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A Regra do Jogo - Claudio Abramo

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A Regra do Jogo - Claudio Abramo

Livro Ótimo - 1 comentário

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Autor: Claudio Abramo  

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Jornalismo

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 277

Ano de edição: 2002

Peso: 410 g

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Ótimo
Marcio Mafra
20/09/2003 às 15:19
Brasília - DF

No jornalismo Cláudio Abramo era conhecido como o dono da ética. Marcou sua passagem pela Folha de S.Paulo e Estadão. Neste, onde segundo os estudantes de jornalismo, Abramo foi o responsável pela maior reforma estrutural que o jornal já passou, tanto na sua forma como no conteúdo. O livro, pela seleção de textos é também uma crítica aos empresários, donos de jornais. Na leitura da Regra do Jogo, constata-se o atrito ou choque, entre a inteligência e o talento do jornalista e o atavismo autocrático do dono do negócio, que usa a comunicação em favor de seu bolso. Neste livro, percebe-se quando o empresário manda - ainda que ninguém receba a ordem - escrever na salvaguarda única de seu interesse econômico, financeiro e político. O jornalista, com o seu talento, cumpre a ordem recebida de seu patrão, mas - quando tem coragem e descompromisso - deixa transparecer a sua contrariedade. No Regra do Jogo, este jogo é claro. Ao final se vê que o Cláudio Abramo foi um formador de gerações de profissionais do jornalismo. Muito bom, embora, por vezes, cansativo. Há quem diga que o Cláudio Abramo era um velho ranzinza, mas era um cara a frente de seu tempo, alguém que veio do futuro.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Depoimentos e artigos deixados pelo jornalista Cláudio Abramo, organizados por seu filho. História do jornalismo e de jornalistas. História política e de políticos.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Como todo jornalista é candidato a intelectual - embora não seja, jornalista é só o sujeito que trabalha em jornal -, abriga a ilusão de que tem poder. Mas, no jornal, o poder é do dono. Tenho uma coluna na Folha de S. Paulo e, porque escrevo ali, as pessoas pensam que sou um homem de prestígio. Mas se amanhã o dono resolver me colocar no olho da rua, tudo isso desaparece, porque o espaço é dele, e ele me paga para escrever ali. Tudo pode acabar com uma decisão dele. Mesmo assim o jornalista tem a impressão de que tem poder. Como as relações em jornais não são muito formais, o jornalista acaba achando que também é meio dono do jornal. Como tudo é muito subjetivo, como é possível saber quem é quem? Além do mais, o jornalista é imprevisível: um dia ele está aqui, depois é demitido; noutro dia ele é chefe, depois está desempregado e é convidado para fazer outro trabalho... No espírito da maioria dos donos de jornal há uma enorme confusão entre jornalistas e jornalistas. Vejo freqüentemente projetos de jornal fracassarem totalmente porque os donos convocam gente que não é talhada para fazer jornal. O jornal se divide basicamente em duas operações, e isso não vi nenhum professor de jornalismo explicar para os alunos. Numa indústria de calçados existem pessoas que escolhem o couro, outros que sabem comprar bem o couro, outros que o preparam e outros que o transformam em sapato. No jornal há basicamente duas operações; uma de entrada de notícias e materiais e outra de saída. São duas operações separadas. Comumente vejo os donos chamarem repórteres para fazer jornal. Isso ocorre sistematicamente, mas é difícil que um grande repórter saiba fazer jornal só porque trabalha bem na sua função de origem. Isso se dá da mesma forma com médicos brilhantes, que não sabem necessariamente dirigir um hospital. E, no caso do jornalismo, estamos tratando com uma profissão muito fluida, que nem as próprias pessoas envolvidas sabem direito o que é. A chefia de redação é muito complicada. A figura do antigo secretário de redação vai desaparecendo porque está se tornando cada vez mais difícil controlar sozinho toda à operação de um jornal de grande porte. Uma chefia de redação precisa saber dirigir as pessoas, e saber ter um projeto na cabeça não precisa ser escrito, mas deve ser um projeto inteligível para o interlocutor, que é o jornalista, e para o leitor. Hoje os secretários de redação não lêem mais as matérias do dia; só vão ler no dia seguinte, já publicadas. Fico chocado, porque se não se pode ler pelo menos as matérias mais importantes, então é impossível exercer essa função. Reclamo freqüentemente na Folha que às vezes dou um furo - o que, aliás, não é minha obrigação - e o jornal não nota. A desculpa é que não dá tempo de ler. A verdade é que os jornais estão muito complicados. Há muito chefe, subchefe, coordenador, complicando muito a operação. E isso acontece porque há a tendência de as pessoas aumentarem o número de profissionais e cargos abaixo de seu nível funcional, para terem a sensação de mais poder. No tempo em que dirigi a Folha não tinha sequer secretário nomeado. Não tinha nada definido na redação, e foi uma fase brilhante do jornal, pois eu fazia a operação com todo mundo. Se um dia a notícia importante era de esporte, eu fazia a notícia com o pessoal da editoria de Esportes. Se o mais importante era a política, o jornal era feito com o pessoal da Política. Assim todos estavam muito engajados no jornal, muito envolvidos na operação diária. Hoje em dia temos de conviver com estruturas gigantescas. Há um que lê, outro que edita, outro que fala, outro corrige, outro vê os erros... É uma complicação danada, cujo resultado objetivo não consigo ver. Os americanos estudaram muito o que era o new journalism. Mas a meu ver não chegaram a nenhuma conclusão extremamente esclarecedora, tanto que o estilo de jornalismo que todo mundo elogia hoje é o do USA Today, um jornal mefítico, todo cheio de coisinhas. Esse jornal tem uma boa receptividade porque acompanha muito a TV, isto é, passa por cima dos fatos; não ponho mais as mãos nele. As redações dos jornais brasileiros foram gradativamente se diversificando. Isso foi necessário porque o mundo se complicou muito desde que se começou a fazer jornal. A divisão das editorias por especialidades foi uma necessidade criada pela sofisticação da vida moderna. A seção de Educação, por exemplo, não existia nos jornais brasileiros até os anos 70. Havia, quando muito, colunas que davam noticiário sobre salário de professores e alguns cursos; sequer cobria a atividade estudantil. A modificação do mundo - o ciclo revolucionário semi-anarquista de 1968 - obrigou os jornais a criarem áreas específicas. Isso é inevitável. Mas a diversificação traz um prejuízo, porque os redatores e repórteres de certas áreas tendem a especializar-se demais para melhorar de nível e, em conseqüência, perdem a visão de conjunto. E, se o número de seções se multiplica demais, o número de editores cresce tanto que o jornal pode se tornar antieconômico. Acho que os jornais deveriam ser reconcebidos de outra maneira: com duas ou três grandes seções que teriam senior editors - seriam, grosso modo, as seções de Política, Economia e Exterior -, que ajudariam a cúpula a fazer o jornal O resto seriam junior editors, vinculando as áreas específicas a essas grandes seções. Digo isso sabendo que talvez esteja falando de um jornalismo que está acabando, ou falando coisas para uma elite que está desaparecendo. Quando comecei em jornal havia um problema fundamental, a precariedade dos meios. A imprensa tinha menos recursos técnicos do que hoje e os jornais eram todos mais pobres, feitos de maneira mais intuitiva, menos raciocinada do que agora - situação que só foi se modificar no fim dos anos 50, início dos 60. O secretário do jornal era importante, mas não tanto como ficou mais tarde. Hoje ele perdeu importância de novo. Não havia muito controle sobre a redação. Os jornais fechavam muito tarde, por volta das três da manhã. Quando comecei na secretaria-geral do Estado, foi um problema puxar o horário de fechamento das três da manhã para a meia-noite. Depois antecipamos para as onze. E não há nada que impeça o jornal de fechar às nove, porque não vai mesmo publicar o que as TVS dão nos jornais da noite. As grandes coberturas foram inauguradas no Brasil como exercício de eficácia jornalística. Eu fui muito responsável por isso, na década de 1950, no Estado, ao destacar dez ou quinze repórteres para cobrir um fato. A origem das coberturas maciças tem raízes na necessidade, não só dos jornais como de alguns jornalistas, entre os quais me incluo, de causar um certo impacto na opinião pública e também no meio profissional, mostrando grande eficácia e grande capacidade de planejamento. Essas coberturas não eram uma necessidade histórica, do ponto de vista de acuidade da informação. Elas foram uma necessidade histórica do ponto de vista da demonstração de força, tanto dos jornais quanto dos responsáveis por sua organização. Eram exercícios de prestígio. Só que, como os jornais brasileiros sofrem um rodízio muito grande de pessoas, de lideranças, de responsáveis, a origem da cobertura maciça se perdeu. Ninguém mais se lembra por que se fez dessa maneira. As primeiras coberturas maciças foram a da inauguração de Brasília, a da visita do presidente do Estados Unidos Dwight Eisenhower, a da visita do presidente português Craveiro Lopes, feitas pelo Estado. Depois, esse hábito da cobertura abrangente e de saturação foi passando de geração a geração. Ela exprime uma visão multifacetada do fato. São múltiplas visões de um acontecimento, mas falta talvez uma visão global, de uma pessoa só. Quando se vê algo por meio de vinte olhos diferentes, não há um olho que veja o conjunto. Nessas grandes coberturas, ninguém está preocupado em dar o quadro global. Quando o presidente Ernesto Geisel foi à Alemanha em 1978, os quatro grandes jornais brasileiros fizeram coberturas maciças. Mas cada repórter cobriu um detalhe e ninguém fez um relato global do verdadeiro sentido da viagem. A grande cobertura deixou, há muito, de ser uma manifestação de prestígio. Hoje, os quatro grandes jornais brasileiros fazem isso. É tudo igual. Já é hora de os responsáveis pelas redações reverem esse critério, porque se gasta muito dinheiro - é verdade que o dinheiro é do patrão -, mas não se obtém o resultado global. O leitor não fica satisfeito. A gigantesca reportagem que a revista Realidade fez sobre a Amazônia, no início dos anos 70, é um exemplo dramático desse tipo de cobertura. Mandaram não sei quantos repórteres para lá e o que acabou acontecendo? O repórter, por mais ampla que seja sua missão, está preso a sua condição humana. Não pode cobrir uma área de cinqüenta mil quilômetros quadrados. Ele cobre aquilo que acontece perto dele, e por mais que se desloque não pode cobrir, com a mesma eficácia, coisas que acontecem a dezenas, centenas ou milhares de quilômetros de distância. Com isso, a Realidade sobre a Amazônia (que é citada como exemplo de grande cobertura), se bem examinada, ao lado de alguma parte documental interessante mostra que os repórteres acabaram entrevistando um pescador, um remador, uma índia perdida no meio do mato; caíram naquilo que uma única pessoa poderia ter feito. Isso é típico, porque todos os repórteres acabaram entrevistando ou conversando com o sujeito que estava perto, o que é normal. Quando Israel invade o Líbano, a grande maioria dos relatos é feita de um bar de Metula, onde os jornalistas se reúnem. Estive nesse bar e conheci o dono, que se chama Muhammad. Lá há uns árabes, uns judeus, com que os jornalistas conversam e depois fazem suas matérias, bebendo uísque ou arak. Não adianta mandar trinta repórteres para aquela frente, porque eles vão dar o mesmo relato e não há relatos globais. Daí o repórter de campo estar sendo substituído pelo analista. Porque o analista soma todos os fatos, tudo o que lê e sabe, dá vinte telefonemas; e faz um relato mais objetivo do que o repórter que está em campo. Assim, a melhor cobertura feita no Brasil sobre o ataque norte-americano à Líbia, em 1987, foi feita pela TV Bandeirantes, porque eles contam com Newton Carlos, que sabe das coisas. Ele falou duas noites seguidas e explicou tudo, mostrando inclusive que os jornais estão desfalcados de pessoas competentes para cobrir certos assuntos. Evidentemente, a reportagem típica não prescinde do repórter. Se um prédio pega fogo, ele tem que estar lá para assistir e cooptar o que está acontecendo. Mas muitas vezes a grande reportagem é concluída, atinge o nível de grande reportagem e aí vem a intervenção do sujeito que nem esteve lá. Ele ouve o relato verbal dos que vão chegando da rua, observa a expressão das testemunhas. Lembro-me do incêndio do edifício Joelma, em São Paulo, em 1974. Eu estava afastado da redação da Folha, mas na última hora editei o jornal. Lembro que me impressionou muito a expressão dos repórteres que chegavam da rua. Estavam todos traumatizados. Sofri um impacto muito grande das expressões e até dos termos que usavam quando chegavam da rua. No fundo, uma reportagem assim, que exige um grande número de testemunhos necessariamente fragmentados (porque o todo é visto de ângulos diferentes), acaba sendo costurada na redação, o que .vem a ser uma negação da verdadeira reportagem, porque esse trabalho deveria ser feito por um sujeito que estava no local. O hábito da cobertura maciça acabou aniquilando o da reportagem individual, de uma pessoa que vai ver o fato. É evidente que ela não vai dar os detalhes, o que um bombeiro disse para o outro, as providências que o comando da polícia tomou, mas dá um retrato dramático do incêndio, por exemplo. A qualidade da reportagem se perde muito no seu fracionamento. Não acredito que a multiplicação dos textos melhore o nível da reportagem. Insisto em que é muito melhor escolher grandes repórteres para fazer matérias depressa e bem-feitas, sem muita mão-de-obra, sem muita elaboração posterior, do que apresentar uma massa de informações fragmentárias. Nos trinta anos em que fiz jornal, o secretário de redação tinha uma importância fundamental para o jornal porque não havia uma infra-estrutura tão gigantesca como a que os jornais têm hoje. No meu tempo havia o subsecretário para substituir o secretário e quebrar o galho, mas hoje as redações têm dois ou três secretários e mais uma infinidade de subsecretários, editores, subeditores, consultores... Isso significa perda de controle sobre o jornal. O secretário e o chefe de redação perdem o controle, porque ele passa a ser feito no dia seguinte. A desvantagem desse sistema é que se erra e no dia seguinte vem a sanção do chefe de redação, já como forma de punição. Isso não é maneira de trabalhar. Ninguém trabalha para ser punido no dia seguinte; e todo mundo comete erros, inclusive os chefes. Se eu fosse o diretor-geral dos quatro jornais brasileiros, mandaria todos os dias dez ou vinte cartas punitivas para cada um de seus chefes de redação, tantos são os erros que esses jornais contêm. Se as malas, dos computadores ou os automóveis tivessem embutido o número de erros que os jornais publicam diariamente, com certeza suas fábricas já teriam falido. Se no computador tivesse o número de falhas que tem um jornal diário, ninguém o compraria, porque não poderia funcionar. A operação só funciona bem quando todas as matérias são lidas antes de serem publicadas, e não depois. Isso era feito pelo secretário de redação: não saía coisa importante no jornal sem que ele lesse. Hoje os chefes de redação lêem uma ou outra matéria, especialmente aquelas ditas delicadas, que mexem com bancos ou com alguém. É por isso que os jornais de hoje não têm um impacto tão grande; suas manchetes são defasadas, ou fantasiosas, e freqüentemente são ilações que o sujeito que faz a primeira página tira do noticiário específico sobre um fato. Mas acredito que ainda se conseguirá um método operacionalmente mais perfeito, pois se trata de uma adaptação aos novos sistemas. Como hoje tudo é feito diretamente no computador, fica mais difícil uma leitura sistemática das matérias que serão publicadas. É necessário, portanto, adaptar a exigência de controle às novas técnicas, o que ainda não foi feito. Mas isso acaba sendo superado. Não há nenhuma razão para que os jornais de hoje sejam mais malfeitos do que eram antes. Pelo contrário. Antigamente fazíamos o jornal do dia e pensávamos no jornal o dia inteiro - pelo menos eu, Jânio de Freitas, Mino Carta, Alberto Dines, fazíamos assim. O jornal era um produto pensado e saía de um projeto global maior, feito de acordo com o dono do jornal. Tinha-se uma estratégia e uma tática, como em tudo na vida. Assim, posso ter uma linha conservadora ou radical de esquerda, mas o jornal tem um programa, um projeto. Esse projeto pode estar impresso, escrito, falado, entendido ou subentendido entre o chefe da redação, o dono do jornal e o pessoal da redação. O importante é torná-lo inteligível, porque é necessário que a redação entenda o que se quer fazer. Não adianta querer fazer coisas muito complicadas se a redação não entender o que se quer. Embora sempre tenha sido um chefe de redação muito autoritário, acostumei-me a fazer jornal conversando com meus companheiros. Sempre escolhi gente de personalidade muito marcada para trabalhar comigo, ao contrário do que se faz hoje, quando se procura gente neutra. Trabalhei com pessoas muito opinativas e difíceis, mas consegui administrar bem essas situações. O jornal não é algo que sai da cabeça de uma pessoa só, é um pouco o resultado de muito discutir. Eu tenho as idéias, as formulações gerais, e depois elas vão sendo adaptadas e maturadas nas discussões com os companheiros. Em tese, a receita é simples: faz-se um bom jornal, ele vende e tem-se anúncios. Mas é preciso uma gerência técnica e uma administração geral muito boas; esse é o problema básico da maioria dos jornais novos. Ainda nessa linha, o grande segredo da Folha de S. Paulo é que ela tem em seus proprietários pessoas de tino e competência na área administrativa e técnica; foi isso que manteve a Folha nos períodos em que era um jornal ruim, fraco. Mesmo agora, quando tem muito mais meios, grande parte de seu êxito se deve a uma política administrativa e técnica muito boa. O jornal precisa disso, é fundamental. Antigamente era necessário uma chefia de redação forte, que hoje não existe mais, porque os jornais são muito grandes. Nas novas estruturas tentou-se substituir os critérios pessoais de contratação por concursos ou escolhas colegiadas, mas não vejo um avanço muito grande com essa nova sistemática, tanto que não se conseguiu ainda melhorar as equipes de maneira sensível. Talvez o palpite de alguém, que perceba que o candidato é bom, com o qual tenha alguma afinidade e que em princípio se entrose mais com o projeto do jornal, seja tão válido quanto as fórmulas que estão sendo adotadas hoje. Toda atividade coletiva depende muito da pessoa que está a seu lado. Sempre ouvi muito as pessoas que trabalhavam comigo, a direção, os companheiros e os contínuos. No Estado eu conversava muito com um contínuo famoso que trabalhava comigo, o sr. Domingos. Era um português muito inteligente, que sabia das coisas. Também no meu tempo de Folha eu conversava muito com pessoas que não tinham cargos importantes, mas que eram ligadas à realidade e ao mundo exterior. O trabalho em jornal depende muito da troca de idéias, e sobretudo a redação tem de entender o que se quer. No último período em que dirigi a Folha, eu trabalhava com a redação inteira. Era um jornal muito orgânico, não havia nada definido e saía muito bem-feito. Foi nesse período que se chamou a atenção para a Folha, quando dei a grande virada do jornal. Uma redação não é uma repartição pública, um banco ou uma indústria, em que a ascensão se dá com um mínimo de fluidez. As lideranças nas redações são impostas muito rapidamente; ou elas se afirmam, ou são logo liquidadas. Toda pessoa que vai dirigir um jornal deve ter isso em mente; quer dizer, a população de um jornal é diferenciada, um pouco neurotizada pela própria profissão, pelas condições de trabalho. A ascendência do chefe sobre o subordinado deve basear-se essencialmente na autoridade que o subordinado vê nele. Essa autoridade não precisa, necessariamente, ser profissional, pode até ser moral, de comportamento. A meu ver, um dos erros mais dramáticos que vejo nas redações de muitos jornais é a imposição da vontade do chefe sobre o subordinado, só porque ele é o chefe e o outro subordinado. Ora, nunca vi nada mais fluido do que redação de jornal. As pessoas que são chefes hoje, amanhã não serão mais e aquele que era subordinado - por razões inteiramente estranhas à capacidade ou, às vezes, até por causa da capacidade - se torna um chefe. É uma ilusão pensar que o chefe da redação tem uma grande autoridade. Os jornais são áreas extremamente sensíveis, em que a autoridade do dono ou da cúpula é muito forte. É melhor que o chefe entenda isso, que na verdade ele é um delegado do dono do jornal, meramente um delegado. Se ele tiver um certo nível de liderança pessoal, se usufruir de certo respeito profissional ou moral, pode manter um diálogo com a redação que o ajude a cooptar suas posições. Não vejo nas redações brasileiras possibilidades de os redatores e editores imporem uma certa linha ao jornal. O líder de uma redação, se tiver sensibilidade, pode, no entanto, cooptar algumas dessas posições. Embora eu desse uma forte impressão de autoritarismo, sempre cooptei muitas coisas que eram dos redatores, dos repórteres e dos copidesques. A mera imposição da autoridade não é um bom caminho, não acredito nisso. Uma das características obrigatórias de um bom chefe de redação é possuir um projeto global do jornal na cabeça; deve ainda ter uma concepção ética do mundo. Assim, no trato diário com ele as pessoas ficam sabendo que tem uma visão ética do mundo e da humanidade e uma certa capacidade de transferir aquilo para o trabalho do dia-a-dia. Acho isso indispensável. Para funcionar bem, uma redação tem que sentir um certo respaldo moral, uma cobertura moral. E as pessoas devem estar certas de que seu desempenho profissional terá chance de estar exposto a uma apreciação desprovida de eventuais preconceitos. Antes de ser chefe fui um subalterno freqüentemente insubordinado. Sobrevivi porque dei certo muito cedo, e por isso o pessoal tolerava. Depois que fui chefe durante trinta anos, fiquei muito disciplinado. Por exemplo, na Folha, tenho de escrever 38 linhas diariamente, e escrevo 38 linhas exatas. Os outros escrevem quarenta, cinqüenta, e isso é irregular, para mim é insubordinação. O jornal cobra as insubordinações e faz bem em cobrar. Se o jornal determina que as matérias devem ser curtas e o sujeito insiste em escrever matérias compridas, ele é um insubordinado igual a quem reclama de uma ordem que recebeu. Depois de ter sido chefe tornei-me muito disciplinado e faço rigorosamente o que me pedem. Aliás, na Folha ninguém me pede nada; lá sou ignorado. Ao longo da minha vida profissional descobri que os membros do Partido Comunista são as pessoas mais fáceis de lidar. São os mais disciplinados e os mais racionais na ação diária e no trabalho. Faz-se um trato e eles cumprem, não brincam em serviço e não procuram forçar nada. Em todos esses anos de jornalismo nunca encontrei dificuldades com membros do pc; encontrei, sim, foi muito agitadorzinho imbecil de quinta categoria, esses tipos que gostam de aparecer porque não têm compromisso com nada. Já os militantes do PC são de um comportamento exemplar do ponto de vista do jornal. Para o meu gosto, acho até meio besta, mas para um jornal capitalista seu comportamento é exemplar. As sucursais de um jornal, por exemplo, não podem ter existência própria. Elas devem obedecer rigidamente à central da redação. Sucursais que produzem por conta própria não funcionam. Elas devem procurar levantar notícias para não serem furadas pelos concorrentes. Mas devem ser comandadas. É inadmissível que cheguem matérias que não foram pedidas pela central. Inclusive existem lobbies para forçar matérias. O jornal deve ser fruto de uma planificação geral prévia, feita na redação, e as sucursais devem refletir essa planificação. Até a criação de Brasília, os diretores das sucursais do Rio, então a capital do país, eram pessoas que viviam lá, pessoas eminentes. O diretor da sucursal do Estado no Rio era Rafael Corrêa de Oliveira, um homem com um passado histórico, um grande jornalista, que tinha uma biografia própria. Eram pessoas integradas no meio social e político das cidades em que trabalhavam. Por causa do status dessas pessoas, as relações da imprensa com os governos era diferente. Com a criação de Brasília, mandou-se gente de fora para lá, gente que não tinha status no meio, que estava se formando. Essas pessoas construíram seus status políticos e sociais através das posições que tinham nos jornais. E hoje todas as sucursais de Brasília estão muito distanciadas das redações, por causa desse fenômeno sócio-político. Quando acontece algum escândalo de acúmulo de empregos públicos de jornalistas de Brasília logo se põe uma pedra sobre o assunto, pois se verifica que uma quantidade enorme tem esses empregos. Muito dessa situação se deve ao regime político; num regime democrático o ministro dura quatro anos, se dura. O poder do presidente é limitado. A ditadura militar criou a corrupção maciça da imprensa, porque esses governos são duradouros, e o poder dos ministros é ilimitado. Não se sabe se o presidente ficará um, dois, três, dez ou quinze anos. Os ministros ficaram cada vez mais poderosos. Por isso a corrupção alcançou outro nível. E o Brasil enriqueceu muito, tem muito emprego, muito cargo, comissões. Quando o governo era no Rio havia muita mamata, mas que devia ser pinto perto do que acontece hoje. Não acho que todas as matérias do jornal devam ser assinadas. Não é porque um repórter fez a matéria que deve assiná-la. Essa idéia de todo mundo assinar corresponde aos interesses de política interna dos grupos dentro das redações. Se o editor quer prestigiar um repórter porque é amigo dele ou porque isso é importante no tabuleiro dos interesses da redação, ele assina sua matéria e não a de outro. Mas a matéria é do jornal. É verdade que a assinatura pode ser usada como estímulo. Uma direção de redação lúcida fará uma política de compensação, assinando uma ou outra matéria. A rigor, uma matéria deve ser assinada quando as suas qualidades são excepcionais ou quando contém um certo tipo de reflexo subjetivo. A contribuição do jornalista na feitura do jornal se dá mais como sugestão, de acordo com a experiência e a sensibilidade do sujeito. Como o pauteiro e a direção do jornal não têm o monopólio do conhecimento, é muito provável que numa redação de duzentas pessoas certos repórteres e redatores tenham conhecimentos que extrapolem a pauta. É um intercâmbio, mas é necessário que a direção da redação estabeleça essa liberdade de troca de informações com seus profissionais. A imposição violenta de qualquer norma faz o jornalista se retrair. Que eu saiba, esse negócio de discussão de pauta é coisa brasileira, em nenhum lugar do mundo se faz isso. Talvez na França. É uma coisa completamente cretina; ainda se produzisse grandes jóias... Mas pelo que vejo o resultado é pífio. A discussão é importante apenas quando se exige um trabalho mais específico, ou quando envolve uma pesquisa; nesse caso o chefe de redação ou o pauteiro conversam com o repórter. As longas discussões de pauta só servem para dar a impressão ao jornalista de que ele participa muito do processo do jornal. Hoje em dia as pautas são verdadeiros romances, coisa que acho desnecessária inclusive porque tira a iniciativa do repórter. Nos Estados Unidos, quando se dá uma incumbência a um repórter, não há aquela literatura insossa, idiota e vazia das pautas brasileiras, que são o modelo do mau gosto, exercícios colegiais. No Estado a pauta era um assignment sheet, como fazem os americanos. Não existia essa pauta elaborada, que é a morte do jornalismo brasileiro, só serve para o pauteiro fazer exercício de imaginação. Sempre impedi que essas pautas sofisticadas fossem feitas nos jornais em que trabalhei. Mas sempre que saio, elas são introduzidas de novo. A pauta deve dar só o assunto, o nome do repórter e o número de linhas que ele vai escrever - o básico. O editor planeja a edição sabendo que aquela matéria vem daquele tamanho. Não há nada numa pauta que não possa ser resumido em três ou quatro linhas. Mas também não acho que se deva racionalizar demais o trabalho jornalístico. A escolha da boa matéria, da boa opção de mandar o sujeito certo fazer a matéria certa, faz parte desse contexto de criatividade intelectual e artística do jornalismo. Na redação da Folha, por exemplo, eu sabia quem deveria fazer uma matéria ou outra. Às vezes, até mandava um sujeito que era muito bom numa coisa para cobrir outra diferente, para sentir como ele ia se comportar. Não acredito em normas. Não acredito que possa existir uma legislação previamente estabelecida para fazer um certo tipo de cobertura. Evidentemente, se vou cobrir a explosão de uma mina, devo mandar um homem que está ao menos um pouco familiarizado com o trabalho de uma mina. Ou se mando cobrir as negociações sobre um acordo nuclear, devo talvez mandar alguém que conheça um pouco da técnica envolvida, tanto nas negociações diplomáticas, quanto nos aspectos tecnológicos e científicos. Há uma parcela de conhecimento da capacidade do repórter ou do redator que recebe a incumbência, e um pouco de feeling, um pouco de insight, de criatividade do chefe. É uma mistura. Enfim, há muito de criatividade. É como o pintor que escolhe colocar azul em vez do vermelho num quadro. É claro que o resultado depende muito da garra, da vontade, do repórter. A impressão que tenho da maioria dos repórteres brasileiros é que eles vão fazer uma matéria, voltam e a defecam na mesa do editor. Trabalho em jornal há muito tempo, e mesmo as matérias que parecem ter sido feitas em cinco minutos são matérias sobre as quais trabalhei muito. Um repórter americano, francês, inglês, escreve duas, três, quatro vezes a sua matéria. Já cheguei a escrever a mesma matéria dez vezes, até ficar boa. Uma vez trabalhei 48 horas numa entrevista. Os repórteres não estão acostumados a trabalhar muito o texto. Não é a velocidade que está em jogo. Eles precisam saber produzir a matéria bem, lê-la e julgá-la. Para fazer jornal, há apenas algumas regras básicas: é necessário escrever na língua do país, de maneira compreensível, é preciso haver um horário para começar a trabalhar e para fechar a edição; o repórter não pode ser cego, o redator não pode ser paralítico das mãos. Fora isso, todas as tentativas de legislação, de estabelecimento de normas extremamente minuciosas acabam numa mediocridade terrível. O jornal, como todo produto de criatividade intelectual e artística, renova-se continuamente. O jornal vai revendo as coisas, refazendo-as; é um processo de auto crítica permanente, de releitura dele mesmo. Não acredito numa porção de normas que vão ao detalhe. As normas devem ser muito gerais, estabelecidas pelo bom senso. Passou daí, começam a limitar a criatividade dos redatores e repórteres; acaba-se na mediocridade, na planície, no deserto. Daí a necessidade de os jornais terem uma massa crítica de criadores. Não só o sujeito que bola bem uma matéria, ou que imagina uma pauta fantástica. Mas os homens capazes de fazer evoluções dentro do contexto do produto. São elementos de criatividade, de inspiração permanente. Um jornal que tem um número excessivo de normas está destinado, por opção própria, ao fracasso...."


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Durante a páscoa de 2003 eu e Gustavo viajamos para a praia de Barra do Una no litoral norte de São Paulo. Levei alguns livros e Gustavo outros. Na volta, trouxe os meus e os dele.


 

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