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Sobrados e Mucambos

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Sobrados e Mucambos

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Autor: Gilberto Freyre  

Editora: Nova Aguilar

Assunto: Sociologia

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 1383

Ano de edição: 2000

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Ótimo
Marcio Mafra
14/07/2002 às 16:21
Brasília - DF

Sobrados e Mucambos, livro de 734 paginas, contidas no volume 2, da coleção Intérpretes do Brasil.


Começa na pagina 647 e vai até a de numero 1364.


Haja letra e haja papel. O Mestre Gilberto Freire faz uma releitura do racismo e da mestiçagem, vista como origem de nossos males, as transforma em nossa maior virtude e analisa a família patriarcal no Brasil, sua ascensão e decadência. Muitas são as notas e apêndices do “Sobrados e Mucambos”, coisa que dificulta, ou pelo menos não facilita a leitura. A linguagem e a arquitetura do livro também são bastante elaboradas e eruditas, tornando a leitura mais lenta, entremeada de expressões em latim, sociologuês, antropoloquês e economês. Ainda assim, é muito bom.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Em Sobrados e Mucambos, o mestre Mestre Gilberto Freyre, analisa a mestiçagem do homem brasileiro, onde chama a atenção para o fato de que no Brasil o preconceito de raça e cor é suplantado pelo preconceito de classe social.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

O professor Gilberto Amado salienta que à política e à administração do Império, os homens mais úteis não foram os mais bem preparados com "sua fácil e inexaurível erudição à margem dos fatos e das coisas». E num dos seus mais lúcidos ensaios observa desses "mais preparados" que eram homens de "erudição abstrata", "preocupados mais com o espírito que com o fundo dos problemas", fazendo discursos cheios de "citações de estadistas franceses e ingleses" sem, entretanto, se darem "ao pequeno trabalho de fazer um estudo ligeiro das condições de raça, de meio, das contingências particulares" do Império. Os estadistas mais realizadores foram, muitas vezes, homens de feitio oposto ao dos bacharéis, mais cultos: "os menos preparados". Isto sem exceção, desde Paraná a Cotegipe. Se houve doutores e bacharéis formados na Europa do fim do século XVIII que reuniram, como Arruda Câmara, a teoria européia a qualidades de curandeiros dos nossos males sociais por processos brasileiros, muitos se exageraram na doutrina. E foram uns românticos ou então uns livrescos, imaginando que dirigiam país castiçamente europeu; e não urna população mulata, mestiça, plural. Em 1845, já em pleno domínio o segundo Imperador e em pleno funcionamento as Faculdades de Direito do Recife e de São Paulo, à frente da administração das províncias e nas maiores responsabilidades políticas e de governo começaram a só aparecer homens formados. Os edifícios onde foram se instalando as sedes de governo e as repartições públicas mais importantes - uns novos, em estilo francês ou italiano, outros, antigos casarões de convento ou de patriarca rico adaptados à burocracia do Império - principiaram a avultar na paisagem brasileira. Ao mesmo tempo, já indicamos em capítulo anterior que começaram a ir diminuindo de tamanho as casas-grandes dos particulares: dos capitães, dos brigadeiros, dos senhores de escravos. À gente do povo não passou despercebida a transferência de poder de uns edifícios para outros. Mas de tal modo se habituara ao prestígio das casas-grandes patriarcais que, em algumas províncias, os palácios dos presidentes ficaram conhecidos pelas "casas-grandes do governo"; e em quase todas parece que o povo custou a admitir nos bacharéis, nos doutores e até nos barões e nos bispos, a mesma importância que nos "capitães-mores" ou nos "sargentos-mores". Ainda hoje sobrevive a mística popular no Brasil em torno dos títulos militares: para a imaginação da gente do povo o Messias a salvar o Brasil será antes um Senhor Capitão ou um Senhor General que um Senhor Bacharel ou um Senhor Doutor. Entretanto, o prestígio do título de "bacharel" e de "doutor" veio crescendo nos meios urbanos e mesmo nos rústicos desde os começos do Império. Nos jornais, notícias e avisos sobre "Bacharéis formados", "Doutores" e até "Senhores Estudantes", principiaram desde os primeiros anos do século XIX a anunciar o novo poder aristocrático que se levantava, envolvido nas suas sobrecasacas ou nas suas becas de seda preta, que nos bacharéis-ministros ou nos doutores-desembargadores, tornavam-se becas "ricamente bordadas" e importadas do Oriente. Vestes quase de mandarins. Trajos quase de casta. E esses trajos capazes de aristocratizarem homens de cor, mulatos, "morenos". É verdade que, às vezes, eram avisos indiscretos os que apareciam nos jornais sobre bacharéis. Alfaiates que revelavam, depois de anos de pachorrenta espera, que o Senhor Bacharel Formado Fulano, o Senhor Doutor Sicrano ou o Senhor Estudante Beltrano continuava a lhe dever uma sobrecasaca ou um fato feito por medida no mês tal ou no ano qual. Mas os alfaiates foram sempre inimigos das aristocracias. Em arquivos particulares de velhas casas-grandes de engenho, que pudemos examinar, verificamos o mesmo quanto a filhos de barões e de viscondes: não uma nem duas, mas várias cartas de alfaiates já de paciência gasta com o atraso no pagamento das contas. Filhos e netos de senhores de engenho - nem sempre bacharéis - que ficavam a dever croisés, coletes de ramagens, calças de listras, até que a conta ia para o pai visconde ou o avô barão ou simplesmente major, que as mandava pagar pelo correspondente. A ascensão social do bacharel pobre que, abandonado aos próprios recursos, não podia ostentar senão croisés ruços e fatos sovados, ou, então, sujeitar-se a indiscrições de alfaiates pelos "a pedidos" dos jornais; que não dispunha de protetores políticos para chegar à Câmara nem subir à diplomacia; que estudara ou se formara, às vezes, graças ao esforço heróico da mãe quitandeira ou do pai funileiro; a ascensão do bacharel assim, se fez, muitas vezes, pelo casamento com moça rica ou de família poderosa. Diz-se de alguns moços inteligentes, mas pobres ou simplesmente remediados, que não foi de outro jeito que chegaram a deputado às Cortes e a ministro do Império. Uns, de nome bonito, ou sonoro, a quem só faltava o calor da riqueza ou do poder para se enobrecerem ou ganharem o prestígio. Outros, de nome vulgar, que, ligando-se pelo casamento com moças de nome ilustre, os filhos do casal adotaram a nome da família da mãe. José da Natividade Saldanha, por outro lado, foi no Brasil a tipo do insubmisso: o dos bacharéis mulatos que à vitória por meios macios preferiram sempre a insubmissão. Foi sempre um insubmisso. Filho de padre estudou para padre no Seminário de Olinda. Mas rebelou-se contra o Seminário. "Apesar das qualidades hereditárias que lhe deviam gritar no sangue de filho dum sacerdote de Cristo", diz um dos seus biógrafos. Foi então estudar Direito em Coimbra "cheio da independência nativa que deve forrar os organismos dos filhos do amor livre". E quando se publicou a sentença de morte contra ele devido às suas atividades de revolucionário em Pernambuco, comentou de Caracas a sentença do juiz branco, Mayer, na qual ele, Saldanha, era chamada de mulato: “esse tal mulato Saldanha era o mesmo que adquirira prêmios quando ele Mayer tinha aprovação por empenho e quando o tal mulato recusava o lugar de auditor de guerra em Pernambuco ele o alcançava por bajulação". Se no tempo de Koster, proprietários rurais dos lugares mais afastados ou segregados, encomendavam aos correspondentes, caixeiros que fossem brancos e soubessem ler e contar - evitando ainda, bacharéis brilhantes, mas mulatos, como Saldanha - com o Império a exigência aumentou por um lado - o sociológico - e diminuiu por outro - o biológico. Já não serviam simples caixeiros brancos - aliás, úteis à economia patriarcal e à pureza de raça das famílias de engenho. Os desejados agora - mesmo com risco da economia patriarcal, de que alguns genros se tomariam puros parasitas, e da pureza de raça das famílias matutas, que outros genros maculariam - eram bacharéis e doutores, nem sempre se fazendo questão fechada do sangue rigorosamente limpo. Saliente-se, entretanto que a ascensão social do bacharel, quando mulato evidente, só raramente acorreu de modo menos dramático. Em mais de um caso de bacharel casado em família rica ou poderosa - sobretudo família poderosa de engenho ou de fazenda - ele é que se tomou o nervo político da família. No caso de João Alfredo Correia de Oliveira em relação com o sogro, o barão de Goiana, sente-se essa ascendência política do genro bacharel sobre o patriarca senhor de engenho. Ao que tudo faz supor, no interesse da carreira política do genro bacharel é que a própria sede da família transferiu-se de casa-grande de Goiana para sobrado, também grande, do Recife, onde o sogro, belo, alto, alhos azuis, mas um tanto amatutado, se tomaria figura secundária ao lado do bacharel de croisé bem-feito e modas urbanos, que guardava na rosto de mestiço traços de linda e agreste ameríndia que, na meninice, ganhara o apelido de Maria Salta Riacho. Apenas o neto de índia agreste tornou-se ministro do Império aos vinte e tantos anos. Tempos depois, já tendo experimentado desenganos políticos, João Alfredo lamentaria ter deixado a sombra da casa-grande de engenho pelo sobrado de azulejo que ainda hoje brilha ao sol de Recife onde agasalha uma tristonha repartição militar. Mas era tarde. Convém, entretanto, não nos esquecermos que houve bacharéis formados na Europa que de volta ao Brasil, preferiram a casa-grande de engenho do pai ou do sogro à vida na Corte ou nas grandes cidades da litoral. O caso do Dr. Antônio de Morais Silva, que sendo do Rio de Janeiro, morreu senhor de engenho em Pernambuco. A ascensão política dos bacharéis dentro das famílias, não foi só de genros: foi principalmente de filhos, como indicamos em capitulo anterior. Se destacamos aqui a ascensão dos genros é que nela se acentuou com maior nitidez o fenômeno da transferência do poder, ou de parte considerável do poder, da nobreza rural para a aristrocacia ou a burguesia intelectual. Das casas-grandes dos engenhos para os sobrados das cidades. O já citado professor Gilberto Amado, noutra de suas paginas inteligentes, refere-se à influência que alcançou na segunda metade do século XIX, a "fulgurante plebe intelectual, dos doutores pobres, jornalistas, oradores que de todos os pontos do país surgiam com a pena, com a palavra e com a ação, em nome do pensamento liberal, para dominar a opinião". E acrescenta que "eles é que no eclipse das grandes famílias arruinadas em conseqüência da extinção do tráfico e de outras causas acumuladas, substituem aos poucos nos prélios partidários, os filhos dos senhores de engenho, os viscondes, marqueses e barões, aparecendo no centro da arena, na primeira luz da ribalta política". Já aqui se assinala fenômeno um tanto diverso do que procuramos fixar. Diverso e mais recente: o da geração saída das Escolas já para fazer a Abolição e a Republica. Mas essa geração de bacharéis foi um prolongamento da outra: acentuou a substituição do senhor rural da casa-grande, não já pelo filho doutor, nem pelo mesmo genro de origem humilde, mas pelo bacharel estranho que se foi impondo de modo mais violento: através de choques e atritos com o velho patriciado rural e com a própria burguesia afidalgada dos sobrados. Entretanto a geração que fez a república teve seus meios-termos burgueses entre a velha ordem econômica e a nova. Mesmo alguns dos bacharéis mais evidentemente mulatos e de origem mais rasgadamente plebéia, como Nilo Peçanha, representaram a acomodação entre os dois regimes. Nem todos se extremaram em radicalismos, embora alguns viessem a ostentar idéias anticlericais e outro certo republicanismo jacobino, mais de rua do que de pratica doméstica. Mais de palavras, nos discursos, do que de atos, os trajos cotidianos. Nilo Peçanha ficaria a dever a alfaiate do Recife do seu tempo de estudante, fraque ou sobrecasaca fina como qualquer moço fidalgo. Lopes Trovão se tornaria célebre pelos seus discursos jacobinamente republicanos, mas também pela sua elegância de trajo e de aparência: era de fraque e de monóculo que discursava contra os autocratas do Império. Joaquim Nabuco chegaria quase ao socialismo, depois de se haver extremado no anticlericalismo e roçado pelo próprio republicanismo sem deixar nunca de ser nos atos e - com alguns deslizes - no trajo, o mais fidalgo dos recifenses de sobrado, o mais elegante dos pernambucanos de casa-grande. Já Sílvio Romero escrevera que depois dos primeiros trinta anos do Império, durante os quais o Brasil já país de mestiços - fora governado por um resto de elite de brancos - "resto de gente válida", diz ele, identificando como qualquer lapougiano a superioridade moral e o senso de administração e de governo com a raça branca - as condições se foram modificando com "as centenas de bacharéis e doutores de raça cruzada", atirados no país pelas academias: a do Recife, a de São Paulo, a da Bahia, a do Rio de Janeiro. Mais tarde, pela Escola Militar, pela Politécnica. O sagaz sergipano parece ter compreendido, tanto quanto o professor Gilberto Amado, o fenômeno que nestas páginas procuramos associar ao declínio do patriarcado rural no Brasil: a transferência de poder, ou de soma considerável de poder, da aristocracia rural, quase sempre branca, não só para o burguês intelectual - o bacharel ou doutor às vezes mulato - como para o militar - o bacharel da Escola Militar e da Politécnica, em vários casos, negróide. Mas aqui já se toca noutro aspecto do problema que foge um pouco aos limites deste estudo: a farda do Exército, os galões de oficial, a cultura técnica do soldado, a carreira militar - sobretudo a híbrida de militar-bacharel - foi outro meio de acesso social do mulato brasileiro. E é possível que se possa ampliar a sugestão: a atividade política, no sentido revolucionário, das milícias ou do Exército Brasileiro - Exército ou milícias sempre um tanto inquietas e trepidantes desde os dias de Silva Pedroso, mas, principalmente, desde a Guerra do Paraguai - talvez; venha sendo em parte, outra expressão de descontentamento ou insatisfação do mulato mais inteligente e sensitivo, ainda mal ajustado ao meio. A Marinha que, até recentemente, através de dissimulações, de pretextos de ordem técnica os mais sutis, conservou fechados de modo quase absoluto, ao mulato e mesmo ao caboclo mais escuro, os postos de direção, sua aristocracia de oficiais formando talvez a nossa mais perfeita seleção de quase-arianos, tem sido, como se sabe o oposto do Exército. Dominada ainda mais do que a Igreja - entre nós também trabalhada, embora não tanto como no México, pela insatisfação do padre pobre e do padre mestiço contra o padre rico - ou o padre fidalgo - pelo espírito de conformidade social, ou pela mística de respeito à autoridade, sua única revolução foi, na verdade, uma contra-revolução. O herói do movimento, um dos brasileiros mais brancos e mais fidalgos do seu tempo: Saldanha da Gama. Enquanto do lado oposto, um oficial do Exército, tipo do caboclo sonso e desconfiado, célebre por seu trajar amatutado e pelos chinelos também de matuto com que descansava os pés das botas militares, foi quem encarnou a nova ordem política estabelecida por bacharéis e doutores unidos a majores e capitães, não tendo sido poucos, nesse grupo revolucionário, os híbridos não só de sangue como de vocação: os capitães-doutores, os majores-doutores, os coronéis-doutores. Os bacharéis-militares. É fácil de compreender a atração do mestiço pela farda cheia de dourados de oficial do Exército. Farda agradável à sua vaidade de igualar-se ao branco pelas insígnias de autoridade e de mando e, ao mesmo tempo, instrumento de poder e elemento de força em suas mãos inquietas. São insígnias que desde os primeiros anos do século XIX passam pelos anúncios de jornal com brilhos ou cintilações sedutoras para os olhos dos indivíduos sociologicamente meninos ou mulheres que se tornam às vezes os mestiços na fase de ascensão para os postos de autoridade ou comando conservados por brancos ou quase-brancos como privilégio de casta superior identificada com raça pura. O conde de Valadares, em Minas, organizara ainda na era colonial regimento de homens de cor com oficiais mulatos e pretos. Um desprestígio para a melhor aristocracia da terra. Aliás, nos tempos coloniais, chegara a haver sargento-mor e até capitão-mor mulato; mulato escuro, até, como o que Koster conheceu em Pernambuco. Mas esses poucos mulatos que chegaram a exercer, nos tempos coloniais, postos de senhores, quando aristocratizados em capitães-mores, tornavam-se oficialmente brancos, tendo atingido a posição de mando por alguma qualidade ou circunstância excepcional. Talvez ato de heroísmo, ação brava contra rebeldes. Talvez grande fortuna herdada de algum padrinho vigário. Quando o inglês perguntou, em Pernambuco, se o tal capitão-mor era mulato - o que, aliás, saltava aos olhos - em vez de lhe responderem que sim, perguntaram-lhe "se era possível um capitão-mor ser mulato".' O título de capitão-mor arianizava os próprios mulatos escuros - poder mágico que não chegaram a ter tão grande as cartas de bacharel transformadas em cartas de branquidade; nem mesmo as coroas de visconde e de barão que Sua Majestade o Imperador colocaria sobre cabeças nem sempre revestidas de macio cabelo louro ou mesmo castanho. Sobre cabeças cujas origens foram às vezes mais do que plebéias. De um desses nobres chegou-se a dizer que nascera de mulher de cor, alcunhada - já o recordamos - Maria-você-me-mata, pela ardência em que, nos seus dias de moça, fizera os homens seus amantes se extremarem no gozo do sexo. Verificaram-se casos semelhantes nos Estados Unidos. Em certo velho burgo do Estado de...nos foi um dia apontado - isto já há largos anos - indivíduo ilustre admitido e até cortejado na sociedade branca mais fina e mais exclusivista do lugar, e de quem entretanto se sabia ter ascendente africano, embora remoto. Numa terra em que a simples suspeita de tal ascendência basta para determinar o mais cruel ostracismo social, o caso nos pareceu espantoso. Esclareceram-nos, porém, que o indivíduo em questão tivera outro ascendente - ou seria o mesmo negróide? - entre os heróis mais gloriosos da guerra da Independência. O que lhe arianizara a raça e lhe aristocratizara o sangue. Que outros mestiços no Brasil, semi-aristocratizados pelo posto militar, não se sentiram tão confortavelmente brancos como o capitão-mar conhecido de Koster, prova-o o caso de Pedroso, comandante de armas no Recife, em 1823, a quem mais de uma vez nos referimos no correr deste ensaio. Pedroso fez da espada de defensor da Ordem e do Império instrumento revolucionário. E instrumento revolucionário, não a serviço de alguma causa política ou de simples levante de quartel, mas de um dos movimentos mais nítidos de insatisfação social de gente de cor que já ocorreram entre nós. Pedroso andava pelos mucambos, confraternizando com os negros e os mulatos, bebendo e comendo com eles. E por alguns dias não se cantou no Recife senão a quadrinha: Marinheiros e caiados Todos devem se acabar Porque só pretos e pardos O país hão de habitar. Nem se falou senão do rei Cristóvão e da Revolta de São Domingos. Esse mesmo sentimento de insatisfação talvez esclareça, por outro lado, a presença de bacharéis mulatos, como Natividade Saldanha, em movimentos revolucionários que talvez tenham correspondido menos ao seu idealismo afrancesado de doutores e de patriotas, que ao seu mal-estar quase físico e certamente psíquico de mulatos; à sua insatisfação de indivíduos mal ajustados à ordem social então predominante, com a elite branca, do tipo encarnado por Guedes Aranha e Antônio Carlos, querendo governar sozinha. Por outro lado, talvez, explique também a nota, não de clara revolta social, mas aparentemente de simples ressentimento mal dissimulado em tristeza romântica, em mágoa individual, em dor abafada de namorado infeliz, que se encontra em alguns dos nossos maiores poetas do século XIX. Mulatos que tendo se bacharelado em Coimbra ou nas Academias do Império foram indivíduos que nunca se sentiram perfeitamente ajustados à sociedade da época: aos seus preconceitos de branquidade, mais suaves que noutros países, porém não de todo inofensivos. Tal o caso do grande poeta maranhense Dr. Antônio Gonçalves Dias. O tipo de bacharel "mulato" ou "moreno". Filho de português com cafuza, Gonçalves Dias foi a vida inteira um inadaptado tristonho à ordem social ainda dominante num Brasil mal saído da condição de colônia, quando a governadores do tipo do conde de Valadares, que se extremavam em prestigiar mulatos contra brancos da terra, se opunham capitães do feitio do marquês de Lavradio, que rebaixou de posto certo miliciano índio por ter casado com negra. O poeta cafuzo foi uma ferida sempre sangrando embora escondida pelo croisé de doutor. Sensível à inferioridade de sua origem, ao estigma de sua cor, aos traços negróides gritando-lhe sempre do espelho: "lembra-te que és mulato!" Pior, para a época e para o meio, do que ser mortal para o triunfador romano. Ao poeta não bastava o triunfo ou a imortalidade literária: seu desejo era triunfar também, como qualquer mortal de pele branca, na sociedade elegante do seu tempo. O indianismo literário que Gonçalves Dias parece ter adotado como uma cabeleira ou uma dentadura postiça, mal disfarça essa sua dor enorme de ser mulato ou amulatado: uma dor quente mas abafada, que Sílvio Romero atribuiu erradamente ao "sangue de índio", isto é, ao fato biológico da origem ameríndia do poeta. O sangue de índio per se seria, porém, o menor responsável por aquela tristeza toda do bacharel maranhense; e o maior responsável, a consciência do sangue negro da mãe. A sensibilidade aos reflexos sociais dessa origem. Em "Marabá" talvez haja alguma coisa de freudianamente autobiográfico quanto à situação flutuante do mulato romantizado na figura da marneluca de olhos verdes, de quem diziam os homens de raça pura: Tu és Marabá! ou então, guardando distância: Mas és Marabá! E na poesia "O tempo" a mesma consciência aparece sem disfarce algum a romantizá-la, numa explosão ainda mais autobiográfica: Por que assim choro? E direi eu por quê? Antes meu berço Que vagidos d'infante vividoiro Os sons finais dum moribundo ouvisse. Não somos nós, agora, o primeiro a associar a tristeza de Gonçalves Dias à consciência de sua origem: filho de escrava e cafuza. Foi um seu colega de Coimbra e, mais do que isso, pessoa de sua maior intimidade - Rodrigues Cordeiro - que escrevendo em 1872, deu seu depoimento: a consciência de filho de mulher de cor amigada com português era o que em Gonçalves Dias "nas noites de insônia lhe cobria o coração de nuvens", rebentando em poemas como "O tempo". Não importa que noutros poemas, em torno de assuntos mais puramente africanos como "Escrava", Gonçalves Dias se conservasse a distância do negro, sem fazer de sua fala aportuguesada de bacharel em Coimbra, a voz clara e franca da raça degradada pela escravidão da qual nascera tão tragicamente perto. Roçando pelos seus horrores. Mesmo porque sua consciência não era, nem podia ser entre nós país onde o negro quase nunca foi "quem escapa de branco", como no ditado antigo - "quem escapa de branco, negro é" - depois substituído pelo mais brasileiro - "quem escapa de negro, branco é" a consciência de negro ou a consciência de africano que, noutros países, absorve a consciência do mulato, mesmo claro. O ressentimento nele foi, caracteristicamente, o do mulato ou "moreno", sensível ao lado socialmente inferior de sua origem, embora gozasse, pela sua qualidade de bacharel, vantagens de branco. O romantismo literário no Brasil-vozes de homens gemendo e se lamuriando até parecerem às vezes vozes de mulher - nem sempre foi o mesmo que outros romantismos: aquela "revolta do Indivíduo" contra o Todo - sociedade, época, espécie - de que fala o crítico francês. Em alguns casos, parece ter sido menos expressão de indivíduos revoltados que de homens de meia-raça sentindo, como os de meio-sexo, a distância social, e talvez psíquica, entre eles e a raça definidamente branca ou pura; ou o sexo definidamente masculino e dominador.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Judith e Marco Aurélio Cerqueira, me presentearam no aniversário de 2004, com a coleção de história, Intérpretes do Brasil, em três bem nutridos volumes.


 

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