando o terno e a gravata da cobertura política e internacional. Em São Paulo, até então, tudo que tinha alguma pretensão intelectual na imprensa vinha com um quê acadêmico e uspiano, que o Francis ajudou a dobrar. Aquele jornalismo autoral foi o último grande sussurro de felicidade do jornalismo antes do dominio da TV.
    A passagem de Francis para aTV era um passo natural, mas poucos imaginariam que, mais do que uma estrela de um programa de canal pago, o "'Manhattan Connection", ele conquistasse tamanha popularidade na Globo e chegasse a ganhar imitações de diversos humoristas -nenhuma, certamente, melhor que a do "Casseta & Planeta".
    E possível que Francis tenha contribuído involuntariamente para alguns males do jornalismo brasileiro atual. Personalidades dessa envergadura despertam grande admiração, tornam-se "gurus", e provocam inevitáveis tentativas de cópia. São, no entanto, inimitáveis, pois extraem sua potência de uma conjunção de fatores singulares e históricos que só é possível recriar como farsa.
    Apontado como um dos "herdeiros", Mainardi o considera "insubstituível". "Todos nós, maus imitadores, somos um resultado do paulofrancismo, mas não passo de um prédio neoclássico comparado a uma obra do Renascimento."
    O jornalista Caio Túlio Costa, primeiro ombudsman da Folha, que manteve com Francis uma violenta polêmica, lamenta que as novas gerações pouco o conheçam. "Eu sempre o admirei, antes, durante e depois da polêmica, e acho que ele faz uma falta danada."

  • Cabeça de Papel

    Autor: Coluna Mais

    Veículo: Coluna Mais, Folha de S.Paulo 4 de fevereiro de 2007

    Fonte:

    O Jornal Folha de São Paulo, na sua coluna "mais!", edição de 4 de fevereiro de 2007, faz um interessante relato sobre o autor Paulo Francis, que é transcrito aqui, porque reflete bem uma opinião sobre o polêmico Francis.
    "A coluna "Diário da Corte", assinada por Francis e publicada duas vezes por semana pela Ilustrada, obteve grande repercussão. Daquele espaço, a metralhadora giratória do polemista atirou como nunca.
    Num quadro de declinio do socialismo, no qual as propostas de esquerda na América Latina soavam tragicômicas (em especial para alguém que vivia em Manhattan e aprendera a apreciar o dinamismo liberal da rica sociedade dos EUA), Francis mostrava-se cada vez mais cético e exasperado em relação às perspectivas do país e à capacidade do ideário nacionalista, com o qual simpatizara, de apresentar soluções.
    Movia, em sua coluna, uma espécie de cruzada contra o que passara a identificar como as fontes do atraso do país - e isso incluía petardos contra o então esquerdista Lula ("uma besta quadrada"), ataques a representantes da velha oligarquia (como o presidente Sarney, que chamava de "Ribamar" ou "côco de bigode"), tiradas discriminatórias em relação a nordestinos, ataques a cineastas que sobreviviam às custas de dinheiro estatal e elogios a personagens, como o economista Roberto Campos, vistos como vilões pela intelectualidade "progressista".
    O colunista Diogo Mainardi, 44, da revista "Veja", considera que, para sua geração, "as páginas dele na llustrada, como linguagem e informação, foram o que houve de mais importante na imprensa brasileira".
    Para Suzuki Jr., Francis também deve ser lembrado por ter "levado o jornalismo autoral para o primeiro caderno, tirando o terno e a gravata da cobertura política e internacional. Em São Paulo, até então, tudo que tinha alguma pretensão intelectual na imprensa vinha com um quê acadêmico e uspiano, que o Francis ajudou a dobrar. Aquele jornalismo autoral foi o último grande sussurro de felicidade do jornalismo antes do dominio da TV.
    A passagem de Francis para aTV era um passo natural, mas poucos imaginariam que, mais do que uma estrela de um programa de canal pago, o "'Manhattan Connection", ele conquistasse tamanha popularidade na Globo e chegasse a ganhar imitações de diversos humoristas -nenhuma, certamente, melhor que a do "Casseta & Planeta".
    E possível que Francis tenha contribuído involuntariamente para alguns males do jornalismo brasileiro atual. Personalidades dessa envergadura despertam grande admiração, tornam-se "gurus", e provocam inevitáveis tentativas de cópia. São, no entanto, inimitáveis, pois extraem sua potência de uma conjunção de fatores singulares e históricos que só é possível recriar como farsa.
    Apontado como um dos "herdeiros", Mainardi o considera "insubstituível". "Todos nós, maus imitadores, somos um resultado do paulofrancismo, mas não passo de um prédio neoclássico comparado a uma obra do Renascimento."
    O jornalista Caio Túlio Costa, primeiro ombudsman da Folha, que manteve com Francis uma violenta polêmica, lamenta que as novas gerações pouco o conheçam. "Eu sempre o admirei, antes, durante e depois da polêmica, e acho que ele faz uma falta danada."

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Não me lembro - nem de longe - a data em que comprei este livro. Recordo-me que o autor era moda. Paulo Francis era importante. Ele tinha página no jornal O Globo e, se não me engano, assinava uma coluna na revista Veja e outra no jornal Folha de São Paulo. Era comentarista da TV Globo, morava em Nova York, aparecia constantemente no Jornal Nacional e no Fantástico. Conseqüência midiática: comprei o Cabeça de Papel.


 

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