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As Mulheres do Meu Pai

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As Mulheres do Meu Pai

Livro Ruim - 1 comentário

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Autor: José Eduardo Agualusa  

Editora: Lingua Geral

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 550

Ano de edição: 2007

Peso: 550 g

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Ruim
Marcio Mafra
20/01/2008 às 20:53
Brasília - DF

As mulheres de meu pai é um livro muito festejado pela crítica. Provavelmente sua grande presença na mídia acontece porque o autor também é editor. Tudo na vida, até na literatura é..... Grana!!! Além disso, o Agualusa vive no Rio de Janeiro. Portanto, conhece os canais de divulgação. De fato ele tem prêmios literários em Portugal e um na Inglaterra, mas não é nada que abale as fundações da Academia Brasileira de Letras, ou a Academia Francesa de Literatura. O livro, além de chato não tem nada de original, porque todo mundo já escreveu contando viagem, tanto em forma de diário, como em forma de imaginação, no caso de viagens lisérgicas. O livro de viagem mais famoso é o "Pé na Estrada” (On The Road) do Jack Keroack. Também é o mais imitado, na forma, no espírito e no conteúdo. Não que o Agualusa seja um imitador barato. Longe disso. No caso de As Mulheres de Meu Pai, parece que o autor teve um ataque de falta de imaginação, ou fraqueza de talento. Livro para ser bom precisa, além do talento do autor, que a história seja boa. A história descreve uma viagem de um grupo de personagens pelo sul do continente africano, saindo de Angola com destino a Moçambique. Uma mulher, seu namorado, um motorista e um amigo, repetem o itinerário do cara que ao morrer deixou mais de 18 filhos. Não é um romance convencional. A linguagem adotada pelo autor, embora escrito em português, enche o saco pelo excesso de palavras do africanês, ainda que qualquer brasileiro, pouco além de alfabetizado, tenha condições de entendê-las. Só que este recurso literário além de pernóstico e dispensável, porque acaba parecendo uma falsa erudição. Seria o mesmo que um escritor americano, usasse um monte de palavras em inglês, num livro traduzido para o português. Com isso perdeu bastante da originalidade e do peso das tradições culturais e até do vigor das mulheres citadas no romance. Por outro lado, existem também muitas frases de efeito no livro, como se fora um verniz de sabedoria popular.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história da viagem de um grupo de personagens pelo sul da África, desde Angola até Moçambique. Uma mulher, seu namorado, um motorista e um amigo, repetem o itinerário de famoso compositor angolano que, ao morrer, deixou sete viúvas e 18 filhos.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Oncócua, Sul de Angola. Domingo, 6 de Novembro de 2005 Acordei suspenso numa luz oblíqua. Sonhava com Laurentina. Ela conversava com o pai, o qual, vá-se lá saber porquê, tinha a cara do Nelson Mandela. Era o Nelson Mandela, e era o pai dela, e no meu sonho tudo isso parecia absolutamente natural. Estavam sentados ao redor duma mesa de madeira escura, numa cozinha idêntica em tudo à do meu apartamento na Lapa, em Lisboa. Sonhei também com uma frase. Acontece-me freqüentemente. Eis a frase: – De quantas verdades se faz uma mentira? A luz, filtrada primeiro por uma rede muito fina, presa à janela, e uma outra vez pelo mosquiteiro, a envolver a cama, deslizava puríssima, numa torrente incrédula, contaminando a realidade com a sua própria descrença. Virei a cabeça e dei com o rosto de Karen. Dormia. A dormir Karen volta a ser jovem, como suponho que era antes da doença (da maldição). Estamos em Oncócua, num pequeno posto médico gerido por uma organização não governamental alemã. Oncócua, como tantas outras vilas de Angola, foi desenhada com largas avenidas, para ser no futuro uma grande cidade. O futuro, todavia, atrasou-se. Talvez nunca chegue. Levantei-me com cuidado e espreitei pela janela. Uma enorme montanha, com o formato de um cone perfeito, flutuava no horizonte. Duas mulheres mucubais avançavam sem ruído. A mulher mais alta não devia ter mais de dezasseis anos, cintura estreita, pulseiras coloridas nos finos pulsos dourados; lembrei-me, ao vê-la, de um verso de Ruy Duarte de Carvalho – os seios: frágeis acúleos na placa do peito. Ruy Duarte escreveu belos versos sobre os seios das meninas mucubais. Compreendo-o bem. Se eu fosse poeta não teria outro tema. A segunda mulher cobria o tronco com um pano verde e amarelo. Mancava um pouco. – São bonitas, não são?... Karen estava sentada na cama, o cabelo castanho em desalinho. Disse-lhe: – Sonhei com a Laurentina... – A sério? Isso é bom. As personagens começam a existir no momento em que nos aparecem em sonhos. – No meu sonho ela era indiana. Uma rapariga de cabelo liso, olhos grandes, pele muito escura. – Não pode ser. Talvez meio indiana, não te esqueças que o pai é português... – O pai?! Qual deles?... – Boa pergunta. O Faustino Manso era luandense, mulato ou negro. O que a adaptou era português, e o biológico... – Não pensámos nisso... – Tens razão, não pensamos nisso. Quem diabo era o verdadeiro pai de Laurentina?... (Mentiras primordiais). Fecho os olhos e no mesmo instante regresso à tarde em que a minha mãe morreu. O meu pai recebeu-me à porta do quarto: – Ela está muito agitada. – Murmurou. – tenta acalmá-la. Entrei. Vi-lhe os olhos acessos na penumbra: – Filha! Colocou-me na mão um envelope: – Chamam-me. Tenho de ir. Isto é para ti, Laurentina. Perdoa-me... Não voltou a falar. Mais tarde apareceu Mandume. Lembro-me de o ver ajoelhado aos pés da cama, segurando a mão da minha mãe. O meu pai, em pé, de costas para nós. O meu pai, ou melhor, o homem que até àquela tarde eu acreditava que fosse o meu pai. Está agora sentado diante de mim. Tem um rosto seco, anguloso, com as maçãs do rosto salientes. A cabeleira é farta, grisalha, penteada para trás. Deve ter ensaiado a pergunta noites a fio na solidão do seu quarto de viúvo: – De quantas verdades se faz uma mentira? Fica calado um momento, o olhar perdido em algum ponto atrás de mim, depois acrescenta com ênfase: – Muitas, Laurentina, muitas! Uma mentira, para que funcione, há-de ser composta por muitas verdades. Olhos brilhantes, húmidos. Sorri tristemente: – Era uma boa mentira, a nossa, uma mentira composta por muitas verdades, e todas elas felizes. Por exemplo, o amor que Doroteia tinha por ti era realmente um amor de mãe. Tu sabes disso, não sabes? Olho-o atordoada. Levanto-me e vou até à janela. Posso ver dali o pátio iluminado pelo sol. A figueira que salvei, há anos, tirando-a de uma pequena jarra quebrada, numa lixeira, e plantando-a num enorme vaso de barro, está a dar-se bem junto à enorme chaminé em tijolo que divide o pátio. Cresceu muito, e muito torta, como é próprio da natureza das figueiras. A buganvília, ao fundo, já perdeu todas as flores. Janeiro declina. Um mês mau para se morrer, mesmo em Lisboa, onde até no inverno surgem com frequência, desgarrados e sonolentos, como papoilas dispersas num campo de trigo, dois ou três esplêndidos dias de verão. O meu pai teria gostado que eu fosse um rapaz. Até aos doze anos, ignorando os protestos da minha mãe, comprava-me calções, e boinas, e jogava à bola comigo. Temos uma ligação muito forte. Tivemos sempre. – A Ilha, papá, como é o tempo em Moçambique, nesta época? A pergunta não o surpreende. Julgo que se sente aliviado por poder mudar de assunto. Suspira. Em Janeiro, diz, costuma fazer muito calor na Ilha. O mar é de um verde luminoso, a água quente, filha, chega aos trinta e cinco graus, uma sopa de esmeraldas. Tira uma moeda do bolso, lembras-te?, eu lembro-me, claro. Seguro na moeda. Vinte reis. Está muito gasta, mas ainda assim consigo ler a data sem dificuldade: 1824. O meu pai encontrou a moeda numa praia da Ilha, no primeiro dia em que lá chegou, o mesmo em que conheceu a minha mãe. Doroteia fazia quinze anos, Dário quarenta e nove. Foi, portanto, a 18 de Dezembro de 1973. Nasci dois anos depois. Penso nisto, no meu nascimento, e uma revolta súbita toma conta de mim. Tenho consciência de que a minha voz se torna mais aguda e de que estou a ponto de chorar. Não quero chorar. Choro muito. Choro no cinema, nos casamentos, choro a ler qualquer coisa, eu sei lá, “O Amor nos tempos da Cólera”. Comovem-me os desastres de amor dos outros, ou as alegrias de amor dos outros, mas não me lembro de ter chorado alguma vez em razão dos meus próprios desaires. – Estou aqui a tentar compreender como é que vocês foram capazes de me esconder uma coisa dessas durante tantos anos! Podes explicar-me?... Dário encolhe-se como um rapazinho. No meu escritório, presa a uma das paredes, há uma fotografia emoldurada de Nelson Mandela, e outra, logo ao lado, do meu pai. A semelhança entre os dois, não obstante a diferença de raças, impressiona as pessoas. – Conversei muitas vezes com a tua mãe acerca do teu nascimento. Eu queria dizer-te, mas Doroteia não me deixava. Há verdades, argumentava ela, que mentem mais do que qualquer mentira. A tua mãe, a tua mãe biológica, não quis ficar contigo. Era uma menina de quinze anos, filha de um dos homens mais ricos da Ilha, um comerciante indiano. Apaixonou-se por um músico angolano que passou por lá, vindo de Quelimane, e engravidou. Entretanto o homem foi-se embora. Voltou para Luanda, tanto quanto sei, e a rapariga enlouqueceu de dor. Deixou de se alimentar. O pai quis matá-la, ao descobrir que ela estava grávida, quis expulsá-la de casa, uma loucura, mas a mãe impôs-se. O pai esperava que ela morresse no parto. Ela e a criança. Achava que assim seria melhor para todos. – Lembras-te do nome do tal músico? – Lembro, Lau, é claro que lembro. Também me lembro do nome da menina, era uma menina ainda, a tua mãe biológica: Alima. O músico, esse, toda a gente o conhecia. Foi uma figura muito popular naquela época... – Popular como? – Popular, filha, como se é popular! Tinha gravado vários discos, singles, e as canções dele passavam bastante nas rádios. Era um homem distinto, elegante, lembro-me de o ver sempre muito bem vestido. Um tipo negro, talvez mulato escuro, vestido com um fato de linho branco, o lenço espreitando no bolso do casaco, no lado do coração. Ah, importante, o sapatinho bicolor e, na cabeça, sempre bem erguida, um belo chapéu panamá... – Como se chamava? – Faustino. Faustino Manso. Uma figura, o Faustino Manso. (Carta de Doroteia para Laurentina). Querida filha, Hei-de chamar-te filha até ao fim. Há algo que tens de saber, e quero que o saibas através de mim, porque se o não soubeste antes foi por minha culpa, porque me faltou a coragem. Não vieste do meu ventre. No mesmo dia em que nasceste eu perdi uma menina. No quarto onde estava, numa clínica modesta, na Ilha de Moçambique, outra mulher deu à luz. O parto correu mal e ela não sobreviveu. Os pais dessa mulher perguntaram-me se queria ficar com a criança – e eu disse que sim. A partir do instante em que olhei para ti amei-te como a uma filha autêntica. Era isto que te queria dizer. Perdoa-me não o ter dito antes. Ajuda o teu pai. É ele quem me preocupa. Dário não sabe viver sozinho. Tivemos as nossas zangas. Penso que fui, muitas vezes, demasiado áspera para com ele. Mas amo-o muito, compreendes?, foi o único homem da minha vida. Sempre me custou a aceitar que tivesse amado outras mulheres antes de mim. Pior – enquanto estava comigo. Mas são assim os homens. Foste o melhor que a vida me deu. A tua mãe, Doroteia (Pecado é não amar). Infeliz coincidência. Não sei como lhe chamar. Faustino Manso, o meu pai, morreu ontem à tarde. Comprei no aeroporto, ao desembarcar, o Jornal de Angola. A notícia, breve, seca, vem na página de cultura: "Morreu o Seripipi Viajante – Faustino Manso, 81 anos, faleceu na madrugada de ontem, na Clínica Sagrada Esperança, Ilha de Luanda, após prolongada doença. Manso, a quem os seus admiradores chamavam o Seripipi Viajante, foi um músico muito popular durante os anos sessenta e setenta, não apenas em Angola, mas em toda a África Austral. Viveu em diversas cidades angolanas, e também em Cape Town, África do Sul, e em Maputo, então Lourenço Marques. Regressou a Luanda, de onde era natural, em 1975, logo após a independência. Foi durante muitos anos funcionário do Instituto Nacional do Livro e do Disco. Deixou viúva, a senhora Anacleta Correia da Silva Manso, além de três filhos e doze netos". As páginas da necrologia são mais eloquentes. Quatro anúncios trazem o nome de Faustino Manso. O primeiro é assinado por Anacleta Correia da Silva Manso. É o maior. A fotografia é também um pouco maior e mais recente. Reza assim: "Partiste sem um último adeus, marido, apagou-se o sol na minha vida. Calou-se a voz magnífica, quem agora cantará para mim enquanto eu bordo? Enganaste-me, prometeste-me que ficarias comigo até que chegasse o fim, e que me darias a mão para que eu não sentisse medo. Medo é o que sinto agora. No fim voltaste a deixar-me, e é tão longa a viagem. Não sei se conseguirei perdoar-te". O segundo é assinado pelos três filhos, N'Gola, Francisca (Cuca) e João (Johnny). A fotografia mostra Faustino Manso abraçado a uma guitarra. "Querido pai, conhecemo-nos tarde, mas não, felizmente, demasiado tarde. Partiste, mas deixaste-nos as tuas canções. Hoje cantamos contigo: Nenhum caminho tem fim / longe do teu abraço". O terceiro e o quarto anúncios apanharam-me de surpresa. Sentei-me, aturdida, sobre a minha mala. Pedi a Mandume que me fosse comprar uma garrafa de água. Acho que só então me dei conta do calor. Ascendia do chão, húmido e denso, colava-se à pele, enrolava-se no cabelo, e era ácido como o hálito dos velhos. Uma tal Fatita de Matos, em Benguela, assina o único anúncio sem fotografia. O texto é curto, mas explícito: "Pecado é não amar. Pecado maior é não amar até ao fim do amor. Não me arrependo de nada, Tino, meu seripipi. Repousa em paz". No último anúncio, o meu pai posa para a posteridade, no vigor dos seus trinta anos, sentado à mesa de um bar. Diante dele tem uma garrafa de cerveja. Distingue-se o rótulo: Cuca. Enquanto escrevo estas notas também eu bebo uma Cuca. É boa, muito leve e fresca. Releio o texto: "Pai querido, abraça a mãe quando a encontrares. Leopoldina esperou tanto tempo por esse abraço. Diz-lhe que os filhos dela, os vossos filhos, sofrem de saudades, mas que pensam em vós todos os dias, e que o vosso exemplo de coragem e de honestidade nos orienta, e orientará sempre. A nossa terra ficou mais triste sem a alegria do teu contrabaixo. Quem o tocará agora? Os teus filhos: Babaera e Smirnoff". Os pais de Mandume casaram em Lisboa, em 1975, tinham ambos vinte anos. Marcolino estudava Arquitectura. Manuela, enfermagem. Deviam ser bastante ingénuos, ainda hoje são. Manuela disse-me: – Naquela época éramos todos nacionalistas, parecia uma doença. Odiávamos Portugal. Queríamos terminar os cursos e regressar à trincheira firme do socialismo em África. Manuela deu-me a ouvir velhos discos em vinil de música angolana. Há várias canções que falam na trincheira firme do socialismo em África. Assim mesmo, sem a menor sombra de ironia. A burocracia portuguesa não aceitou que o primeiro filho do casal se chamasse Mutu, em homenagem a um rei do planalto central de Angola: Mutu-ya-Kevela. Ficou Marcelo para efeitos oficiais, e Mutu, para a família e amigos mais próximos. Mandume, o filho do meio, chama-se na realidade Mariano, e Mandela, o mais novo, Martinho. Em 1977, ano em que nasceu Mandume, os dois irmãos de Marcolino foram fuzilados em Luanda, acusados de envolvimento numa tentativa de golpe de Estado. Marcolino ficou muito transtornado. Nunca mais falou em regressar. Concluído o curso conseguiu emprego no atelier de um arquitecto, também ele natural de Angola, requereu a nacionalidade portuguesa e dedicou-se inteiramente ao trabalho. Conheci Mandume há sete meses. O que primeiro me atraiu nele foram os olhos. O brilho dos olhos. O cabelo, dividido em pequenas tranças espetadas, dá-lhe um ar de rebeldia, que contrasta com a doçura dos gestos e da voz. Gosto de o ver caminhar. No mundo em que ele se move não existe atrito. – Como um gato? Aline, num sopro, os lábios húmidos, debruçada sobre a mesa. Se dizemos que alguém caminha suavemente as pessoas lembram-se logo dos gatos. Não, querida Aline, Mandume não parece um gato. Há nos gatos, na forma como se movem, uma espécie de arrogância, um imperial desdém pela pobre humanidade, e isso não tem nada a ver com Mandume. Ele é ao mesmo tempo humilde e desafiador. Pelo menos é assim que eu o vejo. Talvez seja dos meus olhos. Pode ser amor. Aline riu-se, lembro-me dela a rir-se quando pela primeira vez lhe falei de Mandume. Tem um riso bonito. É a minha melhor amiga. – E Mandume, o que significa? Mandume? Ah, outro rei. Um soba cuanhama que se suicidou durante uma batalha, no Sul de Angola, contra tropas alemãs. Mandume, o meu Mandume, não está muito preocupado em saber quem foi o personagem histórico a quem deve o nome. Na verdade quando lhe perguntei como se chamava disse-me: – Mariano. Mariano Maciel. E foi Mário, o técnico de som, um homem baixo, pálido, com o cabelo ralo mas comprido, muito loiro, quem contrapôs sorrindo: – Aliás Mandume, o preto mais branco de Portugal. Frase infeliz. Reagi com violência: – Sim?! E isso é suposto ser um elogio?... Era suposto ser um elogio. Hoje sou tentada a concordar com o pobre Mário e até já utilizei a mesma frase contra Mandume. Há momentos em que me sinto realmente apaixonada por ele. Noutros, porém, quase o odeio. Irrita-me o desprezo que demonstra em relação a África. Mandume decidiu ser português. Está no seu direito. Não creio, porém, que para se ser um bom português uma pessoa tenha de renegar todos os seus ancestrais. Eu, por exemplo, sou certamente uma boa portuguesa, mas também me sinto um pouco indiana; finalmente, vim a Angola procurar o que em mim possa haver de africano. Mandume acompanhou-me, renitente. – Enlouqueceste? O que vais tu fazer a África?... Veio, afinal, para me salvar de África. Veio para nos salvar. É um querido, eu sei, tenho de ter mais paciência com ele. Além disso gosta do que faz. Passa o dia a perseguir-me com a câmara de vídeo. Digo-lhe que filme isto ou aquilo, o que ele finge fazer, mas quando presto atenção está a filmar-me a mim.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

José Eduardo Agualusa era um nome que não constava do catálogo dos escritores programados pela FLIP em julho de 2007, na cidade de Parati. A Flip tem demonstrado um excelente nível de organização num evento literário. Sem medo de errar é o melhor do Brasil. Mesmo assim, acontecem imprevistos. Certamente a direção do evento convida alguns autores, que comparecem à festa, para eventualmente substituir alguns faltosos. O público, jamais fica sabendo exatamente o motivo da ausência. Daí, na mesa intitulada "tão perto e tão longe" apareceu de última hora o José Eduardo Agualusa. Acho que ele substituiu um tal de William Boyd, ou terá sido o Kiran Desai ? Na dúvida, comprei o livro dos substituídos e do "pára-quedista".


 

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