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Cinzas do Norte

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Cinzas do Norte

Livro Bom - 1 comentário

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Autor: Milton Hatoum  

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 311

Ano de edição: 2005

Peso: 380 g

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Bom
Marcio Mafra
10/10/2008 às 14:47
Brasília - DF

Cinzas do Norte conta a vida dos amigos, Mundo e Lavo. Tem uma leve conotação contrária ao golpe militar de 1964. Mundo é filho de rico e quer ser artista. Lavo é órfão e pobre.O autor vai construindo a dúvida sobre a paternidade de Mundo, através de cartas que este recebe de seu tio, ao longo do romance. Lavo e Mundo se disputam nas coisas simples de suas vidas complexas e diferentes. Milton Hatoum bota gás no ódio entre pai e filho o que aumenta e dá relevo aos conflitos de geração, de objetivos, de ideais, de moral, de comportamento social. O livro acaba de uma forma não esperada, mas vazia sobre um fato não importante na história. Apesar do Jabuti este não deve ser o melhor livro do Hatoum.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A História de Lavo e Mundo, dois amigos desde meninos em Manaus. Lavo é pobre e quer ser advogado. Mundo, filho de ricos. Uma vizinha de Lavo de nome Alicia,tão pobre quanto ele aplica o golpe do baú e casa com o rico Jano. Mesmo casada ela tem um caso com outro cara, que era parente de Lavo.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Naquela noite, enquanto Alicia dilapidava jóias, Mundo me falava de Alexandre Flem, um artista que encontrara no Museu de Arte Moderna. Em seguida mostrou o material de desenho e pintura, e os livros de arte comprados na Leonardo da Vinci. Quem, no ginásio Pedro II e depois no Brasileiro, não o invejava, quando os jornais publicavam a fotografia dele atrás de Alícia na escada do Constellation, ela com óculos escuros e um riso de meio palmo no rosto? Mundo era um dos poucos que podiam estudar alemão com Gustav Domer ou com Frau Lindemberg, e francês com a mulher do cônsul da França. E só ele podia pagar pelas aulas particulares de inglês com mrs. Rolly Rem, numa das chácaras da Vila Municipal. Minotauro e Delmo ficavam roídos com essas regalias, mas por razões diferentes. Até o último ano do colegial comentavam a cena que humilhara meu amigo. "Será que ele ainda se lembra que nós tocamos fogo no rabo dele?", perguntava o Delmo, cutucando o outro, que dizia: "Mundo é um lesão. Devia abocanhar a fortuna do pai dele". Delmo, filho único de um grande comerciante de ferragens, queria ocupar o lugar do pai: para que estudar, se podia começar a trabalhar como patrão? Minotauro, corpanzil de cabeça pequena, ia pelejar por uma vaga no Departamento Estadual de Segurança Pública. Em dezembro de 1969, na despedida dos veteranos, ele se exibiu na are na do ginásio, violento e arrogante, esmurrando os calouros, obrigando-os a engolir terra e chumaços de capim cheios de formigas. Em março, quando eu já estudava na faculdade de direito, tio Ran condenou minha opção; esperava outra coisa de mim. "Devias passar a vida lendo e vivendo por aí, sem profissão. Vais acabar que nem tua tia, trancado numa saleta e rezando pra conseguir um cliente... Ou então correndo de uma vara pra outra." "Não sei se é exatamente essa a minha vocação, mas posso escrever, redigir processos, defender e acusar..." "Acreditas em vocação? Eu não tenho vocação pra nada, vivo inventando... Inventa, rapaz. Ou então procura alguma coisa. Mundo está procurando, por que não fazes o mesmo?" "Bem ou mal, Mundo continua estudando no Brasileiro." "Ele vai cair fora. Só está adiando pra tapear o pai." Enganchou os dedos no meu pescoço e sussurrou, como se contasse um segredo: "Vais enlouquecer redigindo processos. Os graúdos vão te engolir, Lavo. Todo processo é enganador, uma mentira. É melhor escrever, pintar, sei artista" . Na tarde em que Minotauro e Delmo passaram pela Vila da Ópera, como para selar o desfecho da amizade do Pedro II, tia Ramira os examinou com olhos de costureira, e, enquanto folheava uma revista de moda, fazia perguntinhas inocentes: "Onde moram? Já escolheram a profissão? Onde os pais de vocês trabalham?". Depois nos serviu uma torta de cupuaçu com biscoito champanhe e castanha, e se afastou da mesa para observá-los de soslaio. Quando foram embora, ela notou que Delmo carregava o rei e sua coroa na barriga. "Como esse Delmo é ignorantão, Lavo. Viste como riu dos teus livros? Me matei de trabalhar para comprar dicionários, códigos e esse tal de direito romano, e o idiota faz pouco. Não é o pai dele que vende arame farpado e martelo?" Quando podia, Ramira dava alfinetadas com a voz. Disse que o outro ia ficar desdentado, mas isso não faria diferença: ele não mastigava, devorava tudo, tinha ânsia de animal. A roupa remendada do Minotauro, os dentões escuros e apodrecidos e o lugar onde morava - um barraco sem endereço no fundo do Buraco do Pinto - a impressionaram. "Quando chove, o que acontece com a família dele?", se perguntou, talvez pensando no risco da nossa própria família, que vivia na corda bamba. Novembro e dezembro eram meses melhores: Ranulfo ganhava comissão sobre as vendas no empório da Booth Une, e Ramira costurava para as festas de fim de ano e para os foliões dos bailes carnavalescos; era nesse período que ela poupava para o que viria depois, e uma relativa bonança durava até abril ou maio; daí em diante, descaíamos que nem urubu balado. Julho marcava o começo da penúria, que tio Ran, com um tanto de superstição e outro de sarcasmo, associava "às chamas do verão". "Rio baixo, bolsos vazios. Vamos ter que ralar mandioca, hein, mana? As tuas mocinhas não debutam em agosto?" Mesmo assim, trazia os amigos para almoçar; a irmã o puxava para a cozinha e engrossava: "Não sobra comida nem para os gatos, e tu ainda apareces com esses marmanjos?". "Esses marmanjos não sentem fome, só sede, mana. Uma cachacinha com jaraqui frito, e estamos no céu." Dias depois, Ramira recebia uma cesta cheia de delícias importadas pela Booth.Sabia que Ranulfo metia a mão no empório dos ingleses, mas não devolvia nada: escondia os pacotes de biscoito e as latas de toffee, e os oferecia à clientes. Com o tempo, ela foi ficando mais sovina e o irmão mais perdulário, atitudes que convergiam para a expectativa de cada um. Minha tia se pelava de medo do futuro, enquanto tio Ran torrava tudo, pedia dinheiro emprestado às mulheres e vivia dizendo que elas lhe deviam não sei quantas noites de amor. Os quitutes que surrupiava serviam de agrado às namoradas, acalmavam a irmã e ainda sobravam para mim. "Nada de poupança, Lavo. Dinheiro guardado é prazer adiado." Na segunda semana do mês Ranulfo já estava cheio de dívidas; na terceira, quando ele vinha comer em casa, Ramira trancava o aparador, com medo de que o saqueasse. No auge da dureza, meu tio nos surpreendia mostrando cédulas novas, que contava na nossa presença, assobiando e rindo; depois jogava sobre a mesa de costura duas ou três notas de valor alto, hipnotizando tia Ramira, que nem lhe perguntava como conseguira o dinheiro. Maio irmão ia embora, ela apanhava as cédulas e as escondia no quarto. Como o laço de Ranulfo com Alícia não era de todo clandestino, notícias do palacete de Jano chegavam pela língua dele. E que língua! Mas um assunto de que tio Ran se esquivava sempre era o do filho na Vila Amazônia. Irritava - se quando a irmã lhe perguntava se não ia visitar a ilha. E a ilha, para ela, significava "o filho que tu abandonaste". Certa vez, quando contei a Ranulfo que conhecera o menino e sua mãe, ele disfarçou, represando a raiva. Depois, com malícia e ódio na voz, disse que Jano sempre encontrava um jeito de humilhar as pessoas


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

De tanto ler crítica a favor do autor, comprei Cinzas do Norte, e também porque os premiados do Jabuti, são bons. Viva o sebo.


 

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