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O Ninho da Serpente

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O Ninho da Serpente

Livro Ótimo - 1 comentário

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Autor: Pedro Juan Gutiérrez  

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: José Rubens Siqueira

Páginas: 218

Ano de edição: 2005

Peso: 285 g

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Ótimo
Marcio Mafra
31/01/2006 às 13:22
Brasília - DF

O Ninho da serpente é uma crônica forte e crua da vida em Havana durante a crise de Cuba dos anos 90, "post Rússia". O livro mostra um povo faminto, sem muito rumo, e torna visíveis as fortes marcas da pobreza quase endêmica e da abundante falta de alternativa. De alguma maneira é a verdade de um homem que nasceu embalado na utopia da Revolução Cubana. Mesmo assim, o autor com muita competência não destaca o lado lamuriento, amargo ou de vítima das circunstâncias históricas. A fluência do seu texto é jornalística, ao mesmo tempo, demonstra o engajamento do autor com a arte, mesmo indecente, violenta, grosseira e que pode nos mostrar a face da vida que nunca vemos ou nunca queremos ver. O sexo permeia quase todas as páginas do livro. A história é muito boa, a leitura flui. Ademais, o autor retrata Cuba, de uma forma crua, bruta, sem nenhuma "edição", completamente diferente das que são contadas pelos amigos ou pelos inimigos do regime de Havana. É também algo que foge do esteriótipo, do chavão literário tão citado nos discursos oficiais ou da propaganda turística sobre Cuba. O Pedro Juan é um escritor. O Ninho é ótimo, mesmo sendo da serpente.


Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

A história de Pedro Juan, filho de um sorveteiro, morador da cidade de Matanzas, norte de Havana, Cuba, que através de suas "memórias" narra a passagem da idade jovem para a idade adulta, em meio a muito sexo, prostituição, violência, fantasias, paixões e misérias, trespassada pela vida simples e pobre, dum regime governamental comunista, não escolhido por ele, mas de muito sofrimento pelos graves efeitos do miserável e nojento bloqueio econômico dos EUA.

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Não quero lembrar de Célia como uma mulher vingativa, mas a carta de recrutamento chegou três semanas depois do episódio do estádio. Tinham me dito que seria enviada em fevereiro ou março. Chegou no final de dezembro. Sempre achei que foi uma vingança sem rastros. Naquela noite, eu estava tranqüilamente escutando um programa de música clássica. Um concerto para violoncelo de Schumann. Primeiro movimento. Non troppo presto. Passava um pouco das nove da noite. Bateram na porta. Minha mãe abriu e entregaram a carta a ela. Eu tinha de me apresentar no dia seguinte às seis da manhã, em cumprimento da lei tal, no comitê militar, em tal endereço. Se não me apresentasse, incorreria na violação do decreto-lei número tal e seria condenado a etc... Dobrei a carta e guardei no bolso. Guerra avisada não mata soldado. Fechei de novo os olhos e continuei com Schumann. Minha mãe começou a chorar e me disse: - Desligue essa música de mortos! Será que você não pode ouvir alguma coisa mais alegre? Isto aqui parece um velório, Deus que me perdoe. - Shh. Não fale. Escute que maravilha. - Você está louco. Vão tirar três anos da sua vida e você fica aí sentado, como se não fosse nada. - O que você quer? Que eu comece a chorar? Escute isto aqui. Non troppo presto. - O que é isso? - Não muito rápido. Fique quieta. Ela foi para o quintal, soluçando. Fiquei ali, com Schumann e aquele violoncelo perfeito. Il láttimo fulgente. No dia seguinte, fui embora. Muito tranqüilo. Aos dezesseis anos a gente é ignorante, por isso nunca tem medo. O conhecimento e o desejo é que nos injetam pavor e ódio no sangue. Isso vem depois. Tudo a seu tempo. Para entrar no tom das circunstâncias, levei dois livros em minha maletinha: O socialismo e o homem em Cuba e Três mulheres, de Musil. Nos primeiros dias, não consegui ler nem uma linha. Não tive tempo. Me mandaram para uma unidade de sapadores, perto do aeroporto de Havana. Fazia frio e eu tinha de levantar às cinco e meia da manhã para fazer exercícios durante meia hora, tomar um pouquinho de leite em pó aguado com um pedacinho de pão e escutar um programa de rádio, todos em formação no pátio. Nunca consegui esquecer aquele programinha de comentários políticos. Era como levantar a tampa do miolo de cada recruta, depositar aquela meleca e tornar a fechar o crânio. Um pouquinho todos os dias. Todos os dias. Todos os dias. Em pouco tempo me adaptei, por uma razão essencial: não tinha outra opção. Além disso, eu era um esportista nato. Desde menino praticara natação, ciclismo, caiaque, voleibol. Tinha formação para o rigor e vocação para a vida espartana. De forma que aquele regime de frugalidade absoluta me fortalecia. Além disso, não era só eu. Mais ou menos a mesma coisa acontecia com toda a minha geração: gladiadores, estóicos e heróicos. A única coisa de que eu não gostava era dos desgraçados dos chefes que nos tratavam como se fôssemos cachorros vira-latas. Ainda hoje faço uma careta involuntária quando vejo fardas e patentes militares. Depois de algumas semanas ali, nos enfiaram num trem e fomos para Camagüey, perto de Esmeralda. Os campos de cana eram intermináveis. Só cana. Cortando cana das seis da manhã às sete da noite, todos os dias. De segunda a domingo. Às vezes, podíamos descansar na tarde de domingo. Fazia tempo que não existia mais Natal em Cuba, de forma que não havia pretexto para nos deter nem um minuto. Os escravos africanos que nos precederam setenta anos antes naqueles canaviais pelo menos tinham tambores, negras, álcool e seus deuses iorubas, que os sustentavam e injetavam neles uma energia adicional. Mesmo assim, fugiam e viravam desgarrados livres em lugares inacessíveis de mato e montanhas. Mas nós não tínhamos essa saída. Firmes e machinhos até o fim. De madrugada, um chato que era chefe e se esforçava para se dar mal com todo mundo nos acordava. Dava marteladas num garrafão de ferro e gritava: - De péééééé, juventude de aço! Para evitar possíveis contaminações, nos mantinham afastados de uma Umap a cerca de dois quilômetros dali. Para nós aquilo era um mistério. Eles também cortavam cana como animais, mas nunca nos cruzávamos. Perguntamos aos políticos, mas não nos respondiam. Por fim, um dia, o mais liberal de todos os comissários políticos nos disse: - Não é para falar nisso. - Certo, mas o que é? - Vocês não podem contar que eu contei, senão me crucificam, mas aquela gente é tudo escória: vagabundos, veados, religiosos. Chaga social. - E estão presos? - Não estão presos! Estão lá para serem reeducados. Para ver se algum dia podem voltar a se integrar na sociedade. - Ahhh. - Não vão dizer que eu... - Não tenha medo, compadre. Ninguém aqui é dedo-duro. Somos homens. A rotina era dura. Por sorte, um grupinho dos mais espertos descobriu uma bezerra não longe dali. Preta, linda, com uns olhos sonhadores. Era de um caipira que a deixava a noite toda amarrada num bosquezinho junto com a vaca. Ficamos viciados. Quase toda noite íamos, a turma inteira, trepar com a bezerra. A vaca não, porque estava sempre com o cu cagado e, além disso, a vagina era enorme. Mas enorme. A bezerrinha, ao contrário, era um docinho. Pequenininha, apertada, quente e vermelha. Belíssima. Às vezes, éramos até dez. Um atrás do outro. Calculamos que ela recolhia por noite um litro, um litro e meio de sêmen em sua vaginazinha. A juventude de aço também tinha de se distrair um pouquinho. Para não ficarmos loucos. O político "liberal" havia trazido com ele de Havana uma pequena biblioteca e a colocou à nossa disposição: desde as obras escolhidas de Marx, Engels e Lenin até alguns volumes de Mao e Kim 11 Sung. O melhorzinho eram os romances do realismo socialista: Um homem de verdade, A fortaleza de Brest, Os homens de Panfilov, A estrada de Volokolamsk, os livros de Sholojov sobre o rio Don. Enfim, não havia mais nada. E nem toda noite dava para ir pra cima da bezerra, porque senão a gente acabava matando a coitada. Então li aquilo tudo. Sem comentários. Todos nós já parecíamos zumbis. Muito magros, porque a comida era infame e pouca. Estávamos sempre com fome. Cada um tinha de cortar pelo menos setecentas arrobas de cana por dia, uns dez mil e quinhentos quilos. No facão. Com duas refeições diárias: um pouquinho de arroz, um pouquinho de feijão e algumas folhas de alface. Às vezes, em vez de arroz, farinha de trigo. Nos especializamos em caçar cobras majás. Quando caçaram a primeira, ninguém sabia o que fazer. E eu vi os céus se abrirem: carne! De cobra, mas carne, ao fim e ao cabo. Sem pensar, disse a primeira coisa que me ocorreu: - É ótima. Precisa fritar. - Você sabe? - Perfeitamente. Meu pai me ensinou. É um grande caçador de majás. Eu sempre fui mentiroso. As mentiras já me salvaram a pele muitas vezes. É toda uma arte. O essencial é acreditar firmemente no que se diz. Depois, tudo pára de ser mentira. Se você acredita profundamente, é verdade. Me deram a majá. Tirei-lhe a pele com uma gilete e ia cortá-la em rodelas quando um cara me disse baixinho no ouvido: - Se não tirar a banha vai foder. - O que é isso? - Você não disse que sabe? A mentira tem pernas curtas. Aquele sujeito me ajudou, mas não me entregou para os outros. Apalpamos a barriga do bicho e encontramos uma pequena bolsa de um líquido gorduroso. Tiramos tudo com uma colher e demos para um asmático que tomava um pouquinho daquilo toda manhã e dizia que lhe fazia bem. Depois fritei as rodelas e me transformei no chef das proteínas. A partir daí, toda vez que aparecia uma majá eu era o cozinheiro oficial. Outro grupo se ocupava dos gatos. Caçavam e cozinhavam os gatos com molho. Às vezes me convidavam. E eu os convidava para provar um pedacinho de majá. Uma espécie de intercâmbio entre gourmets. Mas jamais gostei de gato. Os gatos, pelo menos aqueles gatos, eram muito magros. Pele e osso. No começo, tudo correu bem. Mas pouco a pouco os nervos começaram a se alterar porque não nos diziam quando voltaríamos. Os dias eram longos. As semanas, intermináveis. Não sabíamos mais quando era segunda e quando era terça-feira. Tanto fazia. Os meses passavam com uma lentidão atroz. Fevereiro. Março. Abril. Final de abril. Chegaram as chuvas de maio. Os campos se inundaram. Chapinhando na lama e debaixo de chuva continuávamos a cortar cana para a central Primeiro de Janeiro. Central da Juventude, a chamavam. Não podíamos parar porque a ordem de voltar não chegava. E os chefes sabem que tantos homens jovens, com as glândulas funcionando a cento e vinte por cento, não podem ficar ociosos nas barracas, uns olhando para a cara dos outros. É preferível que morram de gripe. No fim das contas, ficamos dois dias inativos. Os grupos que entraram nos campos não conseguiam carregar a cana. Aquela que havíamos cortado, retiramos nas costas. Afinal nos deram um descansinho. A qualquer momento dariam ordem de recolher as redes e os poucos pertences de cada um para voltar para Havana. Ficamos ainda mais ansiosos e famintos, sentindo falta de mulher. Ao meio-dia, eu queria tomar um banho, mas não encontrei meus tamancos. Perguntei. Ninguém sabia de nada. Nisso vejo um cara que gostava de se fazer de bacana. Voltando do banho com o meu tamanco. Cheguei perto dele, furioso: - Quem te emprestou esse tamanco, porra? - Peguei porque me deu na telha. Ali mesmo nos pegamos aos socos. Eu falhei porque a raiva me deixou cego e esqueci a técnica. Queria moer aquele sujeito. Descuidei por completo da guarda e ele me mandou uma direita na cara. Nos punhos tinha bolas maciças de chumbo, cobertas de aço. Me jogou de costas, caí no chão e a quina de ferro de uma cama me feriu o olho direito. Num segundo brotou dali um jorro de sangue. Nos separaram a duras penas. Nós dois queríamos continuar triturando um ao outro. Alguém me cobriu o olho com uma toalha suja. Me puseram num trator e fui direto para o hospital de Morón. Estava escurecendo quando chegamos. Tive de esperar. Havia outros feridos. Os facões habitualmente cortam cana, mas às vezes se desviam e cortam fora um pé ou uma mão. Por fim chegou a minha vez. Lavaram o olho e costuraram a pálpebra solta. Havia uma enfermeira lindíssima, de cabelo e olhos pretos. Uma beleza. Ela me acariciava o rosto e dizia, me mimando: - Vai doer um pouquinho. Agüente que você é um homenzinho. - Homenzinho, não. Homem! Eu, aiiiiiii... porraaaaaaaaaaa! - Não fale nada, meu bem, não fale. E agüente um pouquinho. Você não pode se mexer e nós não podemos dar anestesia. - Por quê? Me dê anestesiaaaaaaaaaiiiiiiii... - Não tem. Não temos. Agüente um pouquinho. Depois, me levou para uma cama e, com toda a doçura do mundo, me disse: - Vai ter de passar a noite aqui. - Por quê? - Para o oculista dar uma olhada amanhã. Você é muito lindo. Tem de cuidar desse olhinho. - Eu não sou lindo. - É maravilhoso. Nunca te disseram isso? -Não. - Parece um ator de cinema. - Ah, não encha o saco. - Você assistiu Vidas amargas, com James Dean? - Não brinque comigo. E me beijou na boca. Eu havia me transformado num animal. Sujo, fedendo a suor e a mato. Sem trocar de roupa nunca. Com uma penugem na cara, porque nunca tive barba. Na foto de um documento daquele tempo pareço Jesus Cristo em seus momentos mais dramáticos. Tinha os olhos tristes e cansados, magro demais, com a pele colada aos ossos e umas olheiras negras enormes que me afundavam os olhos. Era apenas cansaço e fome, mas parecia muito romântico. Nos beijamos. Nos tocamos aqui e ali, mas não podíamos ir mais longe. Era um pavilhão de pelo menos vinte leitos. Todos com pacientes, e nos pareceu que ninguém dormia. Estavam esperando o show. Ela me deu um sedativo e dormi em dois minutos. No dia seguinte, às sete da manhã, ela me acordou. E, com sua inesquecível doçura, me deu uma folhinha arrancada de um livro de poemas de José Angel Buesa: Passarás por minha vida sem saber que passaste. Passarás em silêncio por meu amor e, ao passar, Fingirei um sorriso, como um doce contraste à dor de te amar... e jamais saberás. No verso, anotou seu nome e endereço em Esmeralda, uma cidadezinha a leste do inferno, perto de Morón. E foi embora. Nunca mais nos vimos. Era uma mulher doce, romântica e maravilhosa, mas aconteceu o que viria a se repetir sempre em minha vida: mulheres que ficam e eu que me vou. O oculista se aproximou da minha cama. Examinou a ferida e disse: - Você não perdeu o olho por milagre. Um milímetro, meio milímetro mais, e adeus. Vou te dar alta. Cheguei ao acampamento debaixo de um aguaceiro torrencial, no meio daqueles canaviais infinitos. Os chefes estavam me esperando com minha mochila pronta. Me deram a mochila e disseram: "Expulso desonrosamente do acampamento. Você é agressivo e irresponsável. Devia ter vergonha. Enquanto nós estamos todos aqui cumprindo essa tarefa heróica, você se dedica à alteração da ordem". Eram vários chefes. Cada um jogou seu grãozinho de areia. E não me deixaram falar. Me fizeram tantas acusações que afinal alcançaram seu objetivo de fazer com que eu me sentisse culpado, desmoralizado. Tive de voltar sozinho pela estrada, pedindo carona. Peguei não sei quantos caminhões e por fim cheguei desfalecido a minha casa em Matanzas. Bati na porta. Minha mãe abriu e não me reconheceu. Ficou olhando como se eu fosse um desconhecido e tivesse de me apresentar. Por fim, eu disse a ela: - Velha, estou aqui. Me deixe entrar. - Ai, meu filho! O que fizeram com você? Por que você está assim? E começou a chorar em cima de mim, mas o fedor foi mais forte que seu amor e ela se afastou. - Tire esses trapos e jogue fora. Vou preparar seu banho. Você está com um cheiro... nem sei. Não tinha água naquele lugar? - Água, sim. Sabão não.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Denise Abreu, advogada, trabalha na CDL. No meu aniversário de 2005 me presenteou com o Ninho da Serpente. Confesso que o título do livro não me entusiasmou. Pareceu coisa meio piegas, tipo água-com-açúcar. Na ocasião eu planejava uma viagem à João Pessoa, na Paraíba, e juntei com mais outros dois para leitura durante a viagem. Comecei a leitura na véspera de vir embora, quando acabei deixando o livro dentro de um táxi, atrapalhado que fiquei porque Edite havia machucado o pé e teve alguma dificuldade para andar naquele momento. Ao voltar para Brasília contei o fato para Denise e acrescentei - com grande cara de pau - que receberia outro livro, até porque eu não tinha acabado a leitura. Funcionou. Este exemplar foi o segundo livro que a Denise me presenteou.


 

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