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Cabeça de Porco

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Cabeça de Porco

Livro Ótimo - 1 comentário

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Autor: Luiz Eduardo Soares  

Editora: Objetiva

Assunto: Criminalidade

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 295

Ano de edição: 2005

Peso: 530 g

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Ótimo
Marcio Mafra
05/08/2005 às 13:19
Brasília - DF

Para quem procura entender, ou tentar entender o assunto favela, que hoje significa um lugar muito pobre, mas ao mesmo tempo muito violento, muito corrupto, muito criminoso, muito gueto, muito banditismo, muita máfia, o Cabeça de Porco não chega a ser um caminho, mas pode ser considerado uma "trilha", ou, "picada". A prolixidade é sinônimo de Celso Athayde, Bill e Eduardo.Neste particular eles lembram Caê e Gil. O que eles pensam tem densidade, mas o que eles expressam - por escrito - é muito complicado, esticado, desnecessariamente arrastado, prolixamente prolixo. O livro vai alternando textos de um e outro autor. Mesmo assim, tem passagens muito boas:


1) "Prisão que liberta" sobre as estatísticas da dependência química.


2) O final do "Relato Autobiográfico de Celso e a Matamorfose de Alex Pereira" é de uma densidade humana incomparável.


3) É muito mais que bom o "capitulo": Identidade em Obras II - Adolescência e a Problemática Ardilosa das Causas da Violência. Trata-se de uma análise de 10 ou 12 realidades prováveis que levam um "favelado" ou "pobre" à delinqüência e às drogas.


4) Labirinto - depoimento do pai de um jovem traficante - é um pequeno "capítulo" que - sozinho - vale o livro todo.


5) O "menino Invisível se Arma" é outro capitulo imperdível.


6) Guris e Gurias mostram suas armas, Varias vezes eu Pedi, Desfazendo Certezas, Disputar Menino a Menino, são mais quatro "capítulos" espetaculares.


7) Os sentidos da violência, a Criminalidade no Brasil e no Rio de Janeiro, é um capitulo que precisa ser lido, pelo menos duas vezes.


8) Juntando os Cacos para fazer uma Nação, é o capitulo que "encerra" o livro. Nele estão os textos, com as conclusões de cada um dos autores. Impossível deixar de ler. Quanto mais se sobre os temas tratados neste livro - de leitura demorada - mais se convence que a favela, o pobre, o drogado já ultrapassaram a linha da degradação humana. Ninguém sabe, nem imagina onde isso possa chegar. Cabeça de Porco é um livro muito intrigante, embora a sua leitura não seja fácil. Os textos assinalados são mais que formidáveis.


 


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história da pesquisa realizada pelos co-autores, Celso Athayde e M V Bill, sobre os jovens que partem para o crime, abordando também a dimensão humana dos pesquisados, suas motivações e razões da escolha ou opção. Essa pesquisa se mistura com a pesquisa do outro autor, o Luiz Eduardo, sobre juventude, violência e polícia, tanto nas favelas, como em outros lugares pobres do país. Talvez, daí o nome do livro: cabeça de porco, que na linguagem dos costumes lusos brasileiros, significa um amontoado de moradias, num lugar pobre. Enquanto que na linguagem das favelas cariocas, Cabeça de Porco significa uma "situação sem saída".
 

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A Mãe. Sidnei curvou-se sob o sol. Apoiou a mão direita no poste e abaixou a cabeça. As imagens flutuavam como se o mundo tivesse mergulhado num líquido espesso e claro. Primeiro, deixou de sentir o calor que antes derretia seus ombros. Em seguida, trêmulo, sentiu apagar-se a luminosidade vaporosa de tudo - antes, prédios e pessoas resplandeciam como uma trilha incandescente; os ônibus fumegantes pareciam deslizar numa bandeja de prata. Finalmente, o grande véu tombou sobre a avenida Presidente Vargas, no centro da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. O sol negro fechou os olhos em silêncio. Sidnei despencou na ilha que divide as pistas. Descalço, cabelos sujos. Vendera os tênis, a camisa, o relógio e o cordão dourado. Deixara no morro a verdadeira fortuna que lhe rendera o trabalho do fim de semana: 800 reais, só vendendo cerveja e água. Não comia nem dormia havia três dias, só droga, droga, droga. Uma boa alma lhe atirou água fresca na cara. Ergueu-se no abraço improvisado de um ou outro transeunte solidário. Dizem que o Rio é a cidade mais cordata do mundo, segundo uma certa pesquisa internacional. Deve ser verdade. Pelo menos com os que sobrevivem. Era ambulante; trabalhava no trem; fugia da polícia como um cidadão honesto sem carteira. Sabia o valor de um registro. Seu padrasto o registrara. Ele nunca esquece. Chama-o pai, porque o outro não quis assumir, não admitiu reconhecê-lo e deixou a mãe quando ele tinha nove anos - "Aquela história de sempre", dizia. Se tivesse de contar com o laço de sangue, estaria sem documento até hoje. Não é pouca coisa, um nome, o registro, a filiação formalizada. Este é o verdadeiro amor de pai. Não quis saber mais do pai natural. O orgulho e o ressentimento eram mais fortes que a necessidade. Ele também costumava dizer: "Minha vida é muito complicada. Muito complicada mesmo." Era a rotina de trabalhador que parecia vida de bandido. De repente, passava o rapa e levava tudo, até seu dinheiro, ou destruía tudo e lhe dava uma surra. Volta e meia tinha de comprar sua liberdade, com o troco que lhe restava. Mesmo assim, nunca roubou e sempre resistiu aos convites do tráfico. Por medo, ele diz, medo de morrer, ser preso, estragar a vida dos filhos e da mulher. Afinal, não foi fácil escapar do vício. Um longo calvário. Veio o 384, Sidnei entrou, sentou na escada e pediu à moça para passar por baixo da roleta. Quando atravessou a roleta, começou a chorar feito criança. Todo mundo do ônibus olhou pra cara dele, um homem velho, todo sujo, chorando. Sentou num canto do ônibus, imóvel. Chegou a Anchieta mas não foi pra casa. Tinha vergonha de encarar a mulher. Esteve com 800 reais no bolso e não sobrou um centavo. Foi pra casa da mãe: "Que foi? O que está havendo?" A mãe danou a chorar junto com ele. Sentou com ela e explicou tudo. Ela xingou. Ela bateu no filho com a fúria sagrada das mães desamparadas. Mas Sidnei costumava pensar, sem dar-se conta de que nem ousara apresentar-se à esposa: "Foi a única que me acolheu." Ela lhe deu banho; a mãe de Sidnei entrou no banheiro com ele e lhe deu banho. Deu-lhe uma roupa do irmão e o pôs para dormir. Quando acordou, ela sentou-se ao seu lado e desembestou a falar... Ele calado, só escutando. Ela disse: "Você não me saia mais daqui." Sidnei tinha 29 anos. A mãe lhe deu um prato de comida. Ele passou mal quando a comida bateu no estômago. O irmão mais novo foi o primeiro a chegar. A mãe de Sidnei mandou chamar todo mundo: irmãos, mulher, filhos, cunhadas. Mandou chamar a irmã. Todo mundo abraçou Sidnei, enquanto ele pensava: "Cheguei ao fundo do poço; eu sinto que cheguei ao fundo." A mãe o abraçou. Sidnei, mulher e filhos foram morar na casa da mãe. Ele ficou quatro meses na casa dela, dentro de casa. Não saía para nada, nada. Se ia ao banheiro, alguém o seguia. Parecia um prisioneiro. Sentia-se prisioneiro, mas pensava: "Sou prisioneiro, mas não da casa de minha mãe, sou prisioneiro da droga." Pensou em fugir. Muitas vezes, pensou em fugir. Imaginou a fuga, sonhou com a liberdade. Quantas vezes planejou escapar. Revoltou-se. Nos fins de semana, era um terror: "Podia estar na Providência, agora; podia estar na Mangueira - a essa hora lá deve estar fervendo de gente." Tremia, tremia. Nesses momentos, a mãe preferia não arriscar: trancava-o no quarto. Ele via televisão e andava feito um zumbi, dentro de casa, dando a volta ao mundo e roçando nas paredes, a cabeça girando, dentro da noite. Na fase seguinte da recuperação, saía para comprar pão e leite na esquina, mas sempre com um sobrinho no calcanhar, sempre sob o olhar vigilante da mãe, que se postava no portão, minuciosa, atenta, incansável. Há três anos Sidnei saiu da casa da mãe ostentando sua blindagem: não estava mais vulnerável à droga. Ele não sabe se é cicatriz ou imunidade, mas sente o escudo enquanto respira e o exibe orgulhoso, invisível e poderoso, comovido com o afago dos filhos. Nunca mais cheirou pó. E não foi por falta de oportunidade. Do outro lado do sofá, a esposa observa, ouve, cala-se com emoção. Faz do silêncio a sombra de seu discreto heroísmo. Permanecer ao lado do marido é quase incompreensível, Sidnei reconhece: dom, entrega, renúncia; sacrifício pelo futuro remoto que, enfim, agora reina, naquela casa de tábua, em Anchieta. Da água para o vinho, em três anos. É verdade, eles dizem: agora, o futuro reina. Mas no passado recente o presente parecia engolir qualquer futuro. Sugava o ar dos poros da casa. Sidnei saía para o trabalho sem previsão de retomo. Se as vendas fossem boas, dormia na rua ou atravessava as noites nos bares. Os melhores pontos para ambulantes como ele eram estádios e shows, na capital e no interior, nos fins de semana. Ele seguia a trilha da prosperidade, com seu faro nômade. Quando fazia dinheiro, adiava a volta ao lar e se esbaldava. No meio de uma noite qualquer, chegava em casa metendo o pé na porta. Se a mulher esperava-o acordada, ele a agredia; se estivesse dormindo, ele a insultava e agredia; se buscasse proteger-se, ele redobrava a brutalidade dos golpe~. No dia seguinte, não se lembrava de nada e prometia dias melhores, com respeito e paz. A mulher afogou-se no medo, essa treva que imobiliza suas vítimas com o veneno letárgico de longas pinças viscosas. Longe do inferno, ela agora respira e concorda com Sidnei: é preciso preparar as crianças desde cedo com afeto e verdade. Toda a verdade.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Comprei este livro, para começar a entender o assunto favela, que deixou de ser um lugar de pobre, tipo "saudosa maloca, maloca querida..." para significar um lugar muito pobre, mas ao mesmo tempo muito violento, muito corrupto, muito criminoso, muito gueto, muito banditismo, muita máfia.


 

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