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Os Caminhos da Liberdade - Sursis II

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Os Caminhos da Liberdade - Sursis II

Livro Ótimo - 1 comentário

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Autor: Jean-Paul Sartre  

Editora: Difel

Assunto: Romance

Traduzido por: Sergio Millet

Páginas: 367

Ano de edição: 1964

Peso: 575 g

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Ótimo
Marcio Mafra
27/07/2002 às 17:31
Brasília - DF
Sartre se utiliza neste livro do recurso do corte, tipo muito usado em filmes, para descrever cenas que se desenrolam simultaneamente e que convergem para um final feliz. Assim, as vidas de diversas pessoas que vivem na Europa se cruzam, enquanto todo o continente se consome na angústia da guerra.Os personagens vão surgindo dos "cortes" com a convicção de que os sonhos de liberdade não valem mais como ideais. É o existencialismo impregnado na narrativa do grande Mestre Sartre. É uma leitura muito boa, com pega, com vida, com realismo, com inteligência, mas enjoa e cansa um pouco o cunho comunista-existencialista.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A demonstração das coisas e atos comportamentais que as pessoas são capazes de fazer, em função da guerra, quando percebem claramente que a sua derrota é evidente. Ambientado durante última semana de setembro de 1938, ocasião da capitulação de Munique, Sartre demonstra como as pessoas se sentem encorajadas a realizar atos jamais permitidos pela moral vigente.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Dezoito horas e dez. Pitteaux andava de um lado para o outro na rua Cassette, tinha encontro marcado às dezoito horas; olhou o relógio-pulseira, dezoito e dez, subirei daqui a cinco minutos. A 528 quilômetros a sudoeste de Paris, Georges, apoiado à janela, deslizava entre pastagens, olhava os postes telegráficos, suava, sorria. Pitteaux dizia com seus botões: "Que besteira terá ainda feito este pequeno aporrinhante?" Sentiu-se tomado de um desejo violento de subir, tocar, gritar: "Então, que foi que ele fez agora? Não tenho nada com isso!" Mas obrigou-se a dar meia volta, irei até o lampião, caminhou, antes de tudo não parecer apressado, censurava-se por ter vindo, devia ter respondido em papel timbrado: "Senhora, se desejais falar-me estou em meu escritório diàriamente de dez ao meio dia". Deu as costas para o lampião, apressou o passo sem o perceber. Paris: quinhentos e dezoito quilômetros. Georges enxugou a fronte, deslizava dl3 lado para Paris, como um caranguejo, Pitteaux pensava: negócio chato, corria quase, o trem atrás dele, virou na rua de Rennes, entrou no 71, subiu ao 3º e tocou; a 639 quilômetros de Paris, Hannequin olha via as pernas de sua vizinha, eram grossas e bem desenhadas dentro de meias de rayon, um pouco peludas. Pitteaux tocara, esperava à porta enxugando a fronte. Georges enxugava a fronte em meio ao barulho das rodas nos trilhos, que besteira terá feito ainda, um negócio chato, Pitteaux tinha dificuldade em engolir e o estômago, o estômago, principalmente, que sentia numa vagueza, cheio de borborigmos, mas ele se mantinha ereto, a cabeça erguida, dilatando um pouco as narinas, e armara sua carranca, sua terrível carranca; a porta abriu-se, o trem de Hannequin mergulhou num túnel, Pitteaux penetrou numa escuridão fresca, recendia a poeira sagrada, a criada disse-lhe: "Queira entrar, por favor", uma mulher gordinha e perfumada, braços nus e moles, suave moleza das carnes quadragenárias, com uma mecha branca no meio dos cabelos pretos, precípitou-se ao seu encontro; sentiu o seu odor maduro. - Onde está ele? Inclinou-se, ela havia chorado. A vizinha de Hannequin descruzou as pernas e ele viu um pedaço de coxa acima da liga. Pitteaux armou a carranca: - A quem se refere, minha senhora? Ela disse: - Onde está Philippe? Ele sentiu-se cheio de ternura, talvez ela chorasse diante dele, torcendo os belos braços; uma mulher do seu meio devia, sem dúvida, raspar as axilas. Uma voz de homem fê-lo fremir, vinha do fundo do vestíbulo: - Cara amiga, não percamos tempo. Se o Sr. Pitteaux quiser vir ao meu escritório, nós lhe diremos... Pegado na ratoeira! Entrou, tremendo de raiva, mergulhou num calor branco, o trem saía do túnel, uma flecha de luz branca entrou no compartimento. Sentaram-se de costas para a luz naturalmente, e eu estou de frente para a claridade. Eram dois. - Sou o General Lacaze - disse o homem de uniforme. Indicou seu vizinho, um gigante melancólico, e acrescentou: - Este é o Dr. Jardies, médico psiquiatra que nos fez o favor de examinar Philippe e de acompanhar o seu caso nestes últimos tempos. Georges voltou ao compartimento e sentou-se, um moreninho falava, tinha cara de espanhol: "Seu patrão o ajudará, tudo isso está certo para os empregados e funcionários. Eu não tenho ordenado fixo, tenho minhas gorjetas, sou garção, é tudo. Vocês dizem que isso não vai durar, que é para aterrorizá-los, quero crer, mas suponham que dure dois meses, como é que a minha mulher vai comer?" - Philippe, meu enteado, abandonou o lar sem nos prevenir, nas primeiras horas da manhã. Lá pelas dez, sua mãe achou esta carta na mesa da sala de jantar. - Estendeu-a por cima da escrivaninha com ar autoritário: - Queira tomar conhecimento. Pitteaux pegou a carta com repugnância, aquela caligrafia mesquinha e suja, irregular, pontuda, com rasuras e manchas; ele chegava, esperava horas inteiras, eu o ouvia andar de cá para lá, depois saía deixando em qualquer lugar, no chão, na cadeira, embaixo da porta, papeizinhos amassados, cobertos de garatujas, Pitteaux olhava a caligrafia sem dizer nada, como uma seqüência de desenhos absurdos e demasiado conhecido, que lhe provocavam nojo, eu gostaria de jamais tê-lo conhecido. "Mãezinha, é o tempo dos assassinos, eu, eu prefiro o martírio. Sofrerás talvez um pouco: assim o espero. Philippe." Largou a carta na escrivaninha e sorriu: - Tempo dos assassinos! A influência de Rimbaud tem sido nefasta. O general fixou-o: - Trataremos daqui a pouco da questão das influências disse. - Sabe onde está meu enteado? - Como o saberia? - Quando viu o rapaz pela última vez? Essa agora! Submetem-me a um interrogatório, pensou Pitteaux. Voltou-se para a Senhora Lacaze e disse, afável: - Não sei dizer, há oito dias, creio. Agora a voz do general feria-o de flanco: -Ele lhe deu a conhecer suas intenções? - Não - disse Pitteaux, sorrindo para a mãe. - A senhora conhece Philippe: age por impulsos. Estou persuadido de que não sabia ontem à noite o que faria esta manhã. - E posteriormente - perguntou o general - não lhe escreveu nem telefonou? Pitteaux hesitou, mas sua mão já se movimentara, uma mão dócil, servil, que mergulhou no bolso interno e estendeu um papelucho. A Senhora Lacaze pegou àvidamente o bilhete, não mando mais nas minhas mãos. Mandava ainda no rosto, armou a terrível carranca, arqueando o cenho. - Recebi isto hoje de manhã. - Laetus et errabundus - leu a Senhora Lacaze com aplicação. - Pela paz. O trem rodava, o navio jogava, o estômago de Pitteaux cantava, ele se pôs de pé, penosamente: - Isso quer dizer: alegre e vagabundo - explicou Pitteaux cortesmente. - É o título de um poema de Verlaine. O psiquiatra deitou-lhe um olhar: - Um poema um tanto especial. - É tudo? - indagou a Sra. Lacaze. Virava e revirava o papelucho. - Infelizmente, minha senhora, é tudo. Ouviu-se a voz cortante do general: - Que mais quer, minha amiga? Acho essa carta perfeitamente clara e estranho que o Sr. Pitteaux pretenda não conhecer as intenções de Philippe. Pitteaux voltou-se bruscamente, olhou o uniforme - não o rosto - e o sangue subiu-lhe à cabeça. - Senhor - disse - Philippe escrevia-me bilhetes desse tipo três a quatro vezes por semana, eu já não dava mais atenção à coisa. O senhor há de desculpar-me, mas tenho outras ocupações. - Sr. Pitteaux - disse o general - o senhor dirige desde 1937 uma revista intitulada O Pacifista, na qual tomou nitidamente posição não só contra a guerra, mas ainda contra o Exército Francês. O senhor conheceu meu enteado em outubro de 37 em condições que ignoro e converteu-o às suas idéias. Sob a sua influência ele adotou uma atitude inadmissível em relação a mim, porque sou oficial, e em relação à mãe, porque se casou comigo. Ele se entregou publicamente a manifestações de caráter francamente antimilitarista. Agora abandona o lar, no momento da maior tensão internacional, avisando-nos na carta, que o senhor leu, que pretende tornar-se um mártir da paz. O senhor tem trinta anos, Sr. Pitteaux, e Philippe não tem vinte ainda, portanto não lhe causarei surpresa dizendo-lhe que o considero pessoalmente responsável por tudo o que possa a,acontecer a meu enteado em conseqüência desta escapada. - Pois é - disse Hannequin à vizinha - vou dizer-lhe: fui mobilizado. Deus meu! - disse ela. Georges olhava o garção, achava-o simpático e tinha vontade de contar-lhe: eu também fui convocado, mas não ousava, por pudor, o trem balançava horrivelmente, estou em cima das rodas, pensou. - Declino de qualquer responsabilidade - disse Pitteaux categoricamente. - Compreendo seu sofrimento, mas nem por isso hei de aceitar a função do bode expiatório. Philippe Grésigne Vleio à sede da revista em outubro de 37, é um fato que não pretendo negar. Entregou-nos um poema que nos pareceu promissor e nós o publicamos em nosso número de dezembro. Depois disso apareceu muitas vezes e nós tudo fizemos para desencorajá-lo: era exaltado demais e, para dizer a verdade, não sabíamos o que fazer dele. (Sentado sobre a ponta das nádegas, ele fixava em Pitteaux seu olhar azul e incômodo, olhava-o beber e fumar, olhava-o mexer os lábios, mas não fumava, não bebia, enfiava de vez em quando o dedo no nariz ou a unha entre os dentes, sem parar de olhá-lo.) - Mas onde poderá estar? - gritou subitamente a Senhora La caze. - Onde poderá estar? Que estará fazendo? O senhor fala dele como se tivesse morrido! Calaram-se. Ela se inclinara para frente com uma fisionomia de angústia e desprezo; Pitteaux via-lhe a linha dos seios pelo decote da blusa; o general permanecia ereto na sua poltrona, esperava, concedia alguns minutos de silêncio à legítima dor de uma mãe. O psiquiatra olhou a Senhora Lacaze com atenta simpatia como se fosse uma de suas doentes. ' Depois, meneou a cabeçorra melancólica, voltou-se para Pitteaux e reiniciou as hostilidades: - Admito, Sr. Pitteaux, que Philippe não tenha compreendido todas as suas idéias. O fato é que se tratava de um rapaz muito influenciável e que lhe devotava uma enorme admiração. . - Cabe a mim a culpa ? - Talvez não lhe caiba a culpa, mas o senhor abusava de sua força. - Ora, tenha paciência! Enfim, se o senhor examinou Philippe, sabe que é um doente! - Não é bem um doente - disse o médico, sorrindo. Tinha certamente uma hereditariedade pesada. Do lado do pai - acrescentou, deitando um olhar ao general. - Mas não era um psicopata propriamente dito. Era um rapaz solitário, desajustado, preguiçoso e vaidoso. Sestros, fobias, naturalmente, com predominância de idéias sexuais. Veio ver-me amiudadamente nos últimos tempos, conversamos, confessou-me que... como dizer? Desculpe-me a rudeza de médico... Senhora Lacaze. Tinha poluções freqüentes e sistemáticas. Sei que muitos colegas vêem nisso um efeito apenas; penso, com Esquirol, que é antes uma causa. Em suma atravessava penosamente isso a que Mendousse chamou, com muita felicidade, a crise de originalidade dos adolescentes: necessitava de um guia. O senhor foi um mau pastor, Sr. Pitteaux, um mau pastor. O olhar da Senhora Lacazel parecia pousado em Pitteaux por acaso; mas era insustentável. Pitteaux preferia voltar-se francamente para o psiquiatra. - Que a Sra. Lacaze me perdoe - disse - mas posto que me forçam a dizê-lo, declaro com toda franqueza que sempre considerei Philippe o tipo acabado do degenerado. Se precisava de um guia, por que não se ocupou dele? É a sua profissão. O psiquiatra suspirando. Ela arrepiada: - Pois bem, menina - disse o capitão - volte às 9 horas e eu lhe direi o que pude fazer por você e suas amigas. - Tinha os olhos vazios e claros, estava muito vermelho, acariciou-lhe os seios e o pescoço e acrescentou: - Não se esqueça, esta noite às nove horas. - O General Lacaze houve por bem comunicar-me algumas páginas do diário de Philippe e achei que era meu dever tomar conhecimento delas. Sr. Pitteaux, deduz-se dessa leitura que o senhor praticava uma chantagem com esse infeliz. Sabendo a que ponto ele aspirava à sua estima, o senhor aproveitava, parece, para solicitar certos favores que não se esclarecem no diário.Nestes últimos tempos ele resolveu revoltar-se e o senhor manifestou-lhe tal desprezo que o levou ao desespero.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Adquiri este livro em março de 1967, época em que o mais famoso existencialista-vivo era incensado com turíbulos de ouro, por 10 entre 10 jornalistas e intelectuais de plantão.


 

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