carregando

Aguarde por gentileza.
Isso pode levar alguns segundos...

 

Ressaibo

Para usar as funcionalidades você precisa estar logado(a). Clique aqui para logar
Erro ao processar sua requisição, tente novamente em alguns minutos.
Ressaibo

Livro Ótimo - 1 comentário

  • Leram
    1
  • Vão ler
    1
  • Abandonaram
    0
  • Recomendam
    0

Autor: Erika Mattos da Veiga  

Editora: Sette Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 205

Ano de edição: 2007

Peso: 320 g

Avalie e comente
  • lido
  • lendo
  • re-lendo
  • recomendar

 

Ótimo
Marcio Mafra
03/05/2009 às 14:26
Brasília - DF

Ressaibo é livro fácil de ler, mas é um livro estreito. A autora diz que o escreveu em África. História que não é mágica, misteriosa nem romântica como as coisas africanas, pode ter sido imaginada, arquitetada ou concatenada lá, mas escrita, jamais. Pelo contrário, a narrativa parece que se passa numa cidade do sudoeste brasileiro, numa cidade de tamanho médio, beirando o litoral, dessas onde ainda há resquício, senão do coronelismo, mas de forças dominadoras do capital local. É isso o que se sente na postura, comportamento, mesquinhez e vileza dos personagens. Coisa bem contemporânea. Mas nada disso empana o brilho e o talento da autora. Numa linguagem rascante, quase áspera ela vai desnudando os personagens, que desde o início se mostram repulsivos, tanto fisica como moralmente. Já os ambientes em que se desenvolvem as ações desses mesmos personagens são divididos - temporalmente - em quinze partes desiguais, porém, como na aritmética, são frações que indicam em quantas partes o todo foi dividido, para finalizar a história que, se não surpreende, também não resvala pelo óbvio. Ressaibo, como o seu título induz, não é adocicado. Mas a narração poderia ser menos detalhista que nenhum prejuízo traria à história.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de uma família - ou arremedo de - mesquinha, raivosa e infeliz.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Fugindo do inevitável encontro consigo mesma, entrou em qualquer lugar onde lhe cortassem o cabelo. Queria, terminada esta vida que a consumira por quase três anos, um novo corte. Mais curto, mais volumoso, foram as suas exigências. Talvez não tão curto, foi a conclusão a que chegara, de frente para o resultado refletido no espelho. Nada, no entanto, que o tempo não reparasse em quatro ou cinco semanas de intensa engenharia celular. Pagou e retomou à calçada onde a tarde caía. Levou, então, seu novo corte de cabelo ao cinema. Achava que tinha direito a mais esta extravagância. O filme havia começado fazia treze minutos, avisou a mocinha da cabine. Comprou os bilhetes mesmo assim, encomendou pipoca, que é uma outra forma de milho, servida sem palha verde. Sentou-se no fundo da sala vazia, descansou a bolsa na poltrona ao lado e não prestou atenção ao suspense do filme, enquanto comia pipoca e chupava a ponta do dedo latejante. Já era noite quando deixou o cinema. Malditos elevadores, sempre parados longe do local onde os esperamos: subiu pela escada, o que era um bom exercício no final das contas. Em frente à porta fechada, procurava pelas chaves. No fundo da bolsa, apenas o chaveiro embrulhado no guardanapo cheiroso de maçã. Merda. Livros, caderneta de telefone, moedas rolando em todas as direções, carteira, escova de cabelo e, por Último, embaixo de tudo, as chaves. Impaciente, recolheu tudo de volta ao interior da bolsa. Duas voltas da chave destrancaram a porta, um chute trouxe a bolsa para dentro do retângulo da sala. Tropeçando nas alças de pano, trancou-se. No banheiro escancarado, fez xixi. Lembrou-se que disseram em uma festa de aniversário dos moderninhos da faculdade que um homem só estaria verdadeiramente livre se, sozinho em casa, utilizasse o banheiro para as suas mais sórdidas atividades mantendo, sem culpa ou remorso, a porta escancarada. Limitou-se a sorrir desconcertada, lembrando-se de que em sua vida defecar de porta aberta fora um aprendizado contingencial. Morara por cerca de dois anos nos fundos de um quintal escuro, a cujo quarto, abrasador no verão, frigidíssimo no inverno, geminava-se o banheiro improvisado desprovido de porta ou tapume que garantisse privacidade a seres gregários, como ela, subjugados pelo controle externo da moral dominante. Mastigando um pedaço de bolo em frente à geladeira vazia, dominou-a o ódio pelos ditos intelectuais para quem cagar de porta aberta significa experimentalismo libertário. Embora não precisasse acordar cedo na manhã seguinte, decidiu que dormiria logo, precisava parar de pensar. Em frente ao espelho, analisou friamente o novo corte de cabelo. Certo era que não gostara, tinha o rosto redondo, impraticável para uma franja tão espessa. Além disso, as mechas mais claras do cabelo não estavam mais lá, talvez finalmente houvesse deixado a categoria louro-escuro para integrar as numerosas fileiras de mulheres cujos cabelos se convencionou chamar castanho-claros. A rigor, concluiu de si para si mesma, os cabelos, que tinham sido louros, agora eram dourados. E eram pesados, com fios muito lisos e fortes. Bom cabelo pra quem gostava de inventar nós presos por canetas cravadas no topo da cabeça. Frustravam-na as sobrancelhas: sempre teve vontade de que fossem mais espessas. Se ao menos soubesse disfarçar as falhas usando lápis preto, no camelô são tão baratinhos... Mas o faro é que o desenho nunca parecia real, substituía o par de sobrancelhas falhadas por dois riscos de carvão. O novo cabelo era apropriado para golas altas, mas golas altas estavam fora de qualquer cogitação. Odiava-as desde a infância. Um dia pediu à mãe que arrancasse rodas as golas de suas camisas. Continuaram as golas, mas, em retaliação, passou a lassear a malha de quaisquer adereços que lhe pousassem sobre a pele irritadiça do pescoço. Quieta em frente ao espelho pontilhado de erupções ferruginosas, lembrou-se de quando fora criança. Tinha sido uma criança velha, fechada no quarto, fugindo à alegria barulhenta no quintal. Era, portanto, por desdobramento natural, uma mulher nascida velha. Se houvesse algum outro estágio para além da velhice, seria ela esta outra coisa, se bem que dizem que velho, depois de velho, vira criança, ponderou, ao mesmo tempo em que lhe escapava um sorriso cheio de ridícula esperança de que um dia voltasse à sombra das árvores de sua infância. Pensando, lembrou-se de que fora uma criança bonita, cuja distensão dos traços resultara em semblante duro, vincado no topo do nariz, ali onde sobrancelhas menos rarefeitas do que a sua, não raro, se encontram. Não que o conjunto dos traços fosse realmente duro, era mesmo delicado, se analisado a partir da ponta afilada do nariz. E era exatamente por causa do nariz delicado que decidira trocar os óculos de grau por lentes de contato. A dureza dos aros, associada à espessura das lentes, confundiam-lhe a base do nariz, muito delgada no espaço entre os olhos. O que lhe desagradava nas lentes era o halo azulado em redor da íris. Afligia-lhe aquilo. Era feio, dava aos olhos uma aparência baça, desalmada. E justo com ela, cujos olhos sempre foram vibrantes, de negro excessivo, quase selvagem. Olhos selvagens acentuados por pestanas abundantes organizadas em longa fileira curvilínea não mereciam aquilo. Agradava-lhe a boca em repouso, desagradava-lhe o sorriso repleto de dentes quadrados, sempre iguais. Despiu-se sem olhar no espelho a barriga maciça, os seios corretos e o pescoço de pele vermelha, cuja textura diferia de todo o resto do corpo. Tinha pescoço de galinha, ouvia dizer os mais maldosos. Banhou-se, tomou iogurte em frente à televisão, dormiu mais ou menos quando os cabelos secaram. Acordou tarde no dia seguinte, e assim progressiva e sucessivamente, até o ponto em que trocou os dias pelas noites. Cresceram-lhe novamente os cabelos, e, mais de três meses depois, estava ela, noite insone estampada nos olhos baços de lente de contato, em frente àquela mulher malcheirosa, pequena na estatura, masculina na compleição. Não que detestasse aquela figura diante de si. Contudo, repugnavam-lhe as dimensões do corpo e a mobilidade esgarçada da boca. Observando-a falar, contraía os seus próprios lábios, aflita com a possibilidade de ver à outra arrebentarem os cantos e o contorno da boca. Embotada de insônia que estava, olhando-a direto nos lábios, pensava na ossatura dos dedos curtos. Naquela mulher algo estranho relacionado à densidade óssea evidenciava-se pela silhueta dos dedos. Inconsistente, não obstante abrutalhada: a oposição dos dois adjetivos sintetizava a visão incômoda daquele corpo disforme, vestindo camisa branca de botões, calças pretas, sapatos de salto alto, corrente de ouro sufocando o pescoço curto. "Adoro ser secretária, tenho verdadeira vocação". Porra, que conversa fiada é essa? Quem, diabos, é o tipo de pessoa capaz de acreditar que alguém no mundo possa, de verdade, gostar de ser secretária? Tenho certeza, gostar, ninguém gosta de trabalhar. Gostar, as pessoas gostam de sorvete de morango e cheiro de maracujá; a trabalhar a gente se acostuma, se conforma. Deformam-nos o caráter a fim de que aceitemos a necessidade de trabalhar. Eu, se pudesse, era à toa. Morava em casa no campo, abria as janelas todos os dias de manhã que era para o vento entrar, amarrava rede no tronco das árvores e ficava o dia todo lendo poesia. Não fazia mais nada, nem com gente ia querer falar. Ficava lá à toa no meio das folhas. Também comia pêra, que é melhor do que maçã, tomava sorvete de morango e cheirava o cheiro do maracujá. Calçar sapato de salto pra fazer entrevista de emprego é que eu não calçava.


Nenhuma informação foi cadastrada até o momento.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Rafael trabalhou quase 10 anos na Anvisa. Em setembro de 2007, uma bioquímica que também trabalhava lá e era sua amiga, convidou para um vernissage, num bar da Asa Norte, onde estava sendo lançado o seu livro: Ressaibo.

Bebemos vinho, compramos o Ressaibo onde a autora escreveu: "Ao Dr. Marcio, meu leitor mais ilustre. Beijos. Erika, BSB 20/set/07." Embora tenha achado que o livro tivesse cara de bom, saí de lá ressabiado, porque não saberia o que dizer, caso - inesperadamente - encontrasse a autora. Para meu sossego, nunca mais a encontrei.


 

Receber nossos informativos

Siga-nos:

Baixe nosso aplicativo

Livronautas
Copyright © 2011-2020
Todos os direitos reservados.