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As Intermitências da Morte

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As Intermitências da Morte

Livro Ótimo - 2 comentários

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Autor: José Saramago  

Editora: Companhia das Letras

Assunto: Romance

Traduzido por: Livro Editado em Português do Brasil

Páginas: 207

Ano de edição: 2005

Peso: 255 g

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Excelente
Rafael Mafra
04/10/2008 às 17:19
Brasília - DF

Se ter uma idéia (ou ideia, como se escreve no livro e se escreverá no Brasil a partir de 2009) genial já não é pra qualquer um, desenvolvê-la sem perder o viço é ainda mais difícil, Mas Saramago fez com maestria, A fórmula para manter o ritmo ao longo de toda história é a perspicácia do autor, de imaginar como cada um reagiria ao fato de que a morte não nos ronda mais na próxima esquina (ou sim).



Por apresentar os fatos da perspectiva humana, parece que o funesto é não morrer e que a alegria volta quando a morte reaparece, Saramago permite-se emitir opiniões em meio à narrativa e nestes parênteses demonstra sua fina ironia, como por exemplo em

"Mas os factos são os factos, e ainda que repetindo a palavra magoada do adamastor, oh, que não sei com que nojo como o conte, deixaremos aqui a compungida notícia do ardil de que a máphia se serviu para obviar a uma dificuldade para a qual, segundo todas as aparências, não se via nenhuma saída. Antes de prosseguirmos convirá esclaracer que o termo nojo, posto pelo épico na boca do infeliz gigante, significava então, e só tristeza profunda, pena, desgosto, mas, de há tempos a esta parte, o vulgar da gente considerou, e muito bem, que se estava a pareder ali uma estupenda palavra para expressar sentimentos como sejam a repulsa, a repugnância, o asco, os quais, como qualquer pessoa reconhecerá, nada têm que ver com os enunciados acima. Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas."

ou

"A resposta também é simples, e vamos dá-la utilizando um termo actual, moderníssimo, com o qual gostaríamos de ver compensados os arcaísmos com que, na provável opinião de alguns, hemos salpicado de mofo este relato, Por mor do background. Dizendo background, toda a gente sabe do que se trata, mas não faltariam dúvidas se, em vez de background, tivéssemos chocantemente dito plano de fundo, esse aborrecível arcaísmo, ainda por cima pouco fiel à verdade, dado que background não é apenas plano de fundo, é toda a inumerável quantidade de planos que obviamente existem entre o sujeito observado e a linha do horizonte. Melhor será então que lhe chamemos de enquadramento da questão. Exactamente, enquadramento da questão, e agora que finalmente temos bem enquadrada, chegou a hora de revelar em que consistiu o ardil da máphia"



É difícil, no começo, acostumar com o português de Portugal e com a aversão por pontos finais do autor, Passado o estranhamento, a leitura é leve e divertida, sem deixar de ser profunda.



Eu sempre quis ler Saramago, e queria antes começar pela Caverna, depois quis começar pelo Memorial do Convento e calhei de começar, d'algum modo, pelo fim, com as Intermitências da Morte.



Quem ainda não leu, deveria fazê-lo o quanto antes, pois, até onde se sabe, ainda não houve dia sem que ninguém morresse do lado de cá da ficção.


Ótimo
Marcio Mafra
05/03/2006 às 17:16
Brasília - DF


Esta é uma história genial. História do genial Saramago. Cada frase do texto, encerra a ação: ...."o primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja....." Não se trata da prática do "poder da síntese", mas sim, do emprego do talento. Em toda a narração o autor se utiliza desse talento para mesclar bom humor, amargura, sutileza e inteligência nas tratativas da vida e da condição humana. O livro é impressionante e inusitado. No entanto, a leitura - em alguns trechos - se torna um pouco confusa na sua forma, posto que o editor almagamou o português de Portugal, com o do Brasil, para manter o "estilo" do autor. Os parágrafos são bastante longos - nada comparável à James Joyce - mas chegam a ter 5 páginas. Também os diálogos são separados apenas por letras maiúsculas. Nada disso empana o brilho e a genialidade de Saramago. É livro ótimo.

 



Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Intermitências da Morte é a história da interrupção da morte. Ninguém mais morria. Começa assim...A partir de zero hora, ninguém mais morreu......Um verdadeiro fenômeno, quando após o ano novo, já haviam decorridos as primeiras vinte e quatro horas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada.....

Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

No comunicado oficial, finalmente difundido já a noite ia adiantada, o chefe do governo ratificava que não se haviam registado quaisquer defunções em todo o país desde o início do novo ano, pedia comedimento e sentido de responsabilidade nas avaliações e interpretações que do estranho facto viessem a ser elaboradas, lembrava que não deveria excluir-se a hipótese de se tratar de uma casualidade fortuita, de uma alteração cósmica meramente acidental e sem continuidade, de uma conjunção excepcional de coincidências intrusas na equação espaço-tempo, mas que, pelo sim, pelo não, já se haviam iniciado contactos exploratórios com os organismos internacionais competentes em ordem a habilitar o governo a uma acção que seria tanto mais eficaz quanto mais concertada pudesse ser. Enunciadas estas vaguidades pseudocientíficas, destinadas, também elas, a tranquilizar, pelo incompreensível, o alvoroço que reinava no país, o primeiro-ministro terminava afirmando que o governo se encontrava preparado para todas as eventualidades humanamente imagináveis, decidido a enfrentar com coragem e com o indispensável apoio da população os complexos problemas sociais, económicos, políticos e morais que a extinção definitiva da morte inevitavelmente suscitaria, no caso, que tudo parece indicar como previsível, de se vir a confirmar. Aceitaremos o repto da imortalidade do corpo, exclamou em tom arrebatado, se essa for a vontade de deus, a quem para todo o sempre agradeceremos, com as nossas orações, haver escolhido o bom povo deste país para seu instrumento. Significa isto, pensou o chefe do governo ao terminar a leitura, que estamos metidos até aos gorgomilos numa camisa-de-onze-varas. Não podia ele imaginar até que ponto o colarinho lhe iria apertar. Ainda meia hora não tinha passado quando, já no automóvel oficial que o levava a casa, recebeu uma chamada do cardeal. Boas noites, senhor primeiro-ministro. Boas noites, eminência. Telefono-lhe para lhe dizer que me sinto profundamente chocado. Também eu, eminência, a situação é muito grave, a mais grave de quantas o país teve de viver até hoje. Não se trata disso. De que se trata então, eminência. É a todos os respeitos deplorável que, ao redigir a declaração que acabei de escutar, o senhor primeiro-ministro não se tenha lembrado daquilo que constitui o alicerce, a viga mestra, a pedra angular, a chave de abóbada da nossa santa religião. Eminência, perdoe-me, temo não compreender aonde quer chegar. Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja. Ó diabo. Não percebi o que acaba de dizer, repita, por favor. Estava calado, eminência, provavelmente terá sido alguma interferência causada pela electricidade atmosférica, pela estática, ou mesmo um problema de cobertura, o satélite às vezes falha, dizia vossa eminência que. Dizia o que qualquer católico, e o senhor não é uma excepção, tem obrigação de saber, que sem ressurreição não há igreja, além disso, como lhe veio à cabeça que deus poderá querer o seu próprio fim, afirmá-lo é uma ideia absolutamente sacrílega, talvez a pior das blasfémias. Eminência, eu não disse que deus queria o seu próprio fim. De facto, por essas exactas palavras, não, mas admitiu a possibilidade de que a imortalidade do corpo resultasse da vontade de deus, não será preciso ser-se doutorado em lógica transcendental para perceber que quem diz uma cousa, diz a outra. Eminência, por favor, creia-me, foi uma simples frase de efeito destinada a impressionar, um remate de discurso, nada mais, bem sabe que a política tem destas necessidades. Também a igreja as tem, senhor primeiro-ministro, mas nós ponderamos muito antes de abrir a boca, não falamos por falar, calculamos os efeitos à distância, a nossa especialidade, se quer que lhe dê uma imagem para compreender melhor, é a balística. Estou desolado, eminência. No seu lugar também o estaria. Como se estivesse a avaliar o tempo que a granada levaria a cair, o cardeal fez uma pausa, depois, em tom mais suave, mais cordial, continuou. Gostaria de saber se o senhor primeiro-ministro levou a declaração ao conhecimento de sua majestade antes de a ler aos meios de comunicação social. Naturalmente, eminência, tratando-se de um assunto de tanto melindre. E que disse o rei, se não é segredo de estado. Pareceu-lhe bem. Fez algum comentário ao terminar. Estupendo. Estupendo, quê. Foi o que sua majestade me disse, estupendo. Quer dizer que também blasfemou. Não sou competente para formular juízos dessa natureza, eminência, viver com os meus próprios erros já me dá trabalho suficiente. Terei de falar ao rei, recordar-lhe que, em uma situação como esta, tão confusa, tão delicada, só a observância fiel e sem desfalecimento das provadas doutrinas da nossa santa madre igreja poderá salvar o país do pavoroso caos que nos vai cair em cima. Vossa eminência decidirá, está no seu papel. Perguntarei a sua majestade que prefere, se ver a rainha-mãe para sempre agonizante, prostrada num leito de que não voltará a levantar-se, com o imundo corpo a reter-lhe indignamente a alma, ou vê-la, por morrer, triunfadora da morte, na glória etema e resplandecente dos céus. Ninguém hesitaria na resposta. Sim, mas, ao contrário do que se julga, não são tanto as respostas que me importam, senhor primeiro-ministro, mas as perguntas, obviamente refiro-me às nossas, observe como elas costumam ter, ao mesmo tempo, um objectivo à vista e uma intenção que vai escondida atrás, se as fazemos não é apenas para que nos respondam o que nesse momento necessitamos que os interpelados escutem da sua própria boca, é também para que se vá preparando o caminho às futuras respostas. Mais ou menos como na política, eminência. Assim é, mas a vantagem da igreja é que, embora às vezes o não pareça, ao gerir o que está no alto, governa o que está em baixo. Houve uma nova pausa, que o primeiro-ministro interrompeu, Estou quase a chegar a casa, eminência, mas, se me dá licença, ainda gostaria de lhe pôr uma breve questão. Diga. Que irá fazer a igreja se nunca mais ninguém morrer. Nunca mais é demasiado tempo, mesmo tratando-se da morte, senhor primeiro-ministro. Creio que não me respondeu, eminência. Devolvo-lhe a pergunta, que vai fazer o estado se nunca mais ninguém morrer. O estado tentará sobreviver, ainda que eu muito duvide de que o venha a conseguir, mas a igreja. A igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneira às respostas eternas que não posso imaginá-la a dar outras. Ainda que a realidade as contradiga. Desde o princípio que nós não temos feito outra cousa que contradizer a realidade, e aqui estamos. Que irá dizer o papa. Se eu o fosse, perdoe-me deus a estulta vaidade de pensar-me tal, mandaria pôr imediatamente em circulação uma nova tese, a da morte adiada. Sem mais explicações. À igreja nunca se lhe pediu que explicasse fosse o que fosse, a nossa outra especialidade, além da balística, tem sido neutralizar, pela fé, o espírito curioso. Boas noites, eminência, até amanhã. Se deus quiser, senhor primeiro-ministro, sempre se deus quiser. Tal como estão as cousas neste momento, não parece que ele o possa evitar. Não se esqueça, senhor primeiro-ministro, de que fora das fronteiras do nosso país se continua a morrer com toda a normalidade, e isso é um bom sinal. Questão de ponto de vista, eminência, talvez lá de fora nos estejam a olhar como um oásis, um jardim, um novo paraíso. Ou um inferno, se forem inteligentes. Boas noites, eminência, desejo-lhe um sono tranquilo e reparador. Boas noites, senhor primeiro-ministro, se a morte resolver regressar esta noite, espero que não se lembre de o ir escolher a si. Se a justiça neste mundo não é uma palavra vã, a rainha-mãe deverá ir primeiro que eu. Prometo que não o denunciarei amanhã ao rei. Quanto lhe agradeço, eminência. Boas noites. Boas noites. Eram três horas da madrugada quando o cardeal teve de ser levado a correr ao hospital com um ataque de apendicite aguda que obrigou a uma imediata intervenção cirúrgica. Antes de ser sugado pelo túnel da anestesia, naquele instante veloz que precede a perda total da consciência, pensou o que tantos outros têm pensado, que poderia vir a morrer durante a operação, depois lembrou-se de que tal já não era possível, e, finalmente, num último lampejo de lucidez, ainda lhe passou pela mente a ideia de que se, apesar de tudo, morresse mesmo, isso significaria que teria, paradoxalmente, vencido a morte. Arrebatado por uma irresistível ânsia sacrificial ia implorar a deus que o matasse, mas já não foi a tempo de pôr as palavras na sua ordem. A anestesia poupou-o ao supremo sacrilégio de querer transferir os poderes da morte para um deus mais geralmente conhecido como dador da vida.


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Marcio Mafra
18/01/2013 às 19:17
Brasília - DF

Comprei o livro diretamente da editora, logo no seu lançamento, porque Saramago é um gênio de alto calado, nos seus 84 anos de vida.


 

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