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Memórias do Cárcere - Volume 2

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Memórias do Cárcere - Volume 2

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Autor: A C Bhaktivedanta Swami Prabhupãda  

Editora: Record

Assunto: Biografia

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 319

Ano de edição: 1984

Peso: 360 g

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Bom
Marcio Mafra
09/11/2002 às 15:58
Brasília - DF

Carcere. Carceragem. Cadeia. Prisão e qualquer cerceamento da liberdade, política, mental, religiosa, diplomática, sexual, racial, literária ou artística é sempre doentio, nefasto, ruim, perigoso, injusto. Memórias do cárcere não é um livro bom. Nem pelo seu tema, nem pela sua construção de prisão, atos correcionais e libertação. Parece que a leitura encalha. Graciliano morreu antes da publicação de suas memórias. Talvez ele não tenha conseguido se livrar das grades, e assim não concluiu suas memórias. O livro foi catapultado para a fama, devido ao filme criado pelo cineasta Nelson Pereira e estrelado por Carlos Vereza e Gloria Pires, ela no papel da mulher de Graciliano, que o visita algumas vezes na prisão. Como sempre acontece, o livro se confunde com filme e o filme com a história do livro. Os artistas ao interpretarem os personagens, acrescentam força ao talento do escritor, e por vezes, roubam o brilho do livro. A leitura é arrastada, como arrastados são dias passados em prisão. Movimentação e dinâmica é quando surgem personagens do tipo Vanderlino - um verdadeiro faz tudo - que apresentou ao autor o seu amigo gaúcho, ladrão e arrombador. Graciliano descreve tudo com exatidão, com rigor excepcional. Negro é negro, sórdido é sórdido, feio é feio, horror é horror. Graciliano foi preso em 1936 por conta de seu envolvimento político com os comunistas da Intentona Comunista de 1935. Como toda revolução, golpe de estado e ditadura a acusação formal nunca chegou a ser feita. O autor descreve, entre outros fatos, a entrega de Olga Benário para a Gestapo, insinua as sessões de tortura aplicadas a Rodolfo Ghioldi e relata um encontro com Epifrânio Guilhermino, que matou um governista, durante a luta no Rio Grande do Norte. Uma passagem muito nojenta e asquerosa é a descrição das náuseas que lhe provocam a imundice das cadeias. Não é uma leitura agradável.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O volume 2 das Memórias do Carcere, trata dos capitulos: Colônia Correcional e Casa de Correção

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Domicio Fernandes, o chauffeur que viajara comigo no porão do Manaus, morreu à noite. De manhã, quando se varria o alojamento e os presos arejavam no curral de arame, o cadáver foi retirado, em cima de uma tábua. Vi de longe o embrulho fúnebre; não se percebia nenhuma parte do corpo; fora envolto provavelmente no cobertor ou na rede. Iam enterrá-lo assim. Virei-me, afastei-me daquilo. Apesar de viver numa espécie de anestesia, abalei-me, senti a morte avizinhar-se de mim. As dores no pé da barriga cresceram, a tosse me deu a certeza de que os pulmões se decompunham. Iriam levar-me qualquer dia enrolado no lençol tinto, vermelho de hemoptises. Era coisa prevista, imaginada sempre, mas o jeito de fazer o enterro, a mudança de uma criatura humana em pacote jogado fora sem quebra da rotina, expôs-me com horrível clareza a insignificância das nossas vidas. Não se indagava a causa da súbita desvalorização: bastava a. nossa presença ali para justificar o lento assassínio. Lembrei-me de Leal, desesperado, em busca de razões desnecessárias; talvez estivesse próximo o fim dos tormentos dele. Uma apresentação desviou-me um instante as idéias negras; em seguida concorreu para fortalecê-Ias. Um companheiro, a caminho das filas do trabalho, parou junto de mim, acompanhado por um sujeito moreno. - Você achou impossível o caso de Tiago, não acreditou. Pois Tiago é este, ele pode confirmar. E contou de novo a história, que me deixara incrédulo meses antes, no Pavilhão dos Primários. Tiago servia na marinha inglesa, muitos anos viajara em linhas do Pacífico. Um dia tivera o pensamento infeliz de se dirigir à América e saltara no Brasil, depois de longa ausência. Levado pelo amor, encaminhara-se ao Mangue. De volta, chamara um táxi. E ao saltar no cais do porto, ouvira a escorchante exigência da patifaria nacional: cem mil-réis pela corrida, um furto. - "Você está maluco, protestava Tiago. Pensa que sou gringo? Nasci no Rio, tenho isto de cor. Tome vinte mil réis, que é muito, e guarde o troco." Berros do chauffeur: - "Ladrão, comunista." Apitos, rolo, gritos, homens de farda, Tiago no embrulho. O chão molhado, a esteira, pulgas, percevejos, afinal o interrogatório. - "Que anda fazendo aqui? perguntara um delegado. Qual é a sua missão?" Tiago não tinha missão nenhuma: era marinheiro na Inglaterra e conhecia Java e Singapura. Brasileiro, tivera saudade, revira a pátria e fora ao Mangue. Apenas. Queria regressar ao navio, falar inglês, viajar novamente no Pacífico. - "Está bem, está bem, resolvera o delegado. Você fica. Não é bom que esse negócio seja contado lá fora. Você fica." - "Doutor, afirmara Tiago, prometo não dizer uma palavra, esquecer-me do Brasil. Se me aparecer numa rua a nossa bandeira ou estiverem tocando ali o Hino Nacional, torço caminho, volto, passo longe. E deixo de falar português." Essa promessa de nada servira. Tiago virara comunista, perdera o lugar no paquete - e, de cabeça rapada, vestindo zebra, carregava tijolos na Colônia Correcional. Grave, a testa enrugada, escutava a narração e movia a cabeça aprovando em silêncio. Era aquilo. Se a bóia nojenta, os piolhos, os mosquitos, decidissem matá-lo, Tiago sairia do galpão como Domício Fernandes, em cima de uma tábua, envolto num lençol. A história incrível me importunou o dia inteiro. De regresso ao alojamento, pus-me a remoê-la contra vontade; meses atrás parecera-me invencionice, e este juízo ainda persistia, apesar da confiquração do protagonista: recusava-me a admitir que ele não houvesse omitido qualquer coisa. É horrível estarmos a remexer um fato incompreensível. A minha prisão era justa, na opinião de Leal. Pois não passara a vida inteira a encher-me de letras radicais, a procurar sarna para me coçar? Refletindo, achei a situação dele explicável também. A dele e a do beato José Inácio, que a bordo se zangara comigo, rosnara exibindo o rosário de contas brancas e azuis no peito veloso: - "Quando nós fizermos a nossa revolução, ateus como o senhor serão fuzilados." Certamente era ridículo perseguir essas criaturas. Mas podíamos conjeturar vinganças, denúncias de inimigos ocultos, a canalhice de um chefe empenhado em suprimir eleitores da oposição. Tiago não tinha inimigos no Brasil, não votava, ninguém lhe ambicionava o emprego ordinário na frota mercante inglesa. A absurda acusação de um patife burlado fora suficiente para inutilizá-lo. Era inacreditável. Não me fazia mossa o ato injusto; afligia-me ser impossível imaginar uma razão para ele. Disparate. Convencia-me disto - e continuava a esforçar-me para achar qualquer vantagem na imensa estupidez. Uma apenas me ocorreu, já muito repetida. O governo se corrompera em demasia; para agüentar-se precisava simular conjuras, grandes perigos, salvar o país enchendo as cadeias. Mas as criaturas suspeitas e os homens comprometidos na Escola de Aviação, no 3.° Regimento, na revolução de Natal eram escassos, não davam para justificar medidas de exceção e arrocho, o temor público necessário à ditadura. Assim, prendia-se um viajante alheio aos sucessos do Brasil. Os jornais aplaudiam. Na publicidade rumorosa, Tiago reunia-se aos outros, vago conspirador anônimo. Os tipos juntos ali com esse intuito safado não tinham sossego, viviam numa indignação permanente, e alguns ainda esperavam reabilitar-se na polícia; declaravam-se vítimas de engano. O espanto do velho Eusébio, os sustos, as tremuras, permaneciam; na cara arrepiada estampavam-se o sorriso inquieto e mofino; a voz esmorecia a gemer desculpas: - "Ah!!" Respeito imenso à propriedade e aos evangelhos. Pessoa de consideração: - "An!" Esse encolhimento e essas evasivas contrastavam com a energia de Claudino, de Aleixo, de Francisco Chaves, os três negros ocupados sempre em conciliábulos no fim do galpão. Admirava-me a serenidade, a frieza de Aristóteles Moura, conhecido meses antes no Pavilhão dos Primários. Nunca lhe notei uma queixa, um gesto áspero. Nenhuma ferida nos melindres de pequeno-burguês aviltado na piolheira social. Não se aproximava nem se afastava dos vagabundos; mantinha-se mais ou menos distante, nada o contagiava. Subia pelos pés de uma das camas unidas que formavam longo estrado junto à parede, recolhia-se, tomava um livro. Se alguém lhe falava, interrompia a leitura, respondia calmo, paciente, em poucas palavras, a voz monótona, e findava: - "É só." Depois abria o livro. Também me surpreendia o comportamento de Alvaro Ventura, meu parceiro de poker no cubículo 35 do Pavilhão. Naquele tempo não revelava de nenhum modo se perdia ou se ganhava; nunca vi tanta serenidade no jogo. Enquanto Sebastião Hora, um médico, se excedia, golpeava a mala que nos servia de mesa, Ventura, simples estivador, largava as fichas tranqüilo, indiferente. Agora, de volta do trabalho, suado, coberto de pó vermelho, parecia ainda estar sentado na cama, em frente a mim, exibindo as cartas, despojando-se das fichas de papelão. Viera na primeira leva, demorava-se muito, e era como se não se ressentisse do tratamento. Vinha-me a impressão de que ele se julgava metido numa espécie de jogo e aceitava os riscos sem se alterar: as perdas estavam previstas. Alguns indivíduos tinham maneiras insensatas, davam mostra de querer prejudicar-se. Uma noite, na revista, dois rapazes da marinha entraram a discutir, azedos, acabaram atracando-se. - Desgraçados! exclamou Cubano intervindo e aplicando aos contendores meia dúzia de safanões. Vocês estão doidos? - Que foi? gritou da porta o guarda. - Nada não, respondeu Cubano. Ficou um minuto a resmungar conselhos enérgicos, afastou-se. Os marinheiros voltaram à discussão e pegaram-se de novo. Aí o guarda aproximou-se e levou-os. A chave tilintou na fechadura, a grade se abriu, desapareceram. - Veja o senhor, disse-me Cubano mais tarde. Fiz o que pude para salvar aqueles. infelizes. Não me ouviram, estão na cela. Iam dormir no chão, descobertos, e o alimento seria reduzido. Perdia-se a estranha benevolência de Cubano, expressa em murros. Pior talvez que a cela foi o castigo humilhante aplicado a Baptista, o português hábil no canto de galo, conhecedor de algumas frases mil vezes berradas para chatear-nos: - "Por causa de uma aventura galante..." Já não podia expandir-se desse jeito: o período irritante e o cocorocó tinham desaparecido. Um dia o obrigaram a ficar muitas horas de pé num canto, os braços cruzados, o rosto junto ao muro. Na sujeição ridícula, a natureza do homem se revelava em patadas leves, o protesto de menino teimoso. Um curioso monólogo afastou-me dali certa manhã, levou-me de chofre ao sertão do nordeste. Achava-me deitado numa esteira. Súbito uma voz sobressaiu no zumbido confuso da multidão, e espantei-me de reconhecer a personagem que falava, poucas vezes percebida na semana de pesadelo gramada no porão do Manaus. Lembrei-me do nome e do tipo: era João Francisco Gregório, caboclo robusto, desconfiado, o sujeito mais inocente do mundo, na aparência. A fala cantada e lenta sussurrava perto; não me era possível distinguir a figura, mas vinha-me desejo de rir ao encontrar de novo, na pachorra e no tom, a ingenuidade manhosa da minha gente. - Moço, dizia João Francisco, eu não entendo isso que o senhor está dizendo não. Sou da família e da igreja, devoto de São Francisco, não quero saber de barulho. Nem penso em revolução, Deus me livre. Quando me soltarem, caio no trabalho e nas orações; foi nisto que me criei. Calou-se. O intruso se havia afastado. Ergui-me, vi a criatura mordendo um sorriso astuto. - Nas orações, hem, seu João Francisco? murmurei. O vigoroso caboclo examinou os arredores: - Tinha graça, na minha idade, eu me abrir com esse provocador. É a terceira vez que me vem com histórias, sem me conhecer. Sei lá donde ele saiu? E não gosto de conversas. Guardou silêncio um minuto, olhou-me de soslaio, continuou: - Preciso agüentar-me aqui. Tão cedo não me largam, fico de molho, sem dúvida. Um dia volto para a minha terra e entro num bando, vou matar soldado na guerrilha. É o que interessa, as discussões não servem para nada. Estamos no meio de espiões; fecho a boca e me livro deles. O senhor não resiste um mês: com certeza morre de fome. Eu posso viver aqui alguns anos, estou acostumado a passar miséria. Depois eles me botam na rua. Aqui eu não dou armas à polícia. Lá fora, quando chegar o momento de pegar no pau furado, entro na dança. Agradeci interiormente esse desabafo, estranho em pessoa que pouco antes se mostrara simulada e cautelosa. A paciência enorme, a saúde firme de mandacaru em tempo de seca e o plano realizável em futuro remoto fizeram-me esquecer um instante as chagas medonhas envoltas em algodão negro, a tosse dos tuberculosos, o ferrão dos piolhos e dos mosquitos, o embrulho fúnebre saído para o cemitério, numa tábua. João Francisco não teria o fim do pobre Domício Femandes. Queria viver e matar soldados.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

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