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A Trégua

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A Trégua

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Autor: Mário Benedetti  

Editora: Objetiva

Assunto: Romance

Traduzido por: Joana Angélica d'Avila Melo

Páginas: 179

Ano de edição: 2007

Peso: 315 g

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Ótimo
Marcio Mafra
18/01/2008 às 17:13
Brasília - DF

A Trégua é muito mais que uma historiazinha de amor, entre um velho viúvo e uma jovem desmiolada, procurando um pai. É também uma boa reflexão sobre a felicidade pessoal, ainda que tardia, além de um bom quadro, sobre os difíceis relacionamentos humanos. Escrito em forma de diário, tem passagens divertidas, e a leitura flui como leitura de domingo.




Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Martin Santomé, viúvo com quase 50 anos de idade, anotava a sua vida num diário (como os adolescentes) onde, o principal assunto era a contagem do tempo que faltava para se aposentar, até que Laura Avellaneda foi admitida na empresa, para trabalhar na seção de contabilidade, como subalterna dele. Martin Santomé se envolve com Laura, voltando a conhecer o amor, numa trégua para uma vida até então cinzenta e sem graça.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Terça, 16 de abril. Continuo sem descobrir o que me atrai em Avellaneda. Hoje, estive estudando-a. Ela se movimenta bem, recolhe harmoniosamente o cabelo, sobre as faces tem uma leve penugem, como a de um pêssego. O que será que faz com o namorado? Ou melhor, o que será que o namorado faz com ela? Bancam o casalzinho decente ou se atracam como qualquer um? Pergunta-chave para um interessado: inveja? Quarta, 17 de abril. Diz Esteban que, se eu quiser a aposentadoria no fim do ano, a coisa tem de ser iniciada agora. Diz que vai me ajudar a movimentá-la, mas que, mesmo assim, levará tempo. Ajudar a movimentá-la talvez signifique molhar a mão de alguém. Eu não gostaria. Sei que o mais indigno é o outro, mas eu tampouco seria inocente. A teoria de Esteban é que convém agir no estilo que o ambiente exige. O que é simplesmente honrado num ambiente pode ser simplesmente imbecil em outro. Ele tem alguma razão, mas me desalenta que ele tenha razão. Quinta, 18 de abril Veio o inspetor: amável, bigodudo. Ninguém pensaria que ele fosse tão exigente. Começou pedindo dados do último balanço e acabou solicitando uma descriminação de itens que figura no inventário inicial. Fiquei carregando velhos e escalavrados livros desde a manhã até a última hora da tarde. O inspetor era um primor: sorria, pedia desculpas, dizia: "Mil agradecimentos." Um encanto, o sujeito. Por que não morre? No início fui acumulando minha raiva, respondendo entre dentes, xingando mentalmente. Depois, no lugar da bronca entrou outra sensação. Comecei a me sentir velho. Aqueles dados iniciais de 1929, eu os escrevera; aqueles lançamentos e contra lançamentos que figuravam no rascunho do Livro Diário, eu os escrevera; aqueles transportes a lápis no Livro-Caixa, eu os escrevera. Nessa época, não passava de um auxiliar, mas já me mandavam fazer coisas importantes, embora a módica glória fosse só do chefe, exatamente como agora ganho minha módica glória pelas coisas importantes que Mufioz e Robledo fazem. Sinto-me um pouco como o Heródoto da empresa, o registrador e o escriba de sua história, a testemunha sobrevivente. Vinte e cinco anos. Cinco lustros. Ou um quarto de século. Não. Parece muito mais assustador dizer, pura e simplesmente, 25 anos, e como minha letra foi mudando! Em 1929, eu tinha uma caligrafia escarranchada: os "t" minúsculos não se inclinavam para o mesmo lado o que os "d", os "b" ou os "h",como se não tivesse soprado para todos o mesmo vento. Em 1939, as metades inferiores dos "f', dos "g" e dos "j" pareciam uma espécie de franjas indecisas, sem caráter nem vontade. Em 1945, começou a era das maiúsculas, meu capricho em adorná-las com amplas curvas, espetaculares e inúteis. O "M" e o "H" eram grandes aranhas, com teia e tudo. Agora minha letra se tornou sintética, regular, disciplinada, clara. O que prova, apenas, que sou um simulador, já que eu mesmo me tomei complicado, irregular, caótico, impuro. De repente, quando o inspetor me pediu um dado correspondente a 1930, reconheci minha caligrafia, minha caligrafia de uma etapa especial. Com a mesma letra que usei para escrever: "Relação de salários pagos ao pessoal no mês de agosto de 1930", com essa mesma letra e nesse mesmo ano, eu tinha escrito duas vezes por semana: "Querida Isabel", porque Isabel morava então em Melo, e eu lhe escrevia pontualmente às terças e sextas. Essa, portanto, havia sido minha letra de noivo. Sorri, arrastado pelas recordações, e o inspetor sorriu comigo. Depois me pediu outra discriminação de itens....." Sábado, 13 de julho. Ela está ao meu lado, adormecida. Estou escrevendo numa folha solta, esta noite transcrevo para a caderneta. São quatro da tarde, o final da sesta. Comecei a pensar numa comparação e terminei em outra. Está aqui, ao meu lado, o corpo dela. Lá fora faz frio, mas aqui a temperatura é agradável, mais para quente. O corpo dela está quase descoberto, a manta e o lençol deslizaram para um lado. Quis comparar este corpo com minhas lembranças do corpo de Isabel. Evidentemente, eram outros tempos. Isabel não era magra, seus seios tinham volume, e por isso caíam um pouco. Seu umbigo era fundo, grande, escuro, de margens grossas. Seus quadris eram o melhor, o que mais me atraía; tenho uma memória táctil dos seus quadris. Seus ombros eram cheios, de um branco rosado. Suas pernas estavam ameaçadas por um futuro de varizes, mas ainda eram bonitas, bem torneadas. Este corpo que está ao meu lado não tem absolutamente nenhum traço em comum com aquele. Avellaneda é magrinha, seu busto me inspira um pouquinho de piedade, seus ombros estão cheios de sardas, seu umbigo é infantil e pequeno, seus quadris também são o melhor (ou será que os quadris sempre me comovem?), suas pernas são delgadas, mas bem-feitinhas. No entanto, aquele corpo me atraiu, e este me atrai. Isabel tinha, em sua nudez, uma força inspiradora, eu a contemplava e imediatamente todo o meu ser era sexo, não havia como pensar em outra coisa. Avellaneda tem, em sua nudez, uma modéstia sincera, simpática e indefesa, um desamparo que é comovedor. Ela me atrai profundamente, mas, aqui, o sexo é só uma parte da sugestão, do chamamento. A nudez de Isabel era uma nudez total, mais pura, talvez. O corpo de Avellaneda é uma nudez com atitude. Para amar Isabel, bastava sentir-se atraído pelo seu corpo. Para amar Avellaneda, é necessário amar o nu mais a atitude, já que esta é pelo menos metade do seu atrativo. Ter Isabel entre os braços significava abraçar um corpo sensível a todas as reações físicas e capaz também de todos os estímulos lícitos. Ter em meus braços a concreta magreza de Avellaneda significa abraçar além disso seu sorriso, seu olhar, seu jeito de falar, o repertório da sua ternura, suas reticências em entregar-se por Completo e as desculpas pelas suas reticências. Bom, essa era a primeira comparação. Mas veio a outra, e essa outra me deixou pesaroso, desanimado. Meu corpo de Isabel e meu corpo de Avellaneda. Que tristeza. Nunca fui um atleta, Deus me livre. Mas aqui havia músculos, aqui havia força, aqui havia urna pele lisa, elástica. E, sobretudo, não havia tantas outras coisas que, desgraçadamente, agora existem. Desde a calvície desequilibrada (o lado esquerdo é o mais deserto), o nariz mais largo, a verruga do pescoço, até o peito com ilhas ruivas, o ventre retumbante, os tornozelos varicosos, os pés com incurável e deprimente micose. Diante de Avellaneda, não me importa, ela me conhece assim, não sabe corno eu fui. Mas importa diante de mim, me importa reconhecer-me corno um fantasma da minha Juventude, corno urna caricatura de mim mesmo. Há urna compensação, talvez: minha cabeça, meu coração, enfim, eu, corno ente espiritual, talvez seja hoje um pouco melhor do que nos dias e nas noites de Isabel. Só um pouco melhor, também não convém iludir-se demais. Sejamos equilibrados, sejamos objetivos, sejamos sinceros, vá lá. A resposta é: "Isso conta?". Deus, se e que existe, deve estar lá em cima admirado. Avellaneda (oh, ela existe) está agora cá embaixo, abrindo os olhos.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Mário Benedetti é um importante e premiado autor Uruguaio, razão porque comprei este A Trégua, no primeiro semestre de 2007.


 

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