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Eny e o Grande Bordel Brasileiro

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Eny e o Grande Bordel Brasileiro

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Autor: Lucius de Mello  

Editora: Objetiva

Assunto: Erotismo

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 292

Ano de edição: 2002

Peso: 560 g

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Bom
Marcio Mafra
11/09/2008 às 12:02
Brasília - DF

Todo homem com idade entre 45 e 75 anos, que viajou pelo Brasil, conheceu a fama da casa de prostituição, ou puteiro, mais afamada e que possuía as melhores e mais lindas mulheres ou putas do país. Era um lugar de fino trato, elegante, luxuoso, seguro e importante que recebia homens - políticos, empresários, fazendeiros, coronéis de toda espécie, funcionários públicos municipais, estaduais e federais, profissionais liberais, governantes, magistrados, diplomatas e até religiosos - que ali viviam seus sonhos. Sonhos de adultos, de jovens e também de velhos. Todo aquele complexo de hotelaria, lazer e luxuria era propriedade de Eny. O autor, discorreu muito bem sobre os antepassados e familiares de Eny, bem como de seus amores, seus homens e suas mulheres. Com uma narrativa brilhante ele descreve o poder social e político que Eny punha e dispunha. Mas, Lucius de Melo não é escritor nem historiador. É jornalista. E fez um trabalho que o Fernando Morais adverte no prefácio: "Prepare-se para levar um banho de beleza, de história e de maravilhosa literatura." Exagero de colegas de profissão. Na verdade se o leitor conheceu a Casa da Eny sabe que é uma história deliciosa, mas também sabe que, o que ali rolava era muita putaria, muita sacanagem, muita podridão, muita enganação, muita libidinagem, muito proxenistismo, muito tráfico de mulheres, de contrabando, de drogas, além de muitíssima grana. Até porque no segmento da putaria não tem ninguém inocente. Nada é cândido, ingênuo nem grátis. Suave nem a maquiagem da mulheres, talvez a música e as luzes do local. Passar ao leitor a imagem que era um negócio bonito e que a Eny era uma boa e caridosa dama, preocupada com alguns órfãos, é balela, é besteira, é armação de jornalista. O livro não é romance, não é diário e também não lá essas coisas em matéria de erotismo. Mais parece a historia da ascensão e queda do maior e melhor puteiro da América Latina. Nada além disso. Eny e o Grande Bordel não passa de uma leitura mediana, com muito favor do leitor.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Eny, a mais famosa cafetina do Brasil e seu espetacular puteiro, na cidade de Bauru, São Paulo.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Poucos meses depois, em meados de 47, Nair se casou com o judeu, vendeu o ponto da pensão e transferiu o contrato de aluguel para Eny que iniciou carreira solo, às vésperas das eleições municipais. Nair foi com ela conversar com o dono da casa, seu Antônio de Angelis. Poderia ser um começo difícil se não tivesse aprendido a lidar com a política antes, quando trabalhou para a madame francesa, em São Paulo. Sempre com a casa cheia, dona Eny, como passou a ser chamada pelos clientes, soube atravessar o inferno eleitoral sem se queimar. Tratava a todos sem distinção. Que vença o melhor, dizia, o que merecer mais a confiança do povo. Assim que terminavam os comícios, a maioria dos homens descia para o bairro dos bordéis, para preparar a campanha do dia seguinte, comemorar, discutir mudanças, as estratégias de trabalho. Misturavam política com uísque, vodca, sexo e mulheres. Foram dias de faturamento alto para as pensões, principalmente para Eny, que não tomava partido e recebia os devotos de todos os candidatos. Assim que a corrida à Prefeitura de Bauru começou, ela orientou as inquilinas para dançar conforme a música e não brigar por este ou aquele político. No dia 6 de novembro de 1947, a cidade recebeu a visita do governador paulista Adhemar de Barros que veio inaugurar a rodovia que ligava Bauru às cidades de Pirajuí e Lins, e no dia 9 os bauruenses elegeram pela segunda vez Octávio Pinheiro Brisolla para prefeito. João Simonetti ficou em segundo lugar. Doutor Octávio está com sorte mesmo, disse Eny aos cabos eleitorais que comemoravam a vitória do candidato nas ruas da zona do meretrício. Agora, por favor, senhores, por favor, deixem o cavalo com essa coisa mais linda passar! Eny se referia à menina com cabelos dourados que vinha no colo do pai, sacolejando no lombo de um amistoso pangaré. A criança tinha seis anos de idade, usava um vestido sujo; estava descalça e com um dos olhos sangrando. Vinham do sítio em busca de atendimento médico. Não sabemos o que aconteceu, disse o lavrador para Eny que se aproximou deles. O sol está muito quente, meu senhor, a menina está precisando beber água, por favor, venham até a minha casa. Eny os recolheu, alimentou e levou a criança para ser examinada pelo médico dela, Bento Vaz. Tinha uma larva de mosca, popularmente conhecida como berne, alojada no canto do olho esquerdo. O doutor fez uma pequena cirurgia, receitou remédios. Eny pagou tudo e se despediu dos novos amigos encantada com a melhora da menina logo depois que o bicho foi arrancado do corpo. Em abril de 48, Eny reuniu as meninas e foram conhecer a costureira Maria do Carmo Cunha que morava a uma quadra da pensão. Vida nova, costureira nova, disse às inquilinas. Dê parabéns para Eny, que hoje é aniversário dela!, informou uma das moças logo que entrou no quarto de costura. Quantos anos a senhora está fazendo?, perguntou Maria. Trinta e um, respondeu Eny que se tornou uma grande amiga da modista. Naquele ano, traçou metas e queria provar a si mesma que tinha capacidade para cumpri-las. Alugou uma casa só para ela que fazia divisa com o quintal de dona Maria do Carmo. Pediu a um amigo que a apresentasse a Nicola Avalone Jr. Já havia se deitado com ele uma noite muito rapidamente, mas queria se tornar amiga do comerciante e poderoso dono do jornal mais importante da cidade. Coube ao inspetor Renoir Bittencourt, funcionário da General Eletric e amigo pessoal de Eny e de Nicolinha, fazer o convite. Quero que você me faça um grande favor, disse Renoir. Quero que você vá tomar um drinque hoje ainda com dona Eny, não na pensão, mas na casa alugada só para ela, lá embaixo, no número 4-33 da rua Rio Branco. Faltavam menos de 48 horas para o Natal e Nicolinha deu esse presente ao inspetor. O senhor está cada dia mais elegante, foram as palavras de Eny quando viu o ilustre convidado cruzar a porta da sala. Passava das oito da noite e a conversa entre os dois novos amigos entrou pela madrugada. O repertório do encontro era composto dos mais variados assuntos. Ele contou detalhes da sua vida particular; que era casado com Ada Cariani, filha de Carlos Cariani, dono do Hotel Cariani, importante empresário de Bauru no ramo hoteleiro; ela é professora e eu a conheci na rua Batista quando voltava da escola onde trabalhava; Ada sempre passava em frente à minha loja e foi fácil declarar o meu amor; em pouco tempo noivamos e casamos. Lembro-me da minha festa de despedida de solteiro; foi no cabaré da Angelina; meus amigos fecharam o bordel e ficamos com as mulheres todas para nós. Sinhá das Jóias quis organizar tudo; nessa época ela já havia vendido a pensão para Nair e estava morando com Angelina. Sinhá tinha um bom gosto refinadíssimo; decorou o cabaré com cravos brancos, rosas vermelhas, talheres de prata e taças de cristal para champanhe; me deram um banho de champanhe naquela noite; bebemos muito uísque também; me deixaram pelado em cima do palco; Angelina e Sinhá bem que tentaram impedir, mas não conseguiram. Meus companheiros estavam mesmo a fim de aprontar comigo; acabei dormindo no cabaré com uma cantora espanhola maravilhosa chamada Nelly Bijou. Eny interrompeu o amigo para dizer que conheceu Nelly Bijou em São Paulo; que ela se apresentava muito nas boates paulistanas. Então, a amiga concorda que eu dormi muito bem acompanhado, não concorda?, perguntou Nicolinha que nem esperou Eny responder; continuou fazendo dela sua confidente. Disse que o sogro quis acabar com o noivado quando soube do que tinha ocorrido dentro do cabaré; foi preciso a interferência dos amigos mais chegados e o apelo da própria Ada para que seu Carlos Cariani permitisse o casamento. Minha fama de mulherengo já era grande em Bauru e eu ainda aprontei mais essa! Eu devia ter tomado mais cuidado. Mas enfim, minha amiga, acabei me casando com Ada no dia oito de setembro de 43. Meu sogro me perdoou, pelo menos fingiu que tinha me perdoado, e me presenteou com uma festa das mais bonitas já realizadas nesta cidade; veio até orquestra de São Paulo... O Hotel Cariani ficou lotado de convidados elegantes; Ada estava linda usando um vestido feito por costureiras da capital. A Sofia Pompeu, filha do dono da Confeitaria Lalai, foi nossa madrinha no religioso. Sinto não ter chegado a Bauru a tempo de assistir ao espetáculo que antecedeu o seu casamento, Nicolinha, essa festa no cabaré deve ter sido muito divertida... Aliás, meu amigo, se eu já estivesse aqui e fosse dona de pensão, não o perdoaria se comemorasse em outro lugar senão na minha casa. Mais do que conquistar a confiança de Nicolinha, Eny conseguiu convencê-lo de que seria politicamente inteligente se ele a tivesse como amiga e não o contrário. Nas entrelinhas, nas respiradas que pontuavam o diálogo, na troca de olhares, os dois perceberam que seriam importantes um para o outro na exata medida do meio. Quando surgia de surpresa, paralisando os movimentos dos lábios, estancando a saída das palavras, o silêncio não os incomodava e eles sentiam que já eram cúmplices. Eny contou que tinha um avô que se chamava Nicolau. Que não chegou a conhecê-lo, mas que o admirava muito pela coragem que teve de deixar tudo na Itália e vir sozinho morar no Brasil. Quase que o senhor se chama Nicolau. Faltou apenas a letra u para ter o mesmo nome do meu avô. Acho que é a mesma coisa, Nicola ou Nicolau, não vejo diferença, respondeu Nicolinha. Só sei, me desculpe a falta de modéstia, que é nome de guerreiro. Isso é. Meu pai me dizia que vovô Nicolau foi muito ousado, trabalhador, um guerreiro, como o senhor disse. Morreu na explosão da fábrica de fogos que ele montou lá em São Paulo, coitado. Morreu moço, muito moço. É, mas eu vou viver uma eternidade, dona Eny. Vamos mudar de assunto porque a senhora já está ficando triste. Beba um pouco do meu vinho, por favor. O senhor não precisa me tratar por senhora. O mesmo digo eu, o Senhor está no céu. Nicolinha e Eny ainda riram muito antes de se despedirem e trocarem votos de feliz Natal. Naquela mesma noite ela o presenteou com uma garrafa de vinho italiano explicando ao amigo que a bebida gerada da uva era a mais nobre e por isso digna dos sentimentos mais sublimes. Ele, então, se foi. Ela abriu uma outra garrafa de vinho e bebeu o que já lhe estava no sangue, herança dos avós de Salerno. Por um instante teve a sensação de ter voltado ao tempo dos antepassados, impressionada com a coincidência de ter passado a noite ao lado de Nicola e de garrafas cheias de uvas espremidas e alcoolizadas. Sonhou com a avó Rosa Maria de Rosa e acordou preocupada com a família. Amim Ab'Saber era um mascate libanês, tinha mulher e dois filhos em São Paulo e viajava pelo estado inteiro vendendo tecidos. Apaixonou-se por Eny numa de suas passagens por Bauru, quando ela ainda era inquilina de dona Nair. Desde que dormiram pela primeira vez na mesma cama, os dois se viam sempre que o viajante estivesse na cidade. Vai avisar a dona Eny que o homem que anda com ela chegou, disse uma das meninas. Amim deixou o paletó sobre o sofá, sentou e pediu um copo de água. Eram quase quatro da tarde e gotas de suor estouravam, uma atrás da outra, feito silenciosas pipocas, nos corpos esquentados pelo calor. Eny veio da cozinha com uma jarra cheia de limonada bem gelada, surpresa com a visita do amante. Fui eu mesma quem fiz, beba o quanto quiser. Passei na sua casa lá embaixo, mas estava fechada, por isso vim aqui, meu amor. Estou atrapalhando alguma coisa? Claro que não, Amim. Você nunca atrapalha nada, ponha isso na sua cabeça. Consegui mais tecidos para você. Já vendeu o lote que eu deixei da outra vez? Eny respondeu que sim, que tinha vendido tudo. Há alguns meses, Amim vinha presenteando a sua preferida com panos que ele conseguia desviar da fábrica. Eny fazia tudo virar dinheiro, vendendo às colegas que trabalhavam na zona do meretrício. No fim da tarde desceram para a casa número 4-33 para ficarem mais à vontade. Eny foi para o fogão preparar o jantar e Amim, depois de se despir no quarto, entrou debaixo do chuveiro. Ele só pôde ficar mais um dia; precisou voltar a São Paulo. Nunca mais retomou, nem deu notícias. Morreu de infarto fulminante 20 dias depois na casa onde morava com a família. Eny ficou sabendo pelo vendedor que fora contratado para substituir Amim. Chovia quando o homem de terno azul-marinho e gravata cinza chegou à pensão. Foi recebido pelas inquilinas que o viram enfrentando o temporal e o recolheram. Apresentou-se às mulheres e foi logo se aproximando da que mais lhe tinha agradado. Quando Eny chegou no fim da tarde para abrir a casa, conheceu o novo cliente que com a ajuda da moça lhe contou rudo. Eny compreendeu, então, a falta de notícias e a ausência do amante que nunca fora tão grande. Não quis ficar mais na pensão naquela noite. Antes de dormir, foi chorar nos ombros da amiga Maria do Carmo, a vizinha e cosrureira que, mais do que fazer as roupas, vestia a alma de Eny com palavras de conforto e esperança. Estavam há quase dois anos juntos. Nem pude me despedir dele, Maria. Nunca mais vou ver o Amim, nunca mais. Chora que a tristeza passa, vai embora com as lágrimas, dizia a modista. A cafetina revelava pela primeira vez o seu lado mais frágil. Lágrimas derramadas por um amante, um romance sem raízes, uma aventura, quem sabe? Ou talvez apenas um rabo-de-saia, daqueles que o vento leva e traz... Mas tenho que respeitar, coitada, é amor do jeito dela, eu preciso respeitar, pensava a costureira enquanto passava a mão sobre a cabeça daquilo que a mãe lhe ensinara chamar de mulher da vida. Os dias foram curando a dor e a prostituta-chefe por algumas semanas viveu enlutada. Era rotina quase que diária a visita dos dois investigadores da Polícia. Eles passavam nas pensões para fichar as moças novas que chegassem; conferiam idade, nome, todos os documentos, nome fantasia, anotavam tudo na ficha e levavam à delegacia. Chegavam propositadamente de surpresa, às vezes à noite, às vezes antes do almoço; nem pediam licença; iam entrando nas casas, batendo nos quartos, abrindo as portas à procura principalmente de menores. Checavam se os exames médicos estavam em dia. A moça está com gonorréia, dona Eny. Não deve trabalhar nos próximos dez dias até que a droga faça efeito, orientava o doutor que trabalhava para a Prefeitura dando plantões nos prostíbulos. Ela já sabia de tudo aquilo, o que estava escrito nas bulas dos remédios, o nome do micróbio que causava a doença, como tomar os antibióticos; por isso Eny achava sempre muito chato agüentar sermão dos médicos. Ainda mais nos últimos dias, em que tinha perdido o amante para um ataque cardíaco e ensaiava um jeito de convidar as irmãs para visitá-la. Escrevera duas cartas contando toda a verdade, revelando seu novo endereço, pedindo desculpas para o pai e a avó Rosa. Mas não teve coragem de as pôr no correio. Dormiu com as palavras embaixo do travesseiro e enfrentou mudos pesadelos em preto-e-branco. A avó Rosa aparecia apontando-lhe o dedo, acusadora, com olhos de cão louco; as irmãs a expulsavam de casa e punham fogo no dinheiro que ela acabara de dar de presente; o pai em silêncio, de cabeça baixa, parecia ter acabado de receber a notícia da própria morte. Eny já não sabia o que sentia pela família. Se saudade ou medo; se culpa ou nada. Será que os laços de sangue que tinha no coração se transformaram num grande vazio? Ela bem que desejou que isso ocorresse muitas vezes, mas ao mesmo tempo que os sentimentos ficavam invisíveis, a alma não os perdia de vista e conseguia ampliá-los de tamanho, volume e força. Seguiu o conselho de Maria do Carmo e escreveu para Estela apenas contando qual era o novo endereço em Bauru. A carta seguiu para São Paulo no trem do fim da tarde. Eny ficou vendo os vagões se esfregarem na linha de ferro até desaparecerem levando com eles parte do segredo dela. Como fazia quase todas as manhãs, foi conversar com a costureira. Mostrou para a vizinha as caixas de sabonete que lhe serviam de cofre reforçando que logo, logo teria juntado o suficiente para comprar a casa ao lado, já que a da pensão seu Antônio não queria saber de vender. Estão querendo tirar vocês todas daqui da cidade, disse a costureira. Sempre quiseram, mas nunca conseguiram, dona Nair já me avisou que essas notícias sopram como vento frio, incomodam e vão embora deixando tudo do mesmo jeito... Os boatos voltaram?, perguntou Eny. Acho que desta vez não são boatos não, olha o jornal, veja - RETIRAR o Meretrício DA RUA COSTA RIBEIRO - EIS O PROBLEMA QUE TEM DESAFIADO TODOS OS GOVERNOS. A sociedade agora está pressionando os vereadores e o prefeito para criar um novo bairro para jogar todas vocês lá, explicou a costureira. Estão dizendo no jornal que as autoridades encontram dificuldade para expulsar a zona do Centro de Bauru porque a maioria das cafetinas é dona dos imóveis e se nega a vender ou sair. Acho que estão decididos a resolver o problema de uma vez por todas, Eny. Só espero que não me impeçam de investir o meu dinheiro, justamente agora que estou conseguindo guardar e fazer o meu pé-de-meia, disse Eny ao mesmo tempo que enchia a xícara de café. Aumente o rádio, Maria do Carmo, acho que vão falar sobre isso, vamos ouvir. A rua Costa Ribeiro acabou sendo mesmo o assunto mais falado naquele dia nos programas da emissora do município. Como dona Nair já tinha avisado, houve barulho, mas tudo outra vez continuou como era. Melhor para as moças e senhoras que viviam da prostituição bem no coração da cidade. Há muitos anos a sociedade bauruense se sentia incomodada com aquela situação. Famílias, crianças, moças preparadas para casar e serem mães tinham que conviver a poucos metros dos bordéis. Durante o dia, os meninos corriam na rua ocupada pelas pensões à procura das marcas de cigarro que os homens jogavam no chão. Era comum em plena luz do dia surpreenderem as prostitutas em trajes íntimos passando pelas varandas ou no quintal. Com uma vizinhança dessas, as gerações cresciam sabendo muito cedo o que deveriam aprender mais tarde e despertando precocemente, a produção de libido em Bauru se acostumou a bater recordes. Na quadra sete da rua Batista de Carvalho, as famílias se encontravam na Confeitaria Lalai, do paulistano Duílio Pompeu, que também acabou comprando do seu Abelha a padaria central. Duílio mudou-se com mulher e duas filhas para Bauru em 42 porque era dono da empresa que administrava os restaurantes dos trens da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Como tinha os negócios na ferrovia, deixou a confeitaria nas mãos das filhas Sofia e Maria de Lourdes, que tinha o apelido de Lalai. As duas jovens empresárias foram as responsáveis pelo sucesso da casa que lançou moda, serviu de Cupido e só fez a cidade sucumbir à tentação do pecado da gula. No comércio havia ainda a Sorveteria Central; a Casa Lusitana, que vendia de agulhas a jogos de cristais; a Casa Sampaio, que vendia alimentos básicos e ferragens; a Casa Ribeiro, que vendia discos; a Casa Rasi, que vendia ferragens; a Casa Pinto, outra mercearia; a Casa Aoki, um armazém de secos e molhados; e a Relojoaria Tâmbara, do italiano Albino Tâmbara, que veio de Verona, na Itália, no início de 1900. Os filhos de seu Albino, Renato e Nóris, desde meninos aprenderam música. Quando moços, muitas vezes substituíram os músicos da Big Band que se apresentava no Cabaret Maxim no tempo em que a casa ainda fazia sucesso. Os irmãos Tâmbara comentaram lá no Bar Crystal que viram Angelina Maggi em Araçatuba tocando um cabaré como o que ela possuía aqui, disse um cliente para Eny. Deus que a proteja. Aquela mulher tinha muita inveja dentro dela. Saiu daqui sem se despedir de ninguém. Eny comentou que no dia da mudança foi com as meninas até a esquina espiar Angelina e as três bailarinas que sobraram ajudarem o motorista a levar os móveis para cima de um pequeno caminhão. Era bem cedo, o galo ainda cantava, mas antes de nós todas irmos para a cama, fomos assistir à partida da Angelina, disse Eny.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Comprei o livro, num sebo, em fevereiro de 2008, porque Eny foi a cafetina mais famosa e conhecida do Brasil entre os anos 65 e 85.


 

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