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A Misteriosa Chama da Rainha Loana

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A Misteriosa Chama da Rainha Loana

Livro Bom - 1 comentário

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Autor: Umberto Eco  

Editora: Record

Assunto: Romance

Traduzido por: Eliana Aguiar

Páginas: 453

Ano de edição: 2005

Peso: 790 g

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Bom
Marcio Mafra
19/11/2005 às 10:46
Brasília - DF

Eis um romance pós-moderno. Pós-moderno é livro de autor que se utiliza da ironia, da contradição e do inusitado para construir a narrativa, privilegiando a complexidade, esquecendo-se da velha e boa simplicidade das coisas, dos fatos e das versões. Trata-se da mistura de fatos, com história, imaginação e versões, que termina embaralhando o fio da meada, tanto no estilo como no gênero. Umberto Eco é um craque, um escritor de valia. Mesmo assim, não consegue repetir o seu grande sucesso: O Nome da Rosa. A Misteriosa Chama da Rainha Loana, é bem do estilo de Eco: erudição, graça, elegância, muito enredo, arquitetura fina, literatura de primeira. Os personagens do Nome da Rosa, eram da idade média. Os da Misteriosa Chama são contemporâneos e a memória que Yambo perdeu é de fatos ocorridos nos anos 40. Ao longo do romance o Yambo vai narrando a sua e a vida de seu avô, ambas fantásticas, que vão "iluminando" a memória afetiva. Verdadeiramente ótimo. Porém, quem não é italiano, quem não é oriundi, quem não conhece muito bem a vida italiana dos anos 40/50, fica boiando num mundão de coisas. Uma historia ilustrada, com muita emoção, mas por se tratar da recuperação da memória, de um determinado lugar, numa época mais ou menos recente, fica sem graça e monótono. Tudo aquilo que o personagem "tem saudade" - coisas, marcas, lugares, aparelhos, lembranças e dinheiros - fica meio deslocado. Livro para europeu. Brasileiro não tem nenhuma ligação com a memória afetiva perdida do Yambo. A tradução é primorosa. O autor é brilhante, este livro, não! Pena.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história da recuperação da memória de Yambo, um bibliógrafo, que a perdeu, após passar por uma grave doença.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Alguns mistérios da minha esquizofrenia infantil começavam a se esclarecer. Lia os livros escolares e os quadrinhos, e provavelmente era nos quadrinhos que construía, com muito esforço, uma consciência civil. Por isso, com certeza, conservei esses cacos de minha história desmoronada mesmo depois da guerra, quando algumas páginas dos jornais de lá chegaram às minhas mãos (talvez trazidas pelas tropas americanas), com as tirinhas coloridas de domingo apresentando novos heróis, como Li'l Abner ou Dick Tracy. Creio que nossos editores de antes da guerra não ousavam publicá-los porque o traço era ultrajosamente modernista e evocava aquela que os nazistas chamavam de arte degenerada. Já crescido em idade e sabedoria, teria me aproximado de Picasso sob a influência de Dick Tracy? Com certeza não estimulado pelos quadrinhos da época, à exceção de Gordon. As reproduções, talvez extraídas diretamente de publicações americanas, e sem pagar direitos, eram mal impressas, muitas vezes com traços confusos e cores duvidosas. Para não falar de outras páginas, depois da proibição das importações de terras inimigas, nas quais o Fantasma aparecia de malha verde, mal imitado por um desenhista nosso, e com outras características civis. Para não falar dos heróis autárquicos, provavelmente inventados para fazer frente ao panteão de Aventuroso, estouvadamente desenhados, mas ao fim e ao cabo simpáticos, como o gigante Dick Fulmine, de maxilar voluntarioso e mussoliniano, que ao som de punhos destruía malfeitores de origem certamente não-ariana, como o negro Zambo, o sul-americano Barreira e, mais tarde, um Mandrake mefistofelizado, maligno e criminoso, Flattavion, cujo nome evocava raças malditas embora imprecisas, e que substituía a cartola do mágico americano por um chapelão e uma capa de pós-lida rural. ''Adiante lindos pombinhos, mostrem-se", gritava Dick Fulmine a seus inimigos, todos com chapéu e paletó amarfanhados, e dá-lhe punhos vingadores. "Mas esse cara é um demônio", diziam os marranos, até que da escuridão surgia o quarto arquiinimigo de Fulmine, Máscara Branca, que o atingia na nuca com uma marreta ou um saco de areia, e Fulmine desmoronava dizendo ''Acc...!'' Mas por pouco tempo, pois embora acorrentado em um calabouço com a água subindo ameaçadoramente, com um esforço dos músculos libertava-se do estorvo e logo depois já capturava e entregava ao comissário (um homenzinho de cabeça redonda e bigodinho mais de bancário que hitlerista) o bando inteiro devidamente embrulhado. A água que sobe no calabouço devia ser um tópos dos quadrinhos de todo país. Sentia como uma brasa no peito e peguei o álbum Juventus O cinco de espadas - último episódio do Alferes da Morte. Um homem vestido como cavalariço, um capuz vermelho em forma de tubo que lhe cobria toda a cabeça e se alargava em uma grande capa escarlate, as pernas abertas, os braços para o alto, acorrentado pelos pulsos e tornozelos à parede de uma cripta na qual alguém abrira um veio d'água subterrâneo destinado a submergi-lo pouco a pouco. Mas em apêndice a esses mesmos álbuns havia outras histórias em capítulos, de estilo mais intrigante. Uma intitulava-se Nos mares da China e os protagonistas eram Gianni Martini e seu irmão Mino. Deve ter parecido estranho para mim que dois jovens heróis italianos vivessem aventuras em uma área onde não havia colônias, entre piratas orientais, patifes de nomes exóticos e mulheres belíssimas de nomes ainda mais exóticos, como Drusilla e Burma. Mas com certeza percebi a singular qualidade do desenho. Nas poucas tirinhas americanas obtidas talvez com os soldados em 45, vi depois que a história se chamava Terry and the Pirates. As páginas italianas eram de 1939 e, portanto, impusera-se desde então a italianização das histórias estrangeiras. Na minha pequena coletânea de material estrangeiro, notei ademais que naqueles anos os franceses traduziam Flash Gordon como Guy l'Eclair. Não conseguia mais me afastar daquelas capas e daquelas estampas. Era como estar numa festa e ter a impressão de reconhecer todo mundo, experimentando uma sensação de déjà-vu a cada rosto que se encontra, mas sem poder dizer quando se conheceu cada um e quem é - e com a tentação de exclamar a todo instante, como vai, meu velho, estendendo a mão, mas logo recolhendo com medo de estar cometendo uma gafe. Constrangedor revisitar um mundo onde se chega pela primeira vez: como se sentir veterano na casa dos outros. Não li em seqüência, nem segundo as datas nem segundo as séries e personagens. Saltitava, voltava, passava dos heróis do Corrierino aos de Walt Disney, punha-me a comparar uma narrativa patriótica com as histórias de Mandrake em luta contra o Cobra. E foi justamente voltando ao Corrierino, à história do último rás, com o heróico Mario contra Rás Aitu, que deparei com uma estampa que fez meu coração parar e senti algo de muito semelhante a uma ereção - ou melhor, algo de mais liminar, como deve acontecer a quem sofre de impotentia coeundi. Mario foge de Rás Aitu levando consigo Gemmy, uma mulher branca, esposa ou concubina do Rás, que já compreendeu que o futuro da Abissínia está nas mãos salvadoras e civilizatórias dos Camisas Negras. Aitù, furioso com a traição da mulher má (que, ao contrário, finalmente tornara-se boa e virtuosa), dá ordens de queimar a casa em que os dois fugitivos se escondem. Mario e Gemmy conseguem escapar para o telhado e de lá Mario divisa uma eufórbia gigante. "Gemmy", diz ele, "abrace-me e feche os olhos!" Não é concebível que Mario tivesse intenções maliciosas, sobretudo num momento daqueles. Mas Gemmy, como toda heroína de quadrinhos, estava vestida com uma túnica, uma espécie de peplo que lhe descobria os ombros, os braços e parte do colo. Conforme documentam os quatro quadros dedicados à fuga e ao perigoso salto, como todos sabem, os peplos, especialmente os de seda, deslizam primeiro até o tornozelo, depois até a panturrilha e, se uma mulher se agarra ao pescoço de um Vanguardista e tem medo, o aperto transforma-se num abraço espasmódico, com seu rosto, certamente perfumado, contra a nuca suada dele. Assim, no quarto quadro Mario agarra-se a um ramo da eufórbia, preocupado apenas em não cair nas mãos do inimigo, mas Gemmy, sentindo-se segura, abandona-se e, como se a saia tivesse uma fenda, a perna esquerda estende-se nua até o joelho, descobrindo a bela panturrilha enobrecida e afunilada por um salto agulha, enquanto da outra vê-se apenas o tornozelo - mas como a perna se ergue com faceirice em ângulo reto com a coxa bem torneada, a roupa (talvez por efeito do vento escaldante das montanhas) adere umidamente a seu corpo, tornando evidentes a curva calipígia e os torneamentos da perna inteira. Impensável que o desenhista não estivesse consciente do efeito erótico que estava criando e certamente remetia-se a alguns modelos cinematográficos ou mesmo às mulheres de Gordon, sempre envoltas em roupas elegantíssimas adornadas de pedras preciosas. Não sabia dizer se aquela era a imagem mais perturbadora que já vira, mas certamente (se o Corrierino era de 20 de dezembro de 1936) foi a primeira. Nem era possível descobrir se aos quatro anos eu já experimentava alguma reação física, um rubor, um suspiro de adoração, mas, com certeza, para mim aquela imagem foi a primeira revelação do eterno feminino, a ponto de eu me perguntar se depois dela consegui curvar-me sobre o seio de minha mãe com a inocência de antes.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Meu amigo Adalberto Tadeu me presenteou este livro no meu aniversário de 2005.


 

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