carregando

Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns segundos...

 

O Trágico e Outras Comédias

Para usar as funcionalidades você precisa estar logado(a). Clique aqui para logar
Erro ao processar sua requisição, tente novamente em alguns minutos.
O Trágico e Outras Comédias

Livro Bom - 1 comentário

  • Leram
    1
  • Vão ler
    1
  • Abandonaram
    0
  • Recomendam
    0

Autor: Veronica Stigger  

Editora: Sette Letras

Assunto: Contos

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 64

Ano de edição: 1964

Peso: 105 g

Avalie e comente
  • lido
  • lendo
  • re-lendo
  • recomendar

 

Bom
Marcio Mafra
19/10/2008 às 17:10
Brasília - DF

O Trágico e Outras Comédias, é um livro com 12 contos. Dos bons, embora simples. Simples no sentido de despojados. A autora, na sua estréia diz a que veio. Logo de cara escancarou o seu estilo, a sua forma. Alguns de seus contos são meio desvairados, meio esquisitos. Ela transforma uma situação absurda, um mico, em algo simples e natural. O trágico vira cômico e o cômico vira trágico. Daí o acerto do titulo que adotou para este livro. Vale a estréia. Vale a autora. Vale o livro.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Contos - 17 contos, de boa cepa.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O Cabeção. Chamavam-lhe Cabeção. Ainda bebê, fora confinado pela mãe num pujante apartamento de catorze aposentos - com dependência de empregada, tevê a cabo e vizinhas boazudas -, localizado no distante e silencioso bairro nobre de sua cidade. Sua genitora - uma aristocrata megera e vadia e adepta do bestialismo - queria esconder e esquecer a seqüela de uma antiga e sórdida traição. Como conseqüência, Cabeção cresceu e se criou sozinho, sem amigos, sem parentes, sem saber quem era seu pai e que ao seu lado as vizinhas boazudas divertiam-se pacas. Certa feita, entediado e triste - ele já lera todos os livros -, Cabeção decidiu mudar de vez sua vida: comprou uma garrafa de tequila e abriu um escritório no Centro. Educado por telecursos, havia se especializado em compor projetos para jardins ingleses, e era nisto que iria trabalhar a partir de agora. Saiu de casa. Alugou uma sala. Contratou pessoas. Elaborou planilha de gastos. Conquistou clientes. Fez amigos. E tornou-se famoso. Mas ainda não era feliz: fazia as refeições sozinho e espantava as mulheres com sua cabeça descomunal. Foi por essa época que começou a marcar os dias que passavam. Mal chegava da rua, ia para seu quarto, tirava as roupas e os sapatos, tomava um lápis para desenho e fazia um risco grosso na parede. A cada cinco dias, quando já se somavam cinco riscos verticais e paralelos, ele os cruzava com um sexto traço horizontal. Entusiasmado com essa prática - mais do que com o sucesso de seu escritório -, Cabeção pôs-se a assinalar a parede duas vezes por dia: uma quando acordava, outra quando chegava em casa. Com o tempo, a parede de seu quarto já não comportava mais uma linha sequer. Há muito desfizera-se de sua coleção de quadros e das estantes de livros. Começou, então, a riscar o teto. Nessa fase, já fazia isso não mais em dois momentos do dia, mas a toda vez que ia tomar água. Se estava no escritório quando sentia sede, não titubeava em retornar a seu apartamento para beber mais um tanto e fazer mais um risco. Quando também o teto de seu quarto se encheu de grafite, passou a utilizar as paredes, os tetos e até o chão dos outros treze aposentos. Um dia, quando só restava espaço livre na dependência de empregada, um belo e jovem rapaz invadiu sua casa e decepou-lhe a cabeça. Ao rolar pelo assoalho, um dos chifres de nosso personagem fez um último risco no parquê. ..." Fabrício Carpinejar Publicado em O Estado de São Paulo Caderno 2/Cultura, p. 12, 17/06/07. Se já causava espanto quando Murilo Rubião colocava um dono de restaurante no bolso de seu personagem (O Pirotécnico Zacarias), o que dizer de um casal de intelectuais que passa a morar no rabo de um amigo, a oferecer coquetéis e danças no interior do corpo dele, até ser devorado por uma lombriga? A articuladora da façanha é a gaúcha Veronica Stigger, em seu segundo livro Gran Cabaret Demenzial (Cosac Naif, 119 págs., R$ 29,50). Ao redor da jovem autora, a aura de ser a novidade da Festa do Livro de Paraty e de ter sido selecionada entre os 39 nomes com menos de 39 anos mais influentes da América Latina pela Feira do Livro de Bogotá. São 19 textos tresloucados, bufos, perversos, que misturam poemas, contos, dramaturgia, anúncios de classificados e placas de trânsito. Literatura de intervenção, um exercício delicioso mais do que um enigma. Deve incomodar os puristas e incitar as gargalhadas dos incrédulos. Veronica é inteligente o suficiente para não ser afetada, culta o bastante para não citar (suas referências não interferem no enredo), preparada para não querer escandalizar simplesmente com piadas ou escatologia. Ela trabalha as informações com o efeito da bola de neve, capturando o diz-que-diz de acidentes e causos. Transforma a literatura em fofoca, em vez de fazer da fofoca literatura. Arca com todo o exagero cada vez maior de investir no resultados. Como se existisse uma criança curiosa a cadenciar os parágrafos e exigir detalhes: “O que mais aconteceu?” O estranhamento produzido seduz, ao contrário de hostilizar. Ela propõe alegorias sobre as aberrações do cotidiano com uma simplicidade infantil. Há o mimetismo da sinceridade de contos de fadas, das lendas, dos mitos indígenas. O que ela narra é atroz, mas com um desembaraço claro e legível, que não parece tragédia. O tema é fúnebre; o tom, cômico. O normal acentua-se como o diferente. Em Olívia Palito, uma cidade de gabirus com cabeças enormes, desproporcionais, vê o nascimento de bebês compridos e sadios. Isso assusta e põe em alerta a saúde pública. Só que os “compridões” vão sendo gerados com mais freqüência, dividindo a população entre os cabeções e os “olívias palito”. Durante as primeiras brigas das duas facções, um compridão senta no cabeção - e nem preciso contar os detalhes porque o duplo sentido já está implícito. E todos os cabeções querem entrar nos compridões, num ambiente de caça e luxúria. Veronica cria uma lógica dentro do inverossímil. Afinal, não é isso a fábula? Como um teatro de revista, é desenvolvido um revezamento de esquetes. A adaptação teatral da obra já está naturalmente feita. Identifica-se uma fixação anal. O reto é o centro da leitura - ou seu caminho. Em Marta e o Minhocão, uma enorme família busca se adaptar a uma estranha minhoca que se enfia no ânus de qualquer vivente que ouse falar. Já em Sheila e Miguelão, a perspectiva é de uma patente, que não aceita ser chamada de privada. Arrogante depois de receber decorações de flores, suga todas as bundas que se aproximam. Como caixas em caixas menores, identifica-se um deslocamento ágil e sempre repentino do ponto de vista macro ao micro, da luneta ao microscópio. A antropofagia segue solta, na libido enrustida da linguagem. Nunca existe um espaço parado, o tempo torna-se espaço. Sempre alguém é sorvido por outro e perdendo seu local de origem. O despejo não é uma ameaça, porém um hábito. A escritora é Lévi-Strauss sem a antropologia, um Qorpo Santo redivivo, articulando um alto nível de impostura reflexiva, de atitude farsesca. Não que tudo seja possível em seus textos, porque o real não é mais possível. Uma turista é engolida pela escada rolante assistida pelo passivo marido, um velhinho é convertido em árvore de Natal, um par de namorados não consegue sair das engrenagens do carro após acidente. Seria superficial analisar o livro como uma metáfora da sociedade impessoal e insensível. O livro ritualiza o maravilhoso, o insólito e o cruel na literatura. E não pretende soar engajado, e sim cínico, mesmo quando mostra o racismo de uma família germânica. Um dos motores da obra é a brevidade, que permite o texto surpreender sem enjoar, acelerar o assombro sem sacrificar a espontaneidade. As narrativas apresentam anticorpos contra o marasmo. Quando o leitor está se acostumando, a trama acaba e tem início a seguinte. Ele não consegue se desvencilhar a tempo das ciladas. Gran Cabaret Demenzial não é órfão de tradição. Além de Hilda Hilst (Bufólicas), penso em Zulmira Ribeiro Tavares e seus ensaios/insights poéticos em Termos de Comparação ou no humor envenenado de Zuca Sardan (Ás de Coletes). Mais ainda em Valêncio Xavier e suas fotomontagens e fotonovelas parodiando os rompantes do amor ou epidemias, como a gripe espanhola. Xavier, por exemplo, tenta decifrar um mistério em Curitiba, ao perseguir o autor de enorme defecção em terreno baldio (Mez da Grippe e Outros Livros). Não é familiar?


  • O Trágico e Outras Comédias

    Autor: Fabricio Carpinejar

    Veículo: Publicado em O Estado de São Paulo, Caderno 2 - Cultura, página 12, em 17/06/07

    Fonte:

    Se já causava espanto quando Murilo Rubião colocava um dono de restaurante no bolso de seu personagem (O Pirotécnico Zacarias), o que dizer de um casal de intelectuais que passa a morar no rabo de um amigo, a oferecer coquetéis e danças no interior do corpo dele, até ser devorado por uma lombriga?

    A articuladora da façanha é a gaúcha Veronica Stigger, em seu segundo livro Gran Cabaret Demenzial (Cosac Naif, 119 págs., R$ 29,50). Ao redor da jovem autora, a aura de ser a novidade da Festa do Livro de Paraty e de ter sido selecionada entre os 39 nomes com menos de 39 anos mais influentes da América Latina pela Feira do Livro de Bogotá.

    São 19 textos tresloucados, bufos, perversos, que misturam poemas, contos, dramaturgia, anúncios de classificados e placas de trânsito. Literatura de intervenção, um exercício delicioso mais do que um enigma. Deve incomodar os puristas e incitar as gargalhadas dos incrédulos.

    Veronica é inteligente o suficiente para não ser afetada, culta o bastante para não citar (suas referências não interferem no enredo), preparada para não querer escandalizar simplesmente com piadas ou escatologia. Ela trabalha as informações com o efeito da bola de neve, capturando o diz-que-diz de acidentes e causos. Transforma a literatura em fofoca, em vez de fazer da fofoca literatura. Arca com todo o exagero cada vez maior de investir no resultados. Como se existisse uma criança curiosa a cadenciar os parágrafos e exigir detalhes: “O que mais aconteceu?”

    O estranhamento produzido seduz, ao contrário de hostilizar. Ela propõe alegorias sobre as aberrações do cotidiano com uma simplicidade infantil. Há o mimetismo da sinceridade de contos de fadas, das lendas, dos mitos indígenas. O que ela narra é atroz, mas com um desembaraço claro e legível, que não parece tragédia. O tema é fúnebre; o tom, cômico.

    O normal acentua-se como o diferente. Em Olívia Palito, uma cidade de gabirus com cabeças enormes, desproporcionais, vê o nascimento de bebês compridos e sadios. Isso assusta e põe em alerta a saúde pública. Só que os “compridões” vão sendo gerados com mais freqüência, dividindo a população entre os cabeções e os “olívias palito”. Durante as primeiras brigas das duas facções, um compridão senta no cabeção - e nem preciso contar os detalhes porque o duplo sentido já está implícito. E todos os cabeções querem entrar nos compridões, num ambiente de caça e luxúria. Veronica cria uma lógica dentro do inverossímil. Afinal, não é isso a fábula?

    Como um teatro de revista, é desenvolvido um revezamento de esquetes. A adaptação teatral da obra já está naturalmente feita. Identifica-se uma fixação anal. O reto é o centro da leitura - ou seu caminho. Em Marta e o Minhocão, uma enorme família busca se adaptar a uma estranha minhoca que se enfia no ânus de qualquer vivente que ouse falar. Já em Sheila e Miguelão, a perspectiva é de uma patente, que não aceita ser chamada de privada. Arrogante depois de receber decorações de flores, suga todas as bundas que se aproximam.

    Como caixas em caixas menores, identifica-se um deslocamento ágil e sempre repentino do ponto de vista macro ao micro, da luneta ao microscópio. A antropofagia segue solta, na libido enrustida da linguagem. Nunca existe um espaço parado, o tempo torna-se espaço. Sempre alguém é sorvido por outro e perdendo seu local de origem. O despejo não é uma ameaça, porém um hábito.

    A escritora é Lévi-Strauss sem a antropologia, um Qorpo Santo redivivo, articulando um alto nível de impostura reflexiva, de atitude farsesca. Não que tudo seja possível em seus textos, porque o real não é mais possível. Uma turista é engolida pela escada rolante assistida pelo passivo marido, um velhinho é convertido em árvore de Natal, um par de namorados não consegue sair das engrenagens do carro após acidente. Seria superficial analisar o livro como uma metáfora da sociedade impessoal e insensível. O livro ritualiza o maravilhoso, o insólito e o cruel na literatura. E não pretende soar engajado, e sim cínico, mesmo quando mostra o racismo de uma família germânica.

    Um dos motores da obra é a brevidade, que permite o texto surpreender sem enjoar, acelerar o assombro sem sacrificar a espontaneidade. As narrativas apresentam anticorpos contra o marasmo. Quando o leitor está se acostumando, a trama acaba e tem início a seguinte. Ele não consegue se desvencilhar a tempo das ciladas.

    Gran Cabaret Demenzial não é órfão de tradição. Além de Hilda Hilst (Bufólicas), penso em Zulmira Ribeiro Tavares e seus ensaios/insights poéticos em Termos de Comparação ou no humor envenenado de Zuca Sardan (Ás de Coletes). Mais ainda em Valêncio Xavier e suas fotomontagens e fotonovelas parodiando os rompantes do amor ou epidemias, como a gripe espanhola. Xavier, por exemplo, tenta decifrar um mistério em Curitiba, ao perseguir o autor de enorme defecção em terreno baldio (Mez da Grippe e Outros Livros). Não é familiar?

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF
No primeiro dia da Flip de 2007, logo na abertura uma mesa com autores jovens ou novos, discorrendo sob o tema "futuro do presente". Cecília Giannetti, Fabrício Corsaletti e Verônica Stigger, que foi a mais aplaudida. Bonita, simpática e inteligente ganhou a platéia na primeira intervenção. Comprar o seu livro era conseqüência lógica, ainda que autor de conto, dificilmente encante.

 

Receber nossos informativos

Siga-nos:

Baixe nosso aplicativo

Livronautas
Copyright © 2011-2020
Todos os direitos reservados.